Eu sei, prometi pra segunda, mas realmente não deu moçada. Tia Gih está com umas dores de cabeça fdp quase todos os dias e agora eu tenho auto-escola, aí eu tou tentando tirar a habilitação o mais rápido o possível, o que significa menos tempo. Eu vou ter que passar uma manhã de zumbi porque tive que terminar essa cena!

Whatever, eu odeio a Dilma, tou puta com o resultado das eleições.

Queria agradecer a minha beta linda por ter me ajudado com esse monstrinho aqui. O cap quatro acho que será maior ainda, mas não tenho certeza. Não vou prometer pra segunda porque é.

Sem mais coisa, ao cap.


TRÊS

Observação


Ob·ser·va·ção

(latim observatio, -onis)

substantivo feminino

1. .Ato de ver ou de olhar com atenção; de considerar; de examinar; de notar.

2. Atenção.

3. Exame.

4. Nota; reflexão explicativa.

5. Advertência.

6. Admoestação.

7. Observância.


Sasuke


Fazia uma semana que Sasuke tinha chegado à fazenda "Morada do Sol", mas ele já não suportava aquele lugar. O dia estava terminando, a aula de tiro ao alvo terminou fazia uns quinze minutos e ele ainda estava um pouco desorientado. Era umas quatro e meia da tarde, mas ainda estava muito quente e o sol ainda estava bem alto no céu; seus joelhos doíam, suas costas doíam, seus ouvidos doíam. Sasuke estava nojento, fedido, suado, cheio de penas e de terra, mas não teria janta se...

-Por ali! –gritou Menma alvoroçado apontando em sua direção. –Cerca ela!

-Que merda! –berrou Naruto passando rápido ao seu lado e ele se virou para trás, tendo uma visão que o irritou. –Sasuke move essa bunda preguiçosa daí e corre!

Cóoooooooooo!

"Galinha filha da puta!" pensou Sasuke com raiva correndo agachado tentando pegar a ave que corria com as asas abertas para longe, mas o frango desesperado no último minuto fez uma curva, passando debaixo das pernas de Naruto enquanto ele trombava dolorosamente com Menma. Ele segurou a testa com força, dando um passo para trás com o impacto.

-Uuuuuuuuuuuuuuui! –gemeu Menma choroso, segurando o queixo com força e Sasuke viu os olhos azuis do outro lacrimejarem. –Puta merda Uchiha que cabeça dura a sua!

-Ha ha ha. –entoou Sasuke com azedume, enquanto massageava a testa. –Muito engraçado...

-Oito a zero pra galinha! –pontuou Itachi com divertimento.

-Será que dá pra você torcer um pouco pra gente em vez de pra galinha? –berrou Menma bravo, olhando para cima para poder ver o irmão que estava sentado em um dos galhos do abacateiro com Nina nos braços.

Itachi lançou um sorriso lá do alto, acariciando Nina.

Cóooooooooooooooooooooooooo!

-Volta aqui! –urrou Naruto ficando vermelho de raiva e correndo atrás da galinha que cacarejava em pânico.

Sasuke ainda estava segurando a testa, observando o outro gêmeo correr atrás da janta do dia (se conseguissem pegar), que era burro e estava quase cercado. Naruto estava quase conseguindo pegar o bicho quando o frango lembrou que tinha asas e voou, soltando algumas penas na cara de Naruto. Sentado no abacateiro, Itachi ria enquanto acariciava as penas de Nina, a galinha.

-Vocês nunca vão pegar ela assim... –murmurou o irmão bem humorado, falando diretamente com Naruto, que ofegava perto do abacateiro.

-Quieto ou essa galinha aí é que vai pra panela! –retrucou Naruto esbaforido, apontando para Nina. –Ela já 'tá toda gorda, 'tá no ponto de virar galinha assada!

-Filé de Nina empanado! –disse Menma com um sorriso sonhador.

-Nina ao molho pardo! –completou Naruto no mesmo tom.

-Nina a passarinho!

Itachi estreitou os olhos e segurou o galináceo com mais cuidado, o pior é que o animal chegou a dar um cacarejo satisfeito com isso. Se algum dia Sasuke escutasse que seu irmão era ávido defensor dos animais, Sasuke teria dado uma sonora gargalhada, aí ele vai morar na fazenda e descobre a terrível verdade: Itachi tinha uma galinha, um pato, um gato, um cachorro, um cavalo, um porco, um corvo e um jabuti.

-Tic toc tic toc. –murmurou Itachi desinteressadamente. –Daqui a pouco dá cinco horas e ninguém conseguiu pegar nada. Acho que você fica sem seu osso hoje Pongo.

O goldem retriever latiu marcando presença, embora Sasuke não o visse, talvez estivesse ao pé da árvore. Ao latido do cão, as galinhas idiotas começaram a correr de novo, espalhando aquele cheiro de titica e pena úmida nojento. Sasuke estava decidido a pegar aquela maldita galinha nem que fosse a última coisa que fizesse naquele dia! Ele iniciou uma carreira atrás do animal, o bicho estúpido começou a correr desesperado com as asas abertas e Sasuke forçou seus joelhos a aguentarem mais velocidade.

-Traz ela pra cá Sasuke! –chamou Naruto.

Mas ele não obedeceu, ele imprimiu maior velocidade, os joelhos doendo, as canelas ardendo, as costas latejando, Sasuke ergueu as mãos e pegou a galinha pelas asas abertas.

-PEGUEI! –ele gritou triunfante, erguendo o troféu sacolejante e barulhento.

Era a primeira vez que Sasuke segurava uma galinha viva e era muito esquisito segurar uma. O bicho era quente, fedia, as penas macias deslizavam um pouco em seus dedos e a galinha estúpida não parava quieta, tentando lhe bicar. A cabeça vermelha do bicho virou na sua direção, aqueles olhos malignos avistaram um pedaço de pele seu e o bico foi direto na pobre da sua mão.

-PUTA QUE PARIU! –gritou Sasuke soltando a galinha com o susto e com a dor, porque a maldita galinha bicou a ponto de arrancar um pedacinho da pele. –Essa coisa me bicou! –ele olhou incrédulo para a gotinha de sangue que surgia do ferimento. -Ela me bicou!

Itachi o encarou por um momento, mordendo o lábio inferior, depois virou o rosto tapando a boca, mas Sasuke ainda assim conseguiu ouvir a risadinha do irmão mais velho, o que o deixou totalmente indignado.

-Vai se foder Itachi! –resmungou Sasuke, vendo as costas do irmão mais velho tremeluzirem. –Ela me bicou!

-PEGUEI! –urrou Menma com felicidade enquanto o frango cacarejava com ainda mais vigor. Pongo começou a latir alegremente para fazer coro e a barulheira, mais a fome, estavam deixando Sasuke com um humor assassino

Sasuke se virou e viu que Menma segurava a galinha de um jeito diferente do que ele segurou. O bicho não tinha como mover a cabeça para bicar Menma e, por mais que se movesse, com as asas seguras uma de encontro a outra, o animal não tinha como fugir.

-Sorte a sua, galinha idiota. –resmungou Naruto para Nina.

-Ele 'tá falando com a galinha... –Sasuke murmurou sem querer.

Nina apenas deu um "có" suave, quase que zombando. Sasuke piscou. Pior do que ver seu ex-namorado falando com uma galinha idiota, que era uma espécie de mascote do seu irmão mais velho, só mesmo o dito galináceo responder.

-Cara, nunca vou entender porque chamam a mulher que dá pra todo mundo de galinha... –comentou Menma se aproximando dele. Sasuke ergueu a sobrancelha ao ver a testa franzida do outro. –Tem coisa mais difícil que pegar uma galinha?

-Tem. –respondeu Naruto sombriamente com a expressão subitamente temerosa. –Pegar um porco.

Porcos. Lama. Fedor. Lama. Comida com um cheiro estragado. Lama. Bicho de quatro patas. Lama. Urg. A fazenda tinha uma pequena criação de porcos, não muito, porque porcos tinham o costume de se matarem, mas urg. Sasuke empalideceu com o pensamento de ter que pegar um porco para jantar na próxima vez.

-Vamos embora, Sukizuki, hoje o rango vai ser bom. –chamou Menma com um sorriso satisfeito.

Sasuke estreitou o olhar para o outro, Menma era absolutamente irritante, mas era com quem mais tinha contato depois de Kakashi. Falar com Naruto era insustentável depois do 'revival' que tiveram no dia que ele chegou. Sasuke não sabia se era intencional ou não, mas ele e Itachi mal conseguiam conversar ou mesmo se ver na fazenda. Sempre tinha alguma coisa o que fazer ali.

O lugar era grande, muito maior do que Sasuke poderia ter previsto. Kakashi produzia girassol, algodão e feijão em pequena escala, atuando em parceria com outros pequenos agricultores da região. Sasuke questionou se as despesas de todos eram custeadas com a fazenda e Kakashi apenas explicou que o lugar era um capricho dele, porque a vida como caçador pagava muito bem.

A verdade era que a profissão de 'caçador' era regularizada.

Todos os caçadores possuíam um cadastro único disponível apenas para as agências de inteligência de segurança interna e externa. Qualquer problema que um caçador tivesse no exercício da função era prontamente resolvido pelas autoridades, até mesmo porque estas lhes designavam serviços quando encontravam. "O que é do submundo fica no submundo" tinha dito Kakashi.

Uma das maiores razões para os caçadores usarem nomes falsos consistia justamente por causa do registro da profissão. Caçadores precisavam agir à margem da sociedade, mas assim com caçavam, também eram caçados. Cada vertente tinha um inimigo natural que tentava buscar informações dos caçadores para exterminá-los e o registro de cada família do meio era feito através de sistemas eletrônicos de altíssima segurança, justamente porque a maior parte das criaturas sobrenaturais tinha alguma reação a ondas eletromagnéticas ou aparelhos eletrônicos, onde os dados eram guardados.

Fantasmas e demônios davam curto circuito nesses aparelhos, vampiros sofriam sérias queimaduras pelo uso de computadores ou celulares, lobisomens tinham uma crise alérgica terrível a qualquer tipo de onda eletromagnética, preferindo viver em bandos afastados das cidades e a maior parte dos bruxos era composta por analfabetos digitais. E sim, Sasuke quase teve um surto de descrença quando descobriu que existia todo um mundo de Harry Potter debaixo do seu nariz, obrigado.

O fato é que o sistema além de dar ao poder público o conhecimento de quem é da área de caça, também permitia uma segurança maior aos caçadores que obtinham documentos com informações falsas emitidos pelo próprio Estado a fim de protegê-los. Havia uma polícia no submundo também, pelo que Kakashi informou e Sasuke falou que só faltava os caçadores terem algum sindicato e pleitearem direitos trabalhistas como insalubridade e adicional de periculosidade, o que era sinceramente ainda mais ridículo.

Contudo, era difícil ficar zangado com isso quando, para espantar um fantasminha sem vergonha, se ganhava no mínimo uns dois mil por serviço, até mais, dependendo da complexidade do caso e das condições financeiras de quem fosse pagar.

Sasuke deu um suspiro cansado, desejando mais do que tudo tomar um bom banho, comer alguma coisa e dormir. Esses dias todos ele dormiu oito horas da noite todos os dias e isso era um recorde.

Ele seguiu os outros até a casa grande, Menma e Naruto iam à frente, conversando sobre os mil modos de preparo da galinha enquanto o bicho esperneava, parecia que tinha pressentido que era o fim. Itachi estava atrás dele, com Pongo no encalço, seu irmão de algum modo parecia relutante em seguir em frente e Sasuke não tinha ideia do por que. Mais tarde, quando os dois estivessem no quarto, ele perguntaria. Kakashi os esperava na área externa da cozinha.

-Olha, parece que conseguiram pegar o jantar. -disse Kakashi em um tom satisfeito enquanto eles se aproximavam. -Como foram?

-Essa galinha deve estar doente. -respondeu Menma preocupado, passando a galinha para Kakashi.

-Huh? -fez Kakashi erguendo a sobrancelha.

-Ela bicou o Sasuke. -respondeu Menma sério. -Dê algum vermífugo pra ela antes da gente comer!

Sasuke lançou um olhar ferino em direção de Menma, enquanto Naruto dava uma risadinha debochada e Kakashi suspirava pesadamente, pegando a galinha. Itachi ignorou tudo isso e passou quase correndo pela porta da cozinha, sumindo dentro da casa e deixando Pongo lá fora, choramingando e arranhando a porta para tentar entrar. O único que parecia ter notado a movimentação estranha de Itachi foi ele, já que a galinha estúpida voltou a cacarejar e voltar a fazer manobras para tentar fugir do seu destino iminente, mas Kakashi a segurava firme pelas asas. Ninguém ia sentir a sua falta agora e Sasuke seguiu os passos do irmão.

Naruto suspirou cansado ao seu lado.

-Deixa ele... –disse Naruto com a voz baixa e Sasuke se virou para encará-lo. -Itachi vai tomar banho pra não escutar...

Sasuke não estava entendendo até ouvir um 'crack' sonoro e de repente a galinha cacarejar baixinho, sofrida. Ele virou para o lado e viu que o animal estava com o pescoço em um ângulo torto; Kakashi tinha quebrado o pescoço do bicho. O fazendeiro colocou a galinha em cima de uma superfície e pegou um facão afiado. Menma ajudava segurando o corpo do animal.

-Itachi não gosta de ver isso. –respondeu Naruto calmamente. –Não vai nem descer pra jantar com a gente hoje.

O facão desceu decepando a cabeça da galinha de uma vez só e o sangue começou a sair do ferimento. Era a primeira vez que Sasuke via algo assim e ele precisava admitir que era um pouco chocante, quer dizer... A menos de dois minutos aquele animal estúpido tinha dado uma carreira nele, bicado o seu dedo e agora... Mesmo que fosse o ciclo da vida, onde uns morrem para servir de alimento ao mais forte, ainda assim existia um impacto nisso.

-Se você 'tá achando chocante ver uma galinha morrendo, devia ter visto a cara que o Itachi fez no primeiro dia dele aqui. –continuou Naruto com a voz macia, uma risada suave no tom de voz. -No primeiro dia dele, a gente pegou um porco e ele viu o bicho sendo morto. Ele passou muito mal no dia, desde então ele parou de comer carne e até mesmo usar coisas derivadas de bichos.

Isso ele não sabia. Sasuke se virou para encarar Naruto, vendo a expressão sonhadora do ex-namorado. Mas, algo na sua expressão vez com que Naruto caísse em si e voltasse a amarrar a cara.

-Não que eu me importe com o idiota do seu irmão! –resmungou Naruto, arregalando os olhos com raiva.

-Seu irmão também, babaca. –retrucou Sasuke vendo o ex-namorado inflar as bochechas com raiva e sair dali batendo a porta também.

Kakashi e Menma suspiraram.

-É sempre assim... –murmurou Menma com birra.

-Bem, um dia eles vão resolver isso. –respondeu Kakashi em tom definitivo.

-O que? –Sasuke perguntou sem entender.

-Continue olhando... –respondeu Kakashi com astúcia. –Não vai demorar até você entender.

Ainda sem entender sobre o que os outros dois falavam, Sasuke entrou na casa.


-Você 'tá bem? –perguntou Sasuke entrando no quarto que dividia com o irmão, vendo Itachi ler um livro na cama. -Nem quis jantar...

O irmão mais velho apenas abaixou o livro do rosto, lhe lançando um meio sorriso. Sasuke ainda não estava habituado a ideia de Itachi usando óculos. Ele já tinha reparado que o irmão não enxergava bem de perto, mas nunca pensou que o outro precisasse usar óculos ou lente para isso.

-Eu 'tou. –respondeu Itachi com simplicidade. –Só não gosto de comer quando eles matam os animais daqui. Eu entendo que é preciso, mas ainda assim não consigo me acostumar.

Sasuke assentiu, achando curioso que Naruto, que parecia odiar Itachi, soubesse exatamente qual era o motivo para a ausência de Itachi no jantar. De qualquer forma, Sasuke deu de ombros, fechando a porta atrás de si e indo até a sua cama.

No dia seguinte a sua chegada, Naruto e Menma trouxeram boa parte das suas coisas, também o ajudaram com os procedimentos para trancar a sua faculdade, embora depois dele ter explicado o lance dos olhos de Suigetsu, nenhum dos dois o autorizaram a pedir dispensa dos estágios pessoalmente. No mesmo dia Kakashi comprou uma nova cama e colchão para ele, Itachi desarmou a cama de casal e arrumou armou as duas camas de solteiro em seu quarto à tarde enquanto Kakashi o ensinava o básico da profissão.

-Por isso que você tem o seu zoológico particular? –ele perguntou não conseguindo esconder o sorrisinho de escárnio.

Itachi se virou para o seu lado e riu.

-Algo assim.

Nos outros dias da semana Sasuke esteve tão cansado que bastava deitar na sua cama e ele apagava, mas agora ele finalmente estava se habituando ao trabalho no campo. Seu corpo estava cansado, mas ele se sentia tranquilo e Itachi estava acordado. Era hora.

-Itachi... –chamou Sasuke antes que o irmão voltasse a prestar atenção no livro. -Você me deve uma explicação.

No mesmo instante, Itachi deu um longo suspiro, fechando o livro e tirando os óculos, para colocá-los no criado mudo entre as camas. Depois Itachi se sentou na cama, ficando frente a frente com Sasuke, de costas para o por do sol visto pela janela de vidro liso para aproveitar a claridade.

-Eu sei. Eu quero te dizer a verdade, mas existem coisas que eu ainda não consigo falar sobre, entende? –disse Itachi em tom solene. Sasuke franziu os lábios em desgosto. -Não porque eu não quero falar, mas porque não consigo, não ainda. O que você quiser saber e eu conseguir responder, eu vou te dizer agora.

Sasuke considerou o que foi dito, observando atentamente a expressão repleta de pesar que ornamentava o rosto de Itachi. Havia muitas coisas que ele queria saber e ainda mais coisas que ele tinha medo de descobrir a verdade, mas Sasuke nunca foi o tipo de homem que fugia de medo do que aparecia na sua vida. O que aparecia de problema tinha que ser encarado e solucionado, porque viver era simples assim: ou era ou não era. E era melhor ir direto ao ponto do que andar em círculos.

-Meu pai e minha mãe morreram por minha culpa? –ele perguntou aquilo que mais o incomodava, sua voz dura de emoção.

Itachi parecia esperar por isso, pois o encarava atentamente com olhos sagazes.

-Não foi sua culpa. –sentenciou Itachi com firmeza. -Ninguém esperava por aquilo também.

Com essa resposta, Sasuke expirou, relaxando os ombros. Ele deixou o alívio ser substituído pelo pesar gradativamente, embora suas mãos estivessem tremendo um pouco. Itachi o observava em silêncio e Sasuke estava agradecido por isso.

-O que aconteceu naquele dia? –ele perguntou sem olhar o irmão.

O irmão expirou alto e Sasuke voltou a encarar Itachi.

-Esse é um dos assuntos que eu não sei os detalhes. –explicou Itachi de forma simples, o encarando de volta. -Havia uma convenção de demônios acontecendo em uma cidade vizinha e nós fomos lá, mas... Era uma armadilha. –Sasuke assistiu o olhar de Itachi se anuviar com a tristeza. -Quando eu cheguei em casa e vi... Já era tarde demais.

Sasuke assentiu, mesmo que o irmão não o estivesse encarando. Os dois ficaram em um silêncio pesado por alguns minutos, ouvindo Menma assistir televisão no andar de baixo. Clássicos do canal de música, a única coisa que faria Menma ficar quieto e obrigar Sasuke ouvir What's up em pleno século XXI.

-Você pretendia mesmo voltar a morar comigo depois que eles morreram? –Sasuke perguntou com a voz baixa, olhando para o chão sem ter coragem para encarar o irmão.

Itachi deu uma risadinha nasalada.

-Sim...

Com isso, Sasuke ergueu o rosto, incapaz de esconder o quão surpreso ficou com isso. Itachi lhe dava um sorriso doce e pesaroso ao mesmo tempo.

-Eu queria aquilo mais do que tudo. Tinha medo do que aconteceria com você. –confidenciou Itachi voltando a ficar sério, embora houvesse pesar em sua voz. -Meu pai me prometeu que ia tomar conta disso. Ele pesquisou o que estava acontecendo sozinho e estava chegando perto porque Madara se sentiu tão coagido que atacou o calcanhar de Aquiles dele.

Itachi passou a encarar um ponto no chão, os ombros ficando tensos e a postura mais solene. Para Sasuke, era estranho ver Itachi sendo tão franco. Entretanto ao mesmo tempo em que Sasuke se sentia extremamente feliz por isso, ele se sentia devastado por todo o sofrimento que Itachi parecia carregar sozinho.

-Madara atacou Menma e Naruto. –concluiu Itachi voltando a observá-lo. –Qualquer coisa que meu pai descobriu foi arruinada nesse dia.

-Então é verdade que Naruto quase morreu. –constatou Sasuke com assombro e um pouco assustado.

As coisas entre ele e Naruto não eram simples, mas a ideia de Naruto morrer era tão... Absurda. Mas o jeito como a expressão de Itachi ficou sombria, só o fazia acreditar que era verdade. Ele ia perguntar como, mas o irmão se antecipou:

-Sim, mas não sei dos detalhes. Os dois não falam o que aconteceu, mas acho que Madara possuiu o corpo de Menma e o fez machucar Naruto, já... Aconteceu antes... –respondeu Itachi com tristeza. Sasuke ergueu a sobrancelha, não conseguindo imaginar qualquer coisa que fizesse Menma machucar Naruto. -Quando eu recebi a notícia eu fui correndo saber o que tinha acontecido... Claro que eu já vi aqueles dois machucados, mas nunca daquele jeito... Foi horrível...

O irmão mais velho não o encarava, mas Sasuke conseguia ver o quanto aquilo ainda perturbava Itachi. Era evidente que aquele era um dos temas que seu irmão ainda não conseguia falar e Sasuke respeitava isso. Ele mesmo não saberia como reagir se visse Itachi numa cama de UTI por sua causa.

Sasuke suspirou, passando as mãos pelo cabelo.

-Por que esse cara 'tá atrás de mim? –ele perguntou encarando Itachi.

Mas Itachi apenas balançou a cabeça negativamente, depois se ajeitou melhor na cama, voltando a relaxar os ombros.

-Nós não sabemos. –foi à resposta sincera do mais velho. - O que eu sei é que ele já perseguia a nossa mãe antes da gente nascer. Foi assim que a nossa mãe conheceu meu pai, os dois foram casados por um tempo.

Urg, aquele era o tipo de informação desconcertante e Sasuke fez uma careta que fez Itachi rir um pouco. Era tão estranho imaginar a sua mãe com outra pessoa além de seu pai... Sasuke simplesmente preferia ignorar a existência do pai de Itachi.

-Por motivos óbvios, a relação não deu certo e ela se casou com o seu pai. –continuou Itachi em tom descontraído. -Quando ela teve filhos, a atenção de Madara se desviou para a gente. Ele tentou me sequestrar quando eu era bebê.

Isso chamou a atenção de Sasuke, que arregalou os olhos enquanto seu irmão permanecia com a expressão inalterada. Não fazia sentido, a pouco Itachi tinha dito que esse tal de Madara o queria, mas agora contava que também tentou sequestrar Itachi.

-Você? –perguntou Sasuke se sentindo confuso. -Então ele quer você também?

Itachi balançou a cabeça negativamente e Sasuke franziu o cenho.

-Não, ele quer você. –afirmou Itachi com firmeza, o olhando diretamente nos olhos. -Nós tivemos uma prova de que ele quer você há oito anos atrás. Você se lembra do Shisui?

Apesar de não entender o ponto, Sasuke concordou com a cabeça. Ele lembrava que Shisui era um primo dele por parte de pai, que estudava na escola de Itachi e que os dois viviam juntos. Hoje Sasuke até pensava que os dois eram íntimos demais para mera amizade, mas não comentou isso.

-Sim. –disse Sasuke, ainda sem entender o ponto. -Ele era o seu 'amigo', né?

Itachi balançou a cabeça em um gesto afirmativo, se curvando para que seus cotovelos descansassem sobre as pernas, novamente sem encará-lo.

-Ele morreu por minha causa e ele não foi o único. –respondeu Itachi tristemente. Sasuke se surpreendeu com isso. -A mãe dos meus irmãos também morreu por minha culpa, Menma ficou no hospital por meses... É por isso que Naruto me odeia.

Não era preciso ver o rosto de Itachi para que Sasuke soubesse o quanto o seu irmão se sentia desolado por isso e agora ele começava a entender um pouco mais da relação daqueles dois. Sasuke se sentia tão impotente diante do irmão agora, desejando falar alguma coisa para o outro se sentir menos triste, mas não podendo ajudar.

-Eu não queria que mais nada ruim acontecesse por minha culpa e que menos ainda que algo acontecesse com você e então...

-Você virou caçador.

Itachi assentiu, inspirando profundamente e voltando a controlar as expressões faciais.

-Foi. Eu não queria perder outra pessoa e eu sabia que Madara queria fazer algo horrível com você e com a mamãe, assim como ele fez algo horrível com o Shisui. –respondeu Itachi com firmeza, olhando em seus olhos. -Além disso... Eu me sinto responsável por isso. Queria fazer algo para compensar ele...

Dizendo isso, Itachi desviou o olhar, se ajeitando melhor na cama. Sasuke assentiu. Era a cara de Itachi pegar a culpa do mundo inteiro e encarar isso como sua responsabilidade. Mas seu irmão estava enganado com uma coisa.

-Não acho que ele odeia você. –disse Sasuke de repente e Itachi o encarou sem entender. -Ele se preocupa com você, o Naruto. Finge que não se importa, mas ele é um péssimo mentiroso. Acho que ele tem medo que você suma da vida dele...

O irmão o observou atentamente por muito tempo, enquanto a única coisa que fazia barulho na casa fosse à voz de Linda Perry ainda cantando What's up (essa música era interminável?) e os cachorros. Era à hora do jantar dos bichos. A voz de Naruto chamando cada um dos cães para dar a ração para eles logo soou e ao ouvir esse som, Itachi se virou para a janela e olhou para baixo.

Com passos suaves, Sasuke se aproximou da cama do irmão, olhando para baixo e vendo Naruto brincar na grama com Pongo. Ele revirou os olhos, a luz do dia Naruto era o primeiro a chamar Pongo de 'cachorro fedido' e agora estava rolando na grama com o bicho, fazendo carinho na barriga do animal

-Por que eu faria isso? -inquiriu Itachi, com um sorriso triste. -Ele é a minha luz...

Sasuke franziu o cenho e olhou para Itachi, mas o irmão não o encarou de volta. Era algo estranho de se dizer, mas, bem, talvez nem tanto. Ele conhecia bem Naruto e era difícil não associá-lo com um ponto de luz, daqueles que machucam seus olhos se você ficar olhando por tempo demais. Enquanto ele pensava nisso, Itachi começou a rir e depois lhe lançou um olhar astuto que o incomodou.

-Agora faz mais sentido porque você não queria ouvir aquela música naquele dia. –comentou Itachi com a voz macia. -Onde se conheceram?

Inspirando profundamente, Sasuke fechou a parte de metal da janela para que os dois pudessem dormir. Depois ligou o ar condicionado, ciente dos olhos de Itachi pregados em si e isso estava lhe irritando.

-Nós estudamos juntos no terceiro ano. –Sasuke respondeu com objetividade, desligando a luz do quarto e depois indo para a sua cama, sem encarar o irmão. -Eu não sabia que ele era seu irmão e bem, aconteceu.

-Por que não me disse que era um garoto? –inquiriu Itachi, mas Sasuke se deitou na cama, virado para o lado oposto ao do irmão mais velho.

-Você sabia como era o meu pai. –respondeu Sasuke, se deitando na cama e se ajeitando para dormir. –Eu não sabia como contar e, bem, acabou tudo mesmo. Não precisei me preocupar depois disso.

-Acabou tudo mesmo? –questionou Itachi em tom de provocação. –As marcas no seu pescoço não parecem um fim.

-Acabou, ok? –finalizou Sasuke fechando os olhos. –Eu não quero mais e nem ele. Fim de história.

-Sei...

-Não me venha com 'sei'. –resmungou Sasuke se virando para o lado de Itachi, embora não conseguisse ver nada. -Eu estou feliz que a gente tenha acabado e ele também 'tá?

Ele viu o irmão dar um suspiro cansado, enquanto também se ajeitava na cama. Sasuke pensava seriamente em pegar o despertador e tacar no irmão mais velho.

-Se você diz... –murmurou Itachi.

-Por que não resolve logo esse complexo de irmão com ele e para de me encher o saco? –provocou Sasuke com a voz mais ferina que podia, com os olhos fechados.

-Tão irritadinho... –provocou Itachi sem se abalar.

-Boa noite! –resmungou Sasuke.

-Você poderia...

-Cala a boca e dorme Itachi!

Com uma última risadinha, Itachi se virou para o lado e os dois foram dormir.


Com quatro semanas na fazenda, Sasuke já estava se sentindo bem mais confiante com as lições de caçador e mais familiarizado com o trabalho no campo, apesar de ainda desprezar trabalhar com a matraca. Ele até mesmo conseguia balancear seus horários ao ponto de conseguir tirar um breve cochilo após o almoço!

Se sentindo satisfeito consigo mesmo, Sasuke começou a descer as escadas, pronto para mais uma aula teórica sobre possessões, mas ele parou quando viu Kakashi sair do escritório com uma das pastas da fazenda.

-Não 'tá se esquecendo de nada? –Sasuke inquiriu.

O homem mais velho se virou em sua direção, mas o rosto estava parcialmente oculto pela máscara cirúrgica que parecia ser a fiel companheira de Kakashi.

-Desculpe Sasuke, hoje tenho que ir na associação. –disse Kakashi bondosamente. –Itachi vai cobrir essa aula por mim.

-Onde ele 'tá?

Kakashi deixou a pasta sobre a mesinha do telefone, segurando queixo com uma das mãos, aparentando estar pensativo, depois consultou o relógio de pulso. Sasuke terminou de descer as escadas.

-A essa hora Naruto já deve estar no campo... –murmurou Kakashi pensativo. Sasuke ergueu a sobrancelha. –Tente dar uma olhada na mangueira.

Depois disso, o celular de Kakashi tocou e o homem saiu pela porta da frente. Sasuke deu de ombros, sem entender a relação de onde Naruto estava com a localização de Itachi, mas fez o que Kakashi disse: ele foi até a grande mangueira.

A fazenda tinha várias árvores frutíferas, mas três plantas eram especiais porque o pai de Itachi as plantou em homenagem aos filhos. A árvore de Naruto era uma jabuticabeira frondosa que ficava ao lado da goiabeira de Menma, ambas perto do galpão onde guardavam o resultado da colheita. Por obvio, a árvore de Itachi era a tal mangueira, uma árvore enorme que ficava bem no meio do caminho da casa grande e o campo de algodão.

Naquela época do ano, a mangueira estava cheia de mangas pequenas e verdes, bem como cheia de flores. Não era difícil vê-la e Sasuke seguiu até lá, sentindo o sol quente queimar sua pele enquanto o vento forte soprava em seus ouvidos, trazendo o som de uma música que Sasuke não reconhecia.

Coisa do Naruto levar uma vitrolinha com música para o campo. Sasuke revirou os olhos, se aproximando mais da sombra da árvore, mas não vendo nenhum sinal do irmão mais velho.

Até olhar para cima.

Itachi estava sentando alguns galhos acima, aparentando estar perfeitamente relaxado e tinha um corvo na cabeça. Seu irmão olhava o horizonte de um modo sonhador, com um sorriso delicado no rosto. O corvo o percebeu e voou em sua direção, se equilibrando na sua cabeça e Itachi olhou para baixo, ficando com ares de riso enquanto ele olhava feio para o corvo.

-Kakashi mandou você me dar a aula hoje. –disse Sasuke, tentando afastar o corvo para longe. –Ele foi resolver algo da associação ou algo assim...

-Certo. –respondeu Itachi com simplicidade começando a descer da árvore.

Enquanto Itachi descia a árvore, Naruto começou a cantar o refrão da música alto o bastante para eles ouvirem dali e Sasuke se virou para ver o ex quase que totalmente camuflado entre os pés de algodão que começavam a ficar floridos.

-And if you hear me talking on the wind… You've got to understand. –entoava Naruto animadamente, checando as folhas das plantas e sem reparar que eles estavam ali perto. -We must remain... Perfect strangers!

Sasuke suspirou, todo mundo naquela casa só parecia ouvir rock. O corvo novamente voltou a posar sobre sua cabeça, o bicando seu cabelo de maneira irritante. Com um grunhido, Sasuke balançou a cabeça, mas nada do corvo sair.

-Dá pra mandar esse corvo estúpido parar de querer usar minha cabeça como ninho? –reclamou Sasuke com raiva, conseguindo tirar o corvo da cabeça, mas o animal ainda voava ao seu redor.

-Raven gosta de você. –respondeu Itachi em um tom divertido. –Ele não faz mal...

-Não sei se você ama ou odeia esses bichos... –Sasuke comentou com desprezo sabendo perfeitamente que 'Raven' era a tradução de 'corvo' para o inglês.

Itachi estava ao seu lado agora, dando um pequeno peteleco na sua testa. Raven ficou feliz em parar de bicar seu cabelo para repousar no ombro do seu irmão.

-Para de manha. –disse Itachi com a voz divertida. –Vamos?

Sem dizer mais nenhuma palavra, mesmo que estivesse bastante irritado, Sasuke seguiu o irmão mais velho até a casa grande.


O relógio preguiçosamente marcava quatro horas da tarde e uma chuva rala caia, espalhando o cheiro de terra molhada que entrava pelas janelas da casa grande. Não importava o lugar, domingos eram sempre maçantes.

Fazia quase dois meses que Sasuke morava com Itachi e algumas coisas mudaram consideravelmente em sua vida desde então. Suas mãos ganharam calos, sua pele ganhou um tom mais avermelhado pela exposição ao sol, ainda assim estes pareciam os melhores dias da sua vida, desde que seus pais morreram. Tudo porque agora olhar para Itachi não o deixava com raiva, na verdade, sua relação com o irmão a cada dia que passava parecia ficar mais e mais sólida.

Não era do jeito como era no passado, havia muita coisa que Itachi escondia ainda, mas estava melhorando e isso deixava Sasuke feliz. Ele e Naruto se evitavam como podiam e só falavam o essencial um com o outro, mas dava para lidar com isso tranquilamente. A cada pequeno ato do dia a dia fazia Sasuke aprender mais sobre o irmão e no que ele vivia, surpreendentemente, Sasuke conseguia se enxergar fazendo a mesma coisa. Havia algo de morbidamente curioso em saber sobre todas aquelas coisas sobrenaturais e ele se via cada vez mais interessado no assunto, embora Kakashi e Menma insistissem que a teoria era diferente da prática, que a prática não era nada bonita como o que estava no livro.

Mas Sasuke entendia isso. Ele foi a droga de um estudante de direito! Quer coisa mais discrepante do que a letra legal e a sua aplicação prática? Ainda assim, Kakashi e Menma pareciam receosos em deixá-lo participar de um dos serviços deles, algo que só o deixava frustrado.

Agora mesmo, Kakashi tinha saído com os gêmeos para averiguarem uma chamada do Kazekage, o chefe de polícia do submundo. Ele suspirou frustrado, fechando o livro sobre exorcismos que estava lendo. Foi então que ele percebeu a melodia suave que entrava pelas frestas do seu quarto e Sasuke sabia que era Itachi tocando o piano.

Sasuke sorriu para o teto do quarto. Ele tinha desafiado o irmão a aprender a tocar piano pouco antes de Itachi ir morar com o pai, Sasuke lembrava que ficou tão zangado com isso que até se esqueceu do desafio e jamais tinha passado por sua cabeça que o mais velho ainda se lembrasse disso. Pior, Itachi tocava piano tão bem que parecia um anjo.

Ele se levantou da cama e caminhou pelo corredor, até chegar na escada. Foi aí que ele franziu o cenho. Naruto devia ter ido com Kakashi, não estar sentado no comecinho da escada, com uma cara de idiota completo olhando Itachi tocar. Seu irmão parecia completamente alheio da plateia, já que estava de costas para Naruto e ainda tinha Cat, o gato, à sua frente.

Francamente, quem era o doido que deixava Itachi dar nome aos bichos? O corvo que era 'corvo', o gato que era 'gato', a tartaruga que era 'tartaruga', o pato, que era 'pato' ("devia se chamar 'Sasuke', né?" – tinha sugerido Menma). Pongo, Nina, Pingo (o porco) e Amaterasu (o cavalo) foram os únicos que escaparam da sina porque foram batizados pelo pai de Itachi.

Tomando cuidado para não fazer barulho e desconcentrar Itachi, Sasuke foi até o ex. Naruto estava com aquele sorriso imbecil que reservava apenas para as coisas que ele ficava totalmente encantado e, de fato, havia porque se encantar com o som que Itachi tocava. Sasuke não sabia que música era aquela, mas a melodia era tão suave e expressiva que não havia como resistir.

Naruto ficava tão idiota com aquela expressão que, sem nem perceber o que fazia, Sasuke se rendeu a um velho hábito: com o punho fechado, ele bateu no topo da cabeça loira do ex. Naruto engasgou baixinho, mas Itachi não pareceu ter notado, porque ainda continuava a tocar despreocupadamente. O ex o olhou com a expressão entre o irritado e o surpreso.

-O que você 'tá fazendo aqui? –cochichou Sasuke, enquanto Itachi tocava múltiplas teclas no piano com velocidade e imprimindo mais personalidade ao som. –Você não devia 'tá com os outros?

-NÃO É DA SUA CONTA! –berrou Naruto com raiva, o rosto ficando vermelho, mas Sasuke sabia muito bem que aquilo era vergonha.

Itachi parou de tocar, se virando para trás, aparentando estar confuso enquanto Naruto se levantava de onde estava sentado, correndo pelos degraus. Sasuke começou a rir para provocar o ex-namorado, que parou lhe lançando um olhar de pura ira.

-Se você queria ouvir, bastava ter ido pro sofá. –provocou Sasuke com arrogância, sabendo muito bem o quanto isso irritava Naruto. –Gatinho medroso.

-Ora seu...! –gritou Naruto dando dois passos em sua direção, com o punho fechado e intenção de lhe golpear.

-Naruto! –ralhou Itachi com o timbre sério.

Por um momento, Naruto mediu forças com Itachi e nesse momento Sasuke percebeu mais do que raiva na expressão do seu ex-namorado. Havia muito mais vergonha do que ira ali e isso não passou despercebido por ele, embora ainda fosse esquisito Naruto ficar daquele jeito. Por fim, em vez de partir para a briga, Naruto apenas lhe lançou um olhar furioso.

-Vá pro inferno de onde saiu, bastardo! –gritou Naruto, caminhando a passos pesados até o quarto e batendo a porta com um estrondo.

Alguns segundos se passaram, até Sasuke suspirar pesaroso. Coisas assim aconteciam vezes demais para ignorar. Naruto sempre observava Itachi quando este não prestava atenção e o inverso acontecia com frequência. Quando os dois estavam no mesmo lugar, Naruto sempre sabia o que dizer para deixar Itachi chateado e Itachi sabia como deixar Naruto zangado ou irritado em poucos segundos.

Era excruciante.

Só agora ele começava a entender porque todo mundo dizia que as coisas entre Itachi e Naruto eram 'complicadas'. A palavra, na verdade, não chegava a um décimo do que aquela situação realmente era.

-O que foi isso? –perguntou Itachi confuso.

Sasuke apenas deu de ombros, descendo as escadas, sob o olhar atento do irmão mais velho.

-Repete essa música de novo nii-san? –ele pediu com tranquilidade.

Itachi esperou mais alguns segundos pela resposta que nunca veio, depois de um suspiro pesaroso, o irmão voltou a tocar piano e a casa mergulhou nos doces acordes. Ninguém comentou uma palavra sobre o ocorrido.


Itachi


Estava muito escuro para ele enxergar alguma coisa, Itachi mal conseguia ver a própria palma da mão na frente do seu rosto, mas não era como se ele conseguisse se importar com isso agora.

Alguém beijava seu pescoço, raspando os dentes próximo ao seu maxilar, deixando um rastro de saliva morna na área. Uma mão calejada pressionava a sua ereção em movimentos de subida e descida lentos. Itachi respirou profundamente, fechando os olhos e sentindo beijos ao longo do seu tórax, indo em direção ao seu pênis ereto.

Uma arfada baixa escapuliu de seus lábios quando ele sentiu beijos estalados próximos à sua intimidade. As mãos calejadas acariciavam a parte interna das suas coxas com destreza, massageando a região e espalhando arrepios involuntários em seu corpo. A respiração morna ia de encontro ao seu pênis e Itachi mordeu o lábio inferior, quase enlouquecendo de expectativa.

Ele ouviu quando os lábios do seu amante se abriram em um estalo molhado, dando tempo apenas para Itachi prender a respiração, enquanto a boca morna e úmida abarcava a cabeça do seu membro, sugando gentilmente, depois fazendo uma pausa. Itachi expirou ruidosamente enquanto o outro repetia o processo com uma lentidão exasperante.

Dedos fortes seguravam suas coxas, impedindo-o de se movimentar e aumentar o contato. O outro liberou sua ereção com um ruído obsceno, passando a sugar apenas a cabeça do seu pênis, espalhando saliva na área e com isso fazendo uma sensação morna de prazer percorrer em seu corpo. Um gemido baixo, que Itachi mal reconhecia na sua voz, soou, enquanto o outro lambia a extensão do seu pênis e depois passava a sugar suas bolas, uma por vez, fazendo Itachi suspirar.

Em seguida, seu amante voltou a abocanhá-lo por completo, passando a segurar seus quadris. Itachi parou de segurar os lençóis para agarrar os cabelos macios e curtos do seu amante, que permitiu que Itachi guiasse o ritmo do boquete com um gemido abafado que...

SHOT IN THE HEART! AND YOU'RE TO BLAME, DARLING…!

Itachi abriu os olhos na mesma hora, completamente assustado, ouvindo Sasuke gritar assustado e se levantar da cama, mas acabando por pisar no lençol e cair no chão.

YOU GIVE LOVE A BAD NAME!

-PERDEU PLAYBOY EU JÁ 'TOU ACORDADO! –berrou Menma do lado de fora da casa e os latidos de Pongo e Lessie só confirmavam isso.

-Será que alguém pode desligar esse som? –Kakashi gritou da cozinha.

-Mas o que...? –perguntou Sasuke, completamente desorientado, se levantando do chão e limpando os olhos, enquanto Bon Jovi ainda tocava pela casa.

Itachi puxou o lençol até cobrir seu rosto, querendo se esconder do mundo pelas próximas duas semanas. Ele odiava outubro! E tinha que ser depois do sonho que ele teve? Justo quando ia para a melhor parte! Lembrar do sonho imediatamente o fez recordar das sensações que sentiu... Era tão real... tão...

-MENMA VOCÊ 'TÁ MORTO! –gritou Naruto do banheiro.

-MAS QUE PORRA 'TÁ ACONTECENDO CARALHO! –urrou Sasuke completamente transtornado com os gritos. Itachi virou o rosto para encarar o irmão mais novo, mesmo com o lençol anuviando a sua vista, ele viu quando o joelho de Sasuke bateu na quina na cama. –PUTA QUE PARIU!

Bem, era uma surpresa bastante desagradável ver que seu irmãozinho mais novo ficava falante quando estava mal humorado. Sasuke massageava o joelho machucado, mas logo voltou a caminhar até a porta com passos pesados enquanto alguém corria escada a cima, fazendo mais barulho ainda. Itachi finalmente saiu da cama, se sentindo completamente esgotado mentalmente nos dois primeiros minutos do dia.

-MENMAAAAAAAAAAAAAA! –rugiu Naruto com raiva, chutando a porta do banheiro.

O outro gêmeo começou a gargalhar, Sasuke que, até meio instante atrás, estava decidido a matar um tinha parado na porta e agora estava completamente estático e mudo. Com um suspiro pesaroso, Itachi finalmente foi até lá, vendo que agora Sasuke parecia estar se divertindo com alguma coisa, tanto quanto Menma que não parava de rir igual hiena. Itachi olhou para frente e... Ele piscou sem acreditar no que via.

Naruto estava com o cabelo roxo.

Mas não era só isso o pior, Naruto tinha saído do banheiro sem nem se dar ao trabalho de se enxugar ou colocar a toalha ao redor da cintura, o máximo que fazia para ocultar a sua evidente nudez era segurar a toalha branca, agora meio lilás, no meio das pernas. Por algum motivo, a boca de Itachi ficou seca e seus olhos não desgrudavam da figura do irmão.

Várias gotas de água em um tom ligeiramente arroxeado percorriam pelas linhas do tórax definido de Naruto, a cor fria contrastando solenemente com o bronzeado da pele do seu irmão. As coxas grossas e musculosas eram mais claras que o resto do corpo, mas não muito. Itachi piscou novamente e se concentrou em olhar somente para o rosto furioso de Naruto e para o cabelo violeta.

-E só isso? –brigou Naruto com raiva, lançando um olhar incrédulo para Menma, que ainda continuava a rir. –Só um pouco de vg no xampu?

-E que roxo é tão fashion! Achei que combinava com você! –respondeu Menma alegremente, dando as costas para Naruto e pulando alegremente até a escada. –Um a zero! Um a zero!

-Você não perde por esperar! –afirmou Naruto com a voz maliciosa e um sorriso zombeteiro perigoso no rosto. Foi então que Naruto reparou nele e em Sasuke. –O que é que foi, hein? Nunca viu um cara com cabelo roxo não, é?

-Nunca um com uma cara tão idiota quanto a sua. –respondeu Sasuke com ironia e divertimento, entrando no quarto.

Itachi permaneceu na porta, sem entender muito o quê se passava na cabeça do seu irmão, por parte de mãe, mais novo.

-Francamente Itachi, é por isso que nunca você faz sexo? –perguntou Naruto com a voz venenosa e ele se virou para encarar o outro irmão. –Por que você tem fetiche por quem tem cabelo roxo?

Por um milésimo de segundo, Itachi ficou muito desconfortável com o que o mais novo disse, principalmente porque ele tinha bastante noção da ereção entre suas pernas. Mas, felizmente, Menma não o chamava de "príncipe do gelo" sem uma boa razão e ele conseguiu ocultar sua vergonha, fingindo desinteresse. Naruto bufou com raiva entrando no banheiro, não sem antes dar uma visão total do seu traseiro a Itachi. Não que ele quisesse olhar, mas era meio inevitável se alguém vira de costas e não está vestindo nada.

-Só tem louco nessa casa. –comentou Sasuke frustrado, arrumando a cama e Itachi inspirou profundamente para esvaziar sua mente sobre o ocorrido. –Como é que você aguenta?

Itachi explicou a Sasuke que as duas semanas que antecediam o aniversário dos gêmeos eram cheias de peças que Naruto e Menma aprontavam um para o outro, mas que acabavam perturbando qualquer um que convivia com os dois. Sasuke ficou completamente frustrado com isso, pensando que os gêmeos tinham a mentalidade de crianças de cinco anos o que, bem, Itachi não conseguia discordar.

Kakashi saiu cedo de casa, voltando somente na hora do almoço com notícias de um novo caso, mas não chegou a explicar os detalhes porque Naruto colocou mentos na coca-cola de Menma e isso fez um estrago na mesa da cozinha.

Ele e Sasuke acabaram comendo na sala, enquanto Kakashi fiscalizava o serviço dos gêmeos. Depois, Kakashi mandou fazer as malas, inclusive Sasuke, que parecia radiante por finalmente estar participando de um caso, embora Itachi pensasse que seu irmão ainda não estava pronto. Mas ele não teve tempo de retrucar essa decisão, eles iam viajar dali umas quatro horas no máximo.

Infelizmente as surpresas desagradáveis não acabaram por aí. Bastou eles entrarem na SD e Menma ligar o motor que outra lembrancinha de Naruto começou a tocar.

I heard that you're settled down…

-Adele? –perguntou Menma indignado, fazendo uma careta, desligando o rádio do carro, mas não adiantou nada, o rádio parecia ter vida própria porque voltou a ligar e a música continuou. Pior, a voz de Adele parecia vir debaixo do assento do motorista. –Você não...? Porra, sacanagem velho...

Naruto começou a rir ao lado dele, ao ponto de começar a lacrimejar. O fio preto do fone de ouvido visível e em contraste com o cabelo violeta. Por mais baixinho que fosse, Itachi escutava a voz de Ozzy Ourbourne cantando "war pigs".

-Eu disse que você ia me pagar! –comentou Naruto bem humorado, lançando um sorriso maroto para o gêmeo que ostentava um bico irritado. –E dirija ou não vamos chegar no aeroporto a tempo!

-Será que vocês não podem entrar em uma trégua até chegarmos em Sirasota? –perguntou Kakashi bondosamente.

-NÃO! –responderam os gêmeos em tom resolutivo. Itachi revirou os olhos e Sasuke bufou indignado.

Depois de uma hora e meia ouvindo "someone like you", os ânimos não estavam lá muito bons, principalmente quando se chegava só meia hora antes do avião embarcar. Itachi olhou pelo aeroporto e viu uma cabeça rosa cumprimentar Kakashi, que entregou as chaves do carro; era de praxe os Senju cuidarem da fazenda quando eles viajavam.

Itachi acenou para a garota e Sakura lhe lançou um sorriso gentil, logo saindo do aeroporto. Ele teria avisado Menma, se os gêmeos não tivessem escolhido justamente aquele momento para brigar qual banda era melhor: Megadeth ou Metallica. Sasuke emitia uma aura assassina tão intensa que fez uma criancinha chorar no colo da mãe. O pior que o bebê, que no máximo devia ter dois anos, tinha ótimos pulmões.

Depois disso, Kakashi veio até eles e entregou a cada um deles um pequeno kit pessoal contendo documentos falsos, cartões de crédito, uma cópia do relatório da investigação feita pela polícia do submundo, um celular, uma garrafa de água benta, um sinalizador, uma arma carregada com cinco balas de sal grosso e uma lanterna. No kit de Sasuke havia uma máquina fotográfica semi-profissional que fez seu irmão erguer uma sobrancelha e Itachi riu: era bem evidente que Sasuke não sabia mexer naquilo. Todos guardaram o material dentro de suas bagagens de mão.

Kakashi avisou que o Kazekage planejou a missão e que eles tinham que ler o relatório durante o vôo. Em seguida, eles entraram por uma passagem restrita a funcionários da segurança do aeroporto, sendo escoltados pelo delegado da polícia federal em pessoa e em pouco tempo embarcaram na aeronave. Ele ficou com o lugar perto da janela, Sasuke com a poltrona perto do corredor e felizmente ninguém no meio.

O pobre Kakashi ficou entre os gêmeos que, temporariamente, ficaram quietos: nem Naruto, nem Menma gostavam de decolagens e aterrissagens. Menma começou a cantarolar "symphony of destruction" para se acalmar e, para provocar, Naruto começou a cantar "Seek and destroy"; seria uma longa viagem. Itachi começou a ler as instruções.

Ao que parecia, havia um vilarejo nas montanhas a oeste de Sirasota chamado Sirrah, há uns cinquenta anos se realizava um festival anual no mês de outubro, o que atribuiu ao lugar a fama de unir casais. Ocorre que para um lugar com fama de 'casamenteiro', os índices de crimes passionais brutais eram altos demais, bem como o resto da economia local parecia girar em torno de pontos de sexo. E no casamento gay, ao que parecia.

O relatório circunstanciado da polícia do submundo ainda apontava que a cidade provavelmente estava associada com a coroa de Asmodeus, até então perdida, sendo que a missão deles era recuperar o objeto e destruí-lo.

O Kazekage delimitou a atuação de cada um deles, incluindo Sasuke no plano. Itachi ficou frustrado com isso, porque provavelmente deveria ter dedo de Menma nisso tudo. O plano tinha três momentos: a) reconhecimento da área; b) estabelecimento da central de comando; e c) infiltração.

A primeira parte do plano foi designada para ele e Sasuke, os dois deveriam locar o Duster reservado em nome de Izuna Uchinaze e seguirem viagem até Sirrah. Lá eles se passariam por jornalista e um fotógrafo que foram designados a cobrir o evento. O objetivo era conhecer a cidade, avaliar quais as melhores chances do local onde a coroa poderia estar e averiguar a possibilidade de algum inimigo. Itachi suspirou um pouco mais aliviado: não era uma tarefa perigosa e ele poderia vigiar Sasuke, assim podendo protegê-lo melhor.

A segunda fase do plano cabia a Kakashi que deveria atuar na central de comandos. Kakashi deveria pegar uma minivã que o levaria até Sirius, o município ao pé da serra onde ficava Sirrah, e montar base em uma casa no subúrbio do lugar. Lá ele iria dirigir a missão, correlacionar as informações colhidas por Itachi e Sasuke para direcionar os demais membros da equipe e repassar as informações ao Kazekage. Kakashi também deveria preparar o terreno para a purificação do objeto. Naruto e Menma ajudariam nessa fase ao se deslocarem de Sirasota até o distrito de Aldebaran para pegarem o material de purificação e mais armamentos.

A terceira fase também devia ser realizada pelos gêmeos que se infiltrariam no evento como seguranças para terem maior acesso aos objetos de culto, consequentemente à coroa. Itachi e Sasuke deveriam dar apoio aos dois, caso aparecesse algum imprevisto como um inimigo inesperado ou simplesmente as pessoas da cidade empatando a missão.

Todos tinham uma semana para realizarem suas atribuições. Também deveriam fingir que eram desconhecidos tão logo a aeronave chegasse em Sirasota, o contato deveria ser exclusivamente via mensagem de texto. Itachi se certificou que Sasuke leu o conteúdo programático e então se permitiu tirar um cochilo no avião, sabendo que isso seria precioso.


-Só você vai dirigir o carro? –perguntou a atendente bonitinha da locadora.

Itachi assentiu com um gesto positivo da cabeça e a mulher anotou alguma coisa no computador. Eles ainda estavam dentro do complexo de desembarque, Sasuke era o responsável por pegar a única mala que eles tinham trazido, mas bem: seria mais estranho viajar se mala alguma.

-Você tem algum passageiro? –ela perguntou com a voz esperançosa.

-Sim. –Itachi respondeu com educação, vendo o rosto da mulher ficar tristonho com sua resposta. -Meu irmão.

Novamente a mulher digitou alguma coisa no computador e Itachi esperou pacientemente o questionário infinito terminar. Eram oito horas da noite, de Sirassota até Sirrah eram quatro horas, daí se saíssem muito tarde do aeroporto, só conseguiriam se hospedar em motéis. Nada contra motéis, mas era bem chato dormir num local que volta e meia você acordava com um cara gritando porque tinha gozado. Para alguém que tinha sono leve como ele, motéis eram um inferno.

-Destino? –a atendente perguntou outra vez.

-Sirrah.

-Oh... oh. –murmurou a atendente surpresa, sem nem mesmo digitar a resposta no computador.

"E lá vamos nós..." pensou Itachi se controlando para não revirar os olhos com a típica confusão que a maior parte das pessoas tinha a seu respeito e de seus irmãos.

-Nii-san! –chamou Sasuke, trazendo a mala. –Terminou por aqui?

-Eh...? Ah que bom! São irmãos mesmo! –comentou a atendente aparentando estar satisfeita, olhando de Sasuke para ele. Sasuke lançou um olhar petulante à mulher. –Sempre dizem que são 'irmãos' sabem? Aí vão pra Sirrah e viram maridos! Maridos!

Itachi conseguia escutar os neurônios de Sasuke trabalhando para tentar entender o que a mulher disse, mas não conseguindo compreender. Agora ele entendia um pouco mais porque Menma o chamava de 'meu amor' todas as vezes que pensavam que ele namorava Naruto ou Menma. Ou os dois.

-Seu documento, meu amor. –pediu a atendente, sendo muito mais solícita agora. –Indra, né?

E finalmente Sasuke entendeu o que a mulher quis dizer, fazendo uma leve careta, antes de assentir com a cabeça e terminar de responder o formulário.

-Só agora? –Itachi perguntou, cutucando o centro da testa do irmão mais novo com o dedo indicador e o médio.

-Isso é tão infantil. –resmungou Sasuke mal-humorado, batendo na sua mão.

Após assinarem o seguro, a atendente os direcionou até a entrada do aeroporto onde outro funcionário da empresa de locação de veículos os esperava para lhes guiar até o Duster. Itachi não teve problemas em achar e dirigir o carro até a saída da cidade, o rádio tocando algo diferente de Adele, mas mesmo Sasuke lhe lançou um olhar frustrado quando ele escolheu uma rádio de rock.

Os dois não conversaram muito enquanto ele dirigia, Itachi não gostava de perder a atenção na rodovia, onde volta e meia aparecia aquelas carretas. Na família ele era considerado como o 'condutor mais lento', embora ele preferisse ser tachado de 'cuidadoso'. Menma era o motorista habitual porque seguia as normas de trânsito, sem ser 'uma completa lesma automotiva', palavras carinhosas que Naruto usava para defini-lo é claro. Kakashi era um condutor rápido, mas era barbeiro, era simplesmente desesperador estar no banco do passageiro. Naruto era quem dirigia defensivamente e a melhor opção para fugas. Felizmente, Sasuke não sabia dirigir e nem tinha CNH.

Boas horas se passaram enquanto ele dirigia. O asfalto era bom e a rodovia era iluminada, quando começaram a subir a serra, não havia nenhum outro veículo na pista. Sasuke começou a dormir e Itachi sentiu um pouco de inveja do irmão. Contudo, ele diminuiu o som e tentou não ficar muito irritado porque o ar rarefeito alterava sua audição.

O irmão mais novo acordou de um breve cochilo quando eles atravessaram o arco de boas vindas de Sirrah e o enorme pomar de macieiras, naquela hora com um aspecto macabro, surgir a direita. Depois de um tempo, tudo o que eles podiam ver eram as macieiras e a rodovia.

Na quarta curva o som do rádio começou a dar interferência. Itachi ergueu a sobrancelha, achando estranho e depois percebeu que as luzes dos postes começaram a tremeluzirem. Um sinal de alerta correu em suas veias quando ele reconheceu os sinais e a julgar pela expressão espantada de Sasuke, o irmão também percebeu.

-Sasuke, pegue as armas. –Itachi mandou. Pelo canto do olho, ele observou Sasuke lhe olhar meio desnorteado. –Rápido!

A voz de Chubby Cheker começou a ficar ainda mais entrecortada, a estática ficando ainda mais insuportável e Itachi estava vendo a hora de tudo o que iluminar a pista serem os faróis do carro. Sasuke tinha desafivelado o cinto de segurança e puxado as mochilas que eles tinham jogado no banco de trás. Itachi apertou o botão das janelas do carro, reduzindo a velocidade enquanto fazia a quinta curva seguida.

-Aqui! –disse Sasuke com a voz animada. –Está acontecendo alguma coisa, né?

Itachi apenas assentiu, aproveitando a distância do volante e das suas pernas para dirigir o trecho mais reto da rodovia com o joelho, enquanto destravava a arma. Sasuke fazia o mesmo ao seu lado. Ao terminar a quinta curva, a música do rádio parou. O clima da serra era naturalmente mais frio do que o de Sirasota, não servia muito de indicativo para qualquer coisa que ele conhecesse, mas precisavam estar alertas.

-Fique com a arma na mão... –disse Itachi em tom sério.

Sasuke assentiu. Com cuidado, Itachi ainda dirigia pela pista no escuro total. Apenas os faróis do carro iluminavam a pista e tudo estava mortalmente silencioso, sem animais fazendo barulho, sem qualquer sinal de vida humana, apenas macieiras e a rodovia. Itachi estava totalmente concentrado na pista e nos arredores, volta e meia olhando pelo retrovisor, esperando ver alguma coisa.

Mas não havia nada, só aquela certeza de que algo iria acontecer. Ele engoliu um seco, se concentrando em tudo ao seu redor para não deixar que as emoções o atrapalhassem naquilo. Sasuke precisava ser protegido, era a primeira vez do irmão nisso e era simplesmente errado. Havia algo errado ali. Se era apenas para pegar um objeto, se existisse qualquer coisa o protegendo não estaria ali, naquele minuto. Havia algo que eles não sabiam ali, algo muito errado e Itachi conseguia sentir isso.

Suas respirações formavam fumaça e Itachi sentia que estava perto, muito perto de acontecer algo. Apesar da vontade de acelerar, Itachi reduziu ainda mais a velocidade. Há uns quinze metros na sua frente, havia uma estrutura, parecia uma casa ou um templo, Itachi estava certo de que havia alguma coisa lá... As enormes portas de metal vermelho estavam abertas, como se convidando algum visitante desavisado a entrar lá dentro... Por um instante, ele jurava ter visto um homem com uma corcunda na frente do templo. Itachi estreitou a visão, tentando ter certeza.

Mas, de repente, ele não conseguiu enxergar mais nada, todas as luzes se ascenderam na mesma hora em clarões ofuscantes. Itachi, por instinto, pisou no acelerador e ao perceber isso ele se forçou a olhar pela frente, enquanto a rádio voltava a funcionar num volume além do que estava regulado e uma voz visceral, feita de estática urrar pelas caixas de som: NÃO VÃO ESCAPAR!

-CUIDADO! –gritou Sasuke com alarde.

Um homem saiu dos campos de macieira e invadiu a rodovia, ficando bem em frente ao carro. Itachi pisou no freio na hora, mas o carro não queria parar. O pneu do Duster começou a cantar no asfalto, as luzes todas voltavam a piscar.

-SOCORRO! –pediu o homem com um olhar desesperado. –Por favor...!

"Não vai dar..." pensou Itachi com desespero quando viu que o carro ia atingir o homem, que chorava pedindo ajuda. "Não vai dar...!".


Resposta ao review


Ktsune Lyra

oi oi oi

e sim, eu sei. Sasunaru/Narusasu é o seu otp e a cena do capítulo passado rasgou os dois de tantas formas que chegou a ser doloroso ahuahuahauhauhauhauhauaha Mas vc passou pela prova de fogo! Considere-se uma vitoriosa yay

E o Sasuke tem um atestado de idiota, é normal ele ser idiota, deve ser patológico -q

Mas sério, Sasuke tem suas motivações para ser assim :/

Thank you pelo elogio, não sei se mereço tanto, mas eu me esforço para ser uma escritora melhor ^^


Nota da Autora


Então é isso pessoal. Capítulo um pouco maior, é, parece que eu não consigo manter minhas promessas de deixar isso aqui em torno de 8 mil palavras -.- Mas vou tentar deixar isso de 8 a 10 mil ok? Pra não ficar muito maçante -.-'

Não prometo cap pra segunda, como eu disse: menos tempo pra escrever. Vou me esforçar through.

Gentem, me digam o que estão achando da fic! Tou vendo vocês tão mornos com ela, tá muito maçante, é? ._.' Caramba, aqui no ffnet tem várias visualizações e só a minha beta comenta. Poxa, eu não mordo não viu?