Renegade.


In our room, between the shapes I thought I knew.

Quando menos esperamos, a vida muda bruscamente. Naquela época eu estava completamente falida, não conseguia pagar nem uma conta para ajudar no cotidiano, estava apaixonada pelo homem impossível, inspiração? Crescimento profissional? Fazia tempo que eu não sabia o que eram essas coisas.

Então eu sentava, ficava horas encarando meu notebook, vendo a página em branco rindo da minha cara, falando do quão patética eu era e apenas fazendo o sentimento de angústia e fracasso aumentarem. E eu saia bem pouco com meus amigos, ia em encontros aleatórios e me sentia uma completa incompetente, o que de fato eu era. Vivia minha vida tentando achar algum significado em meu pobre trabalho, mas então isso muda simplesmente, vivi em prol do trabalho para encontrar significado na minha vida. Esqueci que o importante não é apenas procurar o significado, mas aproveitar tudo o que não tem importância, os pequenos momentos.

Achei que fosse morrer uma época e, apreciando minha finitude, abri os olhos para minha própria vida. E tudo o que eu achava impossível, simplesmente aconteceu.

23 de Janeiro.

A realidade é algo tão estranho.

Não existe a certeza de que algo é real até que se chega ao fim.

Arrumei pela milésima vez os travesseiros a minha volta, estava finalmente voltando tudo ao normal. Principalmente depois da ida ao hospital ontem e de ter tomado tanto soro. Acredito que a ansiedade tenha piorado a virose, mas ao menos eu conseguia comer agora e, pelos deuses, comer é a melhor coisa que existe em todo o universo! Não sou fã de sopa, mas a sopa que Kaede trouxe para mim era algo próximo ao divino!

- Rin, se você não parar com isso, eu vou jogar todos esses travesseiros pela janela. – Sangô entrou no quarto de uma forma que eu nem mesmo percebi. Ela ainda estava irritada com o médico? – Já estou com dor de cabeça e o barulho dessa arrumação toda esta me dando nos nervos...

- Mas é que Bankotsu falou que ia passar aqui... quero que esteja tudo bonitinho... – Sou realmente uma criança de seis anos.

- Quando ele veio na quarta você estava completamente suja e tudo estava bagunçado, porque fingir agora? – Talvez fosse apenas impressão, mas enquanto Sangô se sentava, o rosto dela ficou mais pálido.

- Ah Sangô, é diferente... – Suspirei. – E ta tudo bem? Você me parece estranha...

- Acho que nada... talvez eu tenha pego essa sua maldita virose.

Sorri amarelo. Talvez ela realmente estivesse irritada com o médico. Enquanto eu tomava soro ontem, o clinico geral gritou com ela, falando que foi irresponsabilidade ter demorado tanto tempo pra me levar no hospital, já que eu não comia há dias e tudo o mais... Acho que o estresse aumentou porque quem geralmente me leva ao hospital é Sesshoumaru, só que depois de quarta-feira, ele passou a me ignorar. Não atende minhas ligações, não me visita, nada. Nunca imaginei que ele poderia ficar nesse estado.

Pra falar a verdade, eu espero que ele tenha pegado a virose, mas sendo ele um youkai e tudo o mais, acho que isso seria impossível. Mas se a discussão muda para o impossível, bem, muitas coisas impossíveis tem ocorrido então... Afinal, conhecer Bankotsu, ver Sesshoumaru com genuíno ciúme, são coisas impossíveis... seriam coisas impossíveis, mas que estranhamente aconteceram comigo.

Quando o interfone finalmente tocou, sai correndo, deixando uma Sangô deitada na minha cama. Ela parecia tentar se acalmar, com uma respiração profunda. Bankotsu subiu, aquele sorriso estonteante que me deixava zonza, com um estranho sorriso abobalhado nos lábios. Nem mesmo tive tempo de dar oi, ele já me cumprimentou com um rápido beijo e foi para meu quarto. Olhei para a cena com um olhar estúpido, ele sorria também.

Aquele foi nosso primeiro beijo, simples, como um delicioso habito.

- Levante-se Sangô e vá se arrumar com Rin.

- Para onde vamos? – Ela perguntou com os olhos ainda fechados. Ele era cheio de surpresas.

- Vamos ao boliche.

- Eu ainda não estou bem e Sangô não me parece bem também... – Fechei a porta e fui para o quarto.

- Por isso mesmo... um boliche vai animar as duas.

- Mas... – Acho que Sangô iria argumentar, mas ele era rápido.

- Sem mas, minha querida. – Ele riu divertido para Sangô. – Ligue para seus amigos e vamos logo...

Não tivemos nem mesmo tempo para pensar, ele simplesmente saiu do quarto, fechou a porta. Ri por quase dois minutos e abri algumas gavetas, peguei algumas roupas confortáveis, mas ainda bonitas, e as joguei na cama.

- Animo Sangô. Vou me trocar rapidinho e ligar para Miroku e eu realmente espero que quando eu tiver saído do banheiro, você esteja pronta... – Peguei uma outra muda de roupa e continuei sorrido. – Você me deve.

- Nem vou comentar das contas então... – Sai rindo, afinal, estava num estado de êxtase, de felicidade.

Nunca fui a um encontro com Bankotsu e, ainda assim, parecia tão desnecessário. Por outro lado, não seria um encontro com todos os meus conhecidos lá. Me troquei de forma rápida, fiz as ligações e, quando voltei ao quarto, encontrei uma Sangô arrumada, porém séria.

- E Sesshoumaru? – Falou baixamente. – Não pretende chamá-lo?

- Ele está me evitando... não atende minhas ligações, simplesmente sumiu. Se quiser chamá-lo... – Estava saindo do quarto, quando ela finalmente respondeu.

- Vocês se conhecem a 22 anos, não pode acabar assim...

- Não pode, mas acho que acabou. - Bankotsu se levantou, visivelmente contente. Sorri novamente e sussurrei para mim mesma. – Realmente acabou.

Ele pegou a minha mão gentilmente e sorriu para Sangô. – Vamos?


Há quantos anos não ia para o boliche? Bom, acredito que tenha sido quando meus pais eram vivos... mas é, se não tenho nem dinheiro para sobrevivência, como pagar o horário de lazer? Balancei a cabeça fortemente, atraindo a atenção de Bankotsu e Sangô, ao menos pelo o que parecia, porém não escutei nenhum dos dois e suas prováveis indagações. Miroku estava em uma mesa próximo a pista do meio e simplesmente sai corrente como uma criança feliz pelo local.

- Então, somos nós quatro hoje? – Perguntei casualmente a Miroku enquanto pegava aqueles sapatos especiais de boliche.

- É, Sesshoumaru foi viajar e acho que se soubesse que você viria com Bankotsu, ficaria em casa.

- Miroku, qual é o problema do babaca do Sesshoumaru?

-Rin... o bab-

- Não Miroku, se lembra que Sesshoumaru pediu para não comentarmos nada? – Sangô o cortou e se sentou para colocar os sapatos.

- O que todos estão escondendo? – Quase gritei. Diferente de Sesshoumaru, eu simplesmente não controlo o meu gênio.

- Querida, o Bankotsu teve todo o problema para reunir todos nós, pra termos uma tarde divertida e agradável, não vamos falar sobre algo que pode aborrecê-lo. – Aquele semblante calmo de Sangô me assustava.

Tudo bem, ela tem razão, que dinheiro tenho eu para sair sempre com meus amigos? E também, tenho que aproveitar o máximo de tempo com Bankotsu porque logo ele perceberá que não valho à pena e vai se afastar. Olhei para ele e, por um segundo, me pareceu que ele se sentiu desconfortável pelo assunto da conversa. Na única vez que se encontraram, Bankotsu foi o homem gentil e doce que é, Sesshoumaru mostrou um ciúmes infantil e eu respondi da mesma forma. Juro, porque ele continua por aqui?

- Tudo bem? – Sussurrei me aproximando dele.

- Uhm? – Ele se voltou pra mim, com um delicioso sorriso nos lábios. – Sim, não quis interromper a conversa.

Como eu devo agir nessas situações? Me sinto tão desconfortável quanto ele, afinal, quem era a babaca apaixonada pelo seu amigo de infância? Esses tempos passaram e Bankotsu estava ali, se ajeitando no banco... passei meus braços pelos ombros dele e beijei o topo de sua cabeça. Porque eu ainda estava de pé e voltada para as costas dele?

- Você esta chateada, não é? – Sussurrou ele enquanto acariciava meu braço.

- Ele é meu melhor amigo, mas depois que te viu... sei lá, acho que é um surto passageiro. – Sussurrei de volta.

- Rin! – Miroku gritou. – Sua vez! E temo em dizer que sua companheira de time realmente precisam da sua ajuda!

Porque concordei em homens contra mulheres? Passei minhas mãos pelo tórax dele enquanto me separava e olhei para o placar.

- Sangô, estou tããão decepcionada. – Falei com uma fingida voz tristonha enquanto pegava uma bola. – Juro, sou a única mulher que joga bem?

- Não, querida Rin, nenhuma mulher joga bem. – Miroku comentou com um divertido sorriso nos lábios.

Ouvi Bankotsu rir quando Sangô socou Miroku... sorri e soltei a bola.

O mundo parecia estar no lugar certo.

Okay, eu precisava de um cigarro.

Bom, é mal de escritor fumar, ao menos a maioria dos escritores sofre disso e, infelizmente, eu era uma das sofredoras. Depois de uma semana de virose e sem um único cigarro, Bankotsu levou a gente pra jantar e, agora, estávamos numa danceteria. Ele é o homem perfeito e eu vou decepcioná-lo se fumar. Aliás, decepcionarei todos os meus amigos... Estava impaciente. Tinha acabado de virar minha terceira dose de tequila, estava dançando loucamente com Bankotsu e só conseguia pensar em um cigarro.

- Hey... – Me aproximei dele enquanto a música acabava. – Eu preciso de um pouco de ar... já volto.

Ele parecia falar alguma coisa, mas ignorei, só pensava em apenas uma única e maravilhosa coisa. Fui para a mesa e peguei minha bolsa, ninguém estava me observando e eu não precisaria ouvir o discurso ininterrupto de Sangô e, quem sabe, Miroku não me acompanhava lá fora, afinal, somos os únicos fumantes do grupo presente. Faltava Sesshoumaru...

- Aonde pensa que vai? – Ouvi uma voz dura em meu ouvido. Me voltei com aquele sorriso sem graça, segurando fortemente a bolsa contra meu peito.

- Er... tomar um ar, Sangô. Por quê?

- Poxa, Rin. Achei que depois de uma semana doente e sem fumar um cigarro, você ia parar. E sabe o qu-

- Olha Sangô, agora não, okay? – Cortei ela e, sentindo seu frio olhar sobre mim, sai correndo para a porta.

Acho que de relance vi Bankotsu se aproximando de Sangô, visivelmente preocupado, e acho que o ouvi a questionando sobre minha saída abrupta. Mostrei minha pulseirinha verde e parei na calçada, em frente à boate, minhas mãos correram ensandecidas em busca do maço perdido na bolsa, assim que peguei um cigarro, tirei do meu bolso o isqueiro e o acendi. Ah! O tabaco! Aquela fumacinha gostosa! Crianças e adultos, não fumem, faz mal... mas como é gostoso!

Já estava no segundo cigarro, me apertando contra a jaqueta, quando eu o vi. Mesmo estando saindo com Bankotsu, me divertindo, ver aqueles cabelos prateados me dava arrepios. Sempre com aquela cara séria, imperturbável, como não cair por um homem desses? Me mantive com uma expressão dura, estava extremamente chateada com o comportamento dele na ultima semana, porém foi ele parar na minha frente, me encarar, que um fraco suspiro escapava dos meus lábios. Qual era o problema comigo?

Ele também acendeu um cigarro e ficamos lá, nos encarando, sem querer perder e ser o primeiro a falar alguma coisa.

- Okay, isso me deu nos nervos! – Quase gritei. Joguei a bituca na rua sem nem mesmo desviar o olhar do dele. – O que aconteceu com você? Me afastou, ta me escondendo alguma coisa...

- Rin! – Ouvi uma voz me chamando e me voltei para o rosto alarmado de Bankotsu. – Ah... achei que estava aqui fora sozinha...

- Bom, você esta visivelmente ocupada. – Sesshoumaru falou naquele irritante timbre impessoal e frio. – Nós podemos conversar depois.

Sem nem mesmo esperar um convite para participar de nossa noite, sem nem mesmo se despedir de Bankotsu e de mim, ele foi embora. Puxei mais um cigarro por simples irritação, era uma tentativa de me acalmar, mas esqueci que poderia decepcionar Bankotsu com aquele vicio odioso.

- AH! Que bom! – Ele falou claramente extasiado, puxou do casaco um maço e acendeu um cigarro. – Não queria te decepcionar, achei que você poderia ter algum problema com fumantes...

PELOS DEUSES! Ele era igualzinho a mim! Mesmo um tanto quanto bêbada, me joguei sobre ele, o abraçando carinhosamente e o beijando apaixonadamente.

Mesmo não lembrando dos fatos que se seguiram, ao menos eu sabia que era algo real.

Que nós éramos algo real.


Sempre demorando muuuito para escrever! Mas em primeira pessoa é um pouco mais trabalhoso, principalmente quando você tem todas essas outras responsabilidades, mas enfim, sei que muitas de vocês vão me odiar pelas personagens fumarem, porém é realmente um mal de escritor... ou da maioria. E, infelizmente, eu tenho esse mal...

Espero que não fiquem muito bravas comigo...

Beijos e até a próxima!