Capítulo 3 – Conto um pouco do meu passado obscuro
Depois do jantar e de um pouco de tv meus amigos já estavam com sono. Eu disse a eles que não dormiria, pois os sequestradores poderiam ligar a qualquer momento. Depois de muita insistência, Lucy conseguiu driblar minha teimosia e combinamos de revezar. Cada um ficaria acordado por 2 horas esperando um telefonema enquanto os outros dormiam. Me ofereci para ser o primeiro, não estava nem um pouco cansado, pelo menos achava que não. Mesmo que estivesse, a adrenalina jamais me permitiria dormir. Ficamos na sala. Lucy e James pegaram o colchão da cama de Camille e improvisamos uma cama no sofá onde James deitou e logo pegou no sono.
-Pode me acordar daqui a duas horas. – disse Lucy se acomodando no colchão que havia sido colocado aos pés do sofá.
-Tudo bem. – respondi apagando as luzes e sentando no chão, ao lado do colchão.
As próximas duas horas passaram bem devagar. Fiquei a maior parte do tempo contemplando o teto, pensando no que poderia ter acontecido com a minha namorada. Ou ex-namorada, já que eu tinha feito o favor de terminar com ela horas antes do desaparecimento. Milhares de perguntas surgiam na minha cabeça do tipo: Quem a levou? Porque fez isso? Porque estavam demorando tanto pra fazer contato? Será que Camille estaria morta à uma hora dessas?
Não, ela não estava morta, eu podia sentir. Assim como senti que ela corria perigo mais cedo, pouco antes de descobrir que tinha sido levada. Eu não sabia explicar o porquê, mas era como se eu pudesse sentir que ela ainda estava viva, como se sentisse sua presença em algum lugar distante. Ou isso realmente é possível ou eu estou pirando, literalmente. As duas opções são válidas.
Olhei para o celular. Já tinham se passado duas horas e eu devia acordar Lucy para a próxima vigília. Relutei. Não queria dormir, não queria sair de perto do telefone, percebi que já estava agarrado a ele. Tinha certeza que assim que pegasse no sono o telefone ia tocar, afinal sorte é tudo na vida. E eu não a tenho, infelizmente. Mas era o combinado então eu a cutuquei levemente para não assustá-la. Ela se levantou e arrastou-se para fora do colchão, deixando-o livre para mim.
-Pode deitar. – disse, a voz embargada de sono.
Por um momento pensei em voltar atrás e dizer para ela ir se deitar novamente. Ao invés disso, tentei dormir. Fiquei rolando de um lado para o outro pelo que me pareceu uma eternidade até que desisti de tentar dormir e me sentei.
-Não consegue dormir? – perguntou Lucy baixinho.
-Não. – respondi me aproximando, tentando falar o mais baixo possível para não acordar James. –É meio difícil pegar no sono sabendo que a pessoa que você mais ama está em perigo.
-Eu imagino.
Ficamos em silêncio por um tempo, então resolvi tirar um pequeno peso da minha consciência.
-Ei, me desculpa por ter gritado com você mais cedo por causa da polícia. – eu realmente tinha me sentido mal por ter gritado com ela.
-Tudo bem, eu te perdoo nerd. Mas só dessa vez! – mesmo sem ver sua expressão, senti o tom brincalhão em sua voz.
Sorri, por mais que ela não pudesse ver meu sorriso.
-Hum, mas será que você não poderia me explicar o motivo do seu desespero quando eu sugeri que chamássemos a polícia? – pediu Lucy.
Pensei um pouco. Tinha sido há tanto tempo...e aquilo ainda estava entalado na minha garganta. Até que seria bom desabafar e eu não estava com sono mesmo.
-Ok – me rendi e comecei a contar o porquê da ideia de chamar a polícia em uma situação como essa costuma me deixar tão abalado - Sabe, eu tinha um irmão mais velho...
Mesmo com a luz fraca pude ver a mudança de expressão na cara de Lucy.
-Como assim "tinha"? – perguntou ela intrigada.
-É isso que você ouviu. – respondi triste. –Não tenho mais. Bom, o nome dele era Luke e ele era 4 anos mais velho do que eu. Um dia, quando eu tinha 12 anos, minha mãe me levou ao supermercado e Luke ficou em casa estudando. Quando nós voltamos, a porta estava arrombada e Luke tinha sumido. Tinha sido sequestrado. Minha mãe encontrou um bilhete dos caras dizendo pra não chamar a polícia, que eles só queriam a recompensa e Luke ficaria bem depois disso. Só que ele não obedeceu. Estava desesperada e ligou para a polícia.
O nó na minha garganta começou a se intensificar ao invés de diminuir. Senti meus olhos arderem e deixei que as lágrimas corressem. Às vezes é bom chorar, Camille costuma dizer que leva a tristeza embora. Espero que ela esteja certa.
-Quando a polícia chegou pra averiguar o caso, meus pais me deixaram na casa do Kendall. Só ele sabe o nervoso que eu passei sem notícias. – pela minha voz, Lucy percebeu que eu estava chorando e segurou minha mão. –A questão é que quando meus pais chegaram com a polícia no local do cativeiro, encontraram no chão um bilhete dizendo que eles haviam desobedecido as condições, então tinham matado meu irmão. Do lado do bilhete estavam as roupas que Luke estava naquele dia. A polícia ainda procurou por alguns dias o corpo, mas não acharam nada. É isso. E agora eu não quero chamar a polícia, não quero correr o risco de que aconteça algo com Camille, preciso pelo menos ouvir os sequestradores!
Agora eu estava realmente chorando, soluçando pra ser mais exato. Minha cabeça doía e imagens do rosto do meu irmão passavam como flashs em minha mente. Lucy me puxou para mais perto e me abraçou, tentando me consolar.
-Me desculpa, eu não devia ter forçado você a falar. – disse ela.
-Não forçou. – respondi. –Eu contei porque quis.
-Mesmo assim. – insistiu ela - Não sabia que a coisa era desse nível. Eu sinto muito. Acho melhor você dormir agora.
-Obrigado. – agradeci e voltei para o colchão esperando poder dormir e apagar novamente tudo aquilo da minha mente.
