Capítulo III: Inferno Astral

"Finalmente."

Era tudo que eu conseguia pensar enquanto me jogava pesadamente na enorme cama king-size do Sofitel Heathrow. Não que a manhã tivesse acabado ou que eu fosse dormir naquela hora, mas a sensação de "dever cumprido até então" era bem satisfatória.

Tínhamos sido liberadas pelos meninos por hoje, para nos acostumarmos bem com as acomodações (oh Deus, teria como não se acostumar com um hotel desses?). Mas bem, mesmo meu stress sendo enorme, ele não seria suficiente para me prender em um quarto, por mais luxuoso que fosse, em plena Londres. Londres era Londres e lógico, nós quatro sairíamos para as compras sem muita demora.

Mas a porcaria toda para mim seria o fato de minha farra pela cidade ter de acabar mais cedo do que de costume acabaria. Sim, porque afinal, eu tendo a sorte que tenho, fiquei como primeira cobaia para o dia seguinte com McFLY. E o pior é que nem fora de propósito, os próprios meninos chegaram à conclusão de que as duplas de instrumentos poderiam começar pelos baixos. E por que pelos baixos? Simples.

Tom e Danny, que ficavam no vocal e na guitarra, trabalhariam com Katty e Marine, também vocais e guitarra. Uma diferença na formação de McFLY e Plastiscines era que na nossa banda, só a Katty era vocalista principal, de resto nós três fazíamos backing vocal; já na deles, Danny e Tom dividiam o vocal principal e os outros dois faziam backing vocal. Mas não era isso que eu queria explicar.

Tom e Danny, na verdade, disseram que gostariam de trabalhar primeiro uma espécie de "esqueleto" para a música, segundo eles, como haviam feito em seu último CD. Esse "esqueleto" seria um ritmo eletrônico, onde depois os instrumentos seriam trabalhados em cima; estranho, mas okay.

E, a princípio, Tom já havia trabalhado a prévia desse tal "esqueleto". Oh yeah, novamente nos passaram a perna, mas como eu disse, estava tentando ser mais pacienciosa, pensando no Dalai Lama como a Sandra Bullock tinha me ensinado em Miss Simpatia, quando eu era criança.

Mas então. Tendo a prévia, Danny sugeriu que os quatro trabalhassem no micro estúdio que ele havia montado, em sua casa, visto que não precisariam ocupar o estúdio da Super Records com uma demo que possivelmente nem apareceria no resultado final da gravação. Só que amanhã Danny tinha um compromisso, o que impossibilitava os quatro de começarem com tudo.

O que não se aplicava aos baixistas, já que eles deveriam ir e ocupar o estúdio da Super Records e começar a compor o baixo tendo como base o esqueleto, sendo o primeiro instrumento a ser gravado, seguido das guitarras e por fim da bateria. E adivinhem quem era o baixista deles?

O tal de Dougie.

Tinha que ser o mais estranho de todos, só para manter a forte tradição dos baixistas. Ainda lembrava a maneira tensa que desviamos nossos olhares mais cedo e de como isso fora extremamente desconfortável, somado ao fato de que eu e ele devíamos ter feito uma espécie de pacto mental e inconsciente para ver qual dos dois falava menos, porque só podia.

Amanhã o clima seria no mínimo delicado, estando só nós dois para compormos (ouviram bem? COMPORMOS. Tem noção da dificuldade?) juntos. Duas pessoas estranhas e desconhecidas tendo que criar uma melodia decente com dois baixos.

Suspirei e me virei de barriga para cima, olhando para teto, mas, sem vê-lo, no entanto.

–Por que esse tipo de coisa não acontece com a Rinema? – perguntei para o teto e por sorte, ele não me respondeu.

"What did you want to see, what did you want to be when you grew up…"

Quase dei um pulo com o susto ao ouvir a voz de Bradford Cox do Atlas Sound soar do meu celular chamando. Já fui sentando na cama e me norteando pelo som, alcançando a minha bolsa sem perder muito tempo ao catá-lo lá dentro dela, vibrando e tocando cada vez mais alto. Dei uma olhada no visor e um sorriso imenso se abriu no meu rosto enquanto eu atendia.

–Bateu o record... apenas uma manhã sem mim – eu disse, com um ar meio convencido mas inegavelmente derretido.

–Na verdade, só liguei porque sabia que você já estava sentindo a minha falta. Mas, orgulhosa como sei que é, você nunca ligaria primeiro – Jean me respondeu, daquele jeito que me fazia suspirar. Só de ouvir sua voz, eu já sabia exatamente como ele deveria estar: o sorriso meio esnobe de canto, moldado pelos lábios finos; a barba rala e morena que só de imaginar já me fazia arrepiar em lembrar todos os cantos do meu corpo que havia arranhado... e é claro, o olhos azuis mais frios que eu já havia conhecido na vida, levemente apertados. Ele ficava assim quando queria me provocar e, facilmente conseguia.

–Quer discutir sobre orgulho? Tenho a tarde toda livre – eu respondi, no mesmo tom de antes.

–Acho que tenho outros planos para hoje a tarde, mademoiselle Basilien. Um passeio à dois por Paris com Sophie soa muito melhor.

Oui, ele estava venenoso.

–Então por que me ligou, monsieur Napoleone?

–Por saber que minha namorada está à mercê de Backstreetboys que se passam por Beatles.

–Jean. Eles nem de longe lembram Backstreetboys e muito menos tentam se passar pelos Beatles.

–Está vendo só? Nem uma manhã e já está nos braços do inimigo. Você costumava ser mais confiável antigamente, Louise.

Jean particularmente não gostava de McFLY nem antes de fecharmos o contrato com eles e eu sequer sabia disso. Quando contei para ele sobre o dueto, ele largou coisas do tipo: "eles são um bando de babacas fazendo música para adolescentes burras na faixa etária dos 13. Dividiriam bem o palco com Justin Bieber e não com vocês"

Mas eu era a prova viva de que não era bem assim. Eu tinha conferido o trabalho deles, gostei da pegada do som que eles tinham e pessoalmente me pareceram extremamente simpáticos e bacanas; e posso dizer isso tranquilamente sem ser burra e sem estar na faixa etária dos 13. Podia até arriscar dizer que depois de tê-los conhecido pessoalmente, saber que Jean os desprezava me incomodava até certo ponto.

–Não estou nos braços de ninguém e continuo sendo a mesma que, tenho certeza, você ama, então hoje não vou cair nas suas provocações, Jean, porque sei que é o que quer – respondi um tanto zombeteira. Nossas conversas por telefone sempre eram basicamente inúteis e assim, provocativas, como se ambos estivéssemos em um jogo.

–As Plastiscines que eu conheci eram mulheres fortes, rebeldes que bebiam cerveja nos shows... as de agora me parecem tão... frágeis patricinhas. Aparecendo em seriados americanos e fazendo duetos românticos com boybands... Basilien, onde está sua honra? Não me faça terminar nosso namoro.

Desgraçado. Jean era uma pessoa de difícil convívio ao extremo... pontuava e alfinetava cada falha que identificava. Ele nunca fora meu puxa-saco e mon Dieu, eu adorava isso, mas de vez em quando ele passava seriamente dos limites. Desde setembro do ano passado, quando eu e as meninas gravamos uma participação especial no seriado Gossip Girl, Jean não hesitava em dizer que essa tinha sido a derrocada da banda. O que era um exagero absurdo, sendo que ter aparecido no seriado tinha nos projetado de uma maneira bem satisfatória, se o novo CD estava indo de vento em poupa, Gossip Girl só veio a ajudar.

Mas era o que Katty me dizia: "ninguém mandou se apaixonar por alguém mais complicado do que você mesma"; e ela estava totalmente certa. Ser apaixonada por Jean nem sempre me dava orgulho, até por saber que ele poderia muito bem viver sem mim, mas quando se tratava de eu viver sem ele...

–Você não terminaria por isso. E se terminasse, seria burro.

Escutei a risada de Jean do outro lado da linha e ri também, pelo visto dessa vez eu tinha ganho. Dessa vez.

–Espertinha... mas me fala, como estão os ares por aí? Chegou bem?

–Cheguei mais do que bem, Jean, só para você ter noção... estou em uma suíte individual do Sofitel Heathrow e te digo... é simplesmente um absurdo! É demais para mim!

–Pena que o objetivo final disso tudo seja tão sujo.

E de novo me irritei com a risada de escárnio que Jean deu ao terminar de falar. Não que eu fosse colocar uma camiseta escrita "I coração McFLY", mas um mínimo de respeito e profissionalismo eu queria, eles eram oficialmente meus colegas de trabalho.

–Jean, chega? Sério mesmo, não tem graça e é complicado para mim saber que meu próprio namorado não consegue mais entender meu trabalho.

–É mais forte que eu, Louise, se quiser, manche sua imagem, mas eu vou ter feito minha parte.

–E eu faço minha parte ignorando essas coisas que você fala, estamos quites?

–Que seja, desde que não se esqueça de voltar para mim como a Louise de sempre.

–Isso eu não ignoro e muito menos esqueço.

–Quero só ver. Quando eu tiver uma pausa no estúdio aqui, quem sabe não dou um pulo para fotografar minha musa em Londres?

–Ela iria adorar...

–Ela que espere. Agora tenho que vazar aqui, Basilien, sabe como é... Sophie é exigente.

–Idiota, vai lá. Também tenho programas para minha tarde em Londres, Napoleone.

–Pensei em ter ouvido algo como "tarde livre" de você, enfim... vou nessa mesmo, só queria ouvir um pouco sua voz injuriada por minha causa, não há nada melhor no mundo. Aproveite por aí e cuidado para não se apaixonar pelo baixista, sei bem que surfistas loiros e burros fazem seu tipo.

E Jean desligou, como sempre, não dando tempo para que eu me despedisse. Hoje ele havia se superado no quesito "estar impossível", mas não foi menos agradável poder ouvir e sentir em sua voz algo próximo a "ciúmes". Porque era o que me parecia, toda aquela implicância com McFLY não tinha justificativa nenhuma senão ciúmes. E isso me divertia ao extremo.

Desliguei o celular e o larguei de qualquer jeito no colchão, enquanto me levantava e me esticava um pouco. Alonguei todos os músculos do meu corpo para me sentir um pouco mais ativa, mas não levei dois segundos fazendo isso para ouvir algo na porta do meu quarto.

–Loulou, está pronta? – a voz de Marine se fez soar abafada pela acústica das paredes do outro lado da porta. Caminhei sem muita pressa até lá para abri-la e logo ela e Ana entraram meu quarto adentro, já se jogando na enorme cama.

–Estou sim, onde está a Katty? – perguntei já tendo fechado a porta e já próxima à ponta da cama.

–Já vem. Está lá surtando porque não consegue arrumar a franja... já gastou quase todo o novo spray de cabelo – Ana me respondeu, fazendo uma imitação perfeita de Katty e seu spray de cabelo na frente do espelho, o que sempre me fazia rir.

–Normal então – respondi ainda rindo e mal tive tempo de sentar na cama que já ouvimos a voz de Katty do outro lado da porta, praticamente me mandando abrir. Pelo tom de voz todas nós percebemos (e lógico, nos entreolhamos) que ela não estava nada de bom humor. Novamente me levantei e fui sem muito entusiasmo até a porta, abrindo-a outra vez e dando passagem para Katty entrar.

–Seguinte, meninas... Maxime me ligou agora – ela começou, imediatamente.

Maxime era nosso manager e, bem... muita gente na França nos conhecia como "Maxime's Angels" (isso mesmo, igual às Panteras, rawr), afinal ele era uma figura na faixa etária dos 60 anos e foi um produtor e empresário dos grandes antigamente, muito respeitado por lá. Então o fato dele ter resolvido apadrinhar do nada quatro adolescentes revoltadas que mal sabiam tocar causou uma certa polêmica, vocês imaginem só...

–E...? – respondeu Marine, de imediato, apertando um dos olhos. Normalmente ele ligava e sempre nos dava bronca.

–E... que ele marcou um show para nós no La Scala AMANHÃ.

SUCKS!

–Ah sim e alguém avisou a ele que amanhã mesmo eu começo a trabalhar com o baixista lá no estúdio? Para que ensaiar para um show, não é mesmo? Quem precisa de ensaio! – respondi imediatamente, indignada.

–Eu disse a ele que seria inviável para ensaiarmos assim na corrida, mas ordens são ordens... vocês o conhecem – respondeu Katty, num suspiro, se deixando cair pesadamente sentada na minha cama.

–Vou ligar para ele – eu disse, já pegando meu celular que estava perdido debaixo da bunda de Marine – ele sabe como eu sou insegura se não ensaio, não é justo.

–Louise, nem perde tempo. Quando que Maxime voltou atrás numa ordem, por mais absurda que fosse? – Ana começou, num tom extremamente desanimado – vai levar xingão ainda por cima.

E o pior é que ela estava totalmente certa. Cancelei a chamada antes mesmo de colocar o telefone na orelha e me joguei de barriga novamente na cama, no espacinho entre Katty e Marine.

–Tadinha da Louise... – Marine praticamente jogou o corpo sobre minhas costas e começou a afagar meus cabelos, rindo – ela está no inferno astral dela. Agora só falta o Jean ligar e...

–NÃO falta mais nada não, Marine – eu respondi, revirando os olhos ao lembrar da conversa inútil que havia tido com meu namorado minutos antes.

–Não está mais aqui quem falou... – ela devolveu, num tom não menos debochado.

–Eu acho que chega de ficar se lamentando. Não gastei praticamente meu spray todo ajeitando a franja para ficarmos sentadas numa cama reclamando feito velhas – respondeu Katty se levantando.

–Eu disse sobre o spray... e concordo, pelo menos hoje temos o dia livre, vamos aproveitar – Ana respondeu, extremamente satisfeita enquanto se levantava também, seguida de Marine que enchia a mão dando um tapa em minha bunda.

–Anda, levanta. Londres nos espera e você sabe, Londres não pode esperar em hipótese alguma – dito isso, elas já me puxavam, cada uma por uma parte de mim, até conseguirem me fazer virar de barriga para cima. Era impossível ficar séria com elas.

–Claro que eu vou, é a única notícia animadora do dia. E preciso fumar, beber... e antes de tudo isso, almoçar, estou zonza de fome – respondi já me levantando e ajeitando minha blusa, que de tanto rolar na cama já estava completamente amassada.

–Necessidades básicas de todas nós... almoço rápido no Mc, quem vota? – Marine já ia dizendo, enquanto saltitava para porta. Eu logo concordei direto, para mim um lanche totalmente americanizado bastava, sem contar que já havíamos identificado um Mc bem próximo ao hotel, o que facilitaria nossa vida.

Katty e Ana concordaram também, apesar de Katty não ser muito fã de lanches rápidos, nosso foco essa tarde definitivamente não era um almoço cheio de glamour. Coloquei meu casaco sem me demorar muito, já pegando minha bolsa e saindo com as meninas do quarto em seguida, guardando o cartão de acesso num lugar seguro dentro da carteira para não correr risco de perdê-lo.

–E vamos animar a Lou, plastocs, amanhã precisamos da nossa baixista candidata a presidente agitada no palco, como sempre – falou Ana me abraçando de lado e me apertando forte, enquanto caminhávamos as quatro pelo corredor imenso do Sofitel, em direção ao elevador.

Tive que sorrir com a sensação maravilhosa que surgiu de repente com as palavras dela. Realmente, quem poderia continuar reclamando de um dueto esquisito, um parceiro de trabalho estranho, um namorado arisco, um manager ditador e um show de última hora quando se tinha as três melhores amigas do mundo?

"God bless my Plastiscines."

(o capítulo encerra com o link dessa música aqui, oh: .com/watch?v=0tlU-1u1JC8 – Suddenly I See – KT Tunstall)