Longe. Casa de Iori Yagami.
O homem ruivo estava andando pela casa, traçando um caminho que não chegava a lugar nenhum, mas não estava se importando com isso. estava distraído demais para pensar nisso, ocupado demais tentando ligar para o seu namorado.
"Droga!" pensou, quando mais uma vez ouviu a conhecida mensagem de telefone desligado ou fora de área. Mensagem irritante.
Apertou o botão redial para uma nova tentativa.
"Atende, Kyo... por favor, atende!" pedia, mentalmente em uma espécie de mantra, numa quase prece. Quase, porque não estava sendo atendido.
Talvez os deuses não gostassem dele.
- ... o número discado se encontra desligado ou fora da área de cobertura. Por fa...
- Droga! – gritou, atirando o aparelho longe, exasperado.
Estava pendurado naquele telefone há mais de horas. Desde o dia anterior estava tentando falar com Kyo, mas não conseguia. Iori estava irritado, mas se continha ao lembrar que era sua culpa. Foi ele mesmo quem começara com aquela história toda, e não podia fugir à responsabilidade.
"Onde eu estava com a cabeça...?"
O arrependimento por seus atos daquela noite não demoraram a surgir. Foi apenas o tempo de se acalmar um pouco. O suficiente para pensar e descobrir que sequer se lembrava do motivo da última discussão. Provavelmente algo muito banal. Era sempre assim: um pequeno motivo, - as vezes insignificante se parasse pra pensar - levando ao outro.
Nada que justificasse o fato de ter jogado seu namorado na rua, no meio de uma tempestade.
Será que ele tinha pego aquela chuva toda? Certamente sim, afinal a moto dele estava na oficina...
Kyo tinha todos os motivos para estar aborrecido e não querer atender o telefone... o moreno tinha orgulho, e não ia engolir fácil aquela história.
Sabia que não ia ser fácil, mas precisava falar com ele. Não podia deixa-lo remoer essa história por mais tempo.
Abaixou-se e pegou o telefone que jogara no chão. Decidiu que faria mais uma tentativa. Uma última tentativa.
- Esse telefone se encont...
Suspirou. Mais uma vez aquela mensagem gravada em vez da voz que queria ouvir. Então, decidiu que não ia ficar parado esperando. Causara o problema, e agora ia resolvê-lo.
ooOOoo
Estava em frente ao prédio onde seu namorado tinha um apartamento. Esperava que Kyo estivesse lá.
Pediu informações na portaria. Do porteiro ouviu que o moreno esteve ali na véspera. Entrou e saiu de alguns minutos, mas que não o viu mais depois disso.
Perfeitamente plausível para Iori. Os porteiros se revezavam em turnos, e Kusanagi poderia ter voltado sem que um deles o visse. Poderia estar trancado no apartamento.
Perfeitamente esperado em se tratando de Kyo Kusanagi.
Subiu até o andar onde ficava o apartamento e respirou fundo assim que se viu em frente a porta. Deveria esperar dele uma péssima recepção.
Criando coragem apertou a campainha. Esperou por alguns segundos. Nada.
Apertou de novo. Sem resultados. Foi o mesmo que não ter feito nada.
Encostou o ouvido à porta, tentando ouvir passos ou qualquer outro som que pudesse denunciar a presença de Kusanagi, mas houve apenas o silêncio.
Bateu a porta, chamando-o pelo nome, mas não teve resultados. Talvez Kyo realmente não estivesse lá.
Mas para onde ele teria ido, então?
ooOOoo
Agradeceu ao porteiro e saiu do prédio a passos lentos. Estava ficando preocupado e sua mente começava a pensar em prováveis lugares para onde Kyo poderia ter ido.
Ainda pensando nas possibilidades, tirou o celular do bolso, tentando ligar para o moreno. Tudo que obteve foi a mesma mensagem. Palavras que escutou até chegar num local em potencial: a casa de Benimaru Nikaido.
Certo, não gostava dele. Implicância gratuita e recíproca, já que o loiro apenas o tolerava. Mas o fato era que precisava ceder. Era o melhor amigo de Kyo. Não podia ignorar isso.
Apertou a campainha e esperou até que o dono da casa abrisse a porta. Sem demora, deparou-se com aquela figura que considerava um dos seres mais esquisitos que já conhecera. Tão esquisito que não sabia como Kyo conseguia andar junto com ele.
- Olá, Yagami.
- Olá, Nikaido. Estou procurando o Kyo. Ele está aí? – perguntou, olhando discretamente para dentro procurando algum vestígio da presença do moreno que pudesse contestar em caso de uma negativa.
- Até esteve, mas já saiu.
- E sabe pra onde ele foi?
- Ele não me disse.
- E quando volta?
- Não sei. Não tenho a mínima idéia.
- Estou tentando falar com ele, mas não estou conseguindo.
- Ele desligou o celular.
- Acha que vai demorar? Eu... preciso muito falar com ele. – disse, parecendo sem jeito. Provavelmente Kyo tinha contado a Benimaru sobre a briga.
- Imagino que sim. Entre.
O ruivo estranhou aquele convite, mas aceitou. Estranhou mais ainda a seriedade do outro: Benimaru não costumava ser assim. Nenhuma provocação ou piadinha ácida... definitivamente não parecia ele.
- Se tivesse chegado aqui uma hora antes, talvez vocês se encontrassem.
- Foi falta de sorte. Fiquei tentando falar com ele pelo celular, fui até o apartamento. Disseram que não passou a noite lá.
- Kyo dormiu aqui nas duas últimas noites. – explicou, calmamente. – O celular passou a primeira noite desligado porque o aparelho pegou muita chuva por causa daquela tempestade. E ontem Kyo deve ter deixado desligado de propósito: porque passou o dia fora resolvendo problemas pessoais. Só voltou no fim da tarde.
- Então é provável que eu só o encontre a noite... – disse, sem querer, pensando alto. – Ele falou se voltava pra cá ou ia pro apartamento?
- Não, Yagami. Nem aqui nem no apartamento. Você não vai conseguir vê-lo hoje.
- Amanhã então?
Benimaru balançou a cabeça em negativa.
- Nikaido, fala de uma vez! Eu não estou entendendo nada! – disse Iori, impaciente e elevando sem querer o tom de voz. Não estava entendendo aquilo, mas sentia que não ia ouvir coisa boa.
- O Kyo viajou.
- Hã? Como assim?
- Kyo viajou e não tem data pra voltar. Ele estava chateado e quis esfriar a cabeça. Eu o acompanhei no aeroporto, e embarcou faz uma hora.
- Mas, onde? Pra onde ele foi?
- Ele não falou. Perguntei muito, mas Kyo disse que não queria ninguém vigiando os passos dele.
- Mas você deixou?! – indagou o ruivo, zangado e perplexo com o que estava ouvindo.
- O que você queria que eu fizesse, Yagami? Esperasse ele dormir pra mexer nas coisas dele escondido e tentar ver as passagens? Já foi um sacrifício mantê-lo aqui duas noites, ele nem queria vir comigo!
- Então... não foi ele quem veio até aqui?
Benimaru balançou a cabeça, negando. De forma pausada, começou a contar sobre os acontecimentos: o telefonema, o jeito como o encontrou, a forma como quis ir embora... e Iori ouviu atentamente.
Tão atentamente que não perdeu a oportunidade de remoer cada palavra. Não havia muito a ser feito.
Ao chegar em casa, jogou-se na poltrona. A cabeça cheia de pensamentos, refletindo sobre seus equívocos. Ou melhor, sobre seus erros. Era o melhor nome para definir o que fizera.
"Ah, Kyo... eu não queria..." pensou, tentando refletir. Não havia "por quês". As razões pareciam muito evidentes. Benimaru fizera questão de lhe dar um panorama bem claro sobre como estava seu namorado.
O moreno não era do tipo que se abalasse por pouco. Guardava tudo pra si. Kyo era o seu oposto: suportava enquanto Yagami extravasava.
Mas sempre havia um limite. Porém, na hora da raiva Iori não fora capaz de reconhecer isso. Com seu ato impensado de expulsa-lo de casa e joga-lo na rua, acabou pisando em seu orgulho. Foi feri-lo demais.
Seu ato significou dizer que ele era descartável, substituível, desprezível. Um nada.
Ultrapassara todos os limites com aquela atitude.
Humilhara-o suficiente para que ele quisesse sumir. E assim Kyo tinha feito, sem deixar destino ou endereço.
Ao menos restara um vínculo: Benimaru. O único para quem o moreno prometera mandar notícias. Não era muito, mas alguma coisa. Talvez o bastante diante da perspectiva do total desconhecimento.
Agora, a única alternativa era esperar.
Esperar não era o seu forte, mas as circunstâncias não lhe deram escolhas. Seus atos e palavras haviam criado aquela situação, portanto não podia reclamar.
Deveria apenas sentar e esperar por sua volta.
Tinha certeza que viriam dias tortuosos, mas não poderia escapar disso.
Era o preço a ser pago.
Notas do autor: Bom, alguma viva alma se habilita a comentar essa história? Eu gostaria de saber o que está achando até agora...
