Narrado por: Aya



Aquela poderia ter sido somente mais uma tarde como todas as outras... O tempo estava chuvoso, portanto eu me permitia sair para passear enquanto ainda não era noite. Lembro de ter caminhado vários quilômetros, ignorando Vittorio, que em sua tagarelice habitual, me seguia. Estava muito longe, pensando em algo que não lembro no momento, só sei que a voz do outro vampiro (Vittorio) continuava a soar, mesmo sem eu prestar atenção a ela...

Acho que é importante para o entendimento dessa história, contar um pouco sobre Vittorio, mas tentarei ser breve...Ele foi transformado por mim...o primeiro e único ser das trevas que criei...O fiz em um momento de desespero, quando não conseguia me acostumar com a solidão em que nossa espécie vive...Mas o fiz errado...Escolhi um jovem bonito, dezenove anos, já com segundas intenções, mas não prestei atenção a sua personalidade...problemática, digamos. Era de uma família rica...Típico filhinho de papai, mimado e inconseqüente. Apesar de eu tê-lo trazido para o lado das trevas, nunca demonstrou raiva...só amor...um amor obsessivo e extremamente irritante...Até tentei uma relação mais firme com ele, mas não deu certo...Na época que se passa a história ele vivia comigo, mas não éramos mais um casal...o problema é que ele não parecia saber disso....

Fisicamente Vittorio era belo, muito belo...Tinha a pele tão branca quanto a de qualquer vampiro, mas seus olhos não perderam o brilho nem depois da morte...Aquelas íris incrivelmente verdes ainda transmitiam a malícia e o peraltismo de sempre. Seus longos cabelos negros permaneciam soltos a maior parte do tempo...Eram ondulados, com um brilho magnífico, que cobriam toda suas costas...Eram sedosos e sempre perfeitamente penteados.

Mas, voltando a história, não sei por quanto tempo caminhei e nem porque tomei aquele caminho, só sei que estava deixando meus pés me guiarem para onde quer que fosse...Perto de um parque, resolvi parar para descansar um pouco e tentar me livrar do falatório do vampiro moreno...Por Deuses! Como podia falar tanto? Lembro de ter dito algo como:

-Vittorio, por que não vai procurar uma boa presa para mim? Faz dois dias que não me alimento... – Usei uma desculpa qualquer, sabendo que em seu amor doentio, faria qualquer coisa para me agradar.

-Claro! Já volto!... – Saiu pulando, fazendo seus cachinhos voarem.

-Não se apresse...eu não vou sair daqui... – Bem...é claro que eu pretendia sair...mas algo me impediu...Ouvi algumas vozes gritando e logo vi um rapaz moreno aparecer no topo da ladeira em que eu me encontrava...Era bem bonito e saudável...parecia uma boa presa. Decidi esperar para atacar, pois ouvia mais alguém chegando. Ouvia uma risada gostosa...quase melodiosa...Hoje em dia, fico feliz por ter segurado minha fome...

Logo atrás do rapaz moreno, apareceu primeiro o topo de uma cabeça loira, então o rosto e o corpinho esguio...Desisti na hora do moreno...Aquele loirinho que iria ser minha refeição...Bom, pelo menos era o que eu pretendia... Nunca liguei muito para os protestos de minhas vítimas, mas sabia que para isso não podia olhá-las nos olhos...Os olhos contam toda nossa história, brilham em resposta de nossos sentimentos...Podem transmitir alegria, tristeza, admiração e...amor...e foi isso que vi quando os olhos azuis como as mais lindas safiras me fitaram...amor....um amor estranho, quase instantâneo...Achei que estivesse enganado, nunca acreditei em amor e muito menos a primeira vista, mas foi o que vi... e pior (ou melhor?), senti o mesmo... Senti meu corpo estremecer e não consegui desviar-me daquelas íris azuis...Perdi-me no meio daquele mar de sentimentos confusos que elas transmitiam e simplesmente me senti...estranhamente...apaixonado? Não, não...não devia ser isso...Atraído talvez, mas não apaixonado...Mas então porque diabos não conseguia tirar os olhos daquela criatura magnífica? Hoje eu sei disso, mas na hora não quis aceitar...Tentei quebrar o contato visual, mas meu corpo não obedecia...Então simplesmente me rendi, e fiquei observando o que seria até hoje o meu grande amor...

Continua...