N/A: oi! vou dizer agora quem canta as músicas q vou citar no cap, pra quem sabe se vcs quiserem ouvir e tal. eu recomendo q ouçam pelo menos Harvest Moon, do Neil Young, e bem no comecinho, a Highway mesmo. Danny boy é do Johnny Cash. Beautiful Girl tem a versão do Paulo Ricardo, não sei se a música é dele. e não sei se é antiga e tal... acho q é só, se eu esquecer alguma e vcs se interessarem, é só perguntar!!

Capítulo 2. Primeiro dia de viagem

"Não queremos

Ter o que não temos

Nós só queremos viver

Sem motivos, nem objetivos

Estamos vivos e isto é tudo"

O tapete cinzento da estrada se arrastava à frente e atrás, e dos lados viam-se os campos verde-oliva, de poucas árvores, e várias plantações de pequeninas flores brancas. No rádio tocava qualquer coisa dos Beatles. No banco ao lado Marlene descansava a cabeça pendida para um lado e as pernas compridas se encolhiam sobre o banco. O Sol iria se pôr a qualquer momento.

-- Sirius, eu sinto muito – Falou a garota em tom de imploração -, mas eu realmente preciso ir ao banheiro.

-- De novo? - Suspirou o jovem, jogando com uma das mãos os cabelos extremamente negros para trás. Sentiu que ela o olhava aflita. - Tudo bem, acho que tem um posto logo em frente.

Marlene se espantou. - Só isso? Não vai começar as ameaças de me privar de água ou coisa assim? - Estava para anoitecer no primeiro dia de viagem dos dois e o que mais acontecera até ali fora uma Marlene reclamando por um banheiro e Sirius resmungando contrafeito com o tamanho da bexiga feminina.

Ele a olhou divertido. - Tô com fome. - Disse parando o carro e justificando a falta de reclamação.

Ele a olhou rir, enquanto estacionava o carro. Estava tão diferente assim, sem o mau humor. Parecia... Lembrava alguém que ele conhecia... Provavelmente ela mesma quando era criança.

-- O que tá olhando? - Ela perguntou de cenho franzido, desfazendo o sorriso e ajeitando a densa cabeleira castanho-clara para trás das orelhas.

-- Nada. - Respondeu tirando as chaves do carro e abrindo a porta.

Saíram do carro juntos. A essa altura, ele já desistira de tentar abrir ou fechar qualquer que fosse a porta para ela.

Ela seguiu direto para o banheiro, e ele foi em direção à lanchonete.


Sirius estava sentado a uma mesa mais ao fundo, apoiava a cadeira nos pés de trás e lia um cardápio de aspecto velho.

-- Eles têm macarronada! - Disse-lhe como se fosse a coisa mais incrível do mundo. Ela riu. Não se lembrava daquele sorriso bobo dele. Era realmente bonito.

-- O que tá olhando? - Ele perguntou, ela se sentava e acenou com o rosto como quem diz "nada".


Ela sugeriu que estendessem uma manta em algum lugar mais para frente naquele campo, e sentassem-se para descansar; ele havia dirigido o dia inteiro, e comera demais.

-- Você pode dirigir, então. - Ele disse, porém rodeando o carro até o porta-malas e tirando de lá uma manta escura.

-- Tô com um pouco de sono.

-- É. Com o tanto que você comeu...

Ela riu e andou até ele, fitando o céu. Parecia de fato um pouco sonolenta, naquele piscar lento de olhos.

-- Tá me chamando de gorda? - Ela o olhou repentina e fingidamente ameaçadora, com seus olhões abertos e os punhos fechados, talvez pensando em imitar uma patricinha qualquer.

Ele riu. Pensou no quanto ela era diferente das outras garotas. Ela era... esperta, por falta de palavra melhor. Sirius deixou-se passar os olhos pelo corpo dela, parecia bonita por baixo daquela camiseta não-estou-nem-aí.

-- Não. Até que você faz o meu tipo. - Ele disse, acostumado a dizer.

Ela lhe lançou um breve olhar irritadiço, estava um pouco corada.

-- Então decidido – Disse, não estava mais olhando em seus olhos. - Vamos descansar. - Parecia desconfortável, com certeza notara o olhar de Sirius sobre seu corpo e prefirira ignorar.

Ele entregou o tecido para as mãos de dedos compridos e finos dela, e logo estavam sentados, lado a lado, sob um céu quase escuro. Um silêncio desconfortável se instalou por uns segundos.

-- Você se zanga quando cantam você. - Ele disse de repente, descobrindo não ter vergonha de conversar o que fosse com ela. Ela virou o rosto rápido para ele, os lábios entreabertos e os olhos confusos. - Me lembrei agora de que você sempre foi assim. Quero dizer, quando éramos crianças...

-- Me zanguei porque você me cantou. Não generalize. - Ela disse, ácida.

-- Não foi sério.

-- Eu sei. - Apressou-se em esclarescer.

-- Foi uma brincadeira.

-- Eu sei, Black. - Olhou-o fundo, e aquela mescla de displicência e ironia no rosto dele a fez disparar: - Fico irritada porque sei que você faz isso com qualquer uma, e eu não sou qualquer uma! É justamente o que eu não quero, esse tratamento artificial, essa merda de dar em cima só pra praticar sua auto-estima. Odeio isso! E você não vai fazer isso comigo. Ninguém vai. Você também tá fugindo daquilo! Não foi por isso que fugimos? Pra sair daquela droga de sequência de fingimentos-

-- Ei! Calma! - Ele disse, assustado com a reação dela. Era um tanto traumatizada essa garota, pensou. Ela estava vermelha de irritação. - Por que isso revolta tanto você?

Ela respirou fundo.

-- Esquece isso. - Disse de mau humor. - Foi só um... ataque.

-- Ok. - Respondeu, fazendo força para não rir.

Ela fechou os olhos e respirou fundo de novo, Sirius ainda a estava olhando, ela via pelo canto do olho.

-- Escuta, eu não vou explodir nem nada. Dá pra parar de me olhar?

Sirius desviou o rosto. Ela olhou para a estrada vazia mais adiante.

-- Agora entendo por que você tomou aqueles porres loucos na casa do Frank. - A voz rouca dele disse novamente. Ela o fitou já sentindo o sangue esquentar. - Você realmente não gosta daquilo.

-- Não, não gosto. Agora dá pra parar de tentar analisar minha cabeça?

-- Ah, qual é. Você faz o mesmo comigo, sem nem perceber.

-- Claro que não.

-- Aposto como todo mundo diz a você que tem que ser mais... gentil, que deveria gostar mais das pessoas ao seu redor. Pois todo mundo vem me dizer, com muita certeza a respeito da minha vida – Ele inseriu mais rouco -, que eu deveria valorizar as garotas, que deveria gostar, de uma só. Eles não fazem idéia do que se passa. Saem dizendo que dou em cima de todas.

-- E é verdade! - Marlene o olhou como se aquilo fosse irritantemente óbvio.

-- Não importa. É disso que a gente tá fugindo, lembra?

Ela o mirou analítica.

-- Então não carregue junto com a gente toda aquela merda! - Disse, e ele sabia que isso significava "não me trate como mais uma das suas".

-- Ok! Parei! Mas você tem que parar de achar que vou te tratar com fingimento, porque eu não tô fazendo isso.

Eles se olharam em silêncio por um tempo, até que o acordo subliminar fosse fechado.

-- Não sou tão ruim quanto você pensa, Marlene. - Ele lhe disse, a voz ainda mais grave que o normal.

Marlene sentiu um pouco de culpa. A verdade é que ele havia feito muito quando sugeriu essa fuga. Muita mais do que ele poderia imaginar.

-- Sirius... eu... Eu tô, quero dizer, que bom que... - Ela mordeu os lábios e suspirou, tentando organizar as palavras. - Queria dizer que fico muito contente por você estar aqui. Por ter aceitado fugir comigo, saca? - E olha-o meio sem jeito, depois volta a encarar a estrada.

-- Fui eu que sugeri a fuga. - Ele disse. Era a verdade.

-- Eu sei, mas... Era o que eu queria, de verdade.

Olhou-o novamente, parecendo realmente grata por ele estar ali. E o viu sorrir, como se a entendesse.

Ambos, então, fitam a estrada e, por um tempo, todo o som que ouvem é o vento na copa das árvores e a respiração um do outro.

-- Eu afanei um vinho lá de casa. - Ele de repente se ergueu.

Voltou do carro com uma garrafa e um violão.


Ele parecia brincar com as cordas do vilão em seu colo, as mãos e os dedos ágeis pareciam pesados, mas o som era perfeito. Ela sorria para o modo como ele parecia ter total intimidade com o violão posto sobre suas pernas cruzadas.

--But cooome ye BAAAAAAAAAAAAAAAACK... when SUMMER'S in the meeeaaaadow!! - Ele cantava alto, sua voz muito rouca e alterada pelo álcool falhando tanto que ele interrompeu a música e parou de tocar, postando o violão a seu lado.

Marlene tentava não se engasgar com o gole que acabara de dar do vinho que segurava numa das mãos, pois o último vocal de Sirius fora ainda mais engraçado do que os outros, em que ele cantava, dramaticamente, "Danny boy".

--Chega, acho que assustei os animais agora. - Ele encerrou brincalhão.

Ela deu uma gargalhada para as estrelas daquele céu sem lua, longe de qualquer luz artificial, no meio do nada. Ao seu redor, só o campo e algumas plantações de canola. Mais adiante, a estrada.

--Que bom que você ainda toca. Achei que não passaria de "Beuatiful Girl". - Ela disse rindo-se, lembrando de Sirius aos 12 anos com o violão no colo, tocando pela milésima vez aquela mesma música.

--Eu sempre fui bom com o violão. - Ele disse tomando a garrafa das mãos dela. Viu-a revirar os olhos. - É sério. Só tocava aquela música pra te irritar.

--Acredito. - Ela disse, tentando tomar novamente o vinho das mãos dele.

Ele pegou o violão de volta.

--Lembra aquela música que seu pai ouvia o dia todo na Biblioteca da sua casa?

--Acho que sim.

--Eu aprendi a tocar.

Ele pousou os dedos pálidos e nodosos nas cordas, e os primeiros tão conhecidos acordes de "Harvest Moon" soaram. Ela teve a impressão de sentir a mesma brisa morna que às vezes sentia nas noites de verão mal dormidas, em que ficavam até tarde sentados no parapeito da janela da biblioteca, tentando aproveitar ao máximo o raro calor de Lowaytown.

Gostava da voz de Sirius naquela canção, e de como os lábios dele às vezes pareciam fendas macias num tom mais agudo, que só sabia sair mais rouco. Gostava de sentir os próprios dedos quentes por causa do vinho, de ver os dele em contato com as cordas, e de repente percebeu que há muito tempo não gostava de tantas coisas reais. E que, o mais estranho de tudo, é que logo ele estava ali, fazendo-a feliz como há muito tempo não se sentia.

Ele terminou a música dedilhando, o corpo curvando-se para o violão e os cabelos caindo por seu rosto. Olhou-a com um sorriso que a fez se lembrar da conversa de antes.

--Ok. Você sabe tocar. - Ela disse num tom arrogante de adolescente, mas com um sorriso meigo. Colocou os cabelos atrás das orelhas, as unhas pintadas de preto fazendo um contraste quase agressivo com a pele de seu rosto. Ela tinha o mesmo nariz um poquinho arrebiatado, ele viu agora.

--Sei desde aquela época. - Ele disse num meio-sorriso charmoso.

Ela pestanejou de um jeito lento, e tomou mais uns goles da garrafa de um jeito pensativo.

--Por que nos afastamos? - Perguntou, como se nunca tivessem antes tocado no assunto. Talvez o álcool desse um novo rumo, uma nova clareza.

Olharam-se analíticos por um tempo. Ele perguntou-se se ela o encarava tão diretamente pelo efeito do vinho ou se ainda era coisa dela, isso de olhar mesmo, sem receio.

--Bom, acho que não foi o lance com o Rem... - Ele começou. - Continuamos amigos depois daquilo.

Ela ergueu uma sobrancelha e desviou o olhar para o campo vasto a sua frente.

--Acho que foi o lance de você e do James ficarem chatos mesmo. - Ela o olhou de volta, aquele tom irônico pintando o rosto de um jeito que ele jamais vira outra garota se atrever a fazer.

Ele riu pelo nariz, num sorriso largo.

--Pode ter sido isso. - Disse e tomou generosos goles do vinho. - Às vezes me arrependo.

Ela brincava com algum fio na calça jeans, olhou-o com o rosto ainda abaixado, do exato modo que fazia quando criança.

--Na verdade, não penso muito sobre isso. Mas... me arrependi agora.

--De ter sido um adolescente chato esse tempo todo?

--De não ter passado mais tempo com você. - Ele respondeu, os olhos cinzentos numa seriedade tão singela e sincera que a fez corar e olhar para o próprio colo outra vez.

Ele riu baixo, achando graça dela.

--Você realmente tem medo de que eu dê em cima de você, McKinnon, não tem? - Ele se aproximou, apoiando os braços no chão e arrastando-se para perto. - Tem medo de não resistir?

Marlene respirou fundo, pronta para uma resposta azeda ou, se necessário, uns tapas. Mas quando olhou o rapaz a seu lado, viu o velho Sirius tentando provocá-la, com aquele seu sorriso maroto de anos.

--Idiota. - Resmungou.

--Sei que sou irresistível. - Ele continuou o diálogo que fantasiava para provocá-la.

--É verdade. - Ela o olhou fingidamente derrotada. - Não resisto. É só te olhar que quero te socar. - Completou, ácida.

Ele riu aquela risada que parecia um latido, e passou um braço em volta de seus ombros, olhando-a de perto numa sedução tão marota que ela mordeu os lábios para não rir. Mas acabou deixando-se rir.

Retirou o braço dele com certa graça, fazendo a volta por cima da própria cabeça. O movimento o fez sentir um cheiro que lhe remeteu tanta nostalgia e algo mais que não soube identificar, que o fez respirar fundo de repente. Sem perceber, apertou a mão que guiava a sua para longe dela. Não tinha a textura fina como a de Meg, comparou antes que pudesse entender.

--Handebol é um esporte violento para uma garota. - Disse, então.

Ela se surpreendeu um pouco, mas logo deu de ombros. Depois olhou as próprias mãos em sinal de entendimento.

--Ah. - Fez. - Sentiu, foi? Não é só o Handebol... Umas coisas no laboratório, sabe... Eu... - Ela parou de explicar. É que ele a olhava com um sorriso estranho no rosto. - Que foi?

--Você... é... Sei lá, muito diferente das outras garotas.

Por não saber como enteder aquela frase, cujo sentido das palavras eram confusos se relacionados com aquela expressão estranha no rosto dele, e por recear uma influência qualquer do vinho, Marlene desviou o olhar novamente para o campo.

--Pensei alto. - Ele pareceu se justificar.

Ela sorriu de cabeça baixa, como quem diz que está tudo bem.

E de repente jogou o corpo para trás, deitando-se e sentindo a relva afofar-se sob a manta, e enxergando um céu espetacular.

--A gente podia ficar aqui mesmo e continuar a viagem amanhã. Tô cansada.

--Beleza. - Ele respondeu olhando-a de cima.

--Não sei se você lembra, mas já fugimos de casa. - Ela disse, fazendo menção ao dia que dormiram na casinha que construíram com seus amigos, em cima de uma árvore no bosque perto do bairro.

--Eu lembro. - Ele respondeu, e olhou para o céu também.

--A gente dormiu contando as estrelas.

--Você tinha aquela mania... de tentar me convencer que ter nome de estrela era a coisa mais espetacular do mundo.

Ela riu, olhando de baixo; ele notou que os fios castanhos, sempre caídos bastamente ao lado do rosto, livraram seu pescoço.

--Você morria de raiva. Dizia que do jeito que eu falava, parecia coisa de menina.

Ele riu alto.

--Parecia mesmo.

--Bom, mas não tem jeito. É bonito.

Ele deitou-se a seu lado. Por um tempo ficaram quietos. Talvez fosse o vinho, mas viram-se a si mesmos ali, deitados lado a lado, e aquilo significava tanta coisa... As voltas na vida, os destinos, rumos diferentes; eles estavam longe e perto, atados e afastados... E lá em Lowaytown, a cidadezinha minúscula e conservadora que representava suas vidas, aquilo conseguia ser ainda mais confuso... Chegava a ser surreal, e o álcool a fez querer expressar isso. Marlene suspirou longamente.

--Sabe, não é como se eu quisesse mais da vida, não é que eu quero ter mais, ou ser mais... Eu... só... Só não tem razão de ser como é. Não tem sentido... Ou pelo menos eu não sinto isso.

Sirius virou o rosto por sobre a manta para olhá-la. Era o vinho que os aproximara tanto? Não podia ser, ele conhecia a bebida, conhecia seus efeitos fajuta e enganosamente profundos. Ele sentira mais agora.

--Parece que não adianta, não é? - Ele começou. - Nem droga, nem festa, nem garotas... - Ele franziu o cenho. - Isso distrai, mas... eu... Eu também não... sinto... - Ele suspirou. - Quase nada.

--É, e não quer dizer que a gente tenha uma vida ruim... ela só não faz sentido nenhum, parece apagada... Eu me sinto o tempo todo...

--Como se não fosse de Lowaytown, de lugar nenhum.

Ela o olhou também, um brilho dourado nos olhos castanhos.

--Como se eu estivesse esperando o dia de ir embora, e isso fosse...

--Achar esse lugar.

--É. - Ela acenou o rosto do jeito que dava, roçando o queixo na manta escura. - Eu me sinto perdida. Muito perdida. - E talvez aquela explosão de sinceridade não tivesse espaço em sua voz, não fosse o vinho e aquele céu.

Ele aproximou a mão da expressão tão sinceramente perdida, como se ela pedisse socorro.

Mas como se sentisse a aproximação e a temesse, Marlene voltou a olhar o céu, e Sirius estranhou a atitude que quase tomou como quem acorda de um sonho estranho.

Ela sentiu o braço dele se ajeitando a seu lado, e o roçar no seu próprio. Estranhou senti-lo com pêlos, porque parecia não tê-lo visto crescer; sempre acabava esperando que o Sirius moleque lhe desse um sorriso infantil, de rosto limpo, sem a barba que estava por fazer agora.

--Vocês ainda usam aqueles apelidos?

--Eu e Prongs? Às vezes.

Ela sorriu para as estrelas, gostava de saber que pelo menos algumas coisas duravam o que deveriam durar. Os dois sempre foram tão amigos...

--O Jim vai lá em casa às vezes, dizer como odeia as mulheres. - Ela lembrou, rindo. - Coincidentemente isso sempre acontece depois de uma daquelas brigas com a Lilly.

Sirius riu com vontade.

--Ela não ajuda também...

--Eles não se ajudam.

--É.

--Lilly às vezes concorda comigo, dizendo que um cara tira nossa liberdade, se a gente permite isso. Quero dizer, se nos casamos, ficamos noivas, essas coisas... - Sirius a olhou com o cenho franzido. - Mas, sabe, - Ela o olhou também. - Acho que de qualquer forma ela não é mais livre, pelo simples fato de amá-lo.

--Você também acha que ela o ama? - Ele perguntou sorrindo.

--Acho.

--E você acha isso falta de liberdade...? - As palavras dele não soaram como uma pergunta, mas como um incentivo a que ela continuasse a falar.

--É. Bom, olha o James. Ele não faz mais nada na vida sem pensar nela.

--É. - Ele confirmou, voltando a olhar o céu. - Mas às vezes me parece que ele não consegue controlar isso.

--Talvez conseguisse, se não tivesse deixado chegar ao ponto que chegou.

--Então você acha que as pessoas devem se controlar para não amar ninguém? - Ele a olhou com um sorriso irônico. - O Bone, então, não é nada?

Ela ergueu uma sobrancelha.

--Acho que eu quero continuar livre. Talvez vocês homens não percam tanto a liberdade, eu não sei. Mas a gente, nós mulheres, você não vê? Eu quero trabalhar, ter minha vida, parar de ouvir minha mãe encher o saco, mas sem ter que passar a ouvir um cara me enchendo o saco.

Sirius ficou quieto.

--Você não acha? - Ela perguntou.

--Acho. Acho que tira a liberdade, amar alguém assim. Sempre achei.

--Então a Meg não é nada?

Ele riu e a olhou.

--Você sabe. E eu sei o que o Bone é pra você. - Disse, só porque era a verdade. E talvez, outra vez, fosse culpa do vinho.

Encararam-se por um tempo. E um vento frio veio fazendo-se ouvir no movimento da relva e das poucas árvores ali perto, e no arrepio que ela sentiu.

--Você trouxe uma barraca pra dormir?

--Não.

--Bom, você tem o carro. Eu tenho minha barraca. - Disse meio zombeteira, e depois bocejou.

Ela tinha um jeito lento de piscar os olhos, e ele assistiu os cílios longos e curvados num movimento delicado até tocarem o rosto, e era bem como ela o fazia quando criança. Ela o olhou e de repente parecia exatamente o mesmo rosto de menina.

Marlene mirou a barba ainda não completa no rosto de Sirius. Podia ter mudado algumas feições, mas o jeito de olhar era o mesmo. Os mesmos olhos pequenos e difíceis de alcançar, como se estivessem mais escondidos que os outros. Profundos e cinzas, pareciam lhe contar alguma coisa. Ele franziu as sobrancelhas negras, parecendo tentar ler nos olhos dela o mesmo que ela tentava entender nos dele.

Ela entreabriu os lábios, estavam tão vermelhos, por causa do vinho provavelmente... Marlene sentia o cheiro que sabia ser dele, ainda era dele. Ela pestanejou daquele jeito lento outra vez, talvez tentasse acordar, talvez estivesse com sono.

Ele fez o movimento que ficara por fazer há pouco, e tocou com a ponta dos dedos o rosto dela. E por um momento ele viu seus dedos menores e o rosto dela mais infantil, e ela o viu sem barba e o nariz grande e viril, e sentiu-se uma menininha com seu amigo, no fundo do quintal.

Aproximaram os rostos, roçando-os na manta. E sentiram o toque dos lábios um do outro, naquele mesmo beijo infantil. Ele deslizou a mão até a nuca dela, e dessa vez seus dedos fizeram sentir a mão grande que ele tinha agora. Empurrou a boca com mais força contra a dela, e agora ela tinha lábios mais carnudos, e algum cheiro que o excitava.

Do mesmo modo, ela sentiu os fios grossos da barba arranharem seu rosto, e um calor que não era do fundo do quintal, que tarde de verão nenhuma causaria.

Separaram-se como que assustados. Viram-se aos 18 anos, e não aos 12. Marlene arregalou os olhos e virou-se para as estrelas outra vez, parecendo impressionada. Sirius também voltou a ficar de costas sobre a manta, e passou a mão nos cabelos, sentindo-se estranho.

--Não era pra isso... - Ela começou.

--É.

--Meu Deus, e você tem namorada.

--Você também.

--Vou pegar minha barraca.

--Tá. - Ele respondeu, viu-a levantar-se. O vento pareceu esfriar. O que fora aquilo? Sentiu-se por um segundo amarrado às lembranças, sentiu que sua vida era mais do que achava que sabia, que mantivera esquecida uma parte, que era a infância até ontem. E que agora, de repente, queria ser presente além de passado. Franziu o cenho para o céu. Seria tão estranho voltar para Lowaytown e encontrar tudo onde estava, era tão estranho o fato de Marlene ainda ser aquela menininha, só que crescida. Parecia que pensara que ela não existia mais...

--Vai dormir aí mesmo? - Ouviu-a dizer. Era quase a mesma voz.

--Não. Daqui a pouco vou pro carro. - Ele ergueu a mão num sinal qualquer, parecia a mesma mão...

Ela o viu sentar-se e puxar um cigarro enquanto arrumava sua barraca. E depois, já deitada, ela podia sentir o cheiro do fumo e um outro, que talvez tivesse ficado impregnado em sua pele quando ele a apertara contra a sua. Não era só o mesmo nome, cheiro e toque... Ele ainda estava lá... Sirius ainda estava lá, e morava na casa ao lado. Tudo mudara e, no entanto, eram as mesmas pessoas. Sentiu um calafrio ao pensar em voltar para Lowaytown.

Talvez o fato de terem se afastado fosse a melhor coisa em sua vida. Aqueles beijinhos de fundo de quintal poderiam ter significado sua prisão. De certa forma, crescer então fora bom. E não seria agora que perderia essa liberdade, essa falta de amarras, logo agora que conseguira fugir. Ela estava bem, assim, como estava. O que menos precisava era de algo que a prendesse... Fosse uma idéia, uma esperança, um sentimento... Ela precisava ser livre disso.


N/A: deixem sua opinião, hein!! q isso ajuda demais, sério mesmo!!

muuuiiinnto obrigada pelas reviews! além de darem felicidade, dão conselhos! ^^

espero q gostem do cap!!

bjus!

(recadinho pra quem lê CD: nesse feriado vou ter tempo de digitar, me perdoem pela demora tá! loguinho tem cap novo!)