Autora: Blanxe
Beta: Illy-Chan H. Wakai
Casal: 5x2 1x2 3x4 1xR e por ae vai…
Gênero: Universo Alternativo, Yaoi, Romance, Violência, Angst, Drama, Tragédia.
Aviso: Todas as partes em itálico significam lembranças.
Agradecimentos: As meninas que leram e postaram reviews no capítulo anterior e que, infelizmente, eu não tive tempo de responder apropriadamente pelo email: Keiko Maxwell, Lis Martins (o motivo do soco no Duo vem explicado parcialmente nesse cap), Anzula, Niu, Aika-Chan e Lady Duo (sim, o incidente aqui da Until é totalmente inspirado no massacre de Columbine).
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Until Only Faith Remains
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Seu coração não queria dar trégua, enquanto guiava cegamente pelas ruas numa velocidade altamente acima do permitido. Tudo isso para chegar até a escola onde Duo trabalhava o mais rápido possível. Precisava alcançar o local o quanto antes, precisava ter a certeza de que o marido estava bem. Havia tentando falar com o celular do americano, mas para angustiá-lo ainda mais, estava desligado.
O telefonema de Quatre lhe dizendo que estava sendo noticiado que havia algo acontecendo no colégio – havia alguém atirando lá dentro – o desestabilizara por completo.
Duo havia saído naquela manhã para trabalhar, como sempre. Não precisava chegar cedo, pois seu primeiro período era vago, mas mesmo assim ele foi para o horário de entrada. Se tivesse seguido seu verdadeiro quadro de horas, naquele momento estaria em casa e Wufei teria a certeza de que ele estava bem. Brigaria com Duo assim que o achasse, discutiria com ele sobre a maldita situação, o lembraria das trocentas vezes que insistira para que ficasse mais tempo descansando e o abraçaria. Tinha que abraçá-lo, ver e sentir que ele estava bem. Ele tinha que estar bem, porque a angústia em seu peito crescia a cada segundo quando sua mente cogitava a idéia do americano ferido ou… coisa pior.
O pensamento lhe fugiu quando, já próximo da quadra onde a escola estabelecia-se há muitos e muitos anos, viu que a polícia interditava a passagem de pessoas e de carros naquela direção. Uma aflição maior tomou conta de si ao ver duas ambulâncias deixando a área às pressas, fazendo com que, sem percebesse, seu cenho franzisse na expressão de pura preocupação que se intensificava dentro de si.
Parou o carro de qualquer jeito rente a calçada e correu até um dos policiais que estava perto da linha de isolamento.
- Como eu faço pra passar?
- Não pode, senhor. – o homem lhe disse, olhando-o como se fosse algum maluco. - Não ouviu sobre o que está acontecendo no colégio?
Sim, Quatre contara sobre alguém estar atirando dentro do colégio, mas não lhe dera tempo de contar quem ou por que – simplesmente largara o telefone e saíra feito um louco para pegar o carro, para ir em direção à escola. O que quer que estivesse acontecendo no momento não lhe importara, só queria chegar até Duo. Todavia, um mórbido interesse fez com que questionasse:
- O que está acontecendo no colégio, afinal?
- Ao que parece alguns alunos armados decidiriam se revoltar e fazerem colegas e professores de alvos.
A idéia de que eram alunos causando toda aquela confusão parecia por demais surreal, mas não importava. Para Wufei a única coisa verdadeiramente importante era Duo.
- Eu preciso ir até lá. – disse decidido a passar por cima do policial se fosse necessário.
- Esqueça e acalme-se. – o homem lhe aconselhou. – O que pode ser feito já está sendo. Por favor, senhor…
- Mas meu companheiro trabalha naquela escola! Eu tenho que ir até lá!
O súbito barulho algo de algo explodindo fez com que se assustassem. Sem precisar questionar, ambos sabiam que o estrondo havia vindo da direção do colégio.
oOo
Wufei estava irrequieto. Desde que Quatre conseguira fazer Duo começar a andar junto com eles e, conseqüentemente, Heero Yui se tornara também parte integrante do grupo graças a sua amizade com o americano, que o chinês sentia-se desconfortável. Admitia, porém, que isso nada tinha a ver com a presença de ambos. Heero era quieto, falava praticamente o necessário e Wufei acabara percebendo que muitas coisas ambos tinham em comum; o garoto de trança já demonstrava ser completamente o oposto e quando se juntava com Quatre, não existia nada que detivesse aquelas matracas. Os quatro saiam juntos, passavam os intervalos juntos e às vezes até estudavam uns nas casas dos outros quando existia alguma dificuldade em alguma matéria. Isso tudo realmente não o incomodava. O que andava perturbando Wufei era o sentimento que surgia toda vez que via o americano, toda vez que escutava seu nome, toda vez que o via seu sorriso ou escutava sua risada, ou simplesmente pensava nele.
Era um bom observador e já sabia identificar cada expressão do rosto do colega, sabia seus maneirismos, de como seus olhos expressavam com sinceridade todos os sentimentos que com as palavras não poderia demonstrar e, mesmo Wufei estando sempre o fitando, Duo jamais percebia, porque seus orbes violetas sempre estavam voltados para mais adiante, ou qualquer que fosse o lugar onde pudessem encontrar Heero Yui.
Só que Heero… Heero não tinha olhos para ninguém.
Wufei via isso claramente e o fato fazia com que uma pequena raiva surgisse em seu âmago por Duo não perceber que não era apreciado da mesma forma pelo objeto dos seus sentimentos.
Pelo menos assim pensava. Descobriu estar enganado sobre a percepção do americano quando, numa noite, descobriu uma nova nuance de sentimento refletido nos mesmos olhos que nunca se encontravam por mais que alguns segundos com os seus.
Depois do colégio tinham combinado de fazer o grupo de estudos em sua casa e estudando, perderam a noção das horas. Heero foi o primeiro a voltar para casa, seguido de Quatre, deixando apenas Wufei e Duo - este último ainda terminava alguns exercícios de matemática e preferiu finalizar antes de ir embora.
Como estavam sem comer nada desde que saíram da escola, Wufei decidiu buscar alguns sanduíches e refrigerantes, e foi quando voltou que viu que Duo terminara os exercícios e estava junto à janela do quarto olhando a noite com uma expressão que dificilmente deixava transparecer. Melancolia? Certamente Wufei identificou assim e tomando cuidado para colocar silenciosamente a bandeja com o lanche em cima da escrivaninha, observou mais do outro garoto que sequer notara seu retorno ainda, de tão perdido que seu olhar estava. Analisando com mais calma, Wufei soube exatamente para onde os olhos do colega miravam.
Pigarreando sutilmente para chamar a atenção, Wufei quase riu quando o outro moreno se sobressaltou com o leve susto que tomara.
- Jesus, Fei… - Duo reclamou, sem conseguir voltar totalmente para sua postura descontraída. - Podia fazer algum barulho para alertar as pessoas de que está por perto?
- Acho que foi o que acabei de fazer. – retorquiu, vendo o americano se afastar da janela, voltar a se sentar no chão e começar a fechar os cadernos. – Já terminou?
Era uma pergunta idiota, pois reparara que Duo finalizara os exercícios.
- Faltava mesmo muito pouco.
Foi quando notou que Duo ainda estava sério e, sem pensar muito, Wufei questionou:
- Maxwell, o que você tem com Yui?
Duo simplesmente congelou no momento em que socava o material dentro da mochila e após uns segundos conseguiu recuperar-se. Guardando os cadernos, replicou:
- Quer mesmo saber?
Wufei assentiu com a cabeça. Por um momento pensara que ele usaria de uma imediata negativa ou algo similar, mas parecia que Duo não lhe negaria respostas entre aquelas quatro paredes.
- Eu o amo… - o americano riu desanimado.
Doía.
Escutar aquelas palavras - aquela confissão - doía.
Wufei via todos os sinais, estava claro como o dia, mas ainda assim, ouvir da boca de Duo os sentimentos que este guardava por Heero, o machucava de uma maneira que até então parecia ser impossível acreditar.
Ainda sem encará-lo, Duo colocou a mochila de lado e continuou, como se realmente precisasse desabafar e o chinês tivesse lhe dado o motivo perfeito:
- Na primeira vez que transamos e eu disse exatamente essas palavras, ele me socou.
Foi nesse exato momento que Wufei percebeu o quanto subestimava Duo. Ele sabia que não era correspondido e mesmo assim… O que ele lhe contava fez com que se lembrasse da vez em que, juntamente com Quatre, tinha seguido o garoto depois deste ter deixado a casa de Heero e o viram machucado. Provavelmente se existia uma explicação, esta estava sendo exposta naquele instante.
Não havia segredos de que era homossexual – tanto Duo quanto Heero sabiam que Quatre e ele tinham uma amizade com benefícios – talvez por isso o garoto de trança não se pegasse constrangido com aquele tipo de confissão. Sendo assim, Wufei arriscou se magoar mais um pouco:
- Vocês namoram?
- Não sei se poderia chamar assim… - Duo deu de ombros. – Ele me fode, só isso. Acho que sou apenas uma diversão extra quando ele não tem nenhuma garota agendada.
A incompreensão só crescia e Wufei se pegou aproximando-se e sentando-se ao lado de Duo no chão perto da cama.
- Por que se submete a essas coisas? – quis saber.
- É mais forte do que eu… - admitiu com a cabeça baixa, deixando que a franja pesada escondesse seus olhos. - E isso às vezes me faz pensar no quanto as coisas seriam diferentes se pelo menos eu fosse uma garota.
Um vinco se formou entre suas sobrancelhas, causado pelo choque das palavras de Duo e, naquele instante, não sabia se odiava Heero ou se sentia raiva do americano por ser tão fraco e idiota… por estar falando asneiras, por dedicar seus sentimentos a alguém que sequer o merecia.
- Não tem que pensar assim! – acabou dizendo exaltado, pegando-o pelo ombro e fazendo com que se virasse e fosse obrigado a encará-lo. Seus olhos negros brilhavam todo inconformismo que continha dentro de si. - Se ele não gosta de você como realmente é, então está perdendo seu tempo!
Sim, havia dito exatamente o que pensava e achou ter cometido um erro quando percebeu os olhos violetas assustados. Engoliu em seco, pronto para pedir desculpas, afinal, as decisões tomadas por Duo não eram problema seu, não tinha o direito de se intrometer quando o próprio colega admitia que sabia de todos os contras e, mesmo assim, continuava insistindo no erro.
- Obrigado pela sinceridade. – Duo lhe agradeceu, deixando o rosto ganhar linhas mais amenas e que um sorriso leve adornasse seus lábios.
Só então Wufei percebeu o quão próximo estava do outro garoto. Deu-se conta que poderia ficar admirando-o pela eternidade e aquele pensamento o assustou, afinal, eternidade era muito tempo, mas era o que sentia: algo eterno. E Duo… Ele era lindo… Como poderia dizer o contrário? Negar ou ignorar que havia sido cativado por aquela pessoa e que tal sentimento parecia não ter volta?
- Você não tem que mudar… - Wufei falou não querendo que a voz saísse tão suplicante. - nem pensar em mudar ou ser diferente por ninguém.
Foi inesperado. Tão repentino que demorou até que o susto fosse sobrepujado pelas batidas descontroladas de seu coração, que em seu peito parecia não querer respeitar o limite que este impunha.
Mas era real…
Eram mornos e macios, movendo-se com delicadeza e afeição…
Os lábios de Duo nos seus, enquanto os olhos violetas semicerrados esperavam apenas que os seus ônix se fechassem. E quando correspondeu às expectativas, permitindo unir-se ao americano àquele momento, desejou que o mundo acabasse, que tempo parasse e que só existisse aquele instante, eternizado pelo calor daquele único beijo.
E quando nada do que queria aconteceu e a outra boca se afastou da sua, quis perguntar o motivo, saber o que levara o americano a tal atitude, mas Duo lhe sorriu e as palavras então se perderam deixando-o mudo, fazendo com que se certificasse do quão à mercê estava do outro garoto.
- Obrigado, Wufei. – ele agradeceu se levantando, levando consigo a mochila que jogou sobre um dos ombros. - Não conta pro Quatre, tá? Ele pode começar a surtar e vir de novo com o papo estranho de trio. – disse entre uma risada.
Assim ele partiu, sem que Wufei conseguisse se mover, ou dizer nada em seu estado atordoado, permanecendo sentado olhando para a porta por onde o americano passara.
-
Quando Quatre veio correndo em sua direção no início da semana seguinte, assim que colocou os pés no pátio do colégio aquela manhã, Wufei sabia que o loiro provavelmente tinha algo importante para falar. Ele só o esperava na entrada do colégio quando tinha alguma novidade que fazia questão de ser o primeiro a contar. Infelizmente, seu humor não estava muito convidativo para os surtos de Quatre. Sua mente estava uma confusão, seu coração perturbado e tudo por causa de Duo. Tivera o final de semana inteiro para se digladiar entre razão e sentimentos, e decidira que o mais sábio a fazer era confessar ao americano que estava apaixonado por ele. Não conseguiria mais esconder depois do que havia acontecido, nem saberia se poderia suportar se fosse rejeitado, porém, estando num beco de duas saídas intoleráveis, resolvera que criar coragem para enfrentar o que sentia, seria a melhor coisa a fazer.
- Wufei! Wufei! – o loiro se aproximou correndo e logo percebeu seu mau humor. - Que cara é essa? Não me diga que você também já soube?
- Soube? – fez a mesma pergunta que sempre fazia quando o amigo chegava com aquele jeito de notícia de última hora. - Soube o quê?
- Sobre Duo.
Na mesma hora parou de andar, com Quatre imitando seu movimento logo em seguida.
- O que houve? Aconteceu alguma coisa com ele?
- O pai dele sofreu um infarto. – contou. – Eu estava pensando em ir até o hospital depois das aulas.
Wufei ficou mais atordoado, esquecendo-se até de seus próprios dilemas, só conseguindo pensar em como o americano deveria estar. Se pudesse iria até o hospital tentar encontrá-lo naquele instante, mas tinham prova no terceiro período.
- Vão se atrasar. – Heero disse passando pelos dois.
- Hey, Heero! – Quatre chamou, fazendo com que o japonês parasse assim que suas próximas palavras chegaram a sua percepção. - Você soube sobre o pai de Duo?
- Não. – respondeu, voltando-se para os dois colegas. - O que foi?
- Está internado. – o loiro disse e Wufei ficou atento, querendo ver se identificava alguma emoção ou preocupação no semblante do outro oriental. - Sofreu um infarto. Vamos ver como o Duo está, quando as aulas de hoje acabarem?
Heero não demonstrou nada, como sempre. Wufei se perguntou internamente se por acaso o japonês era humano, porque não concebia a idéia dele estar se relacionando com Duo e não se compadecer nem um pouco pelo que o garoto estava passando; mesmo que não o amasse, ainda assim por amizade deveria existir alguma preocupação ou sentimento. No entanto, nos olhos azuis gélidos não existia nada além de indiferença.
- Depois das aulas eu não posso. – Heero informou. – Tenho prova agora no primeiro período, não posso me atrasar.
Dito isso, Heero apenas deu as costas e sumiu dentro do colégio.
oOo
O telefone em seu bolso tocou e, sem pensar duas vezes, Wufei o pegou. No display via o nome de Quatre. Atendeu imediatamente o amigo estava sendo informado pela televisão sobre o que acontecia no colégio e já que o policial negara sua passagem, talvez o loiro pudesse lhe dar mais alguma informação. Não arredaria o pé dali e ainda tentaria pensar em um jeito de burlar aquele isolamento e entrar no colégio.
- Wufei! Onde você está?
- Tentando chegar ao colégio, mas está tudo cercado, não me deixam passar! – disse se segurando para não chorar de frustração. – Quatre, houve um barulho aqui… muito alto.
- Esqueça, Wufei. O negócio é sério, não tem como você conseguir entrar. – Quatre aconselhou num timbre nervoso, e Wufei sentiu seu coração se apertar ainda mais. – E foi uma bomba, pelo que anunciaram aqui na televisão. E mais: Relena me ligou.
Uma bomba? Relena? Ele quase louco de preocupação com Duo e Quatre vinha puxar conversa sobre Relena?!
- Eu quero que a Relena se exploda! – exaltou-se, vendo alguns dos policiais voltarem seus olhares para si, mas pouco se importou. Tudo o que queria era invadir o colégio e tirá-lo de lá, porém, o tempo parou por um segundo quando Quatre lhe avisou:
- Heero está com o Duo no colégio.
- O quê?!
Heero estava com Duo no colégio? Como? Estupidamente uma pontada de ciúmes ainda surgiu em meio a tanta preocupação, mas foi sobrepujada pelo raciocínio rápido que lhe assaltou. Se Heero estava lá, com certeza, ajudaria Duo. Não que seu marido fosse como uma donzela indefesa, mas certamente seu grande coração o guiaria para ajudar os outros e isso poderia acabar levando-o a se machucar. Já Heero era uma pessoa calculista e fria o suficiente para controlar os impulsos de Duo e prevenir que algo lhe acontecesse.
-... ela contou que Heero saiu de manhã dizendo que ia até o colégio conversar com Duo. Está desesperada porque não está conseguindo falar com o celular dele. O aparelho chama, chama e ninguém atende.
Aquilo era um péssimo sinal. E se os dois estivessem feridos? E se estivessem…
oOo
Eles tinham deixado o colégio às pressas e pegado o primeiro ônibus que os levasse até o hospital. Wufei estava acima de tudo ansioso. Depois daquela noite quando Duo o beijara, seria a primeira vez que o veria. Seus planos de se confessar continuavam firmes em sua mente, mas sabia que agora teria que ter paciência, pelo menos até toda essa situação passar ou se amenizar.
No entanto, quando chegaram à recepção do hospital, as coisas simplesmente se apresentaram piores do que imaginava. A mulher que conheciam por ser mãe de Duo estava sentada numa das poltronas sendo consolada por uma enfermeira. Mesmo receosos de se aproximarem, ambos o fizeram, prevendo que o pior poderia ter acontecido.
- Sra. Maxwell? – Wufei chamou, fazendo com que a atenção da mulher loira se voltasse para eles e o chinês sentiu uma grande comiseração ao ver os olhos azuis transbordando de lágrimas. Mesmo assim, ela as afastou meio sem jeito com as palmas das mãos e tentou não soar tão miserável.
- Oi, garotos. – cumprimentou sem conseguir disfarçar a voz embargada. - Desculpe, mas é que toda a situação…
- Não precisa se desculpar. – Quatre disse num timbre ameno. - Nós sentimos muito pelo que aconteceu.
- Ele teve outra crise agora há pouco. – informou com tristeza. - Os médicos tentaram, mas não conseguiram salvá-lo.
Ela apenas confirmou o que já desconfiavam. O pai de Duo realmente havia falecido e Wufei só conseguia se preocupar com uma única pessoa.
- E Duo? – o chinês perguntou.
- Eu acho que ainda está na capela. Não saiu de lá desde que a crise começou.
- Ele já sabe? – Wufei imaginava que o americano deveria estar arrasado se já soubesse sobre a morte do pai e seu ímpeto era apenas estar o mais rápido possível perto dele.
- Heero deve ter contado. Está com ele agora, esteve aqui praticamente o dia todo. Obrigada por serem tão bons amigos do meu filho.
Aquilo sim fora uma surpresa. Heero Yui estava no hospital com Duo quase o dia todo, quando anteriormente se negara a acompanhá-los? Nem Wufei, muito menos Quatre conseguiram entender naquele momento.
Os dois pediram licença e foram na direção da capela com a intenção de encontrarem Duo. E o encontraram, sentado em um dos bancos, o corpo totalmente curvado e a cabeça arriada em cima das pernas de Heero, que estava ao seu lado.
Wufei sentiu algo se constringir em seu peito, assim como em sua garganta ante ao som do choro baixo vindo do adolescente que em vão tentava conter os soluços que faziam seu corpo convulsionar. Cada lágrima que sabia estar rolando dos olhos de Duo, cada gemido gerado pelo pranto, Wufei parecia sentir doer em si. E o que mais chamou sua atenção foi o modo como Heero olhava para o garoto rendido em suas pernas. A expressão sempre inabalável tinha agora traços de tristeza e seus olhos pareciam compreender e se compadecer do sofrimento do americano.
E foi quando Wufei desistiu. Quando viu uma mão de Heero erguer-se hesitante e, por um segundo no meio do caminho, quase abaixar-se novamente, mas ganhando coragem, seguiu seu percurso até tocar a cabeça de Duo - a princípio testando, como se aquele gesto pudesse queimá-la e, em seguida, mais confiante, apoiar-se totalmente sobre os cabelos castanhos, o movimento lentamente ganhando segurança e logo estava afagando os fios num leve carinho.
Desistiu da resolução que tomara durante aquele final de semana certo de que confessar-se a Duo era o que deveria fazer. Ali, naquele momento, percebeu que seria tolice, seria em vão.
oOo
Duo estava horrorizado com o que via. Ao sair do banheiro, assim que Heero distraiu-se com o telefonema, sua única intenção era ajudar os alunos acima do que quer que estivesse acontecendo dentro do colégio, mas por um milésimo de segundo pensou em retornar - e isso ocorreu no instante em que viu nos corredores adiante o sangue manchando as paredes e o primeiro corpo caído sem vida recostado a uma, pendendo para o lado onde o rosto abaixado escorria o líquido vermelho pelo disparo certeiro bem no meio de seus olhos.
Não precisava socorrer aquele garoto, ele estava inegavelmente morto. A conclusão fazia seu pavor aumentar pensando em quem em sã consciência faria aquilo com pessoas tão jovens e inocentes. Não havia motivos e, se houvessem, ainda assim não seria o bastante para justificar ato tão hediondo. Buscando uma coragem que no fundo sequer sabia que tinha, continuou a trilhar em passos cuidadosos pelos corredores, tentando ao máximo evitar fazer barulho, mas em seu peito o coração batia tão forte que começava a achar que qualquer um ali poderia ouvi-lo.
Haviam muitas portas fechadas as quais não se atreveu a tentar abrir. Não havia ruídos, apesar dos estampidos continuarem aqui e acolá. Estava perto. A cada novo passo, a cada novo corpo estirado e sem vida, sabia que estava chegando perto e que deveria parar, só que… Eram crianças morrendo ali, sendo assassinadas, executadas de modo frio, sem poderem se defender… e aquilo tudo por quê?
Do nada, um grande estrondo fez com que levasse as mãos aos ouvidos e trincasse os dentes para abafar o grito gerado pelo susto. Eram terroristas? Algum louco que resolvera descontar sua ira atirando em jovens inocentes? Precisava parar aquilo de qualquer jeito. Como poderia ficar escondido esperando que tudo terminasse como Heero queria depois de ver aquilo?
Sentia vontade de chorar, mas em seus olhos lágrimas sequer marejaram sua visão, enquanto retomava os passos interrompidos pelo susto do som alto.
Outro corredor, mais perto… tão perto…
Um leve gemido... um choro baixo e a agonia de quem tentava suportar ferimentos infligidos soavam vindos de uma vítima ainda viva, cujo corpo estava jogado num dos cantos junto a escada, perto de um dos bebedouros.
Duo engoliu em seco e apressou os passos até o local, abaixando-se perto da garota com uniforme da torcida. A pele antes imaculada da menina agora tinha estilhaços de vidro e ao reparar ao redor, o americano pode constatar que o que quer que tivesse explodido, havia sido detonado ali, bem próximo a escada.
- Suzan. – chamou baixo, fazendo o máximo para que o pavor não tomasse conta de si quando viu outro corpo não muito distante, ou pelo menos pedaços dele. – Suzan, por favor, agüente. Eu vou levá-la até um local seguro.
A garota abriu os olhos vermelhos deixando que um soluço sofrido escapasse de seus lábios ensangüentados. Duo não soube dizer se era de alívio por vê-lo - por saber que alguém a ajudaria - ou se de dor pelos machucados que faziam o sangue verter e desfiguravam partes de seu corpo.
Um estampido. Perto. Muito perto. A ponto de fazer com que se retraísse e que, no mesmo momento, sua visão fosse manchada por um intenso carmim, seguido por um grito que escapou do fundo de sua garganta.
oOo
Heero deveria estar preocupado com a própria segurança, mas não. Lá estava ele andando, com todos os sentidos à flor da pele, tentando encontrar Duo. O idiota havia ignorado tudo o que alertara e deixara o banheiro para sabe-se lá fazer o que. Ele estava louco se pensava que poderia ajudar alguém, a única coisa que conseguiria era ser morto.
"Que Duo esteja bem." - pediu em sua mente, evitando olhar para o caos que se encontrava o colégio. E pensar que passara sua adolescência ali, que conhecia cada um daqueles corredores que agora mais pareciam um túnel saído de um filme de horror.
Quem diria que tirar aquela manhã para ir conversar com Duo traria um problema tão grande assim? Relena certamente estaria em pânico, já que acreditava que a mídia estaria fazendo bem o seu papel em veicular a grande desgraça. Uma discreta preocupação com o bem-estar da esposa lhe comprimiu o peito, afinal, ela estava grávida – no instante seguinte, porém, lhe veio a compreensão de que quem sabe ela ficando um pouco nervosa chegasse a ter um aborto espontâneo. Pouparia Duo de ter que conversar com ela sobre seu desgosto com aquela gravidez e todo o drama em seus ouvidos sobre sua insensibilidade e negativas sobre ter filhos.
O ruído de um disparo, seguido do grito de agonia cortou os pensamentos que usava para distrair-se.
Duo.
A voz era de Duo!
oOo
Seu pai havia morrido cedo – essa era a explicação que repetia a sua mente para explicar o porquê de estar naquele hospital quando deveria ter passado o dia no colégio. Assim como o garoto em seu colo que se debulhava em lágrimas, tinha perdido a figura paterna muito antes do tempo e, por isso, ao saber pelos colegas sobre o que Duo passava, aquela sensação de querer estar perto dele lhe tomara. Tinha uma prova e a perdera. Tinha que estar na escola e não estava. Sabia o que era estar sozinho quando mais precisava de apoio. Tudo o que Duo estava sentindo, ele próprio já vivenciara: a experiência de perder um ente tão querido de forma estúpida.
Quando seu pai deixara a ele e sua mãe por causa de um acidente no trânsito, por muito tempo ficara sem chão. Sua mãe ficara envolta em sua própria dor, incapaz de estender-lhe a mão para que ambos tentassem amenizar o sofrimento juntos. Pensava que não gostaria de ver alguém que conhecia passar pela mesma coisa.
Essa era sua razão para estar ali, depois de tantas horas, consolando o outro.
Às vezes o odiava tanto que a única coisa que sentia era vontade de machucá-lo, magoá-lo, fazer com que desaparecesse e levasse com ele a confusão que tomava sua mente. Outras vezes - vezes em que tentava se afastar, que buscava ignorar sua existência - ansiava por vê-lo, estar perto, tocá-lo… Mas não era como ele. Jamais seria como Duo Maxwell. Chegara à conclusão que não queria ser como ele, que em certos momentos chegava a enojá-lo somente pensar nessa possibilidade.
Mas, ainda assim, não podia virar as costas e ignorar que Duo precisava de alguém que o entendesse. Deixava que chorasse sem recriminá-lo. Nada aplacaria aquela dor, a não ser o tempo e a compreensão que dele surgiria. Contemplou seu gesto de estar acariciando os cabelos castanhos, justificando tal ato como sendo uma demonstração de calor humano - coisa que sentira falta quando o pai falecera – mas no peito, o que regia aquela atitude batia enclausurado por barreiras que certamente jamais romperia.
Ao sentir que estava sendo observado, virou o rosto para a entrada da capela e viu os dois outros amigos parados lá. Não se importava com o que pensavam de si, ou que estivessem vendo como consolava Duo – para ele era indiferente – estava mesmo esperando que chegassem.
- Eu preciso ir embora agora. – disse curvando o corpo para dizer baixo no ouvido de Duo, sentindo o outro garoto ficar tenso. Ergueu-se novamente, olhando para Quatre e Wufei numa indicação clara de que deveriam se aproximar e quando os viu atender o seu pedido mudo, avisou ao americano o qual, por mais que tentasse conter, não tinha poder para deter as lágrimas que vertia. – Vejo você amanhã.
Viu-o aliviar suas pernas e elevar o torso, colocando-se sentado e enxugando a umidade do rosto. Novamente sentiu-se estranho ao ver os olhos avermelhados e toda a tristeza que Duo mostrava em seu semblante.
Sem mais nada dizer, levantou-se, deixando que Quatre tomasse seu lugar no banco e assim que deu o primeiro passo para deixar o local, deteve-se ao escutar Duo dizer:
- Obrigado, Heero.
Não precisava de agradecimento, por isso, sequer respondeu. Com a tranqüilidade de que Quatre e Wufei estariam ali para apoiarem e consolarem Duo, partiu sem nada dizer.
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Ele compareceu ao enterro, assim como Quatre, Wufei e mais uns bons colegas de turma do colégio. Duo conseguira manter-se compenetrado o funeral inteiro, se escondendo atrás de uma máscara de seriedade para disfarçar a dor que sentia por dentro. Heero o observou o tempo todo, colocando-se o mais perto que podia, já que antes dele e dos outros amigos, vinham os familiares. De qualquer forma, acreditava estar cumprindo o seu papel ao ver os olhos violetas buscarem por apoio na apatia que os seus azuis demonstravam usualmente. Sabia que provavelmente era naquilo que o americano se espelhava para continuar firme em meio à cerimônia, e, no fundo, tinha certeza que tal fato também se devia ao sentimento que o garoto sentia por si, mas isto Heero preferia simplesmente ignorar.
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Duas semanas haviam se passado desde então. A rotina continuava a mesma, mas apesar de sorrir e agir como normalmente faria, Duo ainda exibia uma sombra estranha no olhar. Quatre e Wufei, assim como ele, tinham percebido que algo permanecia fora de esquadro e acharam por bem esperar mais tempo antes de abordar o amigo. Não queriam forçá-lo a falar sobre o assunto, pensando que a morte do pai seria o motivo da camuflada introspecção do moreno.
Quatre havia sugerido irem tomar sorvete depois das aulas e conversarem sobre a próxima reunião de estudos que fariam - enquanto estavam já na sorveteria, comentando sobre o assunto,Duo interrompeu, criando um silêncio imediato na mesa.
- Eu estou indo embora.
Demorou alguns segundos até que os outros três raciocinassem o que lhes fora dito, olhando para a figura de ombros caídos e olhar cabisbaixo para a taça de sorvete posta e intocada a sua frente.
Sabia que não era só ele, que os dois colegas que havia recebido a notícia também estavam chocados, mas para Heero ouvir aquilo foi como experimentar um vácuo repentino dentro de seu peito.
- Como?! – Wufei quebrou o silêncio.
Um sorriso tímido e sem graça surgiu no canto dos lábios do americano que se mantendo na mesma posição – talvez por medo de encarar o olhar dos amigos – contou o que vinha escondendo durante muitos dias:
- Minha mãe acha que é melhor ficarmos perto dos nossos parentes e decidiu que devíamos nos mudar.
Outro momento de silêncio pairou sobre a mesa, porém, dessa vez, nenhum deles se via capaz de pronunciar uma palavra sequer. Conforme o que Duo dissera, fora uma decisão de sua mãe e como poderiam argumentar ou dizer qualquer coisa que amenizasse a situação?
Devido a demora de uma resposta vinda dos companheiros, Duo finalmente ergueu a cabeça deixando que os olhos vagassem lentamente por cada um deles, para só então pronunciar:
- Eu vou sentir falta de vocês.
Parecia definitivo e, mesmo assim, Quatre ainda tentou:
- Vai ter mesmo que ir?
- Sim. – Duo confirmou com tristeza evidente em seus olhos, bem como em seu pequeno sorriso.
Quatre, sem qualquer hesitação ou vergonha, abraçou o amigo que estava sentado ao seu lado, sendo correspondido lentamente. Enquanto Wufei parecia completamente desolado, Heero permanecia em sua inércia, fitando Duo como se dentro de si as coisas não estivessem desmoronando violentamente.
- Talvez essa mudança seja para melhor, Maxwell. – o chinês finalmente balbuciou, querendo apenas não deixar o americano com o sentimento de tristeza e frustração por estar sendo levado embora para longe dos amigos. – E nós sempre vamos estar aqui.
Heero viu Duo apartar o abraço que mantinha com o árabe, olhar ternamente para Wufei e sorrir. Talvez quisesse ter essa mesma iniciativa do outro oriental, talvez quisesse sentir e agir de forma diferente, mas infelizmente não conseguia… e palavra alguma deixou sua boca naquele final de tarde quando Duo disse adeus a todos eles.
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Duo trincava os dentes e percebia sua visão oscilar. A sua frente Suzan estava imóvel, olhos vidrados e mais nenhum som era emitido de sua boca. Dando-se conta do que realmente acontecera, ele agora via que existia um rombo na garganta da garota e que o vermelho que nublara sua visão nada mais fora que o sangue que, no momento em que ela fora atingida, jorrara do ferimento diretamente para seu rosto.
Não vira de onde partira o disparo, achava impossível ela ter sido baleada tão diretamente quando seu próprio corpo estava agachado em frente ao dela. Sequer percebera a aproximação de qualquer pessoa. Pensou que seu grito fora gerado unicamente pelo susto e toda a tensão que já vinha guardando dentro de si. Mas começou a entender o que realmente acontecera quando sentiu algo morno escorrendo inexoravelmente pelo lado de seu corpo, no entanto, estava chocado demais com a garota que acabara de ser friamente assassinada bem diante de seus olhos. Um frio na boca do estômago se instalou de imediato assim que escutou a voz vinda detrás dele.
- Saindo pelos corredores assim… Não tem medo da morte, Professor Maxwell?
Fechou os olhos querendo recuperar a estabilidade que sabia estar perdendo pela forma que seu corpo começava a tremer e, sem se mover, respondeu:
- Eu não tenho medo da morte, mas isso não significa que eu queira morrer.
O riso que ganhou como réplica lhe deu calafrios por todo o corpo. Não era algo insano ou muito menos alucinado, apenas normal, como se tudo aquilo fosse uma coisa natural demais ao ponto de achar graça da situação. Queria reconhecer aquela voz, sabia que se virasse e encarasse a pessoa encontraria alguém jovem e temia se dar com o rosto conhecido de algum de seus alunos. Seria horrível demais constatar ser verdade aquela desconfiança que crescia dentro de sua mente.
- Lamento, mas o senhor estava na frente do meu alvo. Não foi nada pessoal. – Duo sentia o coração bater forte, não ficando mais aliviado nem mesmo escutando passos que se distanciavam; os mesmos passos que repentinamente cessaram lhe dando a impressão de que o rapaz teria mudado de idéia e decidira matá-lo invés de deixá-lo para trás. Seus olhos fechados apertaram-se ainda mais, quando a voz novamente lhe falou: - Ah, e a propósito, lhe poupei trabalho, essa vadia não valia a pena ser salva.
Queria perguntar o porquê - entender o motivo – mas o medo não permitia que a curiosidade ganhasse voz. Os passos cada vez mais distantes davam-lhe a segurança de que não seria executado, que as pessoas que estavam matando no colégio tinham vítimas certas a serem eliminadas e aquilo fez com que finalmente sentisse o rastro quente das lágrimas que escorriam por sua face. Sequer percebera quando elas haviam começado, mas agora parecia impossível reprimi-las… juntamente com os soluços.
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Continua…
Notas da Beta Illy-chan:
Angústia... Angústia... Angústia...
Angústia no passado...
Angústia no presente...
*chorando chorando chorando chorando*
