Capitulo III

O passado de volta


O abraço entre eles durou mais do que Terry acharia apropriado, mesmo que fizesse muitos anos que não se viam, mesmo que eles tivessem dividido muitas coisas juntos, mesmo que um já tivesse salvado a vida do outro inúmeras vezes.

Era fato, aquele abraço tinha uma saudade muito maior. E Terry já era grandinho o suficiente para perceber isso.

Tossiu discretamente, mas o barulho não pareceu incomodá-los. Resolveu limpar a garganta um pouco mais alto do que o necessário, e mesmo assim nada.

-Ah... Eu vou... Ah... Vou ver como o Bruce está... – e saiu da sala, impressionado pela forma como a comissária esqueceu que ele existia.

Encontrou seu chefe e pai, como esperava, a frente da enorme tela que do bat-computador.

-A Gordon está ai.

-Eu sei. – e fez um sinal discreto para as câmeras da mansão, em uma delas era possível ver que o abraço ainda não havia terminado.

-Pelo visto você não é o único com um passado amoroso oculto, heim... – gracejou, enquanto puxava uma cadeira para sentar próximo ao pai.

-A relação deles nunca foi muito oculta. – comentou Bruce – Sorte sua, ganhou um dia a mais para descobrir quem é o tal rapaz sem ouvi-la acusar-lhe.

Ele concordou em silencio, sabendo bem que a comissária iria arrancar-lhe o fígado por servir de "má influencia" aos jovens. Já havia conseguido evitá-la alguns dias, procurá-lo de surpresa na mansão foi um golpe baixo mais necessário para forçá-lo a ouvir suas acusações.

Sabendo que não conseguiria escapar por muito mais tempo, voltou sua atenção para o caso.

-Armou a armadilha?

-Sim, a Jóia de Venus será exposta hoje no roll de entrada do teatro municipal, na abertura da nova temporada do Mágico de Oz. Cortesia da Wayne Power. Já está sendo anunciado em todos os telejornais... A segurança será baixa e isso certamente vai atrair os ladrões.

-E nosso vigilante misterioso.

-Ele não sabe que você o viu, então, não estará a sua espera. Poderá pega-lo de surpresa.

-E o que faremos com ele quando o pegarmos?

-O entregaremos a policia. Barbara ficará feliz... – olhou de relance para a câmera da biblioteca, o abraço ainda estava lá, sorriu de lado – Bom... Mais feliz.

De repente uma chamada começou a bipar nos botões a frente deles. Aquilo não era nada comum, principalmente porque não eram muitas as pessoas que tinham o "número" da bat-caverna. Pelo menos não muitas que ele conhecia.

A expressão de Bruce, comumente inexpressível, o fez acreditar que seu pai também não imaginava quem podia ser quando aceitou a chamada.

"Código de segurança 31-7QD" disse a voz feminina com um tom metálico.

-Ligação de Themyscira? – disse Terry, sabendo que aquele era o código de acesso da rainha das Amazonas.

Não porque já havia recebido uma ligação dela antes, mas porque estava escrito nos protocolos de segurança que Bruce o fizera decorar.

Com um toque nos teclados o mais velho liberou a imagem, a tela iluminou o ambiente e duas mulheres igualmente bonitas, embora diferentes, apareceram. Uma deles, oriental, trazia os cabelos trançados adornados com fios prateados, e a expressão calma e pacata. A outra, ruiva, levava o cabelo preso em um rabo de cavalo no topo da cabeça e possuía um olhar que misturava raiva com desdém.

-Saudações, senhor Wayne. – disse a oriental, com formalidade.

-Olá, Euboea. – ele não fez questão de cumprimentar a outra – O que aconteceu?

-Nada para que ela pedisse sua ajuda. – disse a ruiva, ríspida – Mas nossa rainha tem hábitos esquisitos.

-Não são mais esquisitos que os seus, Arthemis. – respondeu ele, a fazendo contorcer as feições em desagrado.

Ao seu lado, Euboea tentou conter o sorriso antes de continuar.

-A rainha pede uma audiência, sr. Wayne. Há assuntos de estrema urgência a serem tratados.

-E desde quando ela precisa marcar hora para falar comigo?

Puderam ouvir um riso ao fundo, e então a imagem exuberante da morena que um dia fora conhecida como Mulher Maravilha apareceu na tela.

-Tão amável, como sempre. – disse ela, com um sorriso iluminado nos lábios, acenou para que as duas amazonas se retirassem e, após isso, voltou-se novamente para o velho com a mesma graça no olhar – Como vai Bruce?

Ele demorou a responder, a imagem talvez o tenha surpreendido, ou talvez fosse apenas a beleza dela que deixava, até ele, sem palavras.

Bruce se recompôs bem antes que Terry.

-Diana... O que houve? – o tom semi amável fez com que o filho se surpreendesse o suficiente para olhar para o pai de rabo de olho.

-Assuntos particulares. – foi a resposta momentânea, então, os olhos dela se prenderam no rapaz – O novo Batman, devo presumir.

-Sim, este é Terry. - disse Bruce os apresentando – Terry, essa é Diana, rainha das Amazonas.

Ele a saldou como Bruce lhe ensinara a saldar uma realeza, abaixando levemente a cabeça.

-É um prazer, alteza.

-O prazer é meu, criança. Sua fama já chegou até nós. E devo dizer que só escutei elogios vindos de Kal.

Ele voltou a olhar de relance para Bruce que bufou descontente antes de responder.

-É o nome kripitoniano do Superman. Ela tem mania de tratá-lo assim.

-E você tem mania de implicar com isso.

-E mesmo assim você continua...

-Eu não vou deixar de tratar o meu amigo com carinho por conta das suas implicâncias.

Ele fez uma aceno com a mão, como se dissesse para ela pular o assunto.

-Vamos logo ao que interessa, sim...

-Você está certo. Entrei em contato para avisar que estarei na Mansão para o jantar, assim poderemos conversar melhor.

-Na Mansão? – ele pareceu surpreso – Você está vindo para a Mansão?

-Sim, por que, não sou mais bem vinda?

-Você sabe que é.

-Que bom... Ia detestar ter que procurar meus direitos na justiça. – sorriu antes de completar em tom doce – Nos vemos a noite, Bruce. – e desligou.

O silencio pairou sobre os dois por longos minutos, enquanto Bruce se levantava da cadeira e seguia escada a cima. Terry resolveu acompanhá-lo, mas demorou a decidir fazer a pergunta que se seguiu.

-O que ela quis dizer com "procurar seus direitos"?

-Adivinhe. – ele não conseguiu pensar em nenhuma explicação aceitável até o fim da escada, percebendo isso, Bruce completou – Ela também é dona dessa casa, Terry.

-Como assim? – ele perguntou por reflexo, e então a única resposta plausível lhe atingiu a cabeça como um tijolo – Não... Você e ela? Casados?

Bruce não respondeu, não era preciso.

-Organize um bom jantar, por favor. E sem carne. A Diana é vegetariana.


Ele se postou sobre a gárgula que lhe fornecia a melhor visão de todo o prédio do teatro. Aguardaria pacientemente o final da apresentação e algum sinal dos prováveis assaltantes.

A cabeça estava meia lá, meia cá. Tinha a atenção no serviço, mas a mente não conseguia parar de devagar sobre a visita que deixara junto com Bruce e Grayson na Mansão.

Eles estavam com tudo pronto quando a abertura do portal que ela usava apareceu no meio da sala.

Bruce a abraçou da mesma forma carinhosa que Gordon fizera com Grayson, mas felizmente não se demorou o mesmo tanto. Ela levou menos tempo para cumprimentar o primeiro Robin e então prendeu o olhar em Terry. Abriu um sorriso encantador antes de compará-lo a Bruce na mesma idade.

-Ele só não é tão carrancudo quanto você. – comentou quando ele lhe estampou um sorriso tímido em resposta – Eu sempre lhe disse que ficaria mais bonito se sorrisse mais, Bruce.

-Ele tem mais motivos para sorrir do que eu.

-Ah, tem? E quais seriam? Agüentar seus resmungos? – Bruce sorriu moderadamente para piada dela, enquanto a rainha envolvia os braços no braço direito dele.

-Vai ficar só para o jantar?

-Eu pretendia me demorar um pouco além dele...

-Alguns anos seria apropriado.

-Sim, seria. Mas infelizmente o tempo disponível é mais curto.

Seguiram para a sala onde o jantar fora servido logo em seguida. Os quatro desfrutaram a comida que o próprio Terry preparar com cuidado para a ocasião.

A conversa durante a refeição não foi nada elucidativa, mas fora agradável. Ela era exatamente tudo que Bruce dissera, mas Terry poderia acrescentar "simpática" e "amável" à lista.

Era estranho a ver tratar Grayson como se ele fosse muito mais novo, quando aparentemente ele e Bruce eram bem mais velhos que a amazona.

Era mais estranho ainda ver como ela e Bruce trocavam farpas, ao mesmo tempo em que acariciavam a mão um do outro. Estranho e engraçado.

-Oh, eu deveria contar a história de quando nos conhecemos. – ameaçou ela, quando ele soltara alguma informação que achara desnecessária, só para irritá-la.

-Qual parte? A que você disse que eu usava métodos ultrapassados ou a que eu disse que seu uniforme era impróprio para o oficio?

-Você não fez isso? - exclamou Terry, que chegara a engasgar com um gole da bebida que tomava ao ouvir a proeza do velho.

-Ah, ele fez... Claro que ele fez.

-Eu queria tanto ter visto essa cena. – murmurava Dick entre um gole e outro do vinho.

-Garanto que Kal teria trocado de lugar com você, se pedisse. Foi difícil ele me impedir de quebrar o pescoço do Bruce naquele dia.

-Você iria tentar... – respondeu o anfitrião, com aquele olhar de quem tinha tudo sob controle, certamente.

E mesmo se alfinetando, o brilho nos olhos deles quando se encaravam era incontestável. Eles se amavam... Ainda se amavam. O que levava a outra pergunta: por que então viviam separados?

-Você precisa seguir para o teatro, Terry. – disse o pai, antes do fim do jantar – A peça vai começar daqui a pouco.

Ele acenou em concordância antes de pedir licença, se levantar e se retirar do aposento. Meia hora depois já estava sobre a gárgula, ainda pensando no que acontecera recentemente.

"Quer companhia?" ele nunca havia ouvido aquela voz no comunicador antes, mas soube na hora de quem se tratava.

-Você não deixou os dois pombinhos sozinhos, deixou? Eles podem aprontar algo.

Dick gargalhou do outro lado da linha antes de comentar:

"Não duvido."

Ele quase acompanhou a risada do mais velho, mas preferiu esperá-lo terminar para perguntar algo.

-Você estava lá, Grayson... Como isso aconteceu?

"Você quer saber como ele se apaixonou por ela ou como ela se apaixonou por ele?"

-As duas coisas.

"Bom... Se apaixonar por ela é meio inevitável... até para ele. Agora, o que deu na cabeça dela de se apaixonar por ele, ai eu já não faço a menor idéia." gargalhou mais uma vez "Mas foi muito difícil para ele aceitar..."

-Aceitar que gostava dela?

"Aceitar que gostava de alguém fisicamente mais forte, que não necessitava de proteção. Que não precisava dele."

-Hum... Entendi. O velho complexo masculino.

"É, bem inapropriado para alguém que se apaixona por uma amazona..." Terry pode ouvir o barulho do que certamente era Dick esticando os pés sobre o console do computador "Então, em que pé está o plano?"

-Tudo calmo por aqui. O espetáculo já deve ter começado.

"Talvez só tentem algo quando acabar."

-É, talvez... Vai ser uma noite longa.

"Tudo bem, eu te faço companhia... Acho que não serei muito querido lá em cima essa noite."

-Você não acha que eles...

"Eles tem muito para por em dia." o tom que Dick usava não o deixava perceber se aquilo era uma piada ou não. "Mas é melhor não pensar nisso. O Ministério da Saúde adverte: Tentar entender os rolos afetivos do morcego-mor faz mal para a sanidade mental e afetiva de qualquer um. Só Deus sabe quanto de terapia eu deveria ter gasto quando descobrimos sobre o Damian... E depois você e seu irmão."

-Eu e meu irmão não somos frutos de rolos afetivos do Bruce. – reclamou ele.

"Por que você acha que a Waller escolheu coletar os genes dele e não os do Super?"

-Você não está querendo dizer que ela e o Bruce...

"Ohhh, não. Mas bem que ela gostaria."

-Credo, Grayson, você quem está me induzindo a criar imagens que vão acabar com a minha sanidade mental.

O outro riu mais uma vez em seu ouvido.

"Ok. Depois eu posso te contar outras experiências afetivas dele que nos foram menos traumáticas. Tenho algumas interessantes... algumas que eu tenho certeza, você não saberia pela boca dele."

-Foram tantas assim?

"Sim, foram. Mas poucas foram importantes realmente. E a única que valeu a pena você conheceu hoje."

Houve um curto silencio antes de Terry resolver fazer um comentário.

-Eu não entendo... Eles parecem se amar tanto.

"E se amam."

-Então por que não estão juntos?

"Bruce é especialista em arrumar motivos para nos afastar, achei que já soubesse disso."

-Eu sei... – resmungou – É só que... – a movimentação no teto do teatro lhe desviou do assunto.

"O que houve?"

-Parece que morderam a isca. – disse ligando a câmera de seu visor para que Grayson o acompanhasse, antes de sair na direção que o grupo de ladrões seguiu.

Eram apenas três dessa vez. E novamente corriam por becos enquanto o mesmo carro os aguardava mais adiante.

Como esperava o paladino misterioso apareceu e os deteve. Ou quase os deteve já que dessa vez o grupo parecia preparado para tal interferência.

Ele viu quando mais dois cúmplices surgiram do nada durante a briga, com armas na mão, prontas para disparar contra o tal rapaz.

Nesse instante Terry interferiu, saltando sobre o primeiro e usou a perna para desarmar o segundo.

O paladino se surpreendeu com sua chegada tempo suficiente para encará-lo e bastou um segundo para Terry o reconhecer.

-Matt?

Seu irmão não pode responder, um dos homens que ele havia derrubado enlaçou uma corda em seu pescoço.

Com mais facilidade do que Terry achava que Matt seria capaz, ele virou o homem por sobre as próprias costas e o jogou na direção do irmão, criando a oportunidade perfeita para dar um fora dali.

O mais velho chutou o ultimo dos ladrões que ainda teimava em ficar de pé antes de abrir as asas e pular, ligando os propulsores dos pés.

Teria alcançado o céu rapidamente e conseguido localizar o irmão por sobre os prédios se algo não o tivesse puxado para baixo novamente.

Bateu com as costas no chão e pode escutar a exclamação de Grayson em seu ouvido, perguntando se estava bem, antes de abrir os olhos para encarar seu adversário.

A surpresa o abateu. Não se tratava de nenhum dos homens a quem ele e o irmão haviam acabado de derrubar e sim de uma mulher.

-Você é o famoso Batman. – afirmou ela, a face oculta pelo elmo de um bronze escurecido que usava.

A roupa de couro negro imitava a dos antigos gladiadores e nos pulsos os braceletes típicos do grupo de mulheres cujo a rainha os visitava.

Ele não precisou ouvir o que Dick dizia para saber que tinha sido derrubado por uma Amazona.

-Desculpe moça, mas não posso te dar atenção agora. – falou, se levantando num salto.

Ela o tentou jogar novamente no chão, mas Terry se desviou a tempo da mão direita, pulando para o lado.

Isso só a deixou mais irritada. Quando ele tentou alçar vôo novamente, a mulher alcançou seu pescoço e o prensou com força na parede.

Com a pancada o ar lhe sumiu do peito por alguns segundos, e a dor fora quase insuportável. Já tinha passado por coisas piores, era verdade, mas tinha certeza que aquele gesto era apenas um cartão de visitas. A mulher estava apenas querendo demonstrar que podia fazer bem pior se quisesse já que o levantou do chão, sem nenhum esforço, apenas com uma das mãos.

Abriu os olhos para encará-la novamente, pedindo a Deus que Grayson lhe desse alguma luz sobre o que fazer para derrubá-la. Foi quando avistou um dos assaltantes apontando uma arma para as costas dela.

-Cuidado... – conseguiu gaguejar, mesmo sem fôlego.

Numa velocidade incrível, ela se virou a tempo de bloquear os tiros que o homem descarregava sobre eles, o largando.

"Saia já daí!" gritou Dick em seu ouvido. E foi o que ele fez, aproveitando a distração dela.

E assim que a mulher conseguiu derrubar novamente o assaltante se viu completamente sozinha no beco. A raiva foi tão grande que ela socou a parede mais próxima, abrindo um buraco no concreto. Por sorte Terry já estava longe.


Continua...