N/A: Esqueci completamente de postar no FF! =O Desculpem!


.Névoa Branca.

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Confissões de Nayla Iketsu

{Por FranHyuuga}

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Ritmo

Capítulo 2

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"Eu quero ficar perto de tudo o que acho certo

Até o dia em que eu mudar de opinião"

(Coisas Que Eu Sei – Danni Carlos)

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Lavanda. O aroma parecia emanar de todos os lugares, penetrando em minhas narinas de forma envolvente. Por um momento, ainda com as pálpebras cerradas, não permiti que as preocupações invadissem minha mente. Ignorei meu instinto de proteção apenas para relaxar com aquele aroma, com o calor que meu corpo sentia entre as cobertas e com o que parecia ser um futon macio.

- Dois dias desacordada não foram suficientes? – Uma voz soou baixa, em tom remoto, e a adrenalina me fez sobressaltar. Sentei-me rapidamente, mirando a face bonita de um rapaz ao lado da porta do aposento. Minha visão turvou-se com o movimento brusco e logo me obriguei a deitar mais uma vez.

Ele nada falou enquanto se aproximava e se ajoelhava ao meu lado. Senti minha face aquecer quando sua mão gelada pousou sobre a minha testa e encarei com maior atenção os orbes de um profundo tom púrpura, brilhantes e quentes, adornados por cílios pretos perfeitamente alinhados. Os cabelos eram tão negros quanto o céu noturno, lisos e aparentemente sedosos, presos com alguns fios que teimavam soltar-se e moldavam seus traços. Parecia ser um pouco mais velho, com talvez 16 anos.

- A febre baixou. – Afirmou, levantando-se e seguindo até a porta, alheio ao meu silêncio. Você deve estar com fome. – A frase fez meu estômago agitar-se em resposta. Espere aqui. – Antes que ele desse outro passo, obriguei-me a falar pela primeira vez:

- P-Por que está me ajudando? – Senti-me estúpida por questioná-lo, mas um Iketsu nunca recebia um tratamento como aquele sem custos. Eu... n-não tenho dinheiro.

Ele voltou-se para mim e notei pela primeira vez uma expressão de franco desagrado. As bonitas sobrancelhas franzidas tornavam seu olhar intimidador, o suficiente para que meu coração disparasse em um misto de medo e ansiedade.

- O que a faz pensar que a ajudei por dinheiro? – O timbre rouco revelava certa hostilidade e meus olhos alargaram-se em espanto. Ele não queria dinheiro? Então, o que ele desejava em troca?

Encolhi-me, tremendo em puro pavor ao pensar o que ele esperava receber pelos cuidados prestados. Não tardou para que lembranças de mãos rudes sobre meu corpo invadissem minha mente e senti as lágrimas formarem-se em meus olhos de tal maneira que não conseguia contê-las! Era uma torrente dolorosa. Aquele pesadelo não teria chegado ao fim? Seria isso o que ele queria?

- Agradecer teria sido o suficiente. – Ele expressou sereno, mas as sobrancelhas mantinham-se franzidas sobre o olhar sério. Não precisa ficar apavorada. – Senti que me repreendia, mas a voz era suave. Você está segura aqui.

E antes que quaisquer palavras pudessem soar pelos meus lábios, ele saiu deixando-me sozinha. Tentei controlar minhas emoções, respirando fundo para que minhas lágrimas cessassem, e notei que para chorar daquela maneira devia estar, ainda, muito abalada.

Eu não era tola em pensar que o ocorrido há dois dias havia sido um sonho. Era capaz de sentir, sob a veste protetora, que não havia me recuperado totalmente da violência sofrida. A dor estava ali, mais tolerável. E as lembranças eram tão latentes que a face inexpressiva do meu pai parecia ter sido recém vista.

Afastei as cobertas e levantei-me com um pouco de dificuldade, deixando meu corpo habituar-se com as dores. A yukata azul-marinho que vestia não era a minha, pois o tecido macio que deslizou sobre meu corpo não lembrava em nada os farrapos que vestia antes. Ignorei o fato e alonguei o tronco, observando o quarto simples onde estava. As paredes eram de papel de arroz e a luminosidade as atravessava em um tom dourado, deixando o ambiente caloroso. Uma mesa baixa estava na lateral esquerda, quase ao lado da única porta, e havia outro futon ao lado direito, um pouco distante de onde estive deitada. Uma cômoda simples ocupava outra parede.

Aproximei-me da porta diante da qual havia uma aconchegante varanda. A paisagem era um quintal banhado sob o sol poente, onde as flores balançavam com a brisa suave. Inspirei o ar lentamente e fechei as pálpebras para senti-lo contra o meu rosto, penetrando sob meu pescoço enquanto meus cabelos dançavam na mesma melodia que as flores.

A paz daquele momento fez meu coração se acalmar e meus ombros tensos relaxarem. Céus, quando me tornei tão atormentada?

- É uma bela vista. – A voz grave soou ao meu lado e novamente sobressaltei-me pelo susto. Seu jantar. – O rapaz de longos cabelos pretos explicou, erguendo minimamente a bandeja que carregava. Logo entrou no quarto e o segui receosa.

- Onde estou? – Questionei ajoelhando-me diante da bandeja que continha uma tigela de sopa e um copo de madeira com chá. Pousei meus olhos sobre os dele, notando a ausência do brilho malicioso com o que estava acostumada. Havia apenas uma densa serenidade.

-Esta é a casa de meu Mestre. – Ele respondeu, sentando-se à minha frente com as pernas cruzadas e a postura ereta, lembrando-me os nobres que observava para aplicar golpes.

- Agradeço o que fez por mim. – Afirmei respeitosamente, inclinando meu corpo em uma mesura cortês.

- Coma. – A voz rouca ordenou e ignorei o leve tom de desagrado. Envolvi a tigela entre meus dedos finos e servi-me da sopa com uma generosa colherada. Estava tão saborosa que precisei conter o suspiro de contentamento para não soar indelicada. Tenho algumas perguntas, se não se importa.

Interrompi o novo trajeto da colher aos lábios e o fitei intensamente, procurando vestígios de preconceito. Sabia que este momento chegaria e não poderia negar a um benfeitor respostas merecidas. Quando comprovasse que sou uma Iketsu, provavelmente me quereria longe.

Assenti, voltando a saborear a sopa apesar do estômago comprimido com a ansiedade.

- Tem para onde ir? – Quase cuspi o alimento e o encarei com o cenho franzido em confusão. Geralmente, esta não é a primeira pergunta a ser feita para um estranho.

- Não. – Respondi, um pouco baixo. Nunca tive. – Completei com naturalidade.

- Sabe cozinhar e cuidar de afazeres domésticos? – A pergunta soou séria, mas os orbes púrpuras continuaram serenos. Assenti, ainda mirando-o confusa. Conversei com meu Mestre e poderá ficar enquanto cuidar da casa e cozinhar.

Certo, esta era a comprovação de que o rapaz à minha frente realmente não sabia qual era a minha origem. Afinal, dispor-se a acolher uma estranha, sem sequer perguntar o que houve ou quais suas intenções, representava ingenuidade.

Se ainda tivesse malícia em seus olhos serenos ou avareza em seus cuidados, poderia mentir ser apenas uma forasteira e aceitar sua oferta. Não é como se tivesse outras opções. Especialmente com um estuprador à espreita, com quem poderia acabar me encontrando ao sair de Tama.

Mas, ele não merecia mentiras. Ele, que me ajudara de maneira tão atenciosa, não merecia ser enganado. Ele era honrado demais para trazer à casa de seu Mestre alguém da minha estirpe.

- Não posso aceitar. – E com estas palavras, alheia à expressão descontente, levantei-me pronta para partir. Onde estão minhas roupas?

- Você não é obrigada a aceitar. – A afirmativa soou seca. No entanto, é obrigada a permanecer até estar totalmente recuperada.

Ajoelhei-me à sua frente novamente, fixando meus olhos sobre os seus em desafio. Ele sequer manifestou desconforto quando franzi minhas sobrancelhas e cerrei a mandíbula em uma expressão ameaçadora.

- Sabe quem sou? – Questionei quase em um silvo.

- Não. – A resposta soou tão tranquila que me senti ofendida. Mas, cuidei dos seus ferimentos e sei que não estão curados. – As bonitas sobrancelhas franziram-se e a voz tornou-se imponente ao completar: – Está sob minha responsabilidade.

- Sou sua prisioneira? – Havia certo sarcasmo em minha voz. Se soubesse das habilidades de um Iketsu, descobriria ser necessário muito mais para me manter presa.

Ele sorriu em resposta, desarmando minhas resistências ao som breve que soou pelos seus lábios. Suas expressões eram tão límpidas, isentas de ganância e avidez por poder, que se tornava impossível não o admirar.

- Não a vejo como prisioneira, mas sei que demonstrará sua gratidão aceitando ficar até estar recuperada. – Senti uma tênue manipulação sob as palavras e odiei meu orgulho por não permitir que minhas pernas me levassem porta afora. Não desejava partir em débito com aquele rapaz e por isso – apenas por isso – apanhei o copo de chá com um sorriso forçado e o elevei como um brinde, demonstrando minha decisão final.

Ao vê-lo sorrir satisfeito, no entanto, não foi possível ignorar meu coração disparado e meu rosto quente. Sorvi o sabor amargo do chá, rezando internamente para que nada além de orgulho me mantivesse ao lado dele.


- Poderá ficar enquanto se recupera.– A voz imponente irrompeu o ambiente silencioso, fazendo-me crer não haver no mundo uma autoridade maior do que aquele homem. Depois, se decidir permanecer, deverá cumprir com as tarefas domésticas.

Assenti, inclinando-me em reverência à figura masculina. O Mestre da casa era um senhor austero, que imanava força e virilidade. Os longos cabelos prateados e as expressões profundas na face demarcavam a sabedoria do tempo, mas a musculatura ereta e torneada davam-lhe ar de jovialidade. Era impossível não obedecer àquele homem, pois quando suas esferas negras pousavam sobre meu rosto, havia uma densa sensação de que ele poderia ler meus pensamentos mais íntimos. Eram orbes analíticos demais, fazendo-me cerrar os punhos para não expressar meu incômodo.

- Obrigada, Mestre. Respondi encarando-o com altivez dissimulada.

Podia sentir às minhas costas dois pares de olhos acompanhando a cena, pois sabia que o rapaz que me ajudara estava acompanhado por outro que ainda não havia conhecido. Provavelmente aguardavam o momento em que deixaria meu orgulho e curvaria minha cabeça em humildade. A verdade é que não queria conceder àquele homem a oportunidade de ver-me sujeita à sua autoridade, muito embora já estivesse. Era um desafio tolo, mas algo me dizia ser necessário mostrar-lhe que não acolhera uma frágil adolescente.

Suas próximas palavras, porém, foram ferinas:

- Conheço sua linhagem. – Enrijeci àquela afirmativa. Qual o seu nome?

- Nayla. – Minha voz soou fria, antecipando o término daquela conversa. Não tenho intenções vis.

- Não parece ter... – Ele afirmou, inclinando-se minimamente com as grossas sobrancelhas grisalhas franzidas. Ainda.

Engoli em seco aquela acusação, sentindo meu coração disparar ao corpo uma densa adrenalina. Cerrei os punhos e inalei o ar com lentidão, para que minha voz soasse controlada:

- Assumo a responsabilidade sobre quaisquer delitos que possam surgir, Mestre.– A voz, no entanto, não era a minha. Voltei-me aturdida para o rapaz que me ajudara, encarando as esferas púrpuras que ostentavam um brilho decidido ao seu Mestre.

- Toshizou, sabe o que está fazendo? – O tom desaprovador era intenso. Não terei piedade em infringir sobre você as penalidades. – Fremi com a tênue ameaça, mas o rapaz que somente então descobri o nome não demonstrou qualquer hesitação.

- Se for assim, também me responsabilizo por essa criança. – A afirmativa soou do rapaz ao seu lado. Observei seus cabelos pretos e curtos, arrepiados de maneira desalinhada. Toshi não agiria desta forma com alguém que não merecesse um voto de confiança.

O que estava acontecendo? Nunca, em meus sonhos mais loucos, duas pessoas ousariam colocar-se à frente em defesa da minha dignidade. Aqueles dois tinham entre si uma aliança intangível e admirável. Amizade e honra pareciam palavras apropriadas para descrevê-los. E não caberia a mim a culpa por destruí-las.

- Não necessidade disto. – Minha voz soou baixa e trêmula, incapaz de esconder a emoção por ter sido acreditada. Parto ao nascer do sol.

- Não seja ingrata, Iketsu! – A represália foi tão profunda que me sobressaltei. Os negros do Mestre pareciam perfurar meus orbes claros quando sua voz elevou alguns decibéis: Meus dois aprendizes deram suas palavras! – Fitei o chão polido à minha frente, culpada. Honre-as! – A ordem na voz rouca feria meus ouvidos e senti-me pequena, sem forças para contestar.

Obriguei-me a respirar e voltei a encará-lo. Não era a ele, no entanto, a quem devia ser fiel. Eram aos dois rapazes interessados em minha proteção. Eram aos dois aprendizes que haviam desafiado seu Mestre e colocado sobre seus ombros a responsabilidade por uma estranha.

Eu os fitei demoradamente, séria e inexpressiva, escondendo em meu interior o sangue quente que corria em meu corpo em ritmo acelerado. As esferas púrpuras e castanhas aguardavam minha reação.

- Não entendo a razão para desejarem me ajudar.Comecei, incerta do que dizer realmente. – Não quero causar problemas a ninguém. – Afirmei, pousando brevemente meu olhar sobre o Mestre. No entanto, vocês se comprometeram e não posso tratar suas decisões com descaso. – Inspirei o ar e elevei minha cabeça, mantendo meu orgulho intacto. Sou Nayla, do clã Iketsu, e prometo não os desapontar. – Completei em uma mesura respeitosa.

Eu só não sabia se poderia realmente cumprir a promessa.


Os sons de respirações descompassadas e murmúrios abafados eram comuns ao amanhecer. Os treinos do Mestre eram mesmo intensos e áridos, exigindo o máximo de seus dois únicos aprendizes.

Já haviam se passado três dias desde a fatídica reunião. Descobri que o rapaz de longos cabelos negros e olhos incomuns era Hijikata Toshizou, mas não nos falamos o suficiente para conhecê-lo melhor. O outro, seu companheiro, era Isami Kondou, um pouco mais velho aparentemente e, também, mais flexível e espontâneo.

Meu corpo estava quase recuperado, restando apenas algumas dores incômodas em grandes hematomas no interior das coxas e sobre o supercílio um corte superficial que doía somente ao ser tocado. Nada que me impedisse de partir como devia. Seria fácil dizer estar totalmente recuperada, pois as vestes escondiam as agressões.

Observei o treino da tarde como se fosse o último, analisando os movimentos firmes e mortais que o Mestre ensinara, executados por seus aprendizes com precisão. Algo em meu interior aquecia ao vê-los daquela maneira, empenhados e concentrados. Era como se soubesse que um dia seriam grandes homens e utilizariam de sua força para proteger a honra das pessoas. Não seriam corrompidos pelos desejos e teriam uma vida de retidão.

Provavelmente, um dia, liderariam outros homens e os ensinariam a seguir da mesma maneira, com orgulho estampado em suas faces. Com a honra de serem verdadeiros guerreiros.

Eu gostaria de viver a era de paz que eles trariam.

- O caminho para ser justo exige disciplina. – A voz profunda e rouca do Mestre atraiu minha atenção. Ele estava ao meu lado, fitando-me com negros severos. Não atrapalhe.

Entendi a afirmativa e me retirei. Se pudesse desejar algo àqueles dois rapazes seria que nunca tivessem o humor de seu Mestre. No entanto, era clara a preocupação daquele senhor com seus aprendizes. A intrusa e potencial ladra era eu. Não poderia condená-lo por suas atitudes e por seu anseio em ver-me longe de sua casa. Ele tinha algo valioso entre aquelas paredes, naquele quintal de flores silvestres, que devia ser preservado. Algo que nunca poderia ser vendido ou corrompido.

Ele tinha o espírito guerreiro sendo lapidado e corações de futuros espadachins brilhantes tornando-se cada vez mais nobres.

Aquele lugar não me pertencia. Não poderia permanecer e colocar em risco aquela riqueza. Antes que a retidão daqueles rapazes fosse desvirtuada pela minha presença, eu devia partir.

- Então, Toshi perdeu feio, Nayla-chan! – A voz engrolada expressou contente e contive minha vontade de rir ao ver vários grãos de arroz saltarem dos lábios abertos. Estávamos jantando e naquela noite o Mestre não nos acompanhou.

- Coma de boca fechada. – Exigiu Hijikata sem olhá-lo, visivelmente contrariado por ter perdido durante o treino.

- Está de mau-humor porque não me derrotou! – Kondou voltou a falar levando outro onigiri à boca. Sua frustração não me atinge. – Completou rindo da expressão mortal do amigo.

Aqueles dois eram mesmo engraçados. Enquanto Kondou era espontâneo e alegre, Hijikata era sério e silencioso. E mesmo assim havia uma comunicação ímpar entre os dois, uma cumplicidade que os tornava legíveis um ao outro, uma irmandade isenta de interesses egoístas. Vê-los me aquecia por dentro e reacendia minhas esperanças.

- O que foi, Nayla-chan? – A voz grave de Kondou tornou-se subitamente séria e o olhar de ambos emanava preocupação.

Aquela era minha oportunidade para dizer que partiria na mesma noite. Era minha oportunidade para agradecê-los por tudo e desejar que continuassem seus caminhos com perseverança.

Mas...

Não pude.

Não tinha o direito de estragar um jantar tão amigável com um assunto tão tolo. Quando se dessem conta, já estaria longe.

- Hm? – Fingi-me distraída. estava pensando que a amizade entre vocês é admirável.

Kondou sorriu levando uma das mãos aos cabelos desalinhados. Os orbes castanhos eram calorosos e quase se fechavam pelo movimento de suas bochechas. Ele era tão autêntico.

Hijikata, por sua vez, apenas franziu as sobrancelhas e voltou a comer. Eu sabia que era sua maneira de expressar concordância, pois suas palavras era audíveis somente se necessário. Apesar dos poucos dias de convívio, aos meus olhos treinados seus gestos discretos ganhavam significados.

- Vou me retirar. – Levantei-me sob protestos de Kondou, mas apenas sorri em resposta. Seria doloroso guardar mais lembranças. Talvez esta fosse a primeira vez em que me sentia respeitada por alguém além do meu avô.

No quarto, sentei-me sobre o futon no escuro, observando o luar atravessar as paredes de papel. Sentiria falta daquele quarto. Apesar de muito masculino, por um tempo também foi meu. Para que me sentisse mais à vontade, Hijikata passou a dormir no mesmo quarto que o Kondou, mas voltava para pegar pertences pessoais ou estudar. Por isso, aguardava à espreita o momento ideal para partir.

Algumas horas depois, o ronco de Kondou foi o sinal. Levantei-me silenciosa e alisei amassados invisíveis na yukata azul-marinho de tecido suave. Infelizmente, teria que levá-la porque minhas próprias vestes haviam ido para o lixo. Não me atrevi a pegar nada além da pouca roupa no corpo, apenas para que o Mestre não tivesse motivos para punir seus aprendizes.

Cuidadosamente abri a única porta e senti o frio noturno contra minha pele exposta. Ignorando o desconforto, dei um passo à frente, o primeiro de muitos, mas o único naquele momento. Meu corpo foi envolvido por mãos ágeis que seguraram meus pulsos e arrastaram-me novamente para o interior do quarto. Com apenas um movimento, já estava sentada sobre o futon, à frente de uma sombra alta.

Eu conhecia aquele corpo. Eu conhecia, especialmente, aquela postura. Hijikata estava com os braços cruzados em uma pose estóica e sob o luar seus traços pareciam ameaçadores. As sobrancelhas perfeitas e franzidas, os orbes púpuras e brilhantes, a vestimenta impecável de tom preto, formavam um conjunto que eliciou todos os meus instintos de sobrevivência.

- Então...? – Ele exigiu, controlado.

- É o que está pensando. – Respondi mantendo minha aparente calma. Estou partindo, Hijikata-san. Meus ferimentos es-

- Seus ferimentos não estão curados. – O tom intimidante cortou. Você ainda sente dores.

Ele era mesmo ousado em tentar adivinhar o que sentia. Apesar de ser verdade, a dor não me impediria de andar ou trabalhar. Isso era ridículo.

- Não sinto. – Respondi em um ímpeto de raiva.

Hijikata ajoelhou-se e o movimento deixou-o próximo demais. Eu podia sentir o calor do seu corpo e a respiração compassada sobre minha face, deixando-me tonta com o cheiro amadeirado da pele masculina. A mão grande e áspera tocou meu rosto, movendo-se lentamente em uma carícia quente. Então, ele pressionou meu supercílio e me vi empurrando-o em uma resposta impulsiva.

A dor fez a região latejar em protesto.

- Ai... – Murmurei em desagrado, colocando minha própria mão gelada sobre o corte.

- Viu? – Ele questionou em tom acusador, mas seus orbes estavam mais brilhantes do que nunca. Não deixarei que embora, ainda.

Meu coração permanecia frenético com a recém experiência, mas a frustração por ser um simples teste me deixou com raiva. O que estava esperando? Que alguém como o Hijikata sentisse algo por mim?

- Por que deseja me manter por perto? – Perguntei com meu orgulho em cacos. Está com peso na consciência? fez sua caridade ao me ajudar, Hijkata-san!

Senti dor ao ter minhas costas lançadas contra o futon em um gesto brusco. Meus pulsos foram envolvidos pelas mãos do Hijikata e seu rosto severo estava próximo novamente. As esferas púrpuras pareciam intensas enquanto miravam meus olhos e minha respiração resfolegada fazia com que meus seios se pressionassem contra o torso masculino.

Repentinamente, a sensação de conhecida impotência invadiu meu corpo e as lágrimas surgiram com lembranças dolorosas. Eu queria me debater, queria simplesmente tirá-lo de cima de mim, mas só consegui me manter estática enquanto as lágrimas saltavam dos meus olhos.

- Não...Pedi estupidamente. Eu sabia que Hijikata não faria nada, mas aquela aproximação repentina me feria. Afogava-me em lembranças que desejava esquecer. Eu só queria interrompê-las.

Ele soltou meus pulsos e abraçou-me elevando meu corpo até que minha cabeça repousasse em seu peito. Suas mãos faziam movimentos cadenciados em minhas costas, firmes, como se desejassem consolar meu pranto. Inalei o perfume amadeirado e antes que pudesse me deter retribuí o abraço com desespero, pressionando meu corpo ao dele como se faz com um bote de salva vidas em meio a uma tempestade marítima. Eu sabia que minhas lágrimas eram resultado de anos sem permitir a expressão de minha dor. Elas revelavam o quão fraca e idiota era. O quão inúteis haviam sido as minhas mentiras para manter meu orgulho e dignidade. Não havia por que me orgulhar.

- Acalme-se. – A voz sussurrada ao meu ouvido foi como uma onda suave, envolvendo meu interior. Ficará tudo bem. – Funguei, sentindo esperança naquelas palavras. Hijikata despertava em mim uma perigosa segurança.

Aos poucos minha respiração sincronizou-se com a dele e pela proximidade dos corpos pude sentir o ritmo sereno do seu coração. Uma melodia tranquilizante.

- Vamos cuidar de todos os seus ferimentos. – Foram suas últimas palavras naquela noite.

Eu nunca tive tamanha certeza de que o coração do Hijikata possuía um ritmo único.

Continua…


Olá, pessoal!

Desculpem a mega demora em atualizar "Confissões", mas espero que o capítulo tenha valido a pena (rs).

Agradeço a Nathalia Cheron pelo comentário LINDO! *-* Obrigada, flor!

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Estou curiosa para saber o que acharam deste capítulo…

Hm, Hijikata-fofo-kun é sempre tão honrado, tão viril, tão*baba litros* Mas, a função dele na vida da Nayla é muito mais importante.

Ele apresentará a ela ser possível, ainda, acreditar no valor humano.

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Então, O QUE VOCÊS ACHARAM? =D

Espero que não esteja chato… *cora* Quero agradecer à linda L. Cherry por aprovar o capítulo, já que envolve o gost… *cof cof* O Hijikata. ^^'

Beijo carinhoso =*