Londres - quatro meses depois

O duque de Avon, Severus Prince Snape permitiu que o valete retirasse sua casaca de lã fina. Enquanto Dumbledore pendurava-a no imenso armário da mansão ducal em Mayfair, ele retirou o alfinete de gravata de esmeraldas, com o olhar distante. Já estava se concentrando na missão daquela noite.

O mais importante de todos os mensageiros deveria chegar do continente, no meio da noite, e haviam sido tomadas todas as providências para assegurar a segurança e manter o segredo dos comunicados que ele traria de Paris. Desta vez, não poderia ocorrer nenhum engano! Só Snape e o pessoal do departamento do general Potter, em Whitehall, tinham conhecimento dos detalhes dessa missão especial.

E era justamente esse o problema! O duque já não confiava mais em ninguém. As informações que vinham até ele dos campos de batalha na Espanha e de todos os outros contatos espalhados pela Europa, destinadas apenas ao ministério da Guerra, eram importantes demais para serem deixadas à mercê do acaso. Nos últimos tempos, começara a acreditar que os perigos sempre maiores enfrentados pelos mensageiros não se tratavam apenas de má sorte.

— Milorde?

A voz de Dumbledore o arrancou de seus pensamentos. O valete continuou a remover seus trajes formais, deixando-o apenas com as calças negras que sempre usava para compromissos à noite. A luz das velas que iluminavam profusamente o amplo quarto de vestir do duque criavam sombras móveis no peito amplo e na musculatura perfeita de Snape. Seus ombros muito largos contrastavam com os quadris estreitos que, no entanto, não eram moldados pelas roupas muito justas preferidas pelos aristocratas elegantes.

O duque de Avon lançava a moda, jamais a seguia. E, na verdade, não tomava o menor conhecimento de nenhum desses dois aspectos da vida social.

Com toda a certeza, a malha preta que Dumbledore ajudava seu patrão a vestir não estava na moda em nenhum dos ambientes de Londres freqüentados por Snape. Não seria usada por ninguém em qualquer de seus clubes — os mais fechados e exclusivos da capital — ou nas luxuosas mansões de seus conhecidos. Mas, naquela noite, o duque procurava passar desapercebido e, nos bairros da cidade que iria percorrer, nem seu rosto nem seu nome eram familiares a ninguém.

— É evidente que irá levar as Manton — declarou o senhor. Snape voltou-se para observar o valete, já verificando o par de pistolas de duelo, que haviam pertencido ao seu pai.

— Se quiser, pode ficar com as pistolas enquanto me espera na carruagem, Albus. Eu levarei minha bengala que se transforma em espada, pois sempre existem vantagens em eliminar um inimigo... silenciosamente. Em especial, na minha área de trabalho.

— Vantagens para quem, milorde? Espero sinceramente que não precise se aproximar tanto de seu inimigo a ponto de usar a lâmina oculta na bengala.

Sem disfarçar a relutância, Dumbledore voltou a guardar as pistolas em sua caixa de ébano entalhada de ouro.

— Eu pretendo apenas receber o mensageiro e mandá-lo embora, em segurança, trazendo comigo os papéis que veio me entregar. Tenho que comparecer a uma ceia à uma hora da manhã e preciso de tempo para trocar de roupa antes de ir. Não estou vestido adequadamente para um encontro romântico.

Recuando alguns passos, Snape se examinou no amplo espelho e vestiu a longa capa negra que chegava até seus pés. Então, apanhando a arma que Dumbledore lhe estendia, verificou o funcionamento do mecanismo. Com um simples toque, a lâmina afiada e letal de aço de Toledo brilhou à luz das velas e, com a mesma facilidade, voltou a se ocultar no interior da bengala.

— Ela pouco se importa de que forma milorde está vestido — declarou o senhor, ultrapassando abertamente os limites de respeito entre patrão e empregado. — Ela sabe muito bem quem é a fonte de seus luxos pessoais.

— E eu lhe asseguro que faço tudo para a fonte não secar pois... — Snape riu, sabendo que provocava a raiva do valete — considero-a uma amante excepcionalmente satisfatória. Detestaria deixá-la de mau humor.

— Você não se importa a mínima com o bom ou o mau humor dela — resmungou Dumbledore, sem disfarçar o desprezo pela mulher em discussão. — Ela não passa de uma conveniência, nada mais!

— Mas tem de admitir que é uma conveniência encantadora! O duque sorriu ao pensar na bela e sedutora mulher que esperaria pacientemente por sua visita naquela noite... a qualquer hora. Se ele chegasse de madrugada, ela jamais demonstraria ter se aborrecido com a espera, pois era esperta demais para isso e o conhecia bem demais.

Apesar dos encantos de sua compreensiva amante, Snape percebeu que a antecipação dos possíveis perigos de sua missão tornava mais excitante seu encontro romântico daquela noite. Entretanto, tentava se convencer, como fizera o dia todo, de que nada sairia errado desta vez. Decidira ir pessoalmente ao encontro do mensageiro em função de uma série de fracassos em proteger os comunicados que eram tão vitais para o esforço de guerra. E o duque de Avon não tolerava fracassos!

Ele não precisava de chapéu pois seus cabelos muito negros se fundiam com a escuridão da noite. Por necessidade, seguiu Dumbledore pela escada dos fundos e cruzou os corredores estreitos da saída dos criados até a carruagem que os esperava, sem nenhuma luz acesa.

Só quando já estavam a caminho, o senhor voltou a falar, preocupado com a expressão tensa de Snape.

— Tem algum motivo concreto para acreditar que esse mensageiro, em especial, esteja correndo algum perigo, milorde?

A voz do valete interrompeu a concentração do duque, que voltou-se para o homem que, já há muito tempo, se tornara mais um amigo do que um criado.

— Sempre existe algum perigo, é claro. Entretanto, sou forçado a admitir que... os meus pressentimentos são fortes demais, sinto algo de muito errado pairando no ar. Sei que algo importante vai acontecer esta noite! Como esses comunicados tem um valor excessivamente vital para serem deixados ao acaso, decidi ceder às minhas premonições apesar de irracionais. — Ele deu uma risada como se zombasse de si mesmo. — Em vista dos acontecimentos de minha vida, aprendi a prestar atenção aos meus instintos.

— Então, permitirá que eu o acompanhe? — pediu Dumbledore, confiando nos pressentimentos de Snape.

— A sua presença alertaria a minha presa, Albus. Sinto decepcioná-lo, mas terá de me esperar na carruagem. Irei sozinho porque é o modo mais seguro.

— Mais uma vez lhe pergunto... para quem, milorde? Certamente, não será seguro para o senhor.

— Estarei detectando um certo tom de ansiedade em sua voz? Começou a duvidar de minha habilidade à esta altura dos acontecimentos? Devo estar ficando velho!

— Está ficando arrogante demais, só isso! Pensa que é invencível e acho melhor cair em si. Por um mero acaso, não passa de um homem, de carne e osso como todos nós, apesar de sua imbatível reputação.

A voz preocupada e amarga de Dumbledore provocou uma risada tensa por parte do duque.

— Prefiro ignorar o que implica essa minha reputação. Fique calmo, Albus. Não permitirei que nada me aconteça esta noite, pois como já lhe disse, tenho um encontro à uma hora. E devo admitir que espero esse momento com um entusiasmo inesperado.

— Não vai me dizer que se apaixonou por ela, rapaz! — exclamou o senhor, deixando a preocupação eliminar a postura formal que sempre mantinha em todas as ocasiões.

— Apaixonar-me? — riu Snape, demonstrando surpresa e incredulidade. — Deus do céu! Devo mesmo estar ficando velho ou você não me faria uma pergunta tão idiota! Conhece-me bem demais para sequer pensar nisso, velho amigo.

Ovalete observou o perfil de um dos mais belos homens da aristocracia sendo iluminado pela luz amarelada da rua próxima ao cais do porto.

— Pois se convença que também não é invencível nessa área, milorde. O amor acaba acontecendo na vida de todos nós, inevitavelmente. Seu dia chegará!

A risada incrédula e divertida de Snape não mudou a opinião de Dumbledore que daria alguns anos de vida para estar presente quando o amor acontecesse na vida do arrogante duque.

Enfim, a cidade ficou para trás e a carruagem chegou a uma região dos subúrbios, escassamente habitada e onde o mensageiro podia chegar e realizar a entrega dos comunicados sem o perigo de ser visto. Evidentemente, nem o duque nem Dumbledore poderia saber que já havia alguém à espreita, tentando controlar a expectativa, enquanto esperava pelo homem a quem planejava, por tanto tempo, destruir. O homem que, finalmente, iria cair em suas mãos e cuja queda do poder era sua única meta!

No local do encontro, os únicos sons eram a água batendo suavemente contra os pilares de madeira e o sussurrar da relva agitada pela brisa que começava a soprar, afastando a névoa que ainda pairava sobre a superfície do rio.

Naquele ponto, longe da cidade e muito distante do mar, o cheiro do Tâmisa era de lixo, esgoto e miséria humana. Apenas o brilho parcial da lua minguante iluminava a paisagem sem beleza alguma. O mensageiro já viera, mas jamais entregaria suas mensagens. O corpo dele jazia em uma poça de sangue, com a faca do assassino ainda cravada em suas costas. E o observador de tocaia na escuridão sabia que só precisava esperar.

Ele também não ignorava que eliminar um mensageiro desprevenido e de surpresa não era um grande feito. Com o duque seria diferente. Ah! Snape era esperto demais para se arriscar, mas ele estava certo de que acertaria uma bala no coração daquele miserável. Sempre tivera uma excelente pontaria e logo tudo terminaria de acordo com seus planos.

Uma carruagem finalmente se aproximava e o observador de tocaia esperou pelos passos que logo se aproximariam dos pilares à beira do rio. Enfim os ouviu e eram tão pessoais e únicos como uma assinatura.

Snape caminhava em direção à água, bem na mira da pistola preparada para disparar. A lua saiu por detrás de uma nuvem, fazendo brilhar as gotas de orvalho nos ombros largos do duque e o castão de prata de sua bengala. O luar também o transformava em um alvo perfeito para o assassino, que engatilhou a arma.

Entretanto, a lua iluminou algo no chão... talvez os olhos abertos e fixos do mensageiro que realizara sua derradeira missão. Na fração de segundo em que o assassino apertou o gatilho, a figura envolta no longo manto negro abaixou-se a fim de procurar o que atraíra sua atenção. Apesar do movimento inesperado, a bala atingiu o alvo e Snape caiu, permanecendo silencioso e imóvel como se estivesse morto.

Após alguns minutos, o atacante desistiu de esperar por algum movimento ou som e aproximou-se, corajosamente, para dar o tiro de misericórdia. Mirou o pescoço do duque e moveu o dedo no gatilho, mas jamais completou essa ação.

O corpo que jazia imóvel no chão explodiu em um movimento súbito e a bengala, já transformada em espada, bateu na mão do assassino, lançando a pistola para dentro das águas plácidas do rio.

Os dois homens lutavam agora corpo a corpo, ambos sabendo que defendiam a própria vida. Snape tentava arrancar a máscara que cobria o rosto do assaltante, mas ele conseguiu atingir o ombro ferido do duque.

Nesse instante, ambos ouviram vozes que se aproximavam e o assassino, sabendo que seria capturado, acertou o lado direito dos quadris do duque. Eufórico, percebeu que atingia um ponto vital, pois os braços de sua vitima o soltaram, sem forças. Rindo baixinho, ele afastou-se enquanto Snape lutava para não perder a consciência. Antes de mergulhar na escuridão total, viu o assassino correr para junto do rio e entrar num pequeno barco escondido entre as plantas aquáticas.

O assaltante esperava que seu tiro tivesse acertado algum ponto vital. Entretanto, se não fosse esse o caso, ele sempre poderia tentar novamente. Ao se afastar rapidamente, levado pela correnteza do rio, ainda ouvia as vozes alarmadas dos criados do duque.

— Eu sei quem você é, mas você ignora quem sou eu — murmurou ele, sinistramente. — Posso acertá-lo a qualquer hora... quando me der vontade.

Dumbledore foi o primeiro a alcançar o local e encontrou Snape lutando para se levantar do chão. Ao tentar ajudá-lo, foi rejeitado, mas manteve a pistola Manton pronta para disparar caso o assassino retornasse. Conhecendo bem o seu patrão, deu ordens para que os outros criados corressem para o rio a fim de alcançar o fugitivo.

— Não o deixem escapar — exclamou ele, entregando as duas pistolas ao cocheiro e ao ajudante. — Se for preciso, matem-no! Ele deve estar com a pasta da correspondência com os comunicados que o duque esperava.

Enquanto os dois corriam para junto do rio, Snape conseguiu se levantar com a ajuda do valete. Depois de apanhar sua bengala, que fora jogada longe durante a luta, ele aproximou-se do mensageiro morto. Como ambos imaginavam, já não tinha nada consigo.

— Maldito bastardo traidor! — exclamou o duque, com fúria. — Ele não poderia saber da importância deste comunicado, em especial. Só eu e o general Potter tínhamos conhecimento do conteúdo dessa remessa de informações.

— Talvez os comunicados não fossem o objetivo primordial do assaltante, milorde — sugeriu Dumbledore, cautelosamente. — Acho que ele queria atingir o senhor e, de algum modo, sabia onde o encontraria nesta noite.

Então, o senhor viu mais claramente o rosto de seu patrão e assustou-se com sua palidez.

— Vamos logo para casa a fim de que eu possa tratar de seu ombro. A hemorragia está forte demais para o meu gosto!

— Faça um curativo e o prenda bem apertado — ordenou Snape, que oscilava, mal se mantendo em pé sem a ajuda do valete. — Dê um jeito de estancar o sangue porque tenho que ir ao encontro de uma pessoa e esse confronto não pode esperar.

— Mas... mal pode se manter em pé, milorde! Não está em condições...

— Faça o curativo, Albus! A bala não atingiu nenhum osso, pois posso mover bem o braço. Entendo sua preocupação, mas tenho de fazer algo muito importante antes de voltar para casa. Por Deus! Alguém irá pagar muito caro pelo que aconteceu esta noite. Há uma falha em nossa rede e ela surgiu depois de muitos anos da mais absoluta segurança. É bastante recente e já sei por onde começar a procura.

— Milorde...

A voz cortante de Snape interrompeu Dumbledore e, por sua suavidade alarmante, o criado reconheceu que não adiantava argumentar.

— Você pode ir junto comigo ou voltar para casa e pouco me importa qual será a sua decisão. Eu tenho de ver uma pessoa e sem perda de tempo.

— Pois acabará indo ver o agente funerário se não tomar mais cuidado com sua vida — resmungou o senhor, contrariado.

Após terminar o curativo, Dumbledore ajudou o duque a colocar a longa capa negra e suspirou.

— É... acho que poderá passar desapercebido. Se não decidir dançar em algum cabaré, é claro!

Rindo, Snape iniciou a longa jornada até a carruagem, enquanto o valete fitava o mensageiro morto. Então, ouviu a voz do patrão e, ao erguer a cabeça, divisou o sorriso indolente capaz de amedrontar homens muito mais corajosos do que ele sabia ser.

— Pretende ou não vir comigo, Albus? Estamos atrasados e o baile já deve ter começado.

A silhueta alta e de ombros muito largos desapareceu entre a sombra das árvores e Dumbledore finalmente decidiu calar a boca e correu atrás de seu patrão.