Momento Quem Avisa Amigo É: Deste capítulo em diante, essa fic contém spoilers do Capítulo 1 de Sideways (Nyah: bitly/2f8HBzS / FFnet: bitly/2flmwA4 = ao colar no navegador acrescentem um ponto final entre o bit e o ly :DD)
Então se você chegou até aqui e tá entendendo que existem hints *wink wink*) que não tá pegando, dá uma lidinha no capítulo. Você vai gostar, vai, nunca te pedi nada.
III
"Nunca tive problemas com drogas. Só com a Polícia." - Dócrates
A Lei de Murphy, como dizem por aí, costuma ser implacável.
Não que Shina duvidasse, mas parecia que a vida não se cansava de lhe presentear com provas e demonstrações de sua eficiência. Por isso mesmo, talvez, dias seus que começaram ruins raramente davam uma guinada para melhor ao longo do passar das horas.
Mas, sinceramente, aquele dia estava se superando.
Ela já teve que começar o dia treinando as molecas. Já teve que aguentar aquele bando de tontas inflando o ego de Milo de Escorpião. A ponto, inclusive, de ele se pegar numa briga com Kanon de Gêmeos, precisando de sua intervenção direta para que a situação não degringolasse em algo pior. E agora que ela acha que está tudo resolvido lá está ele ali, de novo, com Camus a tiracolo, muito provavelmente para terminar de piorar o que já vinha ruim.
- Então, Escorpião - Shina disse, sem fazer nada para esconder sua irritação. - Quer dizer que você precisa que eu te faça um diagrama desenhado para você entender que eu não quero você perambulando por aqui hoje?
- Eu sou Corregedor das Tropas - Milo respondeu de bate-pronto como esperado. - Posso perambular por onde eu bem entender, até onde me consta.
- Pois muito bem, senhor Corregedor das Tropas - Ela ironizou, queixo duro. - Só que essa área do Santuário fica sob minha responsabilidade. É minha área de autoridade, e até mesmo você tem que se submeter a ela.
Shina viu Milo endurecer a mandíbula, os olhos azuis chispando. Preparou-se para uma saraivada de golpes verbais onde Milo deixaria muito bem clara sua tão prezada autoridade como Corregedor, mas não podia dizer que a resposta atravessadíssima não tinha valido a pena.
- Exceto, Cobra, quando eu estou aqui conduzindo uma-
- Sem problema, Shina, sem problema. - Camus cortou Escorpião. - Você tem razão, a gente devia ir até a arena de treinamentos dos cavaleiros de Ouro.
Shina esperava que Escorpião, sendo como era, dessa vez ignorasse o amigo para continuar de onde havia parado. So que ele estava hesitando, olhando - furibundo - para Camus.
Mas que diabos?
- O que é isso na sua mão? - Seu escrutínio chegou até a mão direita de Milo, que segurava o que parecia ser… - Um maço de cigarros?
Milo endureceu a postura de pronto.
- Minhas investigações não são de sua conta. Eu não te devo satisfações. Entendeu ou quer que eu desenhe?
- Ora, deixe de conversa. - Shina bufou. - Investigação coisa nenhuma. Aliás, não precisa ser nenhum gênio investigativo para concluir o que você realmente veio fazer aqui: Fumar escondido junto com seu amig feito um molequinho de quinze anos! Não dá nem para falar que eu não imaginaria isso de você.
Realmente, não lhe era surpresa alguma. Afinal de contas não fazia muito tempo que ela mesma, Shina de Cobra, já teve que carregar um Milo em estado de petição de miséria pelas escadarias das Doze Casas após ele ter tomado o porre de sua vida na última festa de confraternização da Fundação Graad (1). Ela se lembrava disso muito bem, afinal sobrou para ela a inglória tarefa de botar o Escorpião Dourado embaixo de um chuveiro frio depois dele quase morrer engasgado pela própria ressaca até que Aiolia aparecesse para lhe dar uma ajuda.
E ela estava segura de que Milo também se lembrava - até pelo jeito que ele olhava para ela agora, como se pudesse esganá-la com a força do seu pensamento.
- É mesmo? - O tom sardônico na voz de Milo era significado claro de que lá vinha chumbo pela frente, apesar da expressão claramente mortificada de Camus de Aquário. - Pois bem. Em uma coisa você bem que tem razão: Se eu precisasse me dar ao desplante de sair por aí me escondendo para fumar o que quer que seja, seria bem aqui que eu faria isso. Porque, amazona, esse maço não é meu, sabe? Ele foi encontrado aqui, bem por aqui, nas imediações da área de treinos das tuas subordinadas.
- Você está achando que minhas alunas trouxeram isso daí - Apontou para o maço de cigarros. - para fumarem escondidas em horário de treinos? É isso mesmo que você está tendo o desplante de insinuar, Escorpião?
- Eu não estou insinuando, amazona. Eu, como Corregedor das Tropas, estou dizendo que é isso, exatamente isso. Eu estou dizendo com todas as letras que suas subordinadas te fazem de idiota para burlar as leis do Santuário bem embaixo do seu incompetentíssimo nariz!
Shina podia sentir a bile da raiva azedar o fundo da sua garganta.
Milo de Escorpião, essa criatura intragável, podia ser o que fosse; mas agora ele tinha ido longe demais. Porque se era isso que ele dizia, ele agora teria que provar. Por A mais B. Sem dar a menor sombra de dúvida.
Ou ela não se chamava Shina de Cobra.
Elevou seu cosmo. Se era assim que Milo queria, se era confusão que ele queria, então que assim fosse.
OOO
Zona urbana da Cidade de Rodorio…
O Delegado de Polícia Plutarco Queromeu, responsável pela única delegacia de Rodorio, seguia entretido com um livreto de palavras cruzadas; sentado que estava em sua sala no conforto de seu ar-condicionado.
Não que ele tivesse que estar ali 'de plantão' na delegacia, normalmente ele estaria em casa, de sobreaviso para algum chamado mais urgente. Porém, há algum tempo teve que prestar contas das horas que devia à Corregedoria a quem era subordinado e lá estava ele agora pagando horas e batendo ponto no relógio feito qualquer outro servente de delegacia.
E tem quem diga que vida de funcionário público é fácil, vejam só.
Muitos de seus colegas, inclusive, diziam que ele reclamava de barriga cheia. Eles, queixosos por trabalharem em estações e delegacias de polícia na capital ateniense, diziam que ele tinha era que ser grato por trabalhar por tantos anos em uma delegacia de uma cidade de interior, pequena e pacata.
O problema, porém, era que Rodorio era a cidade vizinha ao Santuário de Atena, a antiquíssima instituição pseudo-religiosa que há séculos acolhia jovens órfãos ao redor do mundo. Pseudo-religiosa, sim, porque aquilo era e sempre foi uma organização paramilitar que transformava os órfãos nos tais cavaleiros que volta e meia apareciam lutando em nome da Deusa. Comunas e ianques só não viam a verdade porque não queriam - ou porque não era conveniente enfiar a mão nessa cumbuca.
Não que ele pudesse culpá-los. Tendo a oportunidade, ele faria o mesmo. Mas, para Rodorio, ficava difícil fingir que o Santuário e seus habitantes não existiam. Mais difícil ainda era para ele, o Delegado da cidade.
Ele bem que tentava exercitar a Política da Boa Vizinhança e focar-se na proximidade da sua gorda aposentadoria integral de Delegado de Polícia; mas não era tarefa fácil fazer valer a Lei junto a um bando de adolescentes superpoderosos com claras tendências homicidas.
Falando em tendências homicidas…
- Doutor! Doutor Plutarco!
- Teófanes - O Delegado Plutarco suspirou enquanto seu escrivão, um homem alto, magro e espigado que também fazia as vezes de investigador de polícia, abria a porta num solavanco. - Hoje é sábado, sossega.
- Temos uma ocorrência no Santuário!
- Sempre tem uma ocorrência no Santuário, Teófanes.
- Eles estão perturbando a ordem nas proximidades da arena de treinos!
- Perturbando a ordem? Como assim, perturbando a ordem?
Posto que 'perturbando a ordem' era um conceito deveras elástico ao considerar-se uma instituição como o Santuário.
- Há relatos de que o Cavaleiro de Ouro de Escorpião está neste exato momento envolvido em um litígio com a Líder das Amazonas, a Amazona de Prata de Cobra, perturbando transeuntes e aterrorizando a população civil nos arredores do Santuário de Atena. - O escrivão disse, sisudo.
O Delegado agora respirava fundo, numa vã tentativa de manter sua irritação dentro dos limites considerados saudáveis pelo seu médico. Que, aliás, tinha recomendado expressamente para que ele evitasse situações de stress.
Aí seu escrivão Teófanes, numa tarde de sábado onde lá estava ele 'pagando plantão' na delegacia mesmo depois de todos os seus anos de casa, resolve arranjar uma queixa de 'perturbação de ordem' nas imediações do Santuário de Atena.
- Ah. Eles estão 'perturbando a ordem' dentro da área deles. Que tal então, Teófanes, a gente… Deixar pra lá?
- Mas senhor, nós somos a Lei! Temos jurisdição até dentro do Santuário de Atena! - O escrivão praticamente vibrou. - Além do que essa é uma oportunidade boa demais para ser perdida.
- Como assim?
- Desta vez ela envolve o Corregedor das Tropas, Doutor!
- Corregedor..?
- Sim! O Cavaleiro de Ouro de Escorpião é o Corregedor das Tropas do Santuário, senhor!
O Delegado massageou as têmporas.
- Doutor Plutarco… Eles são uma organização paramilitar altamente organizada! Em plena guerra fria! - Teófanes deu a volta em sua mesa, deixando sobre ela mais um dos (inúmeros) dossiês que ele preparava sobre a obsessão de sua vida, o Santuário de Atena. - E dessa vez, nós podemos pegar o Corregedor das Tropas deles! Todos os segredos do Santuário, em nossas mãos! O senhor já pensou, podemos fechar ele no quartinho de interrogatório e fazer ele abrir o bico! Uns tabefes, um pau-de-arara, e-
- Teófanes - O Delegado achou por bem cortar o delírio de seu subordinado. - Só de ouvir essa conversa a minha pressão já está subindo. E eu tenho que ficar calmo, esqueceu? Ordens do meu médico. Portanto o que nós vamos fazer é deixar o Santuário resolver as coisas do Santuário e ficarmos aqui, desfrutando a Santa paz do Senhor. Fui claro?
- Mas senhor, é nosso dever enquanto homens da Lei desmascarar essa seita paramilitar que-
- Fui claro, Teófanes? - E dessa vez, o delegado certificou-se de que seu subordinado entendesse que, caso ele o desobedecesse, haveriam consequências administrativas.
Teófanes bufou e disse um 'sim senhor' entre os dentes, contrariadíssimo.
E, enfim, o Delegado Plutarco Queromeu conseguiria voltar às suas palavras cruzadas enquanto aguardava o fim de suas doze horas de suplício.
Pouco tempo depois, porém, o (inconfundível) arranque do motor do velho camburão da Delegacia o fez novamente suspender suas atividades.
Após um breve período de silêncio estranhamente contemplativo, o Delegado Plutarco se levantou.
- Dona Aglair...
- Diga, Doutor. - A referida, secretária da Delegacia e tão funcionária de carreira quanto ele, sequer levantou os olhos para responder-lhe; entretida que estava com suas longas unhas e um vidrinho de esmalte vermelho.
- Dona Aglair - Ele repetiu, e a senhora olhou-o por cima dos óculos de armação de gatinho. - Por favor. Diga para mim que não foi o Teófanes quem pegou o Camburão agorinha há pouco e saiu com ele porta afora.
- Não foi o Teófanes quem pegou o Camburão agorinha há pouco e saiu com ele porta afora... - Ela disse, voltando a pintar suas unhas.
O delegado bufou.
- ...Só que o senhor sabe que foi.
OOO
- Pelo amor da Deusa Atena, você vai fazer o quê?!
Kanon estava cansado de Máscara da Morte, já.
Porque, afinal, aquilo era o cúmulo: O antigo Cavaleiro das Trevas, apavorante Guardião dos Portais do Inferno, o que decorava as paredes de seu templo com máscaras mortuárias... se doendo por conta dos detalhes do seu plano para recuperar seus pertences das mãos daquele Escorpião metido.
- Seguinte, carcamano: Cê não quer entrar no esquema. Saquei, sem problemas, só me confirma o mau colega que você é. Mas então, cara, muito ajuda quem não atrapalha, beleza?
- Cazzo, eu tô pouco me lixando pro Milo, eu quero mais que o bicho se exploda.
- Que ótimo, somos dois, então qual é a porra do problema?
- O problema é que cê quer meter um Satã Imperial na cabeça do Milo!
Kanon rolou os olhos.
Afinal, qual era o grande problema de usar um Satã Imperial para fazer o Milo entregar seu maço por livre e espontânea vontade? Era uma opção muito melhor do que espancá-lo até a morte, não?
Sim, porque sua primeira opção sempre seria matar o Milo de porrada. Mas lá estava ele, abrindo mão da solução que mais lhe agradava justamente porque ele tinha que ter 'consideração' com os coleguinhas do Santuário.
Maus coleguinhas, isso sim. Pois lá estava um Máscara da Morte tiritando à sua frente para provar.
- Eles estão pra lá. - Kanon avançou em direção das arquibancadas com passadas largas, até ser segurado pelo colega da Quarta Casa. - Puta que te pariu, me solta que…
- Kanon, pelo amor de todos os deuses do Olimpo, faz qualquer coisa menos isso. O bicho já é zureta normalmente, aí você vai querer foder ainda mais a cabeça do menino?
- Por isso mesmo, a cabeça do bicho já é fodida de fábrica, não tem problema nenhum em botar ele pra ficar quietinho e esquecer o que precisa ser esquecido pelo bem da paz mundial!
- Cazzo, vou te falar, você tá falando do Milo mas você é mais doido do que ele!
- Eu? - Kanon torceu o rosto numa careta. - Eu sou a criatura mais normal dessas redondezas. Os doidos de verdade são vocês! Aliás, bem que você tem razão. Neste momento, eu realmente estou me comportando feito um doido. Deve ser a convivência com esse povo do Santuário. Então eu vou parar com esse comportamento claramente neurótico que é ficar tentando provar pra você que eu sou normal e agir em favor do que eu quer-
- Fica quieto que não tá sozinho, estrupício! - Máscara da Morte agora tentava esconder o cosmo. - Não tá sentindo, não?
De fato: Lá estavam, também, Camus de Aquário e Shina de Cobra. Na verdade, um exasperado Camus de Aquário tentava sem sucesso dissuadir Shina de Cobra de avançar, cosmo em riste, em direção a um Milo de Escorpião também pronto para um embate.
- Mas que merda é essa... - Kanon franziu a testa, ele e Máscara da Morte com cosmos suprimidos atrás de um de seus disfarces.
- Ei, qué isso, o bicho vai agulhar a Shina? Kanon, olha lá, ele tá preparando as agulhas pra cima da Shina! Que absurdo, cara, a gente tem que ir lá fazer alguma coisa e-
- Shhhhhh! - Máscara da Morte ganhou um safanão. - Quieto, deixa eles se pegarem aí!
- Mas-
- 'Mas' digo eu, ora! Vou ficar aqui e esperar, pode ser a oportunidade perfeita pra gente pegar o maço sem precisar nem botar a mão na massa.
- Eu não acredito que você vai deixar eles brigarem só pra botar a mão nesse maço!
- Ué, não era você que tava todo dodói porque eu ia usar um Satã Imperial no Milo? Aí, pode ser que eu nem precise mais…
- Kanon, presta atenção, o Milo vai bater na Shina!
- E eu com isso? A Shina é amazona de prata, adulta, vacinada, sabe onde tá se metendo! Fora que é bem capaz que ela é que acabe dando um couro nele. Eu, no que me diz respeito, jurei pra mim mesmo que eu nunca mais me metia em briga alheia; e você bem sabe que eu tenho motivo. Especialmente envolvendo esse rabudo aí. (2)
- Ah, Kanon, quer saber? Deu pra mim. - Máscara da Morte estufou o peito. - Eu não sei quanto a você, mas eu não vou ficar aqui assistindo enquanto a Shina corre o risco de apanhar porque ela e o Milo resolveram sabe-se lá porque se pegar na porrada. Eu vou lá separar sim, e…
- OS DOIS MELIANTES, PAREM EM NOME DA LEI!
Máscara da Morte, estático no local onde parou, apenas levantou as mãos e esperou pelo pior.
Kanon foi até ele e o puxou de volta para onde estavam.
- Quieto, carcamano. Quieto. - Kanon sussurrou, testa franzida e olhos fixos no recém-chegado que avançava em direção à arena. - Não foi a gente que ele viu.
- É o Inspetor Teófanes…?
- Ele não é inspetor, é escrivão. - Kanon respondeu ao sussurro do italiano. - Mas o que diabo esse puto tá fazendo aqui… Aí, ó, tanto que você falou de doido, agora apareceu um de carteirinha…
- Milo de Escorpião e Shina de Cobra! - Teófanes sacou um revólver calibre .38 do coldre com uma mão, e com a outra mostrava o distintivo. - Fiquem onde estão!
Camus de Aquário tinha se esfumado no ar.
O maço de cigarros caiu no chão, bem diante dos olhos do policial.
OOO
- Isso é um absurdo, isso um despautério! Eu exijo ser libertada IMEDIATAMENTE, me manter presa aqui é um abuso de autoridade!
Os estridentes gritos femininos vindos da Delegacia denunciaram a Plutarco Queromeu que eram vãs as suas esperanças de que Teófanes, assim como ele, tivesse falhado em encontrar os cavaleiros que procurava.
- Teófanes - O Delegado sentiu as têmporas pulsando ao reconhecer, dentro da cela onde os suspeitos aguardavam fichamento, Milo de Escorpião e Shina de Cobra; que diga-se de passagem parecia muito menos ameaçadora sem a máscara. - O que esses dois estão fazendo aqui? Eu não te disse para não se meter nisso, homem?
- Senhor Plutarco, eu peguei esses dois meliantes em flagrante delito!
- Delito de quê? Perturbação da ordem? Teófanes, pelo amor de Deus…
- Oh, não, senhor Delegado. - Os olhos de Teófanes tinham um brilho meio obsessivo. - Não, não. Desta vez é porte ilegal de substância entorpecente.
Um maço amarrotado de Marlboro Light apareceu em sua frente, apoiado pelos dedos magros do escrivão. Nem precisou olhar para dentro do maço para saber o que ele continha.
Plutarco Queromeu sentiu seu peito apertar, sinal inequívoco de uma crise de pressão alta.
Quando ele achava que a situação não tinha como piorar, lá estava ela piorando e piorando.
Não que ele desse muita importância para dois jovens na flor da idade curtindo uma tarde de sábado com aditivos químicos: Sim, porque ele, no alto de sua experiência, estava cansado de saber que cavaleiros, amazonas e baseados não eram nem de longe uma combinação assim tão rara. Tampouco o problema era o Cavaleiro e a Amazona em questão terem se desentendido por alguma rusguinha de amor: Decerto que ambos tinham suas reputações de cabeças-quentes e por isso mesmo o casal era bem inusitado; mas ele não julgava. O rapaz era boa-pinta e a garota, sem a máscara, era realmente uma gracinha. Por muito menos do que do que aquele olhinhos verdes ele mesmo já embarcara em desventuras amorosas muito mais temerárias que namorar uma amazona de prata.
O problema - um problemão, na verdade - era Teófanes, de todas as pessoas desse maldito mundo, dar conta de encontrar uma amazona de Prata e um cavaleiro de Ouro - Corregedor das Tropas, ainda por cima - com um maço de baseados em sua posse.
- Teófanes… - Ele respirava fundo, controlando a saída do ar para tentar não gritar com o subalterno na frente dos detidos. - Nós não temos nada a ver com isso. Se eles estão dizendo que o maço não é de nenhum dos dois...
- Senhor delegado, eu os peguei em FLA-GRAN-TE DE-LI-TO! OS DOIS estavam de posse de uma considerável quantia de drogas ilícitas! Eles têm que ser um exemplo para a comunidade de que ninguém, NINGUÉM está acima da lei! Muito menos os dois pombinhos aí, que agora estão brigando feito cão e gato mas antes deviam estar entorpecidos fazendo sabe-lá-deus-o-quê, ora que pouca vergonha!
- Pombinha é a senhora sua mãe! - A amazona de Cobra rebateu de bate-pronto. - Delegado, eu EXIJO que me tire daqui! Eu já disse um milhão de vezes para seu subalterno que o maço não é meu! Eu já disse que eu não tenho NADA a ver com esse maço de cigarros, isso é coisa desse PASPALHO metido a CAVALEIRO DE OURO!
- Paspalho? Ora, pois fique sabendo que o paspalho metido a cavaleiro de ouro aqui achou esse negócio no SEU CAMPO DE TREINOS! Então EU é que estou nessa furada por SUA CAUSA, instrutora incompetente que você é! Aliás, senhor Delegado, pouca-vergonha é seu subalterno insinuar que EU tenha alguma coisa com essa pessoa!
- Ah, me poupe, Escorpião, que também você usando umas porcarias dessas não é novidade pra ninguém. Não vem com esse papo de corregedor muito do correto, que pra mim não cola! Você, logo você, falar que o negócio que tava na sua mão não é seu e bancar o inocentezinho? Pra cima de mim, que te carregou até um chuveiro porque você não tinha CONDIÇÕES de andar sozinho da privada até a sua banheira de TÃO BÊBADO QUE ESTAVA? Hein? (1)
- Pra começo de conversa, aquela foi a ÚNICA vez que eu tive um comportamento desses! A ÚNICA, e dei o azar de cair na mão de uma criatura amarga e mal-amada feito você! Mas mesmo assim, que eu saiba, ficar de porre em horário de descanso não é crime e nem contravenção! Agora, daí a você me acusar de trazer ISSO em solo sagrado do Santuário quando EU estou dizendo que encontrei esses negócios dentro do SEU campo de treinos?
- Pois então PROVE sua acusação, Escorpião!
- Minha palavra enquanto corregedor é SUFICIENTE, amazona de Cobra!
- CHEGA DESSE BERREIRO OS DOIS! Mas será possível que vocês não cansam, não?
- Está cansado de me ouvir berrar? - Shina bufou na direção de Teófanes. - Pois eu nem comecei! Se está assim tão incomodado ME SOLTA DAQUI!
- Pois sim, eu estou incomodado, mas essa sua gritaria não vai te salvar da investigação, delinquente dos infernos! Você por mim pode morrer de tanto berrar, mas só sai daqui depois de ir pra Sala de Interrogatório.
- Acha que eu tenho medo de você, inspetor? Eu sou uma amazona de prata! Sabe quando que um burocrata patética que nem você vai meter medo em mim? NUNCA!
- Ah é? Que bonitinha e corajosinha ela, olha só. Pois então você vai ser a PRIMEIRA a ser interrogada, e não pense que eu vou aliviar pro seu lado porque você é uma mocinha, senhorita Amazona de Prata! - Teófanes retrucou, andando em direção às grades e fazendo menção de puxar a moça para fora. - Você pode estar dando uma de difícil agora, mas daqui a pouco esse seu biquinho vai cantar-
A mão de Milo, firme em seu punho, o fez soltar a garota.
- Encoste nela, seu crápula, e você é um homem morto. - O cavaleiro rosnou. - Morto, ouviu bem?
- Milo de Escorpião, isso é DESACATO À AUTORIDADE! Eu posso te deixar mofando na cadeia e-
- EU JÁ ESTOU PRESO, SEU ESCRIVÃO IDIOTA! - A unha vermelha reluziu no dedo indicador direito do Cavaleiro de Escorpião. - Então se é pra eu estar na cadeia, posso fazer isso valer por um bom motivo!
- CHEGA! - Plutarco gritou. - Essa palhaçada acabou aqui! Os dois, pra dentro da cela! Teófanes, você vai pra fora!
- Delegado, eles TERÃO que ser investigados! - Teófanes bateu o pé. - E de um jeito ou de outro, eu VOU enquadrar esses dois, e a partir deles o Santuário inteiro!...
Um olhar assassino para o escrivão, porém, o fez entender que ou ele saía dali agora, ou ele enfrentaria os rigores legais da insubordinação ao seu superior. O escrivão saiu bufando e ele se fechou em sua sala depois de devolver Milo e Shina para a cela de detenção em relativa segurança. Porém o delegado sabia que tudo o que tinha ganhado ali foi tempo. Pouco tempo.
Teófanes não ia parar. Seu escrivão estava com a faca e o queijo na mão para armar, dessa vez, um verdadeiro escândalo envolvendo o Santuário de Atena - seu grande objetivo de vida, do qual seguramente ele não partilhava.
Ele só queria um sábado tranquilo, pelo Pai Todo-Poderoso, e agora tinha essa situação para resolver.
Só lhe restava uma solução.
Plutarco fechou a porta de sua sala e pegou o telefone.
OOO
Saga mantinha aberta a da geladeira, tendo terminado de guardar as cervejas no congelador e momentaneamente refrescando-se do calor quase sobrenatural daquele fim de tarde no Santuário.
Puta falta que faz um ar-condicionado num lugar como aquele, isso ele tinha que dar a mão à palmatória. Só que um eletrodoméstico desses, na instalação elétrica pré-histórica (ou seja - praticamente inexistente) que tinham os templos, seria mais uma dor de cabeça do que uma solução. Provável que, ao ligar o ar-condicionado junto com a água quente da banheira, o fusível disparasse e o templo todo acabasse no escuro. Ou coisa pior.
E, entre um ar-condicionado e um banho quente, ele sempre ficaria com o banho quente.
Onde estaria Camus de Aquário quando se precisa dele?
Bem, pelo menos tinha guardado todas as compras que fizera em Rodorio. Sim, porque o Kanon - que ontem passou o dia todo fora - não se deu sequer ao trabalho de comprar umas cervejas, quanto mais umas frutas, umas verduras… Enfim, rechear a geladeira da casa que ele por ventura também habita. Como sempre, sobrou para ele a inglória tarefa de se atacar até Rodorio nesse calor insuportável para comprar alguns víveres, um engradadozinho de cerveja que fosse.
Aliás, falando nisso, onde diabos andava seu muito inútil irmão? Por certo no meio da rua - sem dar satisfação, como sempre.
'Ah, foda-se', pensou Saga, ligando a água da banheira. Não tinha mais saco e nem idade para ficar bancando a babá de Kanon.
Ignorou o ruído de fundo do telefone tocando enquanto, no seu quarto, separava as roupas que levaria ao banheiro. Quanto tempo ele teria de esperar para que uma das cervejas gelasse o suficiente para ele tomá-la na banheira? Usualmente ele preferia vinho, verdade seja dita, mas nesse calor de matar a cervejinha era uma opção muito melhor.
E que ninguém viesse falar na sua orelha que 'cerveja dá barriga', ele não se acabava de tanto exercício na hora do treino pra ficar depois regulando cerveja. Ademais eles tinham a cosmoenergia, não tinham? Desconhecia coisa tão boa quanto uns bons golpes de cosmo para queimar gordura a jato. Quase podia ouvir sua consciência - na voz do seu antigo mestre - dizendo que isso era 'usar seus poderes em benefício próprio', mas não era também a boa forma física uma obrigação do Serviço de Atena? Pois então.
Banheira cheia, toalha felpuda separada, cueca e roupa casual na bancada do banheiro. Foi até a cozinha e deu uma checada na cerveja - ainda quente.
O telefone continuava tocando. Balançou a cabeça, fazendo a menção de novamente deixar que tocasse até parar sozinho; mas no caminho do banheiro pensou que, num dia de sábado, ninguém do Santuário se incomodaria de ligar para sua casa. Ele não tinha nenhuma pendência em missão nem nada.
O que ele tinha, na verdade, eram uns casinhos aqui e acolá desde o fim (um tanto traumático) do seu último namoro. Já estava inclusive escutando sua consciência de novo - dessa vez com o tom sardônico de Kanon - dizendo que o 'fim traumático' se deveu a uma falha de suas recordações da cronologia dos fatos, já que sua ex-namorada diria (entre impropérios, acusações vis e ranger de dentes) que os casinhos vieram antes do fim do relacionamento. Rebateu de si para si que não foi bem assim, não era como se ele tivesse arrumado uns casos antes do namoro acabar. Foi mais ou menos na mesma época. Bem que ele tentou explicar que não foi tecnicamente uma traição porque ele não chegou a efetivamente transar com nenhuma delas antes do fim de seu namoro, só tinham rolado uns beijinhos, uns amassos e… bom, uns amassos mais 'quentes' certamente andaram acontecendo, mas isso não chega a ser sexo.
Porém sua ex não se dignou a ouvi-lo nem por uns minutinhos que fosse.
Enfim, seu namoro estava acabado e hoje o que ele tinha eram os casinhos.
Usualmente era ele quem ligava para chamar as meninas para sair e hoje, especificamente, não estava planejando nada mais elaborado para sua noite, mas… vai que era alguma delas no telefone, né? Esse tipo de coisa não se recusa.
Atendeu o telefone.
- Saga de Gêmeos - A voz inconfundível do Delegado Plutarco Queromeu estava do outro lado da linha - Preciso que você venha até a delegacia.
OOO
(1) - Capítulo 1 de Sideways, disponivel aqui no Nyah (bitly/2f8HBzS) e no FFnet (bitly/2flmwA4) - no navegador coloquem ponto entre o bit e o ly ;D
(2) - Para todos os efeitos, essa história se passa depois de Sui Generis, também disponível no Nyah - ainda incompleta, eu JURO que vou completar! - ( bitly/2g1bi7o) e no FFnet *completa* ( bitly/2f4JdYd)
