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N/A: Não sou a favor do uso de ilícitos, nem muito menos à violência doméstica.
Mas são assuntos também abordados nesta fic, não em detalhes gráficos, mas menções.
Peço desculpas antecipadas se o assunto chateia alguém. Mas esse é um aviso.
Como sempre, agradeço à minha índia que não tem medo de espírito da floresta.
Disclaimer: Meyer lançou um bestseller, e eu continuo escrevendo fic. É.
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Capítulo 2 – Great Pretender. EPOV
O espelho menor me mostrava o reflexo dos resquícios brancos da pilula diluída à pó que eu tinha acabado de inalar enquanto limpava a abertura de meu nariz. Sabia que não precisava me esconder, afinal estar na minha própria casa, com meus próprios problemas e consumos não era da conta de ninguém. Mas eu respeitava Alice e definitivamente queria evitar o olhar que desaprovava minhas ações - que por muitas vezes podia ser convincente. De forma alguma ela falaria algo, mas apenas seu olhar me fazia revirar os olhos e guardar o comprimido derrotado, com o medo de decepcioná-la.
Às vezes brincávamos dizendo que não tivemos escolha para sermos amigos, que estávamos presos às nossas merdas, vacilos e recaídas. Era verdade, mas se eu tivesse escolha, seria ela de qualquer jeito. A ser minha melhor amiga, a dividir apartamento, vacilar junto... reerguer junto. Eu estava contente por ela estar melhor encaminhada que eu. De ser tão mais forte e tratar tudo o que já passou como uma má experiência. Pelo menos na maioria das vezes.
"Edward, que tal sair do banheiro? Eu tenho trabalho, se você não lembra."
"Estou saindo." Abri a porta encontrando sua figura pequena com um estojo das maquiagens e o cabelo preso em um rabo de cavalo. Sorri sentindo a quantidade exacerbada de Fluoxetina inalada anestesiando meu corpo - o mesmo que inibe a depressão, encontrado no remédio de qualquer avó; o famoso Prozac. Alice revirou os olhos azuis e passou por baixo do meu braço para ver seu reflexo no espelho grande.
"A gente precisa comprar detergente e sabão em pó pra casa." Ela inclinou o corpo mignon passando algo nos cílios.
"Já acabou?" Perguntei escorando na porta.
"Não, é pra deixar de reserva." Seu sarcasmo pesava mesmo ela não tendo o rosto direcionado para mim. Mordi a ponta da língua franzindo os olhos e puxei o elástico que prendia o cabelo. "Edward! Qual o seu problema?"
Se eu não estivesse tão alto permaneceria sério, mas meu estado não reprimiu o sorriso largo em meu rosto. "Qual sabão em pó?" perguntei enquanto ela ainda me xingava baixinho.
"Me liga quando você for passar no mercado, ou manda mensagem. Você vai acabar esquecendo se eu falar agora." Seus olhos me fitaram avaliando meu estado, e suspirei tentando parecer normal.
"Certo. Vou mandar mensagem."
"Onde você vai agora?" Ela olhou minha roupa.
"Casa da Jessica." Ela deu um riso debochado balançando a cabeça e guardou suas coisas.
"Ou ela é muito burra ou muito ingênua."
"Não seja tão má." Pedi quebrando o pescoço para o lado, não acreditando nem em minhas próprias palavras. Sorri.
"Não seja tão sacana." Ela cerrou os olhos que me julgavam.
"Não sou. Apenas vario minha rotina de vez em quando."
"E agora segundo nome pra traição é variação de rotina?" Sua sobrancelha arqueou e um sorriso irônico brincava em seu rosto. Dei os ombros e ela sacudiu a cabeça jogando a bolsa pelo braço antes de se aproximar. "Juízo." Ela subiu na ponta dos pés e plantou um beijo em minha bochecha. A sensação era boa, me fazia pensar em mar e brisa de praia. "E cuidado quando for dirigir."
As palavras ficaram soltas no ar e eu fiz o caminho para o carro sem sentir os degraus da escada debaixo dos meus pés. Tateei a carteira no bolso de trás e olhei para as notas que deveria depositar na conta que esperava por mim todo início de mês.
Desde os meus três anos de idade meus pais falavam sobre fundos para a faculdade. Aos sete, eles se separaram. Eu nunca realmente acreditei em matrimônio. Era apenas um papel que arrancava injustamente todos os seus bens quando uma troca de alianças não dava certo - os mesmos que você jurou perante uma força superior que estaria ao lado até que a morte separasse. Assim as dificuldades dentro de casa começaram a surgir. Morando três anos com minha mãe, logo me mudei para uma cidadezinha pequena junto a meu pai que nunca estava em casa, e a sua ausência resultou na perda da guarda. Novamente me encontrei morando com Elizabeth, que buscava trabalhar o dobro para lidar comigo e sustentar a nós dois. Sua depressão, porém, não foi a melhor forma de me manter por perto.
Uma conta conjunta foi criada quando completei meus dezesseis anos, para uma melhor aparência para o juíz quando eu estava prestes a ser mandado para assistência social. O dinheiro de pensão do meu pai sempre fora para pagar o aluguel, e minhas liberdades começaram a ser cortadas. E para um adolescente, liberdade limitada representava perigo. Para mim, não seria diferente. E sair da realidade aprisionada foi uma vitória dupla. Descobri logo onde comprar aquela pequena erva, ou pequena pílula que me deixava radiante e livre de preocupações e logo me afiliei para ajudar nas 'vendas'. Quem disse mesmo que felicidade não se compra? Mesmo que fosse só por uns instantes, eu esquecia o rosto cansado de trabalhar da minha mãe, esquecia a culpa que queimava meu peito e a raiva que corria nas minhas veias quando pensava no meu pai.
Mike era um cliente assíduo, e para a minha sorte ele veio como uma luva, me deixando posar como atendente de sua locadora, enquanto pegava mercadoria comigo com um preço camarada. Assim eu tinha a desculpa perfeita para o crescimento misterioso da conta no banco. Pelo menos dessa maneira eu conseguia conciliar tempo de trabalho e estudo o suficiente para completar o colegial.
Não que eu use a droga como desculpa para bancar alguém em casa, pois também sou usuário. Dizer que os remédios de tarja preta melhoram a vida seria apenas para começar a minha grande lista. Meu estado de espírito e bolso tinham o balance perfeito.
(...)
Meus pais tinham a expressão gelada e seus olhos pareciam não olhar para outro lugar que não fossem um ao outro. Eu estava cansado de vê-los gritando toda vez que se viam, cansado de ouvir minha mãe chorar porque ele tinha viajado e de não poder fazer o que ela gostava. Eu sabia que era minha culpa de ela se sentir tão presa. Eu não fui uma criança planejada e isso nunca foi escondido. A evidência de sua barriga nas fotos vestida de noiva me mostravam o que não era dito. "É só assinar aqui..." Um senhor de terno apontava para o papel em frente ao meu pai. Observei o trincar de seu maxilar e sua respiração profunda antes de correr com a mão riscando o tal papel. Minha mãe me olhava do outro lado da sala e seu rosto sem expressão me assustava. Eu sabia que ela estava se concentrando em não gritar ou chorar. Ela sempre fazia isso antes de meu pai sair para alguma viagem de trabalho, e logo depois eu via algo quebrado pela casa. Era nosso segredo; pois alguns minutos depois que eu a encontrava enroscada em algum canto da casa, eu me sentava perto segurando sua mão e esperando que sua angústia passasse. "Assim os declaro divorciados." Foram as palavras do homem conferindo a documentação, antes de reunir a mala e sair porta afora
(...)
Se fechasse os olhos conseguia lembrar exatamente de seu ataque quando a última mala de meu pai foi retirada de casa. Como quebrou a louça e fez todo um teatro que só tinha olhos lógicos para si. Uma velha vizinha passou a vir ajudá-la e encobrir metade dos deveres que ela deveria estar cumprindo. Inclusive me arrumar para a escola, ou me ensinar a fazer algumas tarefas em casa. Mas Sra. Sue já estava velha demais, e logo os joelhos não aguentavam subir as escadas da casa.
Aos dezessete conheci Alice - a nova vizinha. Nessa idade já tinha visto quase tudo no mundo, e não me surpreendi quando a pequena me flagrou atrás da velha casa contando dinheiro e pílulas no chão. Uma nova comunicação foi feita, e eu tinha mais uma cliente constante. Porém, quanto mais ela vinha, mais assustado eu ficava. Seu rosto transtornado, sempre com marcas borradas, olhos vermelhos e uma aparência nada sadia. Não demorou para que eu sacasse a situação que vivia na casa que dividia com o noivo. Quando nos comprometemos a uma rotina - a cada três semanas - eu notava os sinais estranhos de uma jovem com seus vinte e poucos anos.
E foi em uma tarde quente demais, voltando das últimas aulas do colégio - um pouco antes de eu me formar - que a encontrei encolhida no soleiro da minha porta. Jessica ficou apavorada absorvendo toda uma miniatura de informações, praticamente deformada em frente a minha casa. Após ser interrogada pela polícia inúmeras vezes, e ficar no hospital mais algumas semanas, Alice passou algum tempo conosco. Tempo o suficiente para que eu terminasse a escola e fizesse planos para arrumar um emprego, e um apartamento para dividir.
Eu estava orgulhoso dela.
Jessica e eu tínhamos nossos próprios planos desde o segundo ano para entrarmos na mesma faculdade, morarmos juntos finalmente. Uma parte clichê que eu deixava entrar na minha vida. E eu era bom em me fazer gostar de tudo isso. Já nem sabia mais se tinha me acostumado, ou se realmente queria aquilo para mim. Infelizmente, os fundos para a faculdade e o dinheiro que recebia por fora não cobriam metade das despesas. Como minha namorada sempre foi a preferida do pai, conseguiu um pequeno quarto dentro da própria faculdade - eu, pouco tempo depois, estava fora da universidade.
Eu mantinha essa rotina instável de 'casa' e o dormitório de Jessica. Era fácil, simples e não se tornava entediante. Eu ja considerava 'casa' como o espaço de Alice, e agia como um visitante periódico. O pequeno apartamento vazio que mantinha perto do centro fora dado como pagamento de uma grande quantia de coca vendida. Eu não podia reclamar, pois muitas vezes aquilo era meu refúgio. Apenas Alice conhecia realmente o local. Seria muita mentira para tomar conta uma vez que abrisse a boca para a namorada. Fora que era longe do dormitório dela, e eu não me importaria o suficiente para fazer viagens constantes.
"Chegou cedo." Jess disse me abraçando pela cintura. Sorri preguiçoso e fiz meu caminho para a sua cama que se encontrava cheia de papéis espalhados, e uma completa desordem de livros.
"Estava estudando?"
"É, uma prova que vou ter em três partes. Já está me deixando fora do sério." Colocou a mão na cintura enquanto eu esbarrei os olhos por seu corpo.
Na época de escola o que me interessava eram seus seios. Sempre maiores do que os da maioria das meninas, simplesmente me chamava mais atenção. Foi cômodo e fácil sair com ela algumas vezes e tirar sempre uma prova do que um dia eu clamaria meu. Seu rosto não era desagradável, mas depois de tantas noites passadas com outras anônimas os olhos azuis já não me eram tão impressionantes. Jessica era estudiosa, interessada, e às vezes isso podia ser tão maravilhoso quanto irritante. Ela, assim como minha mãe, queria me ver formado. Eu apenas não tinha paciência para salas de aula, professores e muitas conversas teóricas. De algum jeito ela sempre trazia de volta o assunto de voltar a estudar. Estar com os ombros leves como eu estava no momento era a melhor opção.
"Quer me ajudar?" Perguntou prendendo o cabelo.
"Vem aqui." Embalei seu corpo entre meus braços escutando a risadinha sortida escapar de seus lábios quando caiu de costas no colchão.
(...)
"Por que não se muda comigo?" "Jess... Você sabe que eu não posso." E não quero. "Eu acho que ela está melhor, Edward." Reafirmou. Sacudi a cabeça não querendo ter essa discussão, desejando estar alto como uma pipa. "De verdade, e você sabe que aqui você também não precisaria pagar aluguel..." "A gente já discutiu isso." Murmurei cansado de carregar caixas, e mais caixas para o dormitório de Jessica. "Acha mesmo que daria certo morarmos juntos?" "Acho." Cruzou os braços certa de sua opinião. "Já estamos juntos há tanto tempo! Eu sei que falar de futuro distante pode assustar," sua mão aliciou meu cabelo tentando me persuadir. "mas temos que pensar para frente. Eu tenho que saber o que quer fazer depois da faculdade. Para onde vamos..."
"Não sei nem se eu quero continuar na universidade, Jessica." As palavras saíram antes que eu me desse conta e controlasse minha boca. "Como assim? Eu sei que os primeiros semestres são difíceis, mas você não pode desistir." O desespero em seus olhos tilintava com lágrimas. "Mas as coisas não estão as mesmas, eu não tenho dinheiro para cobrir o resto, e um apartamento." "E você sabe muito bem que trabalhando no campus conseguiria uma bolsa." Teimou, agora raivosa. "Se não quer é outra coisa, mas não culpe o dinheiro." "Você não entende." Fechei os olhos, mas abri no tempo certo para impedi-la de retrucar. "Eu não vou argumentar agora." Firmei minha voz. "E você ainda acha que moraríamos sem querer nos matar?" Ela repensou alternando em não discutir mais. O assunto foi deixado para lá
(...)
Terminando de usar o banheiro, levantei o zíper da calça e vi meu rosto marcado de sono. Passava um pouco das cinco e eu tinha recebido uma mensagem que a mercadoria tinha chegado e precisava ser entregue. Se colocarmos em um ponto positivo poderia se dizer que eu tinha sorte por conhecer alguém não tão babaca de ameaçar minha vida caso algo desse errado. Mas ainda sim o medo gelava minhas veias mesmo com o sangue correndo mais rápido. Atrasar era algo imprecindível, e custava um pouco mais do que algumas notas gordas do seu percentual. Algumas vezes um dedo, um pedaço de orelha, ou uma marca atravessada na bochecha. Eu fazia de tudo para me manter na linha.
"Amor, seu celular está tocando de novo."
"Quem é?" Gritei do outro lado da porta. Meu celular tinha todos os tipos de pessoas e desculpas plausíveis para cada uma delas estarem na lista, não me preocupava de ela ver alguma coisa. E sabia melhor do que salvar mensagens no telefone. Jess não era parte e nem precisava desse meu lado.
"Alice."
"Atende, por favor."
Alice tinha dito mais de uma vez que não se aproximaria de Jessica o bastante para tê-la como amiga. Por um lado me enfureceu, na época em que estávamos nos tornando mais próximos; Alice poderia me ajudar com muitas coisas. Mas deixou claro como cristal que não era tão sacana como eu, mesmo com a convivência. Eu não a culpava, é lógico. Mas sabia que Jess queria ter sido um pouco mais íntima. Ser parte de um todo da minha vida. Inúmeras vezes me vi sentado questionando esse tipo de comportamento, as conclusões de Alice eram claras: eu não gostava de ficar sozinho. Eu só podia rir, porque ao mesmo tempo que estava com todas elas, estava comigo muito mais tempo. De repente ela estava certa, mas eu não fazia questão de me preocupar com isso.
"Ela pediu pra passar na lavanderia da esquina do seu apartamento." Sibilou ainda ouvindo as instruções de Alice. "Aqui." Me entregou o telefone.
"Vou sair daqui, passar na casa do Yorki e já chego aí."
"Não demora!"
"Sim senhora."
Desligamos e eu passeei pelo quarto tratando de achar minha camisa. Os livros estavam no chão, e as folhas em diversos cantos. Algumas amassadas sob a cama.
"Já vai?" Jess perguntou bocejando. Concordei me vestindo e jogando o celular no bolso.
"Vamos sair na sexta?" Era nosso aniversário de namoro. Não costumávamos comemorar fora, mas queria diversificar. Inclinei o corpo para cima do seu esperando uma resposta.
"Tem o quê em mente?" Buscou meu rosto entre as mãos.
"Te ligo durante a semana e aviso." Dei os ombros.
Jessica não era muito fã de saídas para os mesmos lugares que eu. Torcia o nariz para cheiros muito fortes, lugares lotados e músicas sem letras. Chegava a ser engraçado como eu era adaptado a uma vida sem ela.
Peguei a direita em uma rua fechada e estupidamente conhecida. Em filmes essa se tornaria escura, fria, com lixões e pessoas com expressões esquisitas; na vida real a rua era residencial, crianças aproveitavam a brisa fresca que soprava no final da tarde, e os vizinhos acenavam gentis. A casa da mentira contradizia toda a façanha de moradia feliz. A casa de Yorkie cheirava a gente, a erva e álcool - não cerveja, mas a Johnny Walker. Ele não deixaria o luxo de tomar seu uísque preferido, e o pequeno escroto tinha sua reserva sempre cheia.
"Quem deixou você entrar aqui?" A arma apontada para a cabeça do pobre cidadão o fazia tremer mais do que sua necessidade da substância. Já havia sido perguntado isso antes - deduzi pela mancha de sangue em sua camisa. "Eu já falei que não negocio com pagante. Eu tenho os meus ajudantes por algum motivo! E eles provavelmente tem os deles para não te vender mais merda nenhuma." A postura de Yorkie era ridícula, fria. Até a chamaria de posada.
"Masen." Giana veio em minha direção com a embalagem endereçada a mim. Ela tinha marcas roxas no braço, e olhos muito vermelhos. Me dava arrepios nada bons com lembranças de Alice anos atrás. "Esse é para você."
"Leva ele lá para baixo." Yorkie guardou a arma e ignorou os sôfregos do rapaz que não deveria ter mais que vinte anos.
"Ele deveria saber melhor que vir aqui reclamar." Giana comentou baixo. Sua frase e voz eram tão vagas quanto seus olhos.
Assenti sem saber o que mais dizer e retornei com o carro para a avenida principal.
"Qual sabão que você quer?"
"Ainda não chegou?" Perguntou irritadiça. Eu ri sonolento sentindo os últimos efeitos do remédio.
(...)
A lavanderia estava vazia - sempre estava. Mas essa hora da noite até as esquinas ficavam. Eu me preocupava com Alice como um irmão protetor, era compreensível pois não queria vê-la machucada como a encontrei da última vez com o ex namorado canalha dela. Para minha sorte, ou não, ela estava acompanhada de um loiro alto que oferecia todos os tipos de sorrisos, mas apesar da distância que mantinha enquanto ela separava algumas peças de roupa não se passava despercebido os olhos faiscando de desejo pela pequena. Era dócil, mas eu - como ele -, era homem e entendia sua linguagem.
"Finalmente!" Clamou confortável em sua calça preta de malha e um grande casaco. "Edward, esse é Jasper, meu amigo do curso. Jasper, esse é Edward, meu colega de quarto, e irmão."
"Tudo bem, cara?" Seu sorriso abriu para mim, e eu tentei focar meus olhos nos seus procurando por algo que aparentemente não existia. Assenti e entreguei o sabão em pó para Alice.
"Ele me acompanhou até em casa, tomamos um café antes de virmos para cá. Sabia que você iria se atrasar." Alice explicou rolando os olhos.
"Eu vou indo porque já está ficando tarde, e eu tenho que ir para o trabalho."
O assistimos ir embora antes de trocarmos um olhar. Suspirei e fiz meu caminho para o cesto com as minhas roupas separadas mais cedo. Assim que terminamos fomos em silêncio para a porta, e eu acendi um cigarro. Ofereci, mas ela negou. Um dos únicos vícios que ela ainda tinha dificuldade de largar, mas estava sendo forte. Apontou para o adesivo na nuca, e cruzou os braços na frente do corpo.
"Não fica dando uma dura nele, tá legal?" Pediu tímida.
"Só fiquei surpreso com alguém com você aqui dentro."
"Eu sei." Concordou, como se a situação também a tivesse surpreendido. "Faz tempo."
"Olha Alice, eu sei que você pode se cuidar. Mas não pode me culpar por me sentir protetor." A deixei absorver enquanto dava mais uma tragada.
"Ele é legal." Deu os ombros. "Tem me chamado pra sair tem meses, Edward. Meses!" Uma risada escapou de seus lábios, e eu vi seus olhos brilharem como nunca. "Se fosse eu já tinha desistido de mim. Mas somos amigos. De verdade."
"Mas ele não quer só isso, quer?"
"Não, eu sei que não." Seu sorriso agora era triste. "E é tão difícil aceitar que exista alguém que não vá me tratar como Felix." Ela estourou em risadas cheias de lágrimas dolorosas. Abracei sua forma pequena até que se acalmasse. "E eu quero que seja legal. Eu gosto tanto dele."
Eu não sabia o que falar. E na verdade não sabia se ela realmente queria ouvir alguma coisa ou apenas externar pensamentos que vêm rondando sua mente por algum tempo, para assim achar uma solução.
"Será que um dia eu vou conseguir ser normal de novo?" Me olhou quebrada. Tão quebrada, buscando respostas de alguém tão errado como eu.
"Você está longe de ser anormal. E não tem idéia de quanto eu a admiro." Segurei suas mãos nas minhas. "A força que tem pra se levantar sozinha, e batalhar pra chegar até aqui de um nada..."
Alice finalmente riu e se afastou. Ela gostava e se divertia quando eu começava a ser um pouco mais profundo com as palavras. A verdade é que ela não aguentava escutar a sobrecarga de elogios que eu despejava.
"Ele me chamou pra sair esse fim de semana de novo." Mais recuperada, ela respirou fundo e me encarou.
"Eu devo fazer alguma coisa com Jessica também, se quiserem sair com a gente." Ofereci.
"Tipo um encontro duplo?" Seu nariz estava franzido.
"Por que não?"
O cigarro acabou e o vento seco, gelado da noite passou por nossas costas. Entramos novamente, sentando em uma das cadeiras plásticas disponíveis.
(...)
"Aqui o seu."
Alice me entregou o prato com o sanduíche simples e leite. A verdade é que tínhamos preguiça de cozinhar, e ela trabalhando em um café podia se tornar realmente chato estar na cozinha o dia todo.
"Você não me falou do final de semana retrasado."
"Hm?" Questionei de boca cheia.
"Semana passada você dormiu na casa de Jessica, certo?" Assenti tomando o leite. "Mas o retrasado você também não dormiu aqui. Foi naquele mesmo clube?"
"Oh, sim." Recordei das três noites seguidas em que meu ponto de venda tinha sido o Eclipse. Era uma boa boate, liberal, donos jovens e fãs de uma boa pílula sorridente. Eu precisava me manter afastado por mais algumas noites antes de voltar para lá, no entanto.
"Algum contato novo na agenda?" Perguntou divertida.
Aí estava algo que Alice, com o tempo, passou a levar mais tranquila. Nunca tive uma vida sossegada com mulheres entre camas e lençóis. Nunca vi propósito. E a cada novo contato na lista, ela procurava para ver o nome mais novo adicionado. Agindo como uma menina normal questionava nome, curiosidades e habilidades - caso eu as lembrasse.
"Alec?" Ela estranhou.
"Aléxia." Corrigi. "Alec para Jessica."
"Não sabia que estava rondando por esses lados, Edward." Brincou.
"Claro, claro."
"Bella!" Encontrou. "Bella de quê? Bella de Isabella? Elisbella?"
"Elisbella?" Questionei sua sanidade com uma grande gargalhada de barriga, quase engasgando com o sanduíche. "Bella de Bella. Não perguntei, está bom só o apelido."
"E como ela é?"
"Fisicamente?" Quis conferir. "Cabelo marrom..."
"Castanho, Edward."
"Tanto faz." Fiz careta. "Castanho, bem branca que nem eu, olho castanho também."
"Que mais?" Ela se animou enquanto terminava de comer.
"Sei lá, quer saber mais o que?" Me espreguicei sentindo o corpo pesado. "Peitos normais, até um pouco pequenos. Magrinha. Pequena."
Nesse ponto eu já tinha os olhos fechados, e a imagem da menina peculiar brotava na minha frente. Como as curvas femininas eram sutis, e como ainda sim eram adequadas. A forma como seus olhos cresciam sérios e misteriosos, e como sua risada parecia ser carregada de segredos e experiência. A perfeita cor de seus lábios tão vermelhos, e o pequeno círculo mais escuro entre eles marcavam o excessivo hábito de fumar. As sobrancelhas que arqueavam modificando totalmente sua expressão e como parecia sexy quando estava com tesão.
"Foi boa então..." Alice constatou interrompendo meus devaneios.
"É, foi." Até onde eu lembrava tinha sido.
Mas tinha passado, e acabado.
N/A: Será que acabou mesmo? ;)
O que acharam da relação da Alice com o Edward? E com a Jéssica?
Próximo capítulo nossas realezas se encontram!
Farei como fiz com esse último capítulo; review = spoiler na semana que vem.
Bom carnaval à todos! Os vejo dia 15/03!
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