As obras tinham ido de vento em popa, não parando nem mesmo quando um pequeno abalo sísmico deixou Tóquio em estado de alerta

As obras tinham ido de vento em popa, não parando nem mesmo quando um pequeno abalo sísmico deixou Tóquio em estado de alerta. Todo o poder financeiro que restava à Fundação Graad fora investido não só na construção, mas também na publicidade e divulgação do torneio que seria um espetáculo maior até mesmo do que os Jogos Olímpicos.

As melhores equipes de engenharia, iluminação, sonorização e marketing estavam envolvidas no projeto bilionário que, se por quaisquer motivos não vingasse, significaria a falência de todo o esforço de Mitsumasa Kido.

O mundo já olhava com maus olhos para toda aquela opulência, uma vez que finalmente foi revelado ao mundo pela CNN como uma ONG conseguira até mesmo lançar satélites: através de um esquema internacional de corrupção e crimes que beiravam as conspirações da Guerra Fria.

Há anos os impostos eram sonegados, atividades ilícitas eram patrocinadas e o um dia tão elogiado programa de assistência a órfãos revelou-se na verdade um intricado esquema de tráfico de pessoas e exploração sexual infantil. Líderes caíram junto com o prestígio da Fundação, cujos adminstradores no Japão pertenciam à Yakuza e, no exterior, às Máfias Russa, Irlandesa e Italiana.

Tudo isso em pouquíssimo tempo, enquanto Saori estava ocupada cuidando dos seus afazeres como deusa e deixando as tarefas mundanas aos seus subordinados. Mas quando o gato se vai, os ratos festejam. Saori era inocente, e não se achou prova contra ela após um ano e meio de investigações.

Agora, na página , podia-se votar em seu Cavaleiro favorito e, numa dessas votações, escolheu-se que a musa mascarada, Shina de Cobra, deveria ser a primeira a lutar.

Aliás, Shina tinha milhares de fãs pelo mundo todo, propostas para mostrar-se sem Máscara e sem roupa em revistas masculinas ao redor do globo, e isso sem nem mesmo ter pisado no ringue. Realmente, a equipe de RP era muito boa.

E não é necessário dizer o quanto a Amazona de Cobra odiava tudo isso. Não fosse fidelíssima à sua deusa, teria seguido o mesmo caminho de Ikki e Marin, que abandonaram tudo para não mancharem suas honras. Mas assim como Saga, Shura e Camus se dispuseram a manchar seus nomes, ela também se dispunha.

O que não quer dizer que não estivesse extremamente irritada.

O povo se maravilhou quando ela correu escadas abaixo, embalada por uma música eletrônica, de batida forte e constante, repleta de solos de guitarra, coro e sintetizadores, saltou a dezenas de metro de altura e, vinda do Pedestal das Armaduras, a Armadura de Cobra uniu-se a seu corpo sem explicação.

O mesmo aconteceu com Hydra, e embora este tivesse lá sua cota de fãs, não se comparava ao estádio enlouquecido para ver Shina. Assobios, elogios (própios e impróprios) e ovações enchiam o ambiente. Faixas, cartazes, flores jogadas ao ringue, pessoas desmaiando... realmente, a noite prometia. Mesmo assim, as apostas eram 6 para 1 a favor de Hydra.

O narrador veio e anunciou em japonês, inglês, espanhol e francês os dados dos lutadores. Informou que a maioria da luta seria exibida no telão faraônico esférico que se formava na cúpula do Coliseu uma vez que tudo seria rápido demais para olhos humanos.

Shina estava quieta. Mantinha os músculos retesados e os punhos cerrados, enfiando as unhas roxas na própria carne e empapando a luva verde que usava por baixo dos braceletes da armadura de sangue. Hydra movia-se de lá pra cá no ringue, convidando-a a atacar, a se mover, a mostrar que seria capaz de vencer um homem.

Por trás dos olhos vítreos da máscara, viu, lá em cima, Saori, sentada em seu trono dourado, o Báculo na mão direita, separada da multidão e com Seiya, Shun, Hyoga e Shyriu, dois de cada lado, cada um vestindo as Armaduras de Ouro de Sagitário, Virgem, Aquário e Libra, respectivamente.

Eles eram os Guardiões Dourados, conforme anunciados ao público. O vencedor do torneio teria a honra de tornar-se o Mestre do Santuário. E com isso, uma vez terminado o torneio, toda a atenção se voltaria para o Santuário, a partir de onde a mensagem de Athena começaria a ser disseminada apropriadamente, dado que haveria recursos o suficiente.

O rosto metálico inexpressivo encontraram os olhos de Saori. A deusa estava triste, Shina sentia isso, e ela apenas curvou a cabeça. A Amazona de cobra fez o mesmo, e caminhou para o meio do ringue. Ergueu o punho cerrado, e sentiu o sangue escorrer pelo antebraço por baixo da armadura. O público não via e, por enquanto, era só o que importava.

- Aquela que não há de morrer a saúda, minha deusa! Eu ofereço a derrota deste homem fraco como tributo à sua glória!

- Mas o quê? - Hydra falou, às costas de Shina - Você primeiro terá de me vencer!

As vozes deles eram amplificadas e todos ouviam. Hydra colocou as garras das mãos para fora, e saltou para atacar Shina. Esta por sua vez virou um inesperado chute, que Hydra já sabia que viria, e esquivou-se, indo cravar as garras na perna esquerda de Shina. Ela agora deveria dar uma pirueta para trás e "socar-lhe" o rosto.

Mas Shina só podia se controlar até ali. Deixou que as garras cravassem em sua perna, e olhou por cima dos ombros para um Hydra assustado que não sabia o que fazer. Mesmo por trás da máscara, ele conseguia sentir o ódio que queimava nos olhos verdes da Amazona.

Ela começou a tremer os punhos tão forte os cerrava, e por fim um halo roxo envolveu-a. Seu cabelos, que havia deixado crescer para que sua figura ficasse mais agradável aos olhos do público e agora tocavam o meio das suas costas, levitavam como se imersos numa mansa corrente d'água, e quando as três garras que haviam sido fincadas na panturrilha da Amazona simplesmente viraram pó.

O telão mostrou tudo, e o público foi ao delírio. Hydra não sabia o que fazer. Deu dois passos hesitantes para trás e colocou todas as garras de sua Armadura para fora, assumindo uma posição de defesa. Shina virou-se e andou em passos firmes e lentos até ele, finalmente abrindo os punhos ensanqüentados apenas para arquear os dedos e deixar que as unhas crescessem letais e afiadas. O cosmo dela queimava com intensa brutalidade, e Saori e seus Guardiões Dourados, assustados, inclinaram-se para a frente, para ver melhor o que ela ia fazer. Aquilo não estava no script.