Em primeiro lugar gostaria de agradecer por todos os carinhosos reviews. Obrigada principalmente a Maria Regina (sua fic Of Elves anda Humans está cada vez melhor!) pelo incentivo. Um beijo a Gessi e Marina por terem sepadrado um tempinho para me deixarem suas impressões. Pode parecer pouco, mas é muito. Só quem escreve fics sabe o valor de um review. E aceito sugestões e correções. Enfim, um beijo às minhas queridas Myriara e Sadie. E a todas do tolkiengroup.
Nota Histórica: Como os nomes dos soberanos do povo de Durin se repetem muito, julguei necessário acrescentar esta nota onde se explica a origem dos dois reinos anões que serão mencionados em nossa história. Todavia, se desejarem pular a leitura, creio que o prejuízo não será grande. De qualquer forma, aqui está: Thráin I (Não se trata ainda do pai de Thorin II Escudo de Carvalho), fundou o reino sobre a Montanha em Erebor. Por um tempo Thráin e alguns do povo de Khazâd-dûm prosperaram, pois Erebor, a Montanha Solitária, era rica em minérios e pedras, mas o filho de Thráin, Thorin, deixou este local e foi para as Montanhas Cinzentas, onde dizia-se que um grande número de refugiados de Khazâd-dûm viviam esparsos. Ali Thorin foi aceito como Rei e com seu Anel de Poder seu povo cresceu novamente. Após Thorin, seu filho, Gróin, reinou, e depois Óin e Náin II e as Montanhas Cinzentas tornaram-se famosas por seu ouro. E então, durante o reinado do filho de Náin II, Dáin, vieram das Terras Ermas do norte muitos Lagartos de Gelo dos desertos. Desejosos pelo tesouro dos Khazâd, estes Dragões vieram preparados para a guerra e mataram a muitos expulsando os sobreviventes das Montanhas Cinzentas.O herdeiro de Dáin, Thrór (Avô de nosso herói), tomou parte dos sobreviventes das Montanhas Cinzentas e retornaram ao reino sob a Montanha em Erebor, enquanto que neste mesmo ano, seu irmão Grór, tomou aqueles que restaram e os conduziu para as Colinas de Ferro. E novamente estes povos prosperam, pois há agora grande comércio entre os Khazâd, Homens de Valle e de Esgaroth e os Elfos de Mirkwood.
'Uma aliança, uma aliança!' Reverberavam aos ouvidos de Thrór as palavras do príncipe.
- E por que não, meu pai?
- É um absurdo, Thrain! Erebor não necessita fazer alianças! Somos um dos reinos mais respeitados da Terra Média!
- Sem dúvida, meu pai, no entanto – o filho de Thror media as palavras – quanto maiores os tesouros, mais numerosos se tornam aqueles com ganas de no-los tomá-los. Não se esqueça do que aconteceu em Khazâd-dûm*1 e nas Montanhas Cinzentas... O recente episódio ocorrido na estrada do rio nos mostra o quanto nossas riquezas são cobiçadas.
- Sabe de algo que não sei, Thrain? Não me esconda nada! – disse o rei com um olhar perturbado a segurar os ombros do príncipe – quem está cobiçando nosso ouro?
- Não, meu pai, não se trata disso – o filho esmerou-se em dissipar a desconfiança infundada que surgira no coração de Thrór – sente-se. É apenas uma questão de bom senso. Somos poderosos, contudo não adquirimos a prerrogativa de vivermos sem necessitar dos outros!
- Os outros é que necessitam de nós, filho! Não vê? Até os primogênitos do Único nos reverenciam!
O príncipe suspirou. Conversar com o soberano de Erebor ficava mais difícil a cada dia. Sua mente já não parecia ver com a mesma clareza.
- Sim, pai, muitos nos reverenciam, mas que garantias temos de que nos auxiliarão quando precisarmos?
- Nunca precisaremos! A Casa de Dúrin há de durar por muitas eras!
- E por que não uma aliança a fim de fortalecê-la ainda mais, meu pai? Um casamento que selasse de vez a união entre a Montanha Solitária e as Colinas de Ferro. Nosso povo é poderoso, porém não é dos mais numerosos.
- Não vi da parte de Grór nenhuma iniciativa. Se esta partisse de nós poderia ser interpretada como sinal de fraqueza e não podemos nos sujeitar a tal. Depois que o reino de nosso pai nas Montanhas Cinzentas nos foi tomado pelos Dragões de Gelo, por não conseguirmos chegar a um acordo sobre o rumo que nosso povo deveria tomar, decidimos que cada um seguiria seu caminho. Alguns me seguiram até Erebor e outros a ele e ao filho, Nain até as Colinas de Ferro. E tem sido assim desde então.
Thráin baixou a cabeça, ante o esgotamenteo de seus recursos. A tão afamada teimosia dos khazâd*2 parecia haver sido dada a seu pai mais do que a qualquer outro. A vontade de Thror era difícil de ser dobrada, tanto quanto seu orgulho.
- Thórin precisa se casar – disse o príncipe, lançando mão de seu último argumento.
A afirmação totalmente díspar surpreendeu o Rei da Montanha Solitária. Este quedou-se olhando para o filho como quem pergunta pela ligação aparentemente impossível entre os dois temas.
- Não consegue aquietar o espírito. A impressão que tenho é que algo o está tirando de nós. Já não conversa comigo da mesma forma de antes. Foi muito afetado pela tragédia da estrada do rio. Sente-se responsável, penso eu. Precisa de uma esposa onde seu corpo e sua mente encontrem o pouso necessário, pois o sinto cada vez mais distante.
- É muito jovem ainda para pensar em casamento – ponderou o rei.
- Pode ser, todavia assume entre nós várias responsabilidades, o que demonstra seu amadurecimento... Contudo sua crescente inquietação me preocupa. Já vagamos demais por estas terras. Nosso povo precisa de paz. E Thórin também precisa.
- Por que não toma para ele uma esposa dentre as tantas filhas de Mahal*3 que temos entre nós?
- Meu pai tem dúvidas de que muitas já não se aventuraram? Dis não sabe mais a quem tentar convencer a se aproximar dele. As mais tímidas mal conseguem olhá-lo. E as que encontram ânimo para a empreitada logo se arrependem dissuadidas por seu temperamento irascível...
- E o que essas infelizes querem? Um fidalgo élfico?
- Mesmo para um khuzd, meu pai, seu neto é detentor de um temperamento difícil. Com isso não consegue prender-se a nada. É assim que acha que a linhagem de Dúrin vai permanecer? Frerin ainda é novo, mas já noto que não é como Thórin. É um bom guerreiro, um bom soldado e será o braço direito de meu primogênito, sem dúvida, contudo não tem a liderança do irmão.
Diante de tal argumento o rei passou a mão pela barba parecendo considerar. O príncipe animou-se a prosseguir.
- Uma aliança, então, nos traria duplo benefício – argumentou Thrain.
- E o que o faz pensar que o teimoso Thorin concordará com uma decisão como essa?
- Se conseguirmos convencê-lo da necessidade de uma aliança pelo bem de nosso povo, ele acatará. Ainda que às turras, acatará. Conheço meu filho.
- Bem, se isso realmente o preocupa tanto, Thráin, faça como lhe parecer melhor – concluiu o soberano de Erebor com a mão sobre o ombro do filho antes de se dirigir mais uma vez à sala dos tesouros, onde se demorava mais a cada dia, para preocupação dos seus.
Thorin vira Thrain de longe a sua espera. A figura imponente do pai, assim como a do avô, sempre foram objeto de sua admiração e respeito. E não deixara de notar que sua atenção se voltava para ele com mais frequencia do que de costume.
- Procurava por você já há algum tempo sem conseguir encontrá-lo, filho. Onde estava? – indagou Thráin ao rapaz que se aproximava. As vestes sujas do pó da estrada tornando dispensável a resposta solicitada.
Calmamente o mais moço se aproximou e reverenciou os cabelos já grisalhos de seu genitor.
- Viva para sempre a linhagem de Dúrin, meu pai!
- Viva para sempre – respondeu ao filho após o que ambos caminharam juntos.
Thórin, não falou muito. Não que costumasse fazê-lo, mas algo soturno no semblante do filho chamou a atenção do herdeiro de Thrór. As repostas às indagações do pai eram dadas em monossílabos.
- Está mais calado do que de costume. O que tanto o perturba, azaghâl*4?
O jovem afastou-se do pai, sem ofertar-lhe, contudo, uma resposta ou um olhar. Caminhou para longe como sempre fazia quando não queria ou não sabia o que responder.
Thráin costumava respeitar o silêncio do filho. Seus momentos. Mas a cada dia que se passava, Thórin mergulhava em si mesmo o que começava a preocupar o mestre anão. Acreditava piamente que tomara a decisão certa a respeito de seu futuro. Precisava apenas encontrar o momento certo para contar ao filho, mas , por Durin, como estava difícil!
-Thórin! Que bom que voltou! – chamou Dis trazendo uma toalha ao irmão.
- O que você quer? – disparou o rapaz com a face ainda pingando d´água da bacia que tomara para lavar o rosto e, por que não dizer, tentar livrar a mente dos pensamentos sombrios que não o deixavam, sem fazer caso da toalha estendida em sua direção.
- E não posso simplesmente querer conversar um pouco com meu irmão?
- Não desde que o assunto se repete dia após dia, semana após semana. Não me venha com mais uma de suas amiguinhas, que não estou com ânimo para isso.
- Poderia pelo menos responder ao meu cumprimento antes de me agredir como um rukhs*5 enfurecido, não acha?
- Poderia se já não soubesse o motivo de sua aproximação. Não está cansada de me procurar uma noiva?
- Está cada dia mais intratável, meu irmão. E não se preocupe que não há mais ninguém, pelo menos que eu saiba, que esteja disposta a enfrentar seus acessos de raiva – respondeu atirando a toalha no rosto do jovem anão antes de se retirar.
Thórin observou a irmã enquanto cruzava a porta. Com a tolha que lhe trouxera enxugou a face. Amava a caçula, todavia já não era mais o mesmo há muito tempo. Dis estava certa. Indispunha-se mui facilmente, mais do que se poderia considerar razoável, mesmo para um filho de Mahal. A água não conseguira lavar seus pensamentos. 'Acessos de raiva', dizia a irmã. 'pelo que procurava' indagava o pai. Somente seu irmão, Frerin, não o questionava ou censurava. 'Não o perturbava', pensou. Fato era que o irmão mais moço passava cada vez mais tempo em Esgaroth do que em Erebor, cuidando dos interesses do povo de Durin por lá. Também ele já assumira sua cota de responsabilidades. Era mais novo que ele, mas não tão mais novo assim. Na verdade, Thórin se sentia muito mais adiantado em anos do que seus 20 anos de khuzd*6 realmente o deveriam fazer sentir. 'Gamil'*7, assim se sentia. Cansado de tantas idas e vindas às quais sua mente o força. O corpo sem conseguir acompanhá-las.
O pai tinha razão. Algo o incomodava, o inquietava.
Jogou a toalha por sobre um móvel. Sentou-se displicentemente na cadeira bem trabalhada. Não tinha ânimo de se banhar, nem de se deitar, pois sabia que a qualquer momento aquela vontade insana de ir embora o abordaria levando-o de volta à estrada. Mirou a janela. Algo parecia chamá-lo, impelindo-o a deixar aquele lugar como se sua vida dependesse disso. Como se a vida de seu povo dependesse disso. Mas o que sabia ele? Era pouco mais que uma criança diante do pai e do avô. Seu avô. O poderoso Thrór. Reinando na Montanha Solitária. A poderosa Erebor. Inexpugnável.
Thórin aproximou-se da janela. Seu povo já vagara tanto. Reinos Singin-tarâg*8 floresciam e definhavam. Fitou o horizonte. Um vento frio fez seus ossos gelarem. Erebor era magnífica. A questão que se impunha era: até quando?
- Uma aliança?
- Uma aliança.
- Com o Reino das Colinas de Ferro?
- Reino de seu tio. Nosso sangue. A linhagem de Dúrin fortalecida. Já está tudo acertado.
- Por isso aquela viagem cheia de segredos? Você e meu avô...
- Temíamos que não concordasse, Thórin. Precisa confiar em nós. Não teríamos tomado tal atitude se não soubéssemos que seria bom para você.
- Consideram-me, então uma criança, pra me ludibriar assim, tratando de meu futuro pelas costas como se este não coubesse a mim?
O jovem bufou diante do silêncio do pai. E mais essa agora!
- E por que eu?
- E por que não? É o primogênito. O herdeiro.
- É cedo para pensar nisso.
- E em que, em nome de Dúrin, você tem tanto em que pensar, Thórin, que tome o lugar de suas obrigações para com sua família e seu povo?
O príncipe fitou um ponto qualquer no chão. Não tinha resposta. Era mais cedo do que de costume, por certo. Mas não tão mais cedo assim. Já tomara sobre si diversas responsabilidades na fortaleza, incluindo a defesa da mesma. Será que o pai percebera algo que ele mesmo não vira? Sentia dentro de si uma ânsia, embora não soubesse explicar do que se tratava. Será que vinha daí sua inquietação? Até o velho Balin já conversara com ele sobre isso.
Balin, um amigo e um pai. Um conselheiro que tantas vezes via mais claramente do que ele e lhe mostrava o caminho, e que ele, Thórin, admitia, não sem se contrariar, ser a melhor escolha. Balin já lhe dissera mais de uma vez que já chegara sua hora.
- Thórin?
- Sim, meu pai.
- O que me diz?
- E tenho direito de dizer alguma coisa, além de sim?
- Olhe como fala comigo, rapaz! – elevou a voz o mais velho – que não sou como as mocinhas que você afasta com seus rosnados. E de certo a sua escolhida também não o é.
- Então já conheceu de perto aquela que será condenada a ser vítima de meu mau humor por longos anos? Estou curioso.
- Neta de meu tio. Quase da sua idade. E assim como você, difícil de se persuadir.
- Parece um casamento promissor...
Inesperadamente, Thráin reagiu com um sorriso:
- Ela tem brio. Tem valor. Mal posso esperar para vê-los juntos.
O comentário do pai deixou Thorin curioso. Como poderia ele saber tanto sobre a moça?
- O Senhor conversou com ela, então?
- Está realmente interessado?
- Se quer mesmo saber, meu pai. Não. Estou apenas tentando manter um diálogo civilizado sobre um assunto que considero totalmente sem propósito.
- A segurança de nosso povo nunca será um assunto sem propósito, Thórin, filho de Thráin, neto de Thrór, descendente de Dúrin.
A menção de sua linhagem trouxe uma expressão austera ao rosto do jovem anão. Tal descrição fazia pesar sobre seus ombros a responsabilidade que lhe cabia. Não era apenas um rapazote que poderia fazer o que quisesse de sua vida sem pensar nas consequências. Estas não recairiam apenas sobre si e sobre sua família. E sim sobre seu povo. Talvez por isso, talvez por pensar tanto em tais fatos, Thórin se sentisse mais velho do que realmente era. E talvez a maturidade já tivesse, de fato, o alcançado, pois não foi a vara ou o grito que o fez desculpar-se com o pai, mas o reconhecimento de que agira de forma não condizente com sua posição. Era o príncipe de Erebor, afinal.
- Perdão, meu pai, falei sem pensar.
- Coisa que não poderá fazer quando for rei, filho – disse pondo a mão no ombro do jovem khuzd*6.
O neto de Thrór suspirou.
- E quando ela virá?
- Não virá.
- O quê? – indagou o príncipe aturdido pela resposta sem sentido do pai.
- Não virá, ainda. Quer conhecê-lo primeiro. Deseja que vá ao reino das Colinas de Ferro. Como disse, ela tem brio.
Ante aquela condição o príncipe de Erebor sentiu seu orgulho ultrajado.
- Então enquanto eu devo aceitar sem questionar, ela recebeu a prerrogativa de me avaliar? E para isso devo me bater até lá para cortejar uma mocinha mimada e convencê-la a tornar-se minha esposa, quando eu mesmo só estou concordando com este casamento enquanto uma aliança entre reinos!
- Não, filho. O acordo já está firmado. Será que não compreende o que digo? Quer apenas conhecê-lo primeiro. E pelo que nosso primo Nain falou, sua escolhida não está interessada em presentes.
- Difícil de acreditar.
- Já dispensou inúmeros pretendentes. E apesar da pouca idade, seu pai, na verdade, já havia perdido a esperança de vê-la casada. É um bom sinal que tenha concordado. Mostra o respeito e a consideração que têm pela casa de Thrór. Além do mais, nossos parentes também têm tesouros.
- Não tão fabulosos quanto os nossos, meu pai. A bem da verdade, eles é que deveriam buscar nossa aliança.
- Não me venha com a mesma teimosia de seu avô, Thórin. A cada dia parece-se mais com ele do que propriamente com seu pai.
- Fala como se o senhor fosse a pessoa mais tolerante...
- Assunto encerrado, Thórin!
O jovem anão capitulou diante da autoridade do mais velho.
- Está bem, meu pai. E quando partimos?
-Em breve. Eu avisarei. Contudo, não poderei acompanhá-lo. Em sua ausência, tomo sobre mim a defesa da cidade, pois seu avô...
- Eu sei...
Thórin suspirou. Já não lhe bastavam as preocupações que carregava e a inquietação que lhe rasgava o peito? Ter que aceitar em sua vida uma criança mimada, cheia de vontades! Preferiria enfrentar um dragão.
E Thórin não soube por que esse pensamento trouxe novamente aquele frio aos seus ossos.
*1khazâd-dum: 'Mina dos anões'; Moria
*2khazâd: anões, plural; khuzd: anão, singular.
*3Mahal: Aule, o ferreiro dos Valar, criador dos anões.
*4azaghâl: guerreiro
*5rukhs: orc, singular; rakhâs: orcs, plural.
*6khuzd: anão.
*7gamil: velho.
*8Singin-tarâg: barbas longas. Outro nome dado ao Povo de Durin.
