The Curse of the Dark Mark

O convite era mera formalidade – ele não admitira jamais que talvez não fosse. Havia anos que não se encontravam, mais tempo ainda desde que tinham dito algo um ao outro. Não tinham nada em comum a não ser um passado que preferiam esquecer, ainda que fosse impossível esconder as marcas que ele deixara em todos que estiveram presentes na ocasião.

Draco não gostava de pensar na guerra, não pensava no tempo em que fora meramente uma quase pessoa, uma marionete sem vida sendo movimentada por uma força maior que si mesmo. Não pensava na noite terrível na qual o Castelo de Hogwarts se transformara em um imenso cemitério, nas vidas destruídas naquela noite, há mais de cinco anos atrás.

Não pensava na garota a quem havia sido prometido desde criança, sua única namorada, para sempre marcada por aqueles horrores. Não gostava de lembrar-se de sua saúde debilitada, sacrificada ao tentar voltar para buscá-los em uma lealdade que era a marca de todos os sonserinos. Tentava fingir para ela e para todos que fora outra coisa, uma doença e não uma maldição que causara a situação aonde vivia.

Por três anos ela mal saíra da cama, e por esse mesmo tempo, ele ficara ao seu lado. Nas noites ruins, quando a dor ameaçava dominá-la, ele a enchia com histórias do futuro que no fundo sabiam que jamais teriam. Não havia nada que pudesse salvá-la daquela caminhada lenta e inexorável para a morte. Aquele tipo de maldição era poderoso demais e só podiam tentar adiar o inevitável, diminuir o sofrimento. A morte era paciente.

Draco tinha se feito de cego aos olhares compreensivos e gestos de apoio que Ginny Weasley tentara sinalizar. Parecia quase pecaminoso ver a vida exuberante em seus cabelos rubros enquanto Pansy precisava lutar para respirar. Muitos poderiam duvidar disso, mas Draco também era leal.

Ele silenciava as memórias de beijos clorosos e olhos quentes, preso a evidente e crescente frieza das mãos e dedos da mulher que deveria ser sua esposa.

Tinham até mesmo apressado o que tinham planejado para o futuro. Ao menos uma pequena alegria para ela, ainda que soubessem que não poderia durar. Ele a deixara escolher o vestido branco, usar as velhas joias da família, e a fita azul em seus cabelos negros realçara a palidez em sua pele. Sob o pé que ainda não estava enegrecido pelas garras da morte, colocaram uma moeda de prata. Sendo tempo estava acabando, e sua respiração soava fraca, mas Pansy não morreria sem se tornar Sra. Malfoy, como sempre quisera.

Convidaram pouca gente, em respeito ao cansaço da noiva. Mesmo assim, tinham se tornado notícia na comunidade bruxa, retratados como um pobre casal de pombinhos apaixonados que a guerra destruíra. Eles não sabiam de nada, e Draco ignorava. Antes ele tivesse amado o suficiente para isso, o suficiente para merecer aquele sacrifício. Não era a verdade, e ele sabia, por isso mesmo passou sua noite de núpcias em St. Mungus, repetindo para ela em murmúrios os votos que tinham feito. Era tudo que ele podia dar, e ela aceitaria sem regatear.

Conforme Pansy definhava, ele mal podia se olhar no espelho. Tomava banho com os olhos fechados, mas a marca negra continuava ali, gravada sob seus olhos como uma terrível e eterna tatuagem. Algum dia pensara que valia a pena? Sua família, seus amigos, trocados por uma glória vazia, protegidos por uma palavra sem honra?

Draco Malfoy entendia a dor de Ginny Weasley agora, como ela entendera a sua antes, mas fugia do conforto. Ele não merecia o perdão que os olhos castanhos lhe ofereciam toda vez que o miravam.

Tinha sido irresponsável e egoísta, o sangue de Pansy sempre estaria em suas mãos como se tivesse sido ele a matá-la. Não culparia o assassino, pois fora ele que a levara para aquela armadilha que era o castelo em batalha. Enquanto recebia os cumprimentos dos presentes, sentia-se um hipócrita. Em nome, era o marido, mas na realidade, tinha sido seu carrasco, seu executor.

O rosto de Pansy estava tranquilo, a pele morta e intocada pelos sentimentos em seu peito. Sua primeira namorada, sua amiga mais antiga, sua esposa, sua culpa, deitada naquele caixão por seus atos. Era aquilo que acontecia com os tolos que ousavam acreditar em um garoto fraco e tolo como Draco Malfoy. Aquela era a recompensa de se deixar seduzir pelos ideais e mentiras de Lord Voldemort.

O cortejo fúnebre seguia com toda a pompa e elegância que Pansy teria querido. Ele carregava o caixão junto ao seu pai, seu sogro e seu cunhado, mas o peso era apenas seu. Não ouviu as palavras de despedida do homenzinho que presidia a ocasião. Não aceitaria qualquer absolvição quanto, talvez, se a tivesse amado, caso se importasse mais, se tivesse aceitado seu lugar ao invés de procurar a glória e o orgulho que não tinham lhe pedido, ela ainda estivesse viva. Não havia nada entre o céu e a terra que pudesse desfazer seus atos e suas consequências funestas.

Aos poucos, a terra começou a cobrir o caixão. O barulho repetitivo levou sua mente para longe, de volta para a infância que tinham partilhado, e os sonhos que jamais se tornariam mais que palavras. Não notou quando a pedra foi colocada, ou as palavras que ela mesma escolhera se marcarem marcadas na lápide. Os olhos e lábios se moveram em automático enquanto recebia as condolências, sem dar atenção à ninguém. Sua cabeça estava longe demais, afundada em sua culpa.

Todos caminharam para longe, deixando-o sozinho, crendo que sofria pelo futuro que não teria, acreditando que era a dor do amor perdido que toldava seus olhos. As últimas filhas do outono caiam no chão frio e duro onde Pansy repousaria eternamente. Os arranjos coloridos e vivos trazidos pelos presentes eram uma blasfêmia contra a vida que se perdera por ele, que se perdera com ele. O som do silêncio era a única música que seu coração queria ouvir.

Mas, desde que deixara de ser criança, nunca tivera o que queria, e agora não poderia ser diferente.

"Ela escolheu voltar".

A voz era suave, uma tentação, um oferecimento que ele não podia, não iria aceitar. Não olhou para ela, ainda que pudesse ver os seus cabelos soltos voando em conjunto com seu casaco, no vento gelado que varria os corpos sem vida do local. Sem ver, sabia que em seu rosto veria pena, e não queria a pena de ninguém.

"Ela voltou por mim."

O canto de seus olhos registrou um aceno de cabeça, em concordância, e seu peito involuntariamente se afundou ainda mais.

"Sim, mas foi uma escolha que ela fez. Não tire o mérito das atitudes dela."

"A responsabilidade é minha, se eu não tivesse..."

"Desde que você aceitou aquela missão ficou ainda mais parecido com Harry, dos olhos cansados ao complexo de deus. Não é sua culpa."

Ele dignou-se a olhá-la apenas para demonstrar seu desgosto.

"O que está fazendo aqui, afinal?"

"Eu recebi um convite."

Os olhos espremeram-se em um olhar de desprezo para a ruiva.

"Sim, mas porque veio? Não estava aqui antes, porque veio agora?"

Ela deu os ombros, colocando as mãos nos bolsos.

'"Você precisava de um amigo."

O loiro quase riu, desdenhando.

"E desde quando é minha amiga?"

A garota não respondeu, mas andou mais para perto e, tirando a mão esquerda do bolso, segurou a mão dele contra sua vontade. Seus dedos eram fortes e com calos que marcavam uma boa jogadora de quadribol.

"Não pode desconsiderar as escolhas dela. Está desrespeitando a memória dela quando faz isso. Eu nunca gostei de Pansy, emas ela era forte e obstinada, nunca teria agido diferente. Ela tinha fé em você e era legal. Ela te amava por quem você é, sabia o risco que corria, e foi mesmo assim. Eu tenho certeza que ela nunca se arrependeu do que fez, de fato, eu tenho certeza que ela fez questão de lhe dizer isso todos os dias e que foi você quem escolheu não ouvir como bom cabeça dura que é.

Ele continuou encarando o vazio, sem responder. Maldita fosse, ela o conhecia!

A mão dela era estranha e desconfortável na sua, mas segurava Irma e ele sabia que tentar se soltar seria uma luta vã;

"Você pode passar o resto da vida sofrendo e se martirizando ou pode viver uma vida que a deixaria orgulhosa."

"Não me conhece mesmo, Weasley, ou jamais acharia que sou capaz disso. Eu sou uma desgraça e o mundo inteiro sabe disso."

Ela riu, realmente riu, o único som cheio de vida em toda a extensão vazia onde se encontravam.

"A autocomiseração não cai bem em você, Malfoy" ela respondeu, ainda se divertindo. "Você caiu. Basta se levantar. Basta querer."

Era como se os anos tivessem voltado e os olhos dela mais uma vez trouxeram a ele a sensação de que ela tinha todas as respostas, até para as perguntas que ele sequer ousaria fazer. A raiva comprimiu seu peito e explodiu em uma torrente de palavras amaras, virando-se para ela e soltando sua mão.

"É fácil para você dizer! Todo mundo sempre soube que não era sua culpa! Um pouco de constrangimento e você voltou a ser a bela princesa em uma torre de cristal, esperando pelo Santo Potter Encantado que voltou para te buscar como todos sabiam que ele faria desde que se olharam pela primeira vez! Eu? Eu não tenho uma torre de cristal ou um príncipe encantado, nem mesmo uma fada madrinha, ninguém vai vir me salvar! Eu não tenho nada, nada! Entendeu? Nada!"

A voz dele era amarga e dolorida e, na falta de algo que pudesse socar, Draco chutou uma das guirlandas do túmulo em pura frustração, pois ela não sabia o quão difícil era simplesmente ser ele.

"Ah, meu querido idiota!" ela replicou, a voz mai gentil do que em qualquer uma de suas lembranças. "Você tem o que sempre teve" continuou, dando um passo a frente, um sorriso brincando de se esconder em seus lábios. "Eu."

Parte de seu cérebro registrou enquanto ela ficava na ponta dos pés, tomava seu rosto entre as mãos quentes e tocava seus lábios com os dela, em um carinho suave, um conforto seguro, uma afeição discreta. O resto de sua mente girava enquanto tentava entender o significado por trás daquelas palavras doces e impossíveis.

A boca de Ginny era tão macia e quente quanto em suas memórias. Seus olhos se fecharam, esperando por mais, mas ela afastou-se novamente.

"Você me disse que eu deveria ficar longe de você para o bem de nós dois", ele falou, finalmente, quando sua mente conseguiu tornar a funcionar.

"Eu mudei de ideia" ela disse, sorrindo de leve. "Como eu disse, você precisa de um amigo. Alguém que te entenda. Que te ajude a reconstruir sua vida."

O loiro sacudiu a cabeça, incrédulo. Aquela garota não fazia qualquer sentido e toda a situação era totalmente surreal.

"E o que os outros vão dizer? Seus irmãos, Potter...?"

"Não tenho que prestar contas das minhas amizades" respondeu, cortante, e ele anteviu problemas no caminho. Deve ter ficado evidente em seu rosto, pois ela complementou. "Mas, talvez, fosse melhor não alardear." Concedeu, novamente, a voz calma. "Não é, realmente, problema de mais ninguém."

Os dois se encararam por alguns segundos, quietos, pensando e pesando o significado do pacto que estavam forjando ali. Não deveria ser nada demais, mas cheirava a segredo, traição e cumplicidade.

"É só uma amizade" a ruiva reforçou, firme. "Um... grupo de ajuda."

Draco acenou, concordando. Nunca teria esperado nem mesmo por aquilo, e nem mesmo seus sonhos mais altos iriam além.

"Só por um tempo" ele determinou, sério. "Depois..."

"Vamos viver nossas vidas nos ignorando solenemente " prometeu a ruiva. "Só quero me certificar que você ficará bem."

Draco acenou, sério, e ela sorriu. Sem mais uma palavra, os dois caminharam para longe do túmulo de Pansy, cada um andando para seu lado, mas inevitavelmente ligados por um passado que, na verdade, não poderiam escolher esquecer, mas que não precisava destruir todas as chances de um bom futuro. Com essa certeza em mente, ela primeira vez em anos, ele respirou tranquilo.

Tudo ficaria bem.