Capítulo 3: Trovões, apenas
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Bip. Bip. Bip.
Apenas o ruído do aparelho respiratório cortava o silêncio do quarto de hospital.
Yamanaka Inoshi respirava com certa dificuldade, expirando fundo demais. Seu rosto estava tranqüilo, porém.
As mãos fracas e esqueléticas repousavam molemente ao lado do seu corpo, coberto até o peito com um lençol branco. Não havia movimento algum além daquele que seus pulmões faziam, com a ajuda do aparelho. E o quarto todo cheirava fortemente a hospital, aquele cheiro desagradável.
O vaso de flores sobre a mesa ao lado da cama quebrava o mórbido branco e as margaridas dentro dele já estavam murchando.
Em pequenos momentos, seus olhos se abriam, as pupilas reviradas para cima, em meio a delírios.
Raramente havia alguém ao lado da sua cama.
Bip. Bip. Bip.
As horas se arrastavam, apenas as paredes como companhia. Na maioria das vezes, Inoshi estava sedado demais para que se desse conta da deprimente situação em que se encontrava.
O vento entrou pela pequena fresta da janela que arejava o quarto, uivante, e empurrou o cartão encostado ao vaso para o chão.
A caligrafia caprichada, a caneta esferográfica preta e o simples "Sinto a sua falta, papai."
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Tsunade ergueu os olhos dos papéis que assinava, rapidamente.
Atraída pela repentina movimentação, Sakura deixou a documentação médica que lia de lado, observando a Hokage com as sobrancelhas arqueadas.
"O que há?" Perguntou enquanto pousava a pasta sobre as suas pernas.
"Ino ainda não respondeu." Murmurou Tsunade, mais para si mesma do que para a pupila.
Sakura voltou-se para a janela, sem esconder o desconforto.
"Talvez nem o faça..." dizendo isso, a Hokage simplesmente voltou ao seu trabalho.
Ino, pensou Sakura, será que tudo isso foi minha culpa?
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Ela permitiu-se fechar os olhos, sentada no banco abaixo da árvore.
Não havia ninguém para interromper os seus pensamentos e, de certa forma, sentia-se agradecida por isso.
Os dias na Suna passavam-se lentamente, devagar demais para o seu ritmo brusco e ininterrupto. Não havia missões ou preocupações, pois ali era apenas Ino, a loiríssima convidada da família do Kazekage. E ela pouco se importava com os problemas internos do vilarejo, pois não lhe diziam respeito.
Sentia falta das flores, dos seus canteiros e, principalmente, do sorriso das pessoas que amava e que a amavam também. Era feliz ao lado de Gaara, mas não plenamente.
Gaara era, contrariando toda a lógica, inocente demais. Ele era deficiente em compreender o que era um toque, um beijo. Às vezes, aceitava a sua presença apenas por não apresentar interesse no significado dela. E, pensou Ino, talvez ele realmente não tenha a capacidade de sentir.
Ela ficaria ali, por ele.
Ela romperia a sua fria barreira por completo.
Era o que seu pai dizia sempre. "Ame os seus amigos e a sua família, ame aqueles que precisam de amor. Há muita gente no mundo que precisa de amor." Na época, achara tão patético que simplesmente engolira a risada. Mas será que não havia um quê de verdade por detrás das cortinas? Gaara, podia ver agora, era o tipo de criatura que necessitava desesperadamente de um impulso em sua vida.
Sakura simplesmente não fizera a mesma coisa com Sasuke? Aquela pergunta em sua mente ecoou por muito tempo. Amara-o?
"Ino!"
Despertou dos seus pensamentos lentamente, piscando devagar. Então se virou, dando um pequeno sorriso que mal curvava os seus lábios.
"Oi." Disse apenas.
Gaara observou-a, sem responder ao cumprimento. E estendeu a mão, onde havia um envelope.
Será que são... más notícias?
Mordiscou o lábio inferior, tomando o envelope para si. Seus dedos deliberadamente acariciaram os de Gaara, que manteve a sua apática expressão e continuou parado, à espera de que ela abrisse a correspondência.
Apenas um pouco, talvez ele se importe. Ino observou-o e sorriu, tristemente.
"O amor tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta." (I Cor 13:7)
HarunoSakura e Uchiha Sasuke
Convidam para a cerimônia de seu casamento
YamanakaIno
A realizar-se dia vinte e três de novembro, no vilarejo da folha, Konoha."
A cor fugiu do seu rosto de uma maneira que Ino sentiu uma vertigem acometer-lhe.
A raiva foi apossando-se aos poucos, fazendo-a perceber que estava tendo uma daquelas suas recaídas estúpidas e sem sentido.
Rasgou o convite.
Não! Sakura a havia traído, para sempre.
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A tempestade armou-se subitamente, tão rapidamente que, antes do que era de se esperar, os pingos de chuva começaram a cair sobre a terra, velozes. Rápidos o suficiente para que, com a sua força, chegassem a ficar levemente cortantes.
Um vento frio movia as árvores, as folhas voando por entre a chuva por todo o lado. Um galho batia contra a janela do seu quarto, mas o barulho causado era quase inaudível diante dos trovões.
Seria uma noite gelada e escura e todos apenas procuravam se aconchegarem embaixo dos cobertores, protegidos em suas casas, sem se incomodar com o mundo que desabava lá fora. Mesmo antes de se inquietar com o que acontecia fora das portas de mogno do quarto em que se encontrava, Ino devia era se preocupar com o seu universo interior, que estava ruindo.
Ela simplesmente não podia aceitar a sua perda.
Por que logo Sakura?
Enfiou os dedos entre os fios de cabelos loiros, dando um leve puxão. Sentia-se aborrecida. Jamais imaginara que as coisas chegariam àquele ponto. Sakura quebrara a promessa.
"De hoje em diante, vamos ambas esquecer Sasuke para sempre e cuidar das nossas vidas amorosas e profissionais como as mulheres maduras que somos." Elas haviam repetido juntas, apertando as mãos. E, antes que deixasse Konoha, Ino descobriu que fora apenas enganada.
Ainda amo Sasuke?
A madrugada era irrompida por clarões.
Ino encolheu-se embaixo das suas cobertas.
Fechou os olhos, respirando fundo. Ela também precisava de amor. Seu coração estava despedaçado de uma maneira totalmente assimétrica. Não entendia o que estava acontecendo. Afinal, o que existia era apenas a raiva pela perda da batalha?
Lembrou-se das mãos de Gaara em seus cabelos.
"Preciso de você." Sussurrou para as paredes.
Sasuke e Sakura começariam uma irritante e perfeita vida, do tipo de contos-de-fada. Mas o que restaria para ela? Crer que também alcançaria esse futuro? Realmente almejava o que aparentemente estaria a sua espera? Tudo era tão deprimente.
Diabos, apertou os olhos. Não quero pensar nisso. Gaara...
Jogou as cobertas para o lado, deixando que os seus pés entrassem em súbito contato com o chão de mármore.
Ino caminhou até a porta, abrindo-a com um rangido langoroso. E, antes que fosse acometida pela preocupação de ter chamado a atenção de alguém – pois aquela era a casa mais silenciosa de toda a Suna -, um trovão estalou logo sobre a sua cabeça, lá fora, e rugiu como uma fera por segundos seguidos.
Gostava daquele barulho. Era como uma música.
Seus pés estavam gelados ao caminhar por sobre o mármore. E ela deslizou silenciosamente pelo corredor escuro.
A penúltima porta abriu-se sem qualquer barulho, revelando o quarto comum, os móveis feitos de mogno, sem qualquer tipo de adorno ou enfeite em lado algum.
A cama, no centro do quarto, estava ocupada, ao que ela logo percebeu.
Se Ino não soubesse que aquele quarto tinha dono, diria que era apenas foto de um mostruário à venda, pois era tão impessoal que chegava a lhe causar arrepios na espinhas. Mas havia a presença aconchegante.
Parou ao lado da cama.
Gaara dormia um sono solto, de maneira que jamais pensara ver. Não havia frieza ou apatia em sua face, existia apenas a irreal tranqüilidade, que não era natural daquela personalidade impassível.
Ino observou-o até ecoar um novo trovão.
Sorriu.
Nunca imaginara que ele dormisse, mesmo após ter tido o espírito da Shukaku retirado do seu corpo.
Ergueu cuidadosamente a coberta, sentando-se sobre a cama. Colocou uma perna e depois a outra, afundando o colchão, e deitou-se. Pela primeira vez, Ino sentiu um cheiro levemente masculino invadir-lhe as narinas. Era um perfume quase imperceptível, cheirando, ela pôde perceber, a um bebê.
Gaara sempre lhe parecera inodoro.
"Por que você parece mais humano a cada momento em que passo ao seu lado?" Sussurrou para ele, deixando o seu corpo mover-se suavemente na direção do corpo masculiino, pousando a cabeça sobre o seu ombro.
Gaara se mexeu e abriu os olhos, subitamente.
"Ino?" Perguntou, rouco.
"Deixe-me ficar." Pediu ela, manhosa. "Vou permanecer quietinha."
Não veio resposta, apenas o som suave da respiração de um Gaara adormecido.
Um trovão cortou o céu e Ino dormiu.
N/A: Povo, desculpa pela demora, viu? É que tem andado tudo meio corrido por aqui, mas aproveitei esse feriado pra escrever o capítulo sem pressa. Espero que tenha ficado bommm. Ou pelo menos o suficiente pra receber um review de "vai lá, tu pode fazer melhor". (risos)
Obrigada pelos reviews. Sobre a fiiiiiic: Um pouquinho dos pensamentos da Ino e um pouquinho mais do lado "humano" do Gaara, pra quebrar um pouco a mórbida apatia da personalidade e pensamentos dele. Tô apresentando um lado mai humano que nem ele toma consciência, uahsuhuhas. E fala sério, né? Ele deve cheirar tão bemmmmm! Nhá.
Continuem acompanhando, tá? Beijos.
