"Eu não tenho tempo pra isso."
"Santo Deus," disse o garçom, espreitando Harry, "isso é - pode isso ser -?"
Harry inclinou-se em direção ao bar Caldeirão Furado o melhor que pôde, apesar de ele ter vindo de algum lugar próximo do canto dos seus olhos. Uma questão como aquela merecia o seu melhor.
"Eu sou - eu posso ser - talvez - você nunca sabe - se isso é - mas a questão que resta - porquê?"
"Que bênção," sussurrou o velho garçom, "Harry Potter... que honra."
Harry piscou, então se recompôs. "Bem, sim, você é muito perceptivo; a maioria das pessoas não realiza tão rapidamente -"
"Isso basta," Professora McGonagall disse. A mão dela apertou o ombro de Harry. "Não importune o garoto, Tom, ele é novo a tudo isso."
"Mas é ele?" balbuciou uma velha. "É Harry Potter?" Com um som áspero, ela levantou-se de sua cadeira.
"Doris -" McGonagall disse em advertência. O olhar que ela lançou pelo aposento devia ter sido suficiente para intimidar qualquer um.
"Eu só quero apertar a mão dele," a mulher sussurrou. Ela curvou-se e estendeu uma mão enrugada, a qual Harry, sentindo-se confuso e mais desconfortável do que jamais se sentiu em sua vida, cuidadosamente sacudiu. Lágrimas caíram dos olhos da mulher sobre suas mãos apertadas. "Meu neto foi um Auror," ela sussurrou para ele. "Morreu em setenta e nove. Obrigada, Harry Potter. Graças aos céus por você."
"De nada," Harry disse, inteiramente no automático, e então virou sua cabeça e atingiu McGonagall com um aterrorizado, suplicante olhar.
McGonagall bateu com o pé bem quando o cochico geral estava prestes a começar. Fez um barulho que deu a Harry um novo referente para a frase "Anúncio do Apocalipse", e todo mundo congelou no lugar.
"Estamos com pressa," disse McGonagall em uma voz que soou perfeitamente, completamente normal.
Eles deixaram o bar sem mais nenhum problema.
"McGonagall?" Harry disse, uma vez que estavam na rua. Ele queria perguntar o que estava acontecendo, mas estranhamente encontrou a si mesmo perguntando uma questão inteiramente diferente em vez disso. "Quem era o homem pálido? O homem no bar com os olhos em convulsão?"
"Hm?" McGonagall disse, soando um pouco surpresa; talvez ela não não tivesse esperado aquela questão também. "Aquele era o Professor Quirrell. Ele vai estar ensinando Defesa contra Arte das Trevas esse ano em Hogwarts."
"Eu tive a estranha impressão que já o conheço..." Harry esfregou sua testa. "E que eu não deveria apertar a mão dele." Como se encontrando-se com alguém que tinha sido um amigo, uma vez, antes que algo visse drasticamente errado... não era isso de todo, mas Harry não conseguia achar palavras. "E o resto deles?"
McGonagall deu a ele um estranho olhar curto. "Sr. Potter... você sabe... o quanto foi dito a você... sobre como seus pais morreram?"
Harry retornou um olhar firme. "Meus pais estão vivos e bem, e eles sempre recusaram falar para mim sobre como meus pais biológicos morreram. Pelo qual eu infiro que não foi bem."
"Uma lealdade admirável," disse McGonagall. A voz dela veio baixa. "Embora doa um pouco ouvir que você disse isso desse jeito. Lily e James eram meus amigos."
Harry olhou em outra direção, subitamente envergonhado. "Me desculpe," ele disse em uma voz pequena. "Mas eu tenho uma Mãe e um Pai. E eu sei que teria apenas me feito infeliz comparando essa realidade com... alguma coisa perfeita que eu construísse na minha imaginação."
"É incrivelmente sábio de você," McGonagall disse quietamente. "Mas os seus pais biológicos morreram muito bem na verdade, protegendo você."
Me protegendo?
Algo estranho apertou o coração de Harry. "O quê... aconteceu?"
McGonagall suspirou. A varinha dela tocou a testa de Harry, e a visão dele turvou por um momento. "Algo para disfarçar," McGonagall disse, "Para que isso não aconteça de novo, não antes que você esteja pronto." Então a varinha dela apareceu de novo, e bateu três vezes em uma parede de tijolos...
...a qual abriu-se em um buraco, e dilatou e expandiu e chacoalhou em uma arcada enorme, revelando uma longa fileira de lojas com placas anunciando caldeirões e fígados de dragão.
Harry não piscou. Não era como alguém se transformando em um gato.
E eles andaram à frente, juntos, para dentro do mundo bruxo.
Lá havia mercadores anunciando Botas de Pulo ("Feitas com Flubbers reais!") e "Facas +3! Garfos +2! Colheres com bônus +4!" Lá havia óculos que tornariam qualquer coisa que você olhasse em verde, e uma fila de confortáveis poltronas com assentos ejetáveis de emergência.
A cabeça de Harry continuou rodando, rodando como se estivesse tentando desrosquear do pescoço dele. Era como caminhar pela seção de itens mágicos de um manual de Advanced Dungeons & Dragons (ele não jogava, mas gostava de ler os manuais). Harry, desesperado, não queria perder um único item à venda, no caso de que fosse um dos três que você precisava para completar um desejado combo de magias.
Então Harry visualisou algo que o fez, inteiramente sem pensar, desviar de McGonagall e começar a ir direto para a loja, uma fachada de pedras azuis com quinas de broze. Ele foi trazido de volta à realidade apenas quando McGonagall parou bem em frente a ele.
"Sr. Potter?" ela disse.
Harry pestanejou, e então realizou o que tinha feito. "Me desculpe! Eu esqueci por um momento que eu estava com você ao invés de com a minha família." Harry fez um gesto na direção da vitrine, a qual dispunha letras flamejantes que resplandeciam agudas e, ainda, remotas, enunciando Os Brilhantes Livros de Bigbam. "Quando você passa por uma livraria que você não visitou antes, você tem que ir e olhar em volta. É a regra da família."
"Essa é a coisa mais Corvinal que eu já ouvi."
"Quê?"
"Nada. Sr. Potter, o nosso primeiro passo é visitar Gringotts, o banco do mundo bruxo. O cofre da sua família biológica está lá, com a herança que os seus pais biológicos deixaram a você, e você vai precisar de dinheiro para o suprimento escolar." Ela suspirou. "E, eu suponho, uma certa quantia de dinheiro extra para livros pode ser desculpada também. Apesar de você poder querer segurá-la por um tempo. Hogwarts tem um biblioteca bem grande sobre assuntos mágicos. E a torre que, eu supeito fortemente, você habitará, tem uma mais abrangente biblioteca própria. Qualquer livro comprado agora será provavelmente uma duplicata."
Harry assentiu, e eles caminharam.
"Não me entenda mal, é uma grande distração," Harry disse enquanto sua cabeça continuava girando, "provavelmente a melhor distração que alguém já tentou em mim, mas eu não acho que esqueci da nossa discussão pendente."
McGonagall suspirou. "Os seus pais - ou sua mãe de qualquer modo - podem ter sido muito sábios em não contar a você."
"Então você deseja que eu possa continuar em ignorância cega? Há uma certa falha nesse plano, Professora McGonagall."
"Eu suponho teria ainda menos sentido" a bruxa disse firmemente, "se alguém na rua pudesse contar a história a você. Muito bem."
E ela contou a ele sobre Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado, o Lorde das Trevas, Voldemort.
"Voldemort?" Harry sussurrou. Devia ter sido divertido, mas não foi. O nome queimou com uma sensação fria, dura, com claridade de um diamante, um martelo de titânio puro descendo sobre um pedaço flácido de carne. Um arrepio percorreu Harry até ao pronunciar a palavra, e ele resolveu naquela hora e lugar usar termos seguros como Você-Sabe-Quem.
O Lorde das Trevas atacou a Bretanha bruxa como um lobo selvagem, rasgando e dilacerando a vida cotidiana. Outros países tinham levantado suas mãos mas hesitado intervir, seja por apático egoísmo ou simples medo, pois qualquer que fosse o primeiro entre eles a se opor ao Lorde das Trevas, sua paz seria o próximo alvo do terror.
(O efeito bystander, pensou Harry, pensando no experimento de Latane e Darley, o qual tinha mostrado que você era mais propenso a ganhar ajuda se tivesse um ataque epilético na frente de uma pessoa que na frente de três. Difusão da responsabilidade, todo mundo esperando que um outro vá frente.)
Os Comensais da Morte seguiram no rastro do Lorde das Trevas e em sua vanguarda, abutres que abriam mais ainda a ferida, ou cobras picando e enfraquecendo. Os Comensais da Morte não eram tão terríveis quanto o Lorde das Trevas, mas eles eram terríveis, e eles eram muitos. E os Comensais da Morte detinham mais que varinhas; havia riqueza dentro daquelas fileiras mascaradas, e poder político, e segredos mantidos por chantagem, para paralizar uma sociedade tentando se auto-protejer.
Um velho e respeitado jornalista, Yermy Wibble, pediu pelo aumento dos impostos. Ele gritou que era um absurdo para os muitos se encolher de medo pelos poucos. Sua pele, apenas sua pele, foi encontrada pregada à parede do escritório na manhã seguinte, junto com as peles de sua esposa e duas filhas. Todos desejaram que algo fosse feito, e nenhum ousou tomar a iniciativa para propô-lo. Quem quer tivesse se destacado depois se tornava o próximo exemplo.
Até que os nomes de James e Lily Potter subiram ao topo daquela lista.
E aqueles dois poderiam ter morrido com suas varinhas nas mãos e não ter lamentado suas escolhas, pois eles eram heróis; mas para isso eles tiveram um bebê, um filho, Harry Potter.
Lágrimas estavas vindo aos olhos de Harry. Ele as enxugou para longe em raiva ou talvez desespero, eu não conheci essas pessoas, não realmente, eles não são meus pais agora, não teria sentido me sentir tão triste por eles -
Quando Harry acabou de soluçar nas vestes de McGonagall, ele olhou para cima, e sentiu-se um pouquinho melhor em ver lágrima nos olhos de McGonagall também.
"Então o que aconteceu?" Harry disse, sua voz trêmula.
"O Lorde das Trevas veio para Godric's Hollow," disse McGonagall em um sussurro. "Vocês deviam estar encondidos, mas vocês foram traídos. O Lorde das Trevas matou James, e ele matou Lily, e ele veio a você no fim, ao seu berço. Ele lançou a Maldição da Morte em você. E foi onde aquilo acabou. A Maldição da Morte é formada de puro ódio, e atinge diretamente a alma, separando-a do corpo. Não pode ser bloqueado. A única defesa é não estar lá. Mas você sobreviveu. Você é a única pessoa a alguma vez sobreviver. A Maldição da Morte refletiu e ricocheteou no Lorde das Trevas, deixando apenas um contorno queimado do corpo dele e uma cicatriz na sua testa. Aquele foi o fim do terror, e nós estávamos livres. É por isso, Harry Potter, que as pessoas querem ver a cicatriz na sua testa, e é por isso que elas querem apertar a sua mão."
A tempestade de choro tinha usado todas as suas lágrimas; ele não podia chorar de novo, ele estava acabado.
(E em algum lugar no fundo de sua mente estava uma pequena, pequena nota de confusão, um senso de algo errado sobre aquela história; e devia ter sido parte da arte de Harry noticiar aquela minúscula nota, mas ele estava distraído. Pois há uma regra triste de que sempre que você está em maior necessidade da sua arte como racionalista, é quando é mais provável de você esquecê-la.)
Harry se desprendeu do lado de McGonagall. "Eu vou - ter que pensar sobre isso," ele disse, tentando manter sua voz sob controle. Ele encarou seus sapatos. "Hm. Você pode ir em frente e chamar eles meus pais, se você quiser, você não tem que dizer 'pais biológicos' ou qualquer coisa assim. Eu suponho que não haja motivo de eu não poder ter duas mães e dois pais."
Não houve som de McGonagall.
E eles andaram juntos em silêncio, até que vieram à frente de uma grande construção branca com portas de bronze.
"Gringotts," disse McGonagall.
