O Salão do Conselho tinha portões de carvalho negro, com entalhes dos rostos dos deuses e guerreiros que protegiam aquela terra. Quem segurava as maçanetas de ouro maciço era Brunhilde, a Valquíria lendária.
Avra dava pouca importância a tais manifestações. Mortais glorificavam os habitantes do Valhalla, porém pouco faziam para honrá-los. Isso provocava nojo em Avra; as festas e cânticos populares aos deuses eram poeira ao vento. Apenas sombras.
- Senhora, permita que eu... – Darius, como todo bom templário, tencionava seguir os protocolos. As regras dos homens eram necessárias, para que o caos não se estabelecesse e provocasse a ira de Odin.
Avra mediu Darius, de soslaio. Seus olhos claros pareciam congelar tudo ao redor... Incluindo o sangue do cavaleiro da Rosa.
Avra pousou a mão direita na maçaneta e empurrou a porta, encontrando a cúpula da guilda reunida na Sala do Tesouro. Algo estava errado.
- Estávamos iniciando a clausura de Geffenia. É bom que o mundo esteja acabando, para justificar tal interrupção.
A voz de Avra saía firme e seca, enquanto percorria a sala. Doze eram as cadeiras do Conselho da guilda; cinco daquelas cadeiras estavam vazias. As cadeiras mais perigosas que Midgard já havia visto. Todas as guildas tinham guerreiros exímios em suas artes; alguns, reconhecidos pelos próprios deuses.
Mas os cinco membros ausentes não eram dignos de glória, ou valor. Eles eram outra coisa. E temor era tudo que se devia a eles. Haadrim sempre usava Os Cinco como trunfo, quando queria algo de outro feudo. E Avra ainda não sabia o que mantinha a lealdade deles à guilda.
Eram mercenários. E mercenários nada devem a ninguém. Possuem a essência do vento, e vivem de acordo com sua vontade.
A Ordem dos Hassassin era desejada por todo Aprendiz. Quem não queria viver a liberdade, em seu sentido mais puro? Quem não queria descobrir os segredos das armas e conhecer todos os estilos de lutas dos mundos? Para os jovens, a vida dos mercenários era cheia de encanto.
Nada que um pouco de conhecimento não desfizesse. Poucos eram os que sobreviviam aos anos de treinamento no deserto. A liberdade dos Hassassin tinha um preço alto, a ser pago com muito sangue daquele que aspirava conhecer as feridas do vento e ser senhor da morte.
Os Cinco não eram apenas conhecedores dos segredos de sua Ordem. Era dito que o grupo havia viajado por todos os mundos conhecidos, aperfeiçoando suas artes até se tornarem Mestres, e parte do Conselho da Ordem. Guerreiros deste porte não se juntavam aos clãs de Midgard. Não sem um preço alto.
Avra não sabia como Haadrim mantinha Os Cinco tão perto. Por vezes, eles pareciam leais. Mas as aparências enganam. Avra era prova viva disso.
- Chamei antes da meia-noite. Acho que posso ser poupado do sermão. – a voz jocosa de Haadrim interrompeu os pensamentos da sábia. Seus olhos fixaram a face do cavaleiro, que desfez o sorriso num instante.
Os olhos de Avra não estavam mais verdes. Eram poças negras como a noite sem estrelas que cobria Prontera.
- Só os tolos tratam com tanta leviandade o que sabem ser maior que eles – a voz de Avra tinha um tom sombrio. Não era natural. Como se ela não estivesse mais ali, e outra coisa tomado seu lugar. – Dê sua razão agora, cavaleiro, ou para sempre se arrependa na Casa de Hel.
Haadrim buscava salvação nos conselheiros presentes, sem sucesso. Todos estavam encolhidos em suas cadeiras.
- Eles partiram! – a firmeza na voz não escondia o terror de Haadrim. – O ciclo tem início. A Cúpula precisa se reunir.
Os olhos de Avra ainda eram poças negras.
- Onde está o mago?
- No Valhalla – Haadrim se recompunha rápido, caminhando para seu trono. – Que os deuses cuidem de sua alma imortal.
Brumas negras desciam dos olhos de Avra, devolvendo o brilho das esmeraldas à sua face. O terror dominava a sala. Só os deuses entendiam os planos de Avra, Haadrim e Os Cinco. Mas o que se ouvia ali... Era assassinato.
A sábia fixou seus olhos no caçador, sentado displicentemente em sua cadeira. As tranças típicas de Payon cobriam sua face. O braço torneado estava apoiado no joelho. Por um instante, os olhos azuis dele pousaram nos dela. Seu arco descansava na mesa. Faltava algo. Justamente o que ela não podia controlar.
