Capítulo 3
Em algum momento da madrugada, ele também dormiu e, pela primeira vez desde que chegara àquele planeta, sonhou. No seu sonho, havia um leão robô muito parecido com o que vira no dia anterior, mas que era vermelho ao invés de azul, e que rugia, perguntando: onde está você, meu paladino? Por que não te encontro?
E ele respondia, aos gritos: estou aqui!
O leão vermelho, contudo, não era capaz de escutá-lo e, sem aperceber-se da sua presença, sem ouvir os seus gritos desesperados, deu-lhe as costas e desapareceu, deixando-o sozinho na vastidão do espaço.
Quando acordou – o sonho não passando de um borrão quase apagado de sua memória –, deparou-se com o humanoide já desperto e apontando uma espécie de arma em sua direção, o rosto moreno dele contorcido não mais em dor, mas sim em fúria.
— Não tente nenhuma gracinha, Galra.
— Eu não estou tentando — Respondeu, seus olhos amarelos estreitos enquanto miravam o recém-chegado do espaço. — Você estava muito mal ontem. Mas vejo que, agora, está se sentindo bem melhor.
Uma expressão confusa cruzou o rosto do estranho – vergonha, talvez, misturada com hesitação –, e a arma estremeceu nas mãos dele.
— Você me ajudou — O humanoide afirmou, nitidamente intrigado. — Algumas lembranças da noite passada são confusas, mas... mas eu lembro de você. E você me ajudou. Por quê?
— Porque você precisava de ajuda. Pareceu a coisa certa a ser feita — Disse com naturalidade, deixando a criatura ainda mais confusa do que já estava.
— Mas você é um Galra.
— Galra? Você me chamou disso antes. Isso quer dizer que você me conhece? Esse é meu nome? — Perguntou com antecipação.
— O quê? Não! — Exclamou o estranho, baixando a guarda e retraindo a arma. — Galra é a sua espécie. Você não sabia disso? Não sabia que é um Galra? Como pode ser?
As perguntas fizeram o seu rosto esquentar, e ele se sentiu enfurecer, pois a falta de conhecimento sobre si mesmo era algo que o incomodava muito.
— Eu apenas não sei — Retrucou. — Não me lembro. Não lembro quem sou. Tudo o que sei é que minha nave caiu nesse planeta alguns sóis antes da sua espaçonave cair. É isso.
O humanoide levou a mão ao rosto liso e coçou o queixo. Não havia mais fúria em seu semblante, apenas curiosidade e até mesmo um pouco de interesse.
— Um Galra sem memória? Mas quem diria! Acho que isso é uma coisa boa.
O comentário o irritou.
O irritou muito.
— Pois eu não acho. Perdi o meu nome, o meu significado. Estou aqui nesse planeta sem saber nada sobre a minha vida de verdade. E se eu estava no meio de uma missão? Como poderei concluí-la? E se... e se eu tiver uma família? E se eles estiverem procurando por mim? E se pensarem que estou morto? Eu não sei... não sei nada — Confessou, angustiado e frustrado, e viu culpa se alojar nos olhos azuis da outra criatura.
— Não foi isso o que quis dizer — Murmurou o humanoide, arrependido pelo que falou. — É que... nós... eu e... e meus amigos, nós lutamos contra os Galras. Vocês são tipo... tipo os caras maus! Estão sempre escravizando o pessoal por aí, invadindo planetas, torturando todo mundo, coisas desse tipo, entende? Sem contar que o seu líder megalomaníaco, Zarkon, quer dominar o universo, o que não é legal! Vocês são os vilões mais vilões de todos... e sei lá. É bom você não lembrar que é um dos nossos inimigos. Porque, se você lembrasse, com certeza não teria me ajudado, e eu estaria na pior agora. Muito na pior. Você salvou a minha vida.
Foi surreal ouvir aquilo, saber que pertencia a uma espécie cruel, terrível e tão odiada e que, se estivesse de posse de suas memórias, teria matado aquele ser, porque ele, definitivamente, não se sentia daquela forma. Não tinha a menor vontade de escravizar outras espécies ou de torturar qualquer um que fosse, assim como não tinha vontade de machucar aquela criatura de olhos azuis e voz alta e ligeiramente irritante.
Cuide dele, por favor.
Lembrou-se do pedido feito pelo leão azul em seus pensamentos e da promessa que fizera apenas para si, mas que não tinha intenção de quebrá-la.
— Talvez nem todos da minha espécie sejam assim tão... ruins — Falou, por fim, a voz pausada e um pouco tímida.
Ou esperançosa.
— Não sei, não. Nunca vi um Galra bom.
— Nunca? — Perguntou, desanimado e melancólico.
O estranho muito provavelmente notou a decepção que sentia, pois logo fez questão de completar:
— Mas eu não conheço muitos Galras, então... pode ser que existam sim Galras bons! — Concluiu a fala com um sorriso forçado. — Pode ser como na Terra, sabe? Esse é o meu planeta natal, a propósito. Lá existem pessoas boas e pessoas más. Então pode ser que, da mesma forma que existem humanos bons e maus, existam Galras bons e maus. E você, pelo visto, é um dos bons! Sorte a minha!
Ele não disse nada, mas pensou nas palavras proferidas pelo humanoide de pele morena e se forçou a acreditar nelas.
Se ele era um Galra, com certeza era um dos bons.
Tinha de ser.
— E já que você é um dos Galras do bem, por acaso lembra o caminho até o Blue?
— O quê? Blue?
— É! — O estranho riu. — O meu leão.
— Você chama a sua nave de... Blue?
— Claro! É o nome dela! Nós tivemos alguns problemas na nossa última batalha e... ela acabou muito danificada. Por isso caímos aqui. Eu preciso vê-la. Preciso saber como ela está e... e tentar entrar em contato com os meus amigos. E se eu conseguir falar com eles, podemos ser resgatados e sairmos desse planeta. E daí a gente pode tentar te ajudar a recuperar a memória!
— Me ajudar? — Perguntou, desconfiado. — Mas você e seus amigos são inimigos dos Galras. Por que me ajudariam se eu sou um deles?
— Por quê? Porque eu tô te devendo, cara! Você me ajudou, salvou a minha vida! Tá na minha vez de te ajudar. Nós somos praticamente amigos, agora — O humano sorriu e estendeu uma mão à frente, num gesto que era estranho e familiar ao mesmo tempo. — Meu nome é Lance. Vamos, isso é um tipo de cumprimento. Você tem que apertar a minha mão.
Ele fez como ordenado e apertou a mão estendida.
— Não tenho um nome para te oferecer.
Lance riu.
— Sem problemas. Vou inventar um pra você. O que acha de Galra do bem?
— Não pode me chamar assim — Respondeu, enfadado. — É ridículo.
— Ridículo? — Lance quase gritou. — Claro que não! Você é um Galra e você é do bem, por isso Galra do bem! É perfeito! Por que não gostou?
O Galra revirou os olhos, mas precisava admitir que também sentiu vontade de sorrir. Aquele humano era uma criatura interessante.
Um pouco irritante, mas interessante de qualquer forma.
— Ou eu poderia te chamar de Galra de mullet. Sério? Primeiro Keith e agora você... será que a moda dos anos oitenta está voltando e eu não sabia?
— Mullet? — Inconscientemente, levou a mão ao cabelo escuro e franziu o cenho. — Quer saber, pode me chamar do que quiser — Virou o rosto para o lado, fitando alguma coisa ao longe. Depois, encarou Lance, observando o corpo machucado do humano tagarela. Não havia dúvidas de que ele aparentava estar bem melhor do que estivera no dia anterior, no entanto, não estava totalmente curado, e o súbito esforço poderia piorar a sua saúde e atrasar a sua recuperação. — Seu leão não está muito longe, mas ainda assim é uma boa caminhada. Tem certeza de que está bem para andar tanto? Podemos ir até lá amanhã, quando estiver melhor.
— E deixar Blue sozinha? E se...
— Nada irá acontecer a sua nave — Garantiu. — Estamos sozinhos aqui. Ninguém irá atacá-la ou... tentar sequestrá-la.
Incerteza tomou conta do rosto de Lance.
— Ah, eu não sei. Estou preocupado. Eu me sentiria melhor se não estivesse longe dela.
O Galra suspirou e fez um gesto com a mão, como se apontando o caminho até a nave.
— Se é assim, vamos. Mas não reclame se o esforço for demais.
— Não vou reclamar — Prometeu o humano, um sorriso convencido em seus lábios. — Eu aguento o tranco. — Deu dois passos na direção apontada pelo Galra e desmaiou.
