Saint Seiya é de autoria de Masami Kurumada, todos os seus direitos reservados.
Agradeço a Alana por ter betado e ter me incentivado tanto a escrever essa fanfic.
É odiável amar você
por Pisces Luna
Capítulo III
A guerra entre cavaleiros de ouro e de bronze terminou com um saldo trágico e mais de dez mortes de guerreiros aliados, provocando um desfalque expressivo na guarda e abalando as estruturas do santuário.
- E apesar de tudo todos vivem em "paz". Todos, menos eu!
- Pare de reclamar, June! - falou Shina ríspida - Já acabou e seu mestre não vai voltar, assim como Cássius também não!
A amazona de cobra parou de falar por um momento vendo finalmente a garota se aquietar o que a satisfez por certo ângulo, mas deixou-a com certo peso de consciência.
- Ah, desculpa! Mas, você que começa com esse sentimentalismo tolo.
"Sentimentalismo tolo? Ah!" - as palavras martelavam em sua cabeça destruída. - Obrigada, Shina. Sua sensibilidade me comove.
- Não seja idiota! Não fomos treinadas para sermos amáveis ou sensíveis, somos guerreiras! Amazonas que lutam pela paz e justiça.
- Pensei que fossemos mulheres como todas as outras que têm o direito a liberdade para pensarem como quiserem! - replicou a loira.
- Não somos mais, lembra? A partir do dia que colocou essa máscara - respondeu Shina definitiva - Ah! Chega disso, vou cuidar de minhas obrigações e você vá cuidar das suas.
- Shina, onde está Marin?
- Talvez enfurnada no templo dos cavaleiros de ouro. Provavelmente no de leão ou de touro. Por quê? Não me diga que quer alguém para ouvir suas delongas...
- Tchau, Shina! - respondeu irritada - Pelo menos Marin é mais mente aberta do que você.
- Mas, não sou eu que vou ficar mal falada por me trancar nas mansões dos cavaleiros dourados.
Não esperou por mais nada e se retirou de imediato do local. Mesmo com tantas dificuldades, poderia tentar reorganizar sua vida agora que as guerras haviam cessado temporariamente. Foi morar no santuário de Athena para reintegrar a guarda da deusa – além de esperar Shun acordar de seu coma - e foi acolhida muito bem no berço da irmandade das amazonas. Deveria estar bem, mas não estava...
Entretanto - quando seguia seu trajeto - percebeu uma cena desagradável: Uma amazona estava sendo julgada por júri popular, perante metade do santuário.
- Marin, o que está acontecendo?
- Gravidez. - sibilou a ruiva com uma voz penosa.
A loira também se apiedou com a situação da pobre moça que estava sendo jogada de um lado para o outro e terminou caída no meio de um círculo de pessoas.
- Você sabe qual é a pena para quem comete tamanha afronta?
- Eu não queria... Não queria - gaguejava a acusada em prantos - Não queria que isso acontecesse. Não queria esse filho!
- AGORA É TARDE SUA IMUNDA! DEIXE AS TERRAS SAGRADAS DA DEUSA ATHENA OU SEU CASTIGO SERÁ A MORTE!
Ela rastejou resignada, uma das mãos sobre o ventre e logo sumiu das vistas de todos, aos prantos.
- QUE ISSO SIRVA DE EXEMPLO Á TODOS! DE VOLTA AO TRABALHO!
Logo, os grupos se dissiparam e não demorou muito para que June comentasse o caso com Marin.
- Fico chateada quando vejo esse tipo de coisa - confessou.
- São as tradições e ninguém tem coragem de mudar. É a mesma idéia pequena de sempre...
Os olhos da ruiva pousaram sobre um homem com uma armadura simplória e que auxiliava alguns cavaleiros em treinamento. Este era alto e com cabelos loiros escuros e curtos, ombros largos e olhos verdes escuros.
- Mas, quem pode julgar as malucas que se apaixonam e caem numa tentação, não é?!
- Quem é? - perguntou June vendo o homem que acenou para Marin freneticamente e era o mesmo que ela observava.
- É Aiolia de Leão.
- Leão? Quer dizer que ele é um dos...
- Cavaleiros de ouro. Sim. É.
O coração de June deu um pulo quando ouviu aquilo.
- E todos eles residem no santuário?
- No momento sim! Por causa de todas as ameaças de guerra. O Santuário anda em estado de alerta, você sabe.
Por algum momento voltou a pensar que em algum lugar naquelas ruínas estava o desgraçado que matara seu mestre e sentiu uma pontada de angústia e ódio crescente vindo a lhe incomodar. Mas, logo tratou de afastar os sentimentos ruins para se concentrar em outra questão quando Marin a trouxe de volta a realidade.
Ganhara direito a uma tarde de folga e por justa causa. Optou por ir assistir as lutas no Coliseu. Não era tão emocionante quanto gostaria, os combates estavam fracos e sem o mínimo de vigor. Sentou-se só em um canto afastado da arquibancada, o sol escaldante da Grécia castigando suas costas com raios intensos. Uma pessoa sentou-se um patamar acima, fazendo sombra sobre ela e amenizando sua situação, proporcionando certo conforto.
- Obrigada! Eu precisava disso! - respondeu sem se virar
- Não tem de quê - falou à pessoa que tinha uma voz grave e bonita e que percebeu o bem que fizera.
- Já não ouvi esta voz antes?
O indivíduo se levantou e passou raspando por ela - deixando June intrigada - e desceu até a arena. Ela ficou vendo as costas dele. Não! Não poderia ser. O homem que encontrou na rua antes de chegar ao santuário, a mesma voz do estranho que conversou com ela na fonte de Athena... O cosmo que a fez tremer na ilha de Andrômeda e que não tinha reconhecido antes.
Entretanto, apenas quando ele se virou de perfil veio à confirmação certeira de seu pensamento: era Milo de Escorpião, desfilando com tamanha pompa, parecendo um rei entre vermes, admirado por todos como sendo um legítimo herói nacional.
Não suportou aquela falsa nobreza, o jeito, a arrogância... Uma voz crescia em sua mente, insistente, cada vez mais alta; esta maltratava seu coração, arrancava seu ar, deixava-a inerte diante da visão, engolindo uma mágoa tão grande que doía o peito. Quando deu conta já tinha se levantado, reunido o máximo de ar nos pulmões e gritou sem pestanejar:
- ASSASSINO!
Todos os olhares recaíram sobre ela, mas Milo não tinha se identificado com as características proferidas, por isso, perguntou calmamente com ar apaziguador.
- COM QUEM FALA, SENHORITA?
- CÍNICO! QUEM MAIS SE ENQUADRA NISSO DO QUE VOCÊ?
- EU? - ele ri debochado levando outros cavaleiros a fazerem o mesmo - ÉS LOUCA? SABE COM QUEM ESTÁ FALANDO?
- SEI! UM COMPLETO IDIOTA!
Os olhos de todos se arregalaram e o ambiente ficou muito pesado, de repente, levando todos a prenderem a respiração.
Não demorou muito e ele seguiu na direção de quem o afrontava, não conseguia a reconhecer de longe graças ao sol intenso que batia em seus olhos, obrigando-o a ficar com as pupilas cerradas, mas quando ficou frente a frente com ela sentiu seu estômago revirar.
- June de Camaleão.
Parados. Estáticos. Se encarando demoradamente, um querendo confrontar-se diretamente com o outro, mas aparentemente a raiva de ambos estava diminuindo gradativamente.
- Pelo menos sei que lembra de mim após ter arruinado minha vida.
Ele não respondeu. Para falar a verdade, ele não estava escutando e nem dando a mínima para o que ela falava.
- É mais bonita vista de tão perto... Como não reparei em seu cosmo antes?
- Você está me escutando?
- Hum...
- NÃO ME DIGA QUE NÃO ESTÁ ME ESCUTANDO?
- Agora estou graças a tanta gentileza. É sem dúvida uma lady. - replicou sarcástico - Você era a garota da ilha de Andrômeda...
- Que você matou o mestre, CRETINO!
Sentiu vontade de fincar suas unhas em seu pescoço e fazê-lo sangrar até a morte no chão daquela arena, mas não conseguiu mover um único músculo.
E quanto a Milo? O que dizer? Ele simplesmente não tinha justificativa para aquilo. Era como explicar para uma garota como ele matara seu pai.
- Você não sabe nada sobre a vida, ninfeta... E VOLTEM AOS SEUS AFAZERES - saiu do local, esvoaçando sua capa sem olhar para trás, ignorando-a completamente depois daquilo.
Os demais voltaram a suas atividades - ainda perplexos pela situação - ela, entretanto, não se conformando tentou achá-lo, mas frustrou-se, pois ele sumira rápido por entre as ruínas.
Você não sabe nada sobre a vida? É isso que se tem a dizer? Milo era mais idiota do que pensava. Para esquecer do mal só havia o bem e para trazer a paz de volta a sua alma foi visitar seu querido Shun. Ele ainda estava em coma, assim como os outros e a angústia pelo estado de saúde deles aumentava cada dia mais dentro dos muros do santuário.
Não agüentando mais a demora e a falta de diagnósticos concretos foi procurar pela única pessoa em que ela acreditava que poderia informar corretamente sobre o estado de saúde dos cavaleiros: Mu de Áries.
Parou diante do portal da primeira casa, fitando a enorme e onipotente construção; o cosmo de Mu emanando suavemente dentro daquele local, trazendo uma paz tão gostosa e reconfortante que seria capaz de achar que o cavaleiro tinha algo de divino. Essa era a magia dos cavaleiros de ouro, com seus cosmos indescritíveis. E se Mu de Áries era Deus, Milo de Escorpião era o diabo.
Parou diante da entrada, não arriscando dar mais nem um passo e apenas espiando para ver o interior do enorme lugar.
- Mu?
Ninguém respondeu e depois de inúmeras tentativas, foi entrando temerosa, sentindo-se um pouco intrometida.
- Mu de Áries? Tem alguém aí?
No interior da construção enorme não havia nada; nem uma mobília, ou decoração, mesa, tapete, vestígio de vida... qualquer um que ficasse olhando muito tempo chegaria a um ponto que confundiria a parede com o chão.
Sentindo a estranha sensação de estar sendo observada, girou em trezentos e sessenta graus sobre os próprios pés para poder ter uma visão ampla do lugar e quando retornou a posição inicial, tomou um enorme susto ao se deparar com um par de olhos verdes.
- Ahhhhhhh!
- Ahhhhhhh!
Ela conteve-se, respirou fundo e depois soltou o ar aliviada.
- O que pensa que está fazendo? Seu... Capetinha.
- E você, sua, sua maluca. Quase estourou meus tímpanos – um garotinho de cabelos cor de fogo, tampava os ouvidos e balançava a cabeça como se quisesse ter certeza de que seus ouvidos continuavam em pleno funcionamento – Não faça mais isso. E não entre na casa dos outros sem bater, isso não é educado.
- E não é educado encarar as pessoas dessa forma também – defendeu-se apontando um dedo acusador para o rosto do menino – Quem é você? Essa não é a casa de Mu de Áries?
- É sim – disse uma voz calma e forte que vinha do fundo de um corredor um tanto quanto distante – Desculpe se não apareci para cumprimentá-la antes, mas estava ocupado com outros afazeres. Kiki, por que não se apresenta?
- Sim, senhor Mu – o menino sorriu maroto debochado fez uma reverência forjada – Sou Kiki, aspirante a cavaleiro, discípulo de Mu de Áries e temente a Athena. E você? Quem é?
- June.
- A amiga do Shun?
Ela ergueu uma sobrancelha por trás da máscara e disse com a voz bem mais leve:
- Sou sim.
- Pelo jeito descobriu logo a minha posição como cavaleiro de ouro. E eu achava que atraía as pessoas pelo meu verdadeiro "eu" - interviu o dono da mansão.
- Sem dúvida é uma pessoa única, cavaleiro! Mas, hoje, infelizmente recorro apenas a seus préstimos.
- A que devo a visita? – perguntou Mu se aproximando.
June achou curioso o fato do cavaleiro não estar usando a costumeira armadura de ouro que a maioria de seus companheiros fazia questão em ostentar pelo santuário. Pelo contrário, ele vestia-se tão simples e com vestes tão atípicas da região que parecia mais um dos cavaleiros que faziam à vigilância na periferia do santuário.
- Mu, eu gostaria que me informasse sobre o estado de saúde dos cavaleiros de bronze já que os curandeiros são pessoas extremamente difíceis de constatar para qualquer coisa. E quando eu consegui encontra-los, mantiveram-se calados e passíveis.
- Eles não têm ordem para falar com ninguém que não seja do alto calão dos cavaleiros, ou até mesmo o mestre do santuário.
- Não poderia conseguir essa informação para mim?
- Eu não me atreveria – respondeu.
- Por que não? – ela perguntou incrédula.
- Não há previsão alguma e cada cavaleiro tem um ritmo próprio, como você bem sabe. Estão em estado vegetativo e cada vez mais são mantidos isolados dos visitantes. Vamos rezar para eles se recuperem...
- Rezar, rezar... É a única coisa que tenho feito! Qual a lógica de ficar esperando algo acontecer?
- E o que você quer que eu faça?
- Só queria uma informação, apenas uma... Afinal de contas, eu não vou voltar para a ilha de Andrômeda enquanto Shun não levantar daquela cama, por isso eu só queria uma previsão e pensei... Pensei que você pudesse me ajudar, até porque me disseram que vocês têm poderes de cura.
- Apesar disso, não acompanho a recuperação deles constantemente e considerando todos os golpes que sofreram... É muito pessoal uma recuperação de tal porte. Eu não vou me intrometer mais nisso, mas há uma pessoa que conseguiria coagir os anciãos e curandeiros de uma forma muito mais prática do que eu e que tem, vamos colocar assim, um leque de experiências muito maior nisso do que eu. Se você fosse falar com ele...
- Quem?
- Milo de Escorpião.
- NÃO! – falou de súbito e com convicção – Não quero pedir nada a ele.
- Shun sofreu muito por causa das rosas de Afrodite. Essencialmente, foram os espinhos que provocaram um efeito tão arrebatador e Milo é o que têm um conhecimento muito grande com relação a tipos de venenos. Sinceramente, não há pessoa nesse santuário mais especializado nisso e com a maior lábia de todas as doze casas.
Ela respirou fundo, depois fez uma reverência simples e disse:
- Então, vou continuar procurando outra maneira para falar com os anciãos, sozinha. Mas, desde já eu agradeço suas informações, mesmo elas não podendo ser acatadas.
Ela deu meia volta e seguiu o caminho de volta a entrada da casa de Áries.
- Hunf, tchau para você também! – falou Kiki fingindo-se de ofendido e cruzando os braços, vendo a moça se afastar mais e mais até sumir definitivamente – Senhor Mu, por que simplesmente não vai falar com os curandeiros? Eles não negariam uma informação ao senhor...
- Não menti em nada do que disse Kiki. Milo vai poder ajudá-la muito mais do que eu.
- Ela não vai falar com ele.
- Paciência. Se ela quiser saciar sua curiosidade e estiver realmente preocupada com o estado de saúde de Shun, vai engolir o orgulho e procura-lo.
- Mestre, Mu. Eu poderia me juntar a Athena no Japão?
- Não poderia deixá-lo em melhor companhia. Por mim está tudo bem, você fez dessa experiência toda uma grande lição para os treinamentos. Só peço que fique mais essa semana, quero terminar alguns exercícios de telecinese com você.
- Sim, senhor Mu – e seguiu só para o interior da casa.
continua...
