Título: Pecadores
Autora: Aislyn Rockbell Matsumoto
Fandom: The Gazette
Gênero: Romance, yaoi, drama, anjos, demônios
Avisos: Estupro, homossexualismo, violência
Classificação: +18
CAPÍTULO II – MORRER TODAS AS NOITES
O sol já havia se posto há várias horas. Apenas as luzes acesas denunciavam que alguém estava acordado naquela casa. Logo chegaria a meia-noite e nenhum ruído podia ser ouvido nas ruas.
Um chuveiro foi desligado. Saindo de dentro do box, juntamente com o vapor, um corpo escultural, magro e alto. Buscou a toalha pendurada no suporte e enrolou-a na cintura.
Precisava relaxar. Os acontecimentos do dia foram desgastantes, afetando seu emocional. O banho ajudara a esquecer um pouco do que passara, mas não fora suficiente para apagar as amargas memórias.
Saiu do pequeno cômodo, procurando o amado pela sala, encontrando-a vazia. Sons vindos da cozinha denunciaram a localização do moreno.
_ Terminei... Yuu. – parou testando a sonoridade do nome – É estranho te chamar assim.
_ Já estou terminando de preparar o jantar. – respondeu dando as costas para o fogão – O que pensa que estava fazendo aqui tomando friagem? – ralhou com o loiro.
_ O... que? – estranhou sua atitude – Aoi, eu não fico doente. – riu baixinho.
_ Como tem certeza disso? – cruzou os braços em frente ao corpo – Nós não somos humanos agora? Estamos suscetíveis a doenças também!
_ Minhas costas já cicatrizaram. As suas também já devem estar melhores. Ou seja, nos curamos mais rápido.
_ Verdade... Mas, se tiraram nossos poderes, porque manter a cura?
_ Pra vivermos mais. – suspirou frustrado.
Quanto mais vivessem, mais tempo duraria a punição.
_ O que vai acontecer com a gente daqui a pouco? – o loiro arrastou a cadeira e sentou-se à frente do moreno.
_ Morrer? – sorriu debochado.
_ Jura? – estava passando tempo demais com o moreno, até a mania sarcástica fora adquirida – Eu sei que vamos. Estou querendo saber como isso irá acontecer. – passou as mãos nervosamente pelo cabelo – Tenho medo de...
_ Nossas almas serão levadas. Agora, para onde eu não sei. – sentou-se do outro lado da mesa.
_ Algum lugar como Exilius* ou o Deserto das Almas* – arrepiou-se ao pronunciar os nomes.
_ Bem provável. – esticou os dedos por cima da mesa, acariciando de leve a mão do outro – Vamos comer e esperar pra ver.
_ Certo, vou me vestir. – levantou-se, mas parou ao chegar no batente da porta – Aoi... desde quando você sabe cozinhar? – deixou que um pequeno sorriso brincasse em seus lábios – Acho que tenho mais medo de você cozinhando do que...
Cortou a fala e saiu correndo da cozinha, pois o moreno jogara a colher em sua direção.
_ Loiro sacana! – voltou os pensamentos para Uruha, enquanto terminava de postar os pratos e talheres.
Como ele, um dos piores demônios, fora se apaixonar por aquele ser puro?
Tão belo e perfeito. Profundamente desejável. Praticamente impossível não se apaixonar. Sua pele macia, os lábios bem desenhados, os olhos de cor chocolate. Tudo nele era encantador.
Desligou o fogo, esperando que a comida realmente estivesse boa e caminhou para o quarto em busca do loirinho. Iriam fazer a refeição juntos e depois esperar o que quer que fosse acontecer.
_ AHHHHH! – um grito agoniado saiu dos lábios do loiro, que se contorcia de dor, caindo prostrado no chão frio.
_ URU- ARGHH! – sua vista escureceu e seu corpo pesou. Sentiu como se arrancassem algo de si, quase tão sofrível quanto ter as asas arrancadas.
Dois corpos jaziam inertes, desacordados, imóveis, quase... mortos.
* * *
Outros dois seres permaneciam sentados sobre um telhado vizinho, observando os anjos perderem as almas dentro da casa.
_ Isso é mesmo necessário?
_ Receio que sim. – suspirou pesadamente – Não quero perder mais anjos e duvido que você queira.
_ Claro que não. Haveria um grande desequilíbrio de forças. Não seria bom pra nenhum dos lados.
_ Exatamente. Além do mais, precisamos ter certeza que isso é verdadeiro.
_ Se eles soubessem que estamos fazendo um teste...
_ Nem quero imaginar! – sorriu baixinho.
_ Você acha que não é verdadeiro? – perguntou baixinho, temendo a resposta.
_ Quero acreditar que seja. Caso contrário, realmente irão sofrer.
_ Isso não é bom...
* * *
Já estivera ali antes, há muitos anos atrás. Lembrava-se perfeitamente do lugar. Foi ali que...
Não era uma boa lembrança. Talvez, a única parte boa fora ver o demônio. Ainda não estavam apaixonados, mas a partir daquele momento começara a nutrir carinho pelo moreno.
Ouviu passos correndo ao longe, entrando no beco abaixo de si, apoiando-se nas paredes, tentando fugiu.
_ Não... por favor... não quero passar por isso novamente! – ajoelhou-se, tentando fechar os olhos, mas não conseguia se mover, seria obrigado a ver todo o sofrimento que lhe causaram de novo.
Mas, assim como sua alma fora levada até o alto do prédio, ela fora levada para dentro daquela memória, ele não iria apenas assistir, iria reviver cada segundo, cada momento, cada dor.
Sua perna sangrava muito, o ferimento estava muito dolorido, precisava limpar antes que ficasse uma cicatriz. Mas não havia tempo, precisava se esconder, antes que o encontrassem novamente e o ferissem mais.
Caminhou pelo beco úmido e fétido, mancando e escorando nas paredes para não cair. Sua visão, já prejudicada pela escuridão, turvava-se mais, a dor corria por todo seu corpo, sua respiração estava descompassada.
Sons de passos, leves e macios, surgiram atrás de si. Fora encontrado. O rosnar dos cães preencheu o ambiente. Um arrepio percorreu sua coluna, levando-o a estancar no lugar. Estava perdido. Só um milagre o salvaria.
Respirou fundo, fechando os olhos, apertou as unhas nas palmas das mãos, uma pequena lágrima correu por sua face.
Reabriu os olhos e num ímpeto, pôs-se a correr. Se morresse, seria lutando por sua vida, até que não pudesse mais fazer nada. Desajeitadamente, conseguiu dar alguns passos, perdendo o equilíbrio e usando as paredes como apoio, as mãos já estavam esfoladas, mas não pararia. Não agora.
Sentiu algo bater em suas costas, indo direto para o chão, um peso prendendo-o contra o chão frio e molhado. Uma respiração bateu em sua nuca, fazendo seus pêlos arrepiarem-se mais. Arrepiarem de medo.
_ NÃOOOOOO!!! – gritou agoniado, lágrimas correndo por sua face, manchando seu rosto.
Com uma puxada extremamente forte, o cão agarrou uma de suas asas com a boca, tentando arrancá-la. Soluços escapavam de seus lábios bem desenhados, espasmos faziam seu corpo tremer, como se sentisse frio.
_ Por favor... parem... – suas forças esvaiam-se – Alguém... – sua visão nublou-se e deixou sua cabeça bater no chão.
Não havia mais esperanças.
Os dentes afiados e envenenados rasgaram algumas de suas penas. Sua perna latejava sem cessar. Sentiu outra mordida, dessa vez em seu ombro, enquanto sua asa continuava a ser puxado sem piedade.
Minutos se passaram, mas a dor fazia parecer uma eternidade.
Um grito esganiçado cortou o ar, quando o peso acima de si foi retirado. Não teve forças para virar a cabeça e ver quem o ajudava. Contudo, não foi necessário. Seu corpo foi virado pra cima, sentiu uma fisgada no ombro quando o mesmo tocou o chão, mas estava sendo salvo, nada mais importava.
_ Tudo bem, anjo? – perguntou debochadamente o demônio.
_ Agora estou melhor. – esticou os dedos e tocou sua face, um pouco áspera, mas mesmo assim bela – Obrigado... anjo negro...
_ Venha, vamos cuidar dessas mordidas. – pegou-o no colo, logo tendo seu pescoço enlaçado, sentiu a cabeça do loiro pousar em seu ombro e algo molhar sua roupa. Lágrimas.
Caminhou calmamente para o fim do beco, mas parou ao ouvir rosnados furiosos. Sabia de onde e de quem vinham.
Virou a cabeça para encontrar o cão que jogara contra a parede levantar, agora acompanhado de mais dois dos seus. Filhotes de Cérberus, o cão infernal de três cabeças. Suas crias porém, possuíam apenas duas, que pareciam estar em constante desavença. Uma rosnava raivosamente, expondo os dentes afiados e envenenados, seus olhos vermelhos injetados de raiva. A outra cabeça, balançava loucamente em várias direções, vez ou outra acertando a cabeça adjacente, sua boca espumava e sua língua de um vermelho vivo ficava estirada para fora, a saliva que caia no chão parecia ácida, pois um pequeno buraco surgiu abaixo das cabeças.
_ Melhor sumirem daqui! – sua voz soou baixa e grave, contudo, foi suficiente para causar medo nas bestas, pois elas se afastaram, nunca lhe dando as costas – Agora podemos ir. – apertou mais o corpo contra si e voltou a andar.
* * *
Depositou-o na cama com cuidado para não acordá-lo. Ouvi-lo chorar até adormecer lhe causara uma sensação tão... estranha, não sabia definir ou que nome dar aquilo. Só sabia que não queria passar por isso novamente.
Pegou uma toalha e uma bacia com água, colocou na cama ao lado da cabeça do loiro e com o máximo de cuidado que conseguiu, foi limpando o ferimento do ombro e da perna, fez um curativo também, mesmo sabendo que o machucado fecharia rapidamente, agora que estava livre dos vestígios de veneno.
Virou-o de lado na cama, esticando suas asas para fora da mesma e começou a limpá-las também. Com as asas deveria ser mais cuidadoso, pois poderiam ficar permanentemente machucadas. Se elas não se curassem, não poderia mais voar. E aquilo para um anjo, era tão ruim quanto tê-las arrancadas.
Assim que terminava o curativo, sentiu o anjo mover-se minimamente, dando sinais que logo despertaria. Terminou de cuidar da asa e sentou-se ao seu lado, passando as mãos pelos cabelos do loiro, sentindo sua maciez, o cheiro invadindo seu olfato. Desceu a mão para sua face, sua pele era suave, delicada, seus traços eram harmoniosos, os lábios bem desenhados. Teve vontade de beijá-lo para sentir sua textura.
Viu o anjo abrir os olhos minimamente e fechá-los de novo devido à claridade. Dormira a noite toda, tendo seu sono velado pelo demônio. Mais uma vez tentou olhar ao seu redor, conseguindo focar a parede à sua frente, sentiu que estava deitado em uma cama, não muito macia, mas confortável para seu corpo cansado.
Virou o rosto, dando de cara com o demônio ao seu lado, a mão sobre seus cabelos, ostentando um olhar quase... carinhoso.
Tentou virar-se, para ficar de frente para ele, mas viu que suas asas estavam para fora da cama e mexê-las causaria dor. Lembranças da noite passada invadiram sua mente. Seus olhos lacrimejaram e seu coração apertou.
_ Calma, está tudo bem agora. – ouviu a voz, outrora rouca e sibilada, sair em um tom gentil e acalentador – Eu vou cuidar de você.
Não sabia por que havia dito aquilo, mas estava com uma vontade enorme de cuidar daquela criatura. Ele parecia tão indefeso, tão desprotegido.
E, embora fosse um monstro, o anjo soube que poderia confiar sua vida a ele. Seus olhos demonstravam o que se passava em seu coração. A surpresa maior não foi saber que ele ainda possuía um coração, e sim, que ele poderia sentir algo como carinho e proteção.
_ Onde estamos? – tentou olhar ao redor, reconhecendo apenas que estava em um quarto muito simples.
_ Er... – desviou o olhar para a paisagem fora da janela e coçando a nuca respondeu – Estamos num hotel.
_ Como conseguiu entrar comigo aqui? – ergueu uma sobrancelha, desconfiado – Não perguntaram nada? Eu não consigo me ocultar dos humanos quando estou ferido.
_ Bom... – abaixou a cabeça, procurando uma maneira mais amena de contar que havia invadido o local – Eu... entrei pela... janela... tranquei a porta por dentro com uma cadeira, então... eles não sabem que o quarto está ocupado. Pelo menos não até tentarem abrir por fora...
Pensou que seria repreendido, mas foi recebido por uma risada do loiro. Olhou-o, perguntando mudamente qual a graça da situação, ao que foi prontamente entendido.
_ Vindo de você não me surpreende. O engraçado é ver um demônio com vergonha de confessar que arrombou um quarto, quando deveria se preocupar em não ser caçado por salvar um anjo.
_ Isso é o de menos. – deu de ombros, como se realmente não fosse importante.
O moreno ia falar mais alguma coisa, mas sua visão ficou turva, o quarto saiu de foco e a inconsciência tomou conta de si mais uma vez.
* * *
* Lugares nada felizes que eu criei para torturar os guitarristas.
Sinopse: "Vocês estão condenados a nascer e morrer todos os dias. Nunca mais poderão ficar juntos. Sempre que tentarem burlar essa regra, irão sofrer antes de morrerem dolorosamente. Dia após dia".
