Ele não entendeu o que ela disse, mas sabia que era algum tipo de língua estrangeira muito estranha. E macabra. Ela tinha os olhos pretos desbotados e só faltaria uma ave empenada em sua cabeça para formar a espécie perfeita de visão em um circo de terror.
Sim, ele estava com medo. E a estátua de cera falante não ajudava em nada.
Passando entre os corredores estreitos e mofados, sentido como se os pés a cada momento afundariam no chão gasto e morreria prensado pelas milhares de vigas que sustentavam o cenário, ele apertou um lado do suspensório nos dedos trêmulos e sentiu seu pai desconfortável atrás de si. Desconfortável, era, sem dúvida, a descrição perfeita da Casa Assombrada, do Museu de Cera e dos seus indesejáveis habitantes inanimados e dos pedestres que passavam por seus rostos pálidos. Não era realmente nada bom de se visitar, mas o garoto controlou-se o máximo possível para não sair correndo feito um louco.
Afinal, a idéia fora dele. Arcasse com as conseqüências, pois então.
Mas não, seriamente, o Homem Empalhado pela Guerra não animava seu espírito encorajador. Mesmo de cera, ele não deveria olhá-lo daquela forma tão grotesca e odiosa que achou que por pouco ele não cerraria seu pescoço . As mãos afiadas e compridas da Mãe não eram nada maternas e finalmente, com um alívio que chegou a quase quebrar suas costelas, ele saiu dali.
Um risinho abafado e ele sentiu a peito do pai nas costas. Havia esbarrado em alguém. Parou imediatamente e pediu apressadas desculpas, para quem quer que fosse a sua frente. Por um momento, talvez pensou que os olhos cinzentos que logo se desviaram dos seus eram vagamente familiares.
Mas ela falou e toda semelhança foi-se, como folhas num vendaval.
- Cuidado – grunhiu a moça com irritação, desviando dele e desaparecendo entre a figura pálida mas ainda assustadora do Homem Empalhado pela Guerra e a silhueta nada feminina da mulher que deveria ter um pássaro no chapéu.
Um dos maiores divertimentos de pessoas geralmente normais é expirar num dia gélido. A fumaça que escapa da boca nos faz imaginarmos como locomotivas ambulantes: Mas sem o PIII. Brincadeiras a parte, que é legal é sim. Eu também gostava de fazer o mesmo.
Mas tudo que saí agora de meus lábios é um fino rio vermelho, e meu coração congela. Meus pulmões não têm mais força. Até meus olhos, sempre perceptivos, não prestariam atenção. Estou cansado. As forças se esvaem, e a morte deita sobre mim.
Um único dedo meu está tremendo. O resto do corpo está inerte. Não sinto mais frio, não mais. Meu coração, ponto solitário na minha carcaça, bate em desespero inútil. Uma mosca na teia de uma grande aranha há de ter mais chances.
Tem um olho me encarando, atrás de mim. Mesmo impossibilitado de afastar-me dele, estou incomodado. Ele me encara como se eu fosse uma espécime de grande valor monetário, os orbes arregalados de tal jeito que qualquer pobre ficaria diante de uma pilha de ouro. E ele não pisca. Jamais. Esse tempo todo que o olho, ele me vê num olhar eterno.
Agonizando, preso, ainda há mais isso. A boca dele sorri. Ele ainda me olha. Horas depois, dias depois, ele me olha. E sorri. Sempre sorri. Os lábios num esgar eterno.
Quero morrer, mas não posso me mover. E ele ainda me olha. Sempre, sempre. Estou repetitivo, mas não tem mais nada para eu acrescentar. O olhar nunca muda, nem o sorriso. Nem um centímetro. O olho dele, diferente de dois dias atrás, agora está com uma película cinzenta. As lágrimas secaram e seus olhos estão murchos.
Ele está morto, mas me olha como se não. Ele diz: "Você vai ficar assim".
Como se eu não soubesse. 6 dias aqui. A vida me esvaí rindo da minha cara, numa lentidão irônica. Claro, para eu quase morrer é rápido. Mas para meu sangue parar de correr há de ser tão devagar quanto o máximo possível.
Ele me olha, ele me olha, ele me olha. Eternamente.
Estou cansando. Só queria poder me mexer para afastar esse maldito, indigno, sujo e desprezível espelho.
