DEATH ANGELS
Capítulo III – Preliminares
A porta do trem se fecha rapidamente, quase não dando tempo para que os dois garotos entrem. Omi gosta do metrô, apesar de sentir muita falta da sua querida moto. Aprecia esse contato com as pessoas, sempre tão apressadas, sentindo-se mais 'normal' apenas por estar na mesma situação que elas. Olha para o lado e sorri pelo disfarce de Shuichi, que praticamente enterrara o boné na cabeça.
- Já estou na fase em que preciso de disfarce... – Ele enterra ainda mais o chapéu. – Da última vez quase voltei pelado pra casa.
Omi ri, mas percebe que o amigo está mais do que desanimado. Há uma profunda tristeza nele, que o jovem Weiss compreende muito bem. A forma como Yuki simplesmente o havia assediado na frente do namorado, num ataque direto a Shuichi... Por mais que o garoto tente encontrar justificativas, afinal está apaixonado, o arqueiro só vê um profundo egoísmo. Mas procura disfarçar, tentando de todas as formas distrair a cabecinha de cabelos rosa.
- Por que estamos indo de metrô? – Omi fala baixo, se aproximando dele. – Dá pra ir a pé do apartamento até a gravadora!
Os dois se voltam ligeiramente ao notarem um homem que pára atrás deles. Não que tenha algo de diferente, estando vestido de terno e gravata como a maioria dos homens no trem, mas se coloca incomodamente próximo demais. O vagão está um pouco cheio, então acabam deixando de lado qualquer suspeita quanto a sua atitude.
- Primeiro vamos à Maison Natashou, no centro. – Olha para o loirinho tentando forçar um sorriso. – Temos a festa de apresentação e você precisa de uma roupa legal. O Kaoru é o melhor stylist do Japão, vai encontrar algo apropriado para criar sua imagem. No mundo musical tudo é questão de estilo.
- Tenho até medo disso. – O jovem arqueiro olha para trás ao sentir que o estranho homem está ainda mais perto, deixando-o incomodado.
- Ele é o melhor... E entrega a roupa pronta em algumas horas. – Shuichi percebe também a aproximação do sujeito, tremendo com a lembrança que isto produz nele. – Só tem que tomar cuidado com a mão boba dele quando tira as medidas.
Os dois riem sonoramente, se divertindo com a imagem do homem com a fita métrica em uma das mãos e a outra no bumbum de um cliente. Mas logo as risadas cessam, pois Omi sente muito mais do que proximidade do homem atrás dele. Logo percebe algo duro encostando em seu corpo, as vezes passando para Shuichi, conforme o movimento do trem. O loiro tenta se segurar, pois aquilo o incomoda profundamente. Um homem tão bem vestido, mas... Tenta empurrá-lo discretamente, não querendo causar alarde, mas quanto mais o afasta, mais o homem se aproxima.
Shuichi está apavorado, abaixando a cabeça, procurando se concentrar em outras coisas a fim de esquecer que isto está acontecendo. Todas as experiências negativas dos últimos tempos teimam em aparecer em sua mente, mesmo que tente se forçar a pensar no show que vão fazer em dois dias.
O arqueiro sente o hálito quente do homem em sua nuca, tal a proximidade deste, mordendo os lábios para conter a raiva que torna sua respiração difícil. Ele então paralisa. Sente algo molhar sua calça por trás, mas não pode acreditar que seja o que está pensando. Olha para Shu que também não pode crer que o homem esteja fazendo aquilo que testemunha. Isso é demais! Apesar de tímido e preferir ser discreto, Omi incorpora o assassino, se voltando depressa e pegando no pescoço do homem, ainda com o pênis para fora do zíper aberto. Apesar de ligeiramente menor, o garoto o joga no chão com um único golpe, forçando as pessoas a se afastarem depressa, segurando-o firme, acertando um soco em seu rosto e quebrando seu nariz, o sangue se espalhando por toda a sua roupa. Ele se prepara para mais um soco, mas então percebe o que está fazendo. Nunca deixara que seu trabalho interferisse dessa maneira no seu jeito de ser. Todas as pessoas em volta o olham assustadas, comentários reprovadores ecoam pelo trem. Omi jamais faria uma coisa dessas, mesmo nesta situação, pois quem está batendo no sujeito é o Bombay. Solta-o, muito perturbado, ainda mais quando este começa a chorar.
- Omi! – Shu toca seu ombro enquanto ainda está ajoelhado ao lado do homem.
O cantor ainda está chocado com o que viu. Há algo de perigoso na forma como seu novo amigo derrubou o sujeito, ainda mais no olhar que o fazia parecer outra pessoa. Fica assustado com isto vindo do doce e amável Omi. Não que não tivesse razão suficiente para fazer isso, mas... Essa atitude não combina com ele.
- Desculpa, Shu. – Omi se levanta cabisbaixo, evitando os olhares de todos. Sente-se envergonhado e triste com esse deslize.
O jovem de cabelos cor de rosa estreita os olhos violeta e puxa Omi rapidamente para fora do trem quando param na estação. Ainda está assustado, mas sabe que isto pode trazer a polícia e não deseja ver o amigo envolvido em confusão. Os dois caminham depressa até um ponto debaixo das escadas e param para que o loiro possa se acalmar.
- Que foi aquilo? – Os olhos violeta tentam descobrir a resposta dentro dos profundos olhos azuis.
- Não consegui me conter... – Lágrimas surgem naqueles olhos assustados consigo mesmo, ao ver como a situação levou o Bombay a substituir o Omi.
Shuichi o abraça. O outro garoto treme em seus braços enquanto chora, parecendo tão frágil... Contrastando completamente com aquele agressor que se defendeu de forma tão violenta. Novamente vê o Omi de quem aprendeu a gostar desde o primeiro momento, como se ambos tivessem uma ligação especial.
- Não fica assim. – Afasta-o e encara o rosto lavado pelas lágrimas. – O chorão sou eu, não você. Choro pelo menos umas seis vezes por dia.
Omi ri entre lágrimas, sentindo-se um pouco melhor. A expressão do rosto de Shuichi é divertida, mesmo sabendo que ele está muito chateado. Percebe seu esforço em fazer com que se sinta melhor. Entende então o que Mr. K sente por ele. O vocalista do Bad Luck pode ser insano às vezes, como muitos lhe disseram, mas é um grande cara. Precisa protegê-lo a qualquer custo.
- Lágrimas não combinam com você. – Limpa o rosto do amigo ainda molhado e, em seguida, pega sua mão. – Vamos... Monsieur Natashou não gosta de esperar.
ooOoo
Já faz mais de uma hora que Aya e os outros chegaram ao estúdio para acertar os últimos detalhes para o show. O ruivo se mostra inquieto com a ausência de Omi, mais do que o normal. Não que seja somente por causa do ciúme, é que essa situação não lhe agrada. Praticamente o garoto está sozinho com o alvo de um maluco, possivelmente homicida, andando pela cidade sem qualquer reforço. E ele e os rapazes presos neste estúdio, fingindo, impossibilitados de investigar enquanto são o centro das atenções. Não gostava desse plano antes e continua não gostando, lançando olhares furiosos de esguelha na direção do loiro Mr. K e seu rabo-de-cavalo.
- Folks, assim que os garotos chegarem podemos fechar os últimos detalhes do show. – K encosta a 45 no rosto, como se esse contato com o metal frio lhe trouxesse certo prazer. – Quero que tudo seja perfeito.
- Não acha que ELES deviam ensaiar um pouco mais a música que vão cantar? – Diz Fujisaki, o tecladista, fazendo um movimento de cabeça na direção dos Weiss. – Não os vejo tocando nunca.
- Pra sua informação, pequenino... – Yohji se levanta da poltrona em que estava até o momento, ajeita os óculos, anda até ele, fazendo-o recuar e se encostar na parede. O rosto do loiro se aproxima tanto que o garoto engole em seco. – Somos muito bons. Você vai ter que se preocupar com sua parte do show depois que esquentarmos o público.
O sorriso de satisfação do playboy ao ver a expressão do tecladista é imensamente delicioso. Ken o observa enquanto volta à poltrona e se joga sobre ela, com a mesma expressão de enfado de antes. Tem de segurar o riso quando se volta para o garoto e percebe que continua ainda uns minutos colado à parede. Não há ninguém como Yohji para desmontar sujeitos arrogantes como esse. Aya pode ser o homem perigoso do grupo, mas o loiro 'sem noção' é o senhor da ironia e do sarcasmo. Certo que muitas vezes exagera, mas isso o faz ser o homem que o atrai tanto.
- Senta e fica quietinho Fujisaki. – Hiro dedilha sua guitarra, falando sem nem sequer olhar para o garoto, somente observando de relance quando este senta no chão totalmente sem ação.
A porta se abre devagar e os dois vocalistas entram. Omi volta atrás antes de entrar no estúdio e anda rapidamente para o banheiro no corredor, sem falar com ninguém, enquanto Shuichi senta ao lado de Yohji, sem dizer uma única palavra. Os olhos de todos recaem sobre ele, pois é o retrato do puro desânimo, fazendo seus companheiros de banda concluírem que mais uma vez Yuki abalou sua autoconfiança.
Uma única pessoa anda até a porta e fica parado ali, olhando insistentemente para a porta do banheiro. Os olhos violeta se estreitam tentando pensar na razão que fez o chibi entrar e fugir daquela maneira. Ele não parecia estar se sentindo mal, mas sim completamente corado, como fica sempre que faz algo errado. Isso o faz se voltar para Shuichi, percebendo como parece uma pessoa diferente daquele garoto entusiasmado que conheceram no dia anterior.
"Algo aconteceu!" – Seus belos olhos se estreitam mais ainda ao voltar a olhar para a porta. – "E eu vou descobrir o que."
Omi entra no banheiro depressa. Sabe muito bem que o sujeito do metrô mereceu, mas por que isso o incomoda tanto? Perder o controle não é algo que se permita. Já se limpou no atelier Natashou, mas não foi suficiente. Quando se aproximava da gravadora pensou em como contar isso para o Aya. Não conseguiria esconder, pois ainda está nervoso, corado e envergonhado. Como contar ao sempre tão controlado ruivo que perdera a cabeça e quebrara o nariz de um homem em público? Certo que o espadachim teria cortado o 'júnior' do sujeito na primeira oportunidade ou pelo menos teria deixado claro que o faria, fazendo o homem tremer de medo. Mas... O garoto não é assim, precisa, necessita desse controle para se manter de pé em meio a tanta morte.
Olha-se no espelho, as bochechas ainda vermelhas, que haviam piorado depois da primeira bolinada de monsieur Natashou. Abre a torneira, enche a mão de água e molha o rosto, seu cabelo pingando na parte da frente. Da mesma forma umedece a nuca, tentando afastar a dor de cabeça que já começa. E ainda tem aquilo que aconteceu no apartamento de Yuki.
- Que droga! – Olha para o espelho dialogando consigo mesmo, imaginando a expressão de Aya ao contar tudo. – Ele vai ficar possesso.
Acredita que Aya não deve ser ciumento, pelo menos nunca demonstrou isso, mas nem imagina que reação tanta informação negativa pode provocar. Já o viu ser cruel com pessoas que tocaram diferente nele, mas isso em missões. Aquele último alvo que o pegou de refém e ficou lambendo seu rosto para provocar o ruivo... Esse foi o pior.
"Coitado!" – A lembrança embrulha seu estômago. – "Deve ter doído ficar sem língua antes de morrer."
Não precisa que o líder dos Weiss fique ainda mais insatisfeito com essa missão do que já está. Conhece-o e sabe o quanto isso o tem deixado nervoso. Além dessa separação... Desde que decidiram ficar juntos, não havia uma noite em que Aya não demonstrasse o vulcão que esconde sob aquela frieza. Mãos, boca, corpo, tudo do ruivo conspirando para roubar-lhe a sanidade. E agora...
Uma batida na porta o faz despertar dessas lembranças, que pelo menos diminuíram o seu nervosismo. Abre e se depara com Aya parado a sua frente, expressão preocupada, mas inquisidora. Omi conhece esse seu olhar...
- Você está bem? – Ele diz gentilmente, mas há um subtexto em sua fala, seus olhos dizendo muito mais.
- Ahn?! Humm... Tudo bem! – Fica buscando na mente uma desculpa rápida, mas bem nessa hora ela não o ajuda. – Tudo.
- Aconteceu alguma coisa? – Ele segue um Omi que parece evitar encará-lo enquanto caminham de volta para o estúdio. Mas sua voz é discreta, mantendo uma expressão calma. – Você chegou estranho... Corado demais. E correu pro banheiro assim... Sem sequer falar comigo.
- Eu... Vim... Precisando ir ao banheiro! – O chibi evita os olhos violeta, pois ele vai saber que está mentindo, apesar de perceber que escolheu a desculpa mais idiota... Afinal... Não usou a descarga. – Sujei minhas mãos no caminho, precisava lavar.
- Aconteceu algo na casa daquele ESCRITOR, não é? – Ele diz isso ficando diante do pequeno, impedindo que continue a andar, com uma voz quase em um sussurro.
- NÃO! – Só então percebe que todos no corredor olham na direção deles e não deveria ter reagido dessa forma. – Foi outra coisa...
- O quê? – O olhar de Aya deixa bem claro que mentiras só vão irritá-lo ainda mais.
- No trem... Um sujeito... – Omi não consegue dizer, ficando corado novamente. – Perdi minha calma e bati nele.
- ...! – Os olhos violeta se fixam em seu rosto, tentando analisar cada gesto nervoso, qualquer coisa que denunciasse a verdade. Afinal, o ruivo não acredita em mais essa desculpa, pois Omi jamais bateria em alguém dessa forma. Mas fica claro que algo aconteceu e o garoto não vai contar, então precisa apelar para outros métodos.
O ruivo lhe dá as costas, seguindo pelo corredor na direção da lanchonete, deixando para trás o pequeno atônito com a atitude desconfiada. Omi fica alguns minutos ainda ali. Teria sido muito mais fácil contar toda a verdade, com os detalhes mórbidos que ainda o deixam corado, mas teria que admitir que perdeu o controle, deixando a violência da sua vida dominá-lo. Isso ele não pode fazer... É a única coisa que o afasta da barbárie de sua criação.
Abaixa a cabeça, ainda vendo-o caminhar pelo corredor, e anda de volta para o estúdio. Shuichi está ainda lá, sentado no sofá, enquanto Mr. K mostra aos demais uma maquete do palco e detalhes de iluminação que criou para tornar o espetáculo ainda mais memorável. Omi senta ao lado do amigo e passa o braço pelos seus ombros, trazendo-o mais para perto de si.
- Não fica assim. – Procura as palavras certas, pois sabe que Shu está no limiar do choro. – Ele fez isso só pra te provocar. Você mesmo disse que acontece com freqüência.
- ... – A resposta é o silêncio e uma fungada, demonstrando o grande esforço que o garoto tem que fazer para se manter.
Shuichi tentara encarar a coisa dessa forma, mas quando se sentou no atelier começou a pensar no real significado daquela atitude de Yuki e em como cada agressão dele o diminui, o faz sentir-se mal consigo mesmo. Não pode negar que muitas vezes se pergunta se deveria estar ainda com ele, mas ao primeiro gesto de carinho do loiro, por menor que seja, sua resolução se derrete e volta a lutar por aquele que ama. Pior que até entende ele... Mais ou menos... Mas não quer dizer que é fácil aceitar. E envolver Omi nessa COISA deles...
- Omi, quer ver o palco? – Mr. K se volta para os dois.
O arqueiro se levanta, tremendo com a idéia de que aquilo efetivamente vai se realizar. Eles vão ter que se apresentar em público, diante de tanta gente, cantando... Seu estômago faz revoluções, já imaginando as pessoas paradas olhando para ele ou... Pior... Ser vaiado. Tem vontade de vomitar. Mesmo que resolvessem o caso agora, a apresentação no show seria inevitável. Prefere mil missões... Levar tiros, facadas, pancadas, centenas de ameaças de morte... Tudo isso é brincadeira de criança diante de cantar para duas mil pessoas.
"Não posso mais segurar!" – Ele pensa já correndo novamente para o banheiro.
- Acho que ele está um pouco nervoso com o show. – Ken sabe muito bem o que o garoto está sentindo e nem precisa tocar de verdade.
- Na hora isso passa. – O americano ri, não parecendo se preocupar muito, pois já viu isso milhares de vezes. Até o maior dos astros já passou mal em sua primeira apresentação.
Aya entra devagar, ainda bastante exasperado, mas com uma expressão diferente. Sua mente pensou em uma forma de conseguir a informação que deseja e está preparado para colocá-la em prática. Se Omi se fechou na resolução de não contar o que aconteceu, vai investir no 'elo fraco' e fica uns minutos observando-o. Shuichi parece claramente à beira de uma crise nervosa e isso pode facilitar ainda mais o seu trabalho.
Percebe que o seu garoto está ausente, o que o deixa preocupado, mas de certa forma aliviado, pois precisa de calma para executar seu plano. Pára um minuto, pensando no porquê de estar fazendo tudo isso, sentindo uma ponta de remorso por não confiar na pessoa que ama, mas... Não é o Omi que o preocupa, sabendo que ele seria incapaz de traí-lo, a sua 'pedra no sapato' é aquele escritor metido a conquistador. E se ele tivesse feito qualquer coisa...
Caminha até o cantor e senta a seu lado, notando o olhar perdido e desanimado, sentindo certa pena do garoto de olhos violeta, que lembra Omi fisicamente, mas que difere em muito do contido e tímido arqueiro. Shuichi parece viver sempre no extremo de todas as emoções, boas e ruins, pelo menos assim o descreveu seu melhor amigo Hiro. Não sabe exatamente como é sua relação com o escritor, mas se o efeito dela é esse que observa no rosto abatido e triste, então não é das melhores.
- Shuichi... – O garoto o olha surpreso, pois mal ouvira sua voz desde que o grupo de Omi chegou ao estúdio. – Não quer ir à lanchonete? Você está muito abatido! Talvez um doce ajude.
- Doce?! – Ele abre um leve sorriso, seus olhos à menção de uma das coisas que mais gosta. – Acho que sim... Pode ser chocolate?
- Claro! – Sua vítima mordeu a isca, causando-lhe certo remorso, mas decidido a esclarecer essa questão. – Vamos lá.
Os dois caminham até a pequena lanchonete no final do corredor. Sempre lotada, desta vez estão apenas os dois, fazendo Aya sentir-se agradecido por ainda estar assim. Sentam-se junto a uma mesinha de canto, ficando mais escondidos, apesar do local ser pequeno. O ruivo se levanta, compra uma grande barra de chocolate e uma lata de coca-cola. Senta diante do garoto, vendo seus olhos brilharem de forma infantil ao abrir a embalagem do chocolate.
A primeira mordida traz quase um espasmo de prazer, o vocalista deixando o pedaço derreter na boca, antes de deixá-lo escorregar pela garganta. Gosta de perpetuar a sensação pelo maior tempo possível, notando suas nuances a cada mordida. Pode ser hiperativo e altamente empolgado em tudo na sua vida, mas esse é o único momento em que fecha os olhos e curte cada segundo dessa absorção. De olhos cerrados solta um leve suspiro, demonstrando que este chocolate está aprovado, um leve toque de café e amêndoas, com 70 de cacau... Um dos melhores.
- Vejo que não sou o único a apreciar um bom chocolate. – Aya diz com gentileza, sentindo simpatia pelo garoto que estão ali para proteger. – Tenho toneladas escondidas no meu quarto. Sempre que preciso pensar uso um desses pra me ajudar a meditar.
- Uma das poucas alegrias da vida. – Abre os olhos e encara o belo homem a sua frente.
- Mas por que essa tristeza toda? – Joga a primeira cartada, esperando que ele entregue o jogo logo. – Ontem você estava tão contente!
- Os mesmos problemas de sempre... – Sua voz fica embargada, um nó na garganta quase o impedindo de falar.
- Falar sobre eles talvez ajude. – Sua expressão de gentil passa a compreensiva. – Estou aqui pra te ouvir se quiser um ombro amigo.
- ...! – Mais uma vez o garoto de cabelos cor de rosa fica sem fala, comparando inevitavelmente esse rapaz compreensivo com o frio Yuki. Frio quando quer, pois até ele sabe ser quente quando deseja.
Os olhos de Shuichi vão perigosamente se enchendo de lágrimas, chegando ao limite do que pode resistir, admirando-se que tenha segurado suas emoções por tanto tempo. Logo ele se debruça sobre a mesa e chora, primeiro sentido, depois convulsivamente, de uma forma que assusta até o espadachim. Fica meio sem saber o que fazer, começando a pensar se não errou ao abalar o frágil equilíbrio que o mantinha.
- Ele... Não podia... – Levanta a cabeça e começa a chorar sem esconder o rosto, as lágrimas descendo profusamente por seu rosto. – Só porque... Eu não queria...
- Calma, calma. – A mão de dedos finos pousa em seu braço, fazendo-o chorar ainda mais. – Me conta devagar o que ele fez pra você.
Até Aya se surpreende com suas palavras manipuladoras. Não que tenham sido propositais, mas saíram sem querer, claramente fruto da sua agora crescente curiosidade sobre o que o garoto está falando.
Os infantis olhos violeta encontram os outros de cor semelhante e procuram neles o entendimento e a compreensão que gostaria de ver nos olhos cor de mel que tanto ama. Sente-se confortado pela presença deste homem forte, de personalidade marcante, refletida em suas íris tão brilhantes, no rosto extremamente sério, mas ao mesmo tempo tão cálido e protetor. Entende neste instante o porquê de Omi o amar tanto. Sente inveja, não pode negar para si mesmo, não do tipo pernicioso... Mas daquele tipo triste, onde se lamenta de não ter a mesma sorte.
- Ele sempre faz coisas pra me afastar... Agredir. – Limpa as lágrimas, fungando para tentar se controlar. – Só que ele não tinha o direito de envolver o Omi nisso.
As lágrimas continuam a descer, mas toda a crise parece se acalmar aos poucos. Shu tira um lenço de papel do bolso, pois sempre carrega dúzias deles. Limpa os vestígios do choro, tentando se controlar, mas não conseguindo evitar.
- Mas o que ele fez? – O espadachim tenta se controlar, pois a simples menção do nome do seu chibi é o suficiente para acelerar seu coração. Sabia que acontecera algo. Oferece mais um chocolate, que pegou ao vê-lo cair naquele estado, conseguindo mais um sorriso e a total confiança do garoto.
- Só porque eu comparei a nossa relação com a sua e de Omi... Ele quis se vingar. – Shuichi vai se enredando na armadilha de Aya, sem nem sequer perceber. – Ficou paquerando o Omi, descaradamente, na minha frente. E... O pior...
- O quê? – O ruivo fala exaltado, nervoso com o que pode ser pior, mas percebe que isso desperta o outro, que volta a se fechar.
Apesar de se deixar levar pela força de suas emoções, como sempre faz, seus olhos se arregalam diante do entendimento da situação. Suas palavras comprometem seu novo amigo e diante do homem que ama. Percebe então a intensidade naqueles olhos pouco mais velhos que os seus, mas repletos de experiência, que revelam o fogo do ciúme sob o rosto gentil. Não acredita que tenha feito isso de propósito, mas sabe que ele próprio é o responsável por não manter sua boca bem fechada.
- Precisamos voltar. – Ele se levanta e sai depressa, não sem antes pegar a barra de chocolate que havia recebido da segunda vez.
- Droga! – O ruivo se sente mal com o que fez, mas ainda mais nervoso por ter perdido a paciência. Agora sabe que houve algo pior do que uma paquera, mas... O QUE?
Aya volta contrariado para o estúdio, onde todos estão em torno de K e suas ridículas maquetes. Desde quando um show se controla? No palco flui como uma corrente sem freios e tudo pode acontecer. Vê Omi sentado, ainda um tanto verde, sabendo muito bem o que está sentindo. Mas a única coisa em que consegue pensar é naquilo que não foi dito, nas palavras 'o pior'. Senta-se ao lado dele, os dois evitando se olhar, cada um com seus próprios motivos.
Omi não gosta dessa situação, o oprimindo de forma avassaladora. O que sente pelo ruivo ao seu lado é indescritível, algo que nunca imaginou ser capaz de sentir. E agora estão ali, um ao lado do outro, como dois estranhos. Pensa na razão de tanta animosidade da parte do líder dos Weiss e sente... Percebe em seus olhos que há ciúmes dentro deles, uma faceta dele que ainda não havia notado. Não que isso lhe desagrade completamente, mas torna esse momento, em que podiam estar aproveitando o reencontro, em algo estranho. Ele não parece estar desconfiando dele, mas... Não consegue entender a lógica do ciúme.
A porta se abre, dando entrada a um homem loiro, cerca de 1,75 m, olhos verdes, extravagantemente vestido com uma roupa toda preta, bem justa, mas com uma volumosa gola de pele vermelha. Entra sorrindo, parecendo satisfeito com a movimentação dos dois grupos em torno dos preparativos do próximo show. Lança um olhar carregado de certo desprezo na direção de Shuichi, encostado na parede, próximo da entrada, disfarçando-o depressa, mas percebendo que este não passou despercebido ao belo ruivo sentado no sofá, ao lado de um garoto loiro.
Tohma Seguchi, o presidente da gravadora NG, parece bem jovem, apesar de seus 32 anos, transparecendo ser uma pessoa calma e gentil. Aproxima-se de Mr. K para observar a maquete que preparou do palco aonde vão se apresentar e sorri para ele. O americano continua sendo um excelente empresário, como foi para o Nittle Grasper, o grupo onde era tecladista, além de muitos outros. Alguns deles muito famosos na atualidade.
- Adorei sua idéia da maquete! – Seus olhos estão felizes com a escolha que fez para agenciar o então promissor Bad Luck. - Não tinha esses recursos quando cuidava de nós.
- Aprendi umas coisinhas desde então. – Sorri, mas sempre com a velha desconfiança com relação a ele, sabendo como odeia Shuichi por estar com Yuki. Apesar de Tohma ser cunhado do escritor, casado com a irmã deste, é inegável o fato de que sempre foi perdidamente apaixonado por Eiri.
Tohma se volta para os Weiss, esse movimento fazendo com os quatro fiquem de pé, sentindo que claramente estão sendo analisados.
- Ainda não fomos devidamente apresentados, mas... Sou Tohma Seguchi, presidente da gravadora, e fiquei bastante impressionado com a demo que o K me enviou. Adorei o som de vocês. – Há uma profunda sinceridade em suas palavras. – Vim porque ainda não tinha visto o visual do grupo e isso também faz parte...
- Estamos honrados em conhecer o grande tecladista do Nittle Grasper. – Omi aproxima-se, pura atitude de fã, desejando tocar o ídolo, mas ao mesmo tempo achando-o intocável.
- Gostei muito da sua voz e... Você tem um visual que atrai o sucesso. – Olha para os outros. – Vocês todos tem algo de misterioso... Meio que perigoso... Uma sensualidade fatal que vai acertar o público como um soco no estômago.
Os olhos violeta se estreitam ainda mais sobre o homem poderoso que está diante deles, tão gentil e sorridente. Suas palavras demonstram que há em seus olhos uma percepção altamente aguçada, fazendo com que tema que o embuste deles possa ser descoberto.
- K, você já criou o estilo deles para o show? Sabe que é básico... A primeira impressão é a que fica. – Ele nem sequer olha para o americano.
- Não queira ensinar my job! – O empresário fala extremamente irritado. – Já criei o visual deles... Monsieur Natashou chega daqui a pouco para a prova de roupa. E já encomendei algo para eles usarem essa noite na festa.
- Como sempre eficiente. – Tohma reforça sua admiração, tentando acalmar os ânimos do empresário. – Ah... Quer saber... Adorei os garotos e... Marque uma sessão de fotos pra eles. Tenho certeza que todas as revistas vão querer algo da nova revelação...
Esta afirmação sim deixa o americano surpreso. Tohma nem sequer os ouviu tocar ao vivo e investe assim neles? A NG jamais compra um produto dessa forma sem 'experimentar' antes. Observa-o atentamente temendo que tenha desconfiado de algo e seja uma armadilha. Mas percebe como ele olha de Omi para Shuichi e então percebe suas intenções. Há certa semelhança entre os dois garotos e... Sabe então o que ele pensa. Quem sabe o vocalista do Death Angels não eclipsa o sucesso do outro e assim se livra de Shindou finalmente? Afinal, o Bad Luck é uma das principais bandas da gravadora também pelo apelo do vocalista junto aos fãs... Eles fazem MUITO sucesso, por isso são estrelas para o presidente. Mas o garoto sempre será um 'rival'.
- Pode deixar, providencio tudo. – Fala de forma calma, mas em seu íntimo tem vontade de amassá-lo.
O presidente cumprimenta mais uma vez os Weiss e sai, não sem antes lançar um olhar gélido na direção de Shu, que permanece imóvel no mesmo local. Mas este seu movimento desperta ainda mais a desconfiança de Aya, se aproximando de Ken e Yohji, que já se preparam para voltar a sentar.
- Hoje, antes de sairmos pra essa festa... – Sussurra, mas pára e olha para os membros do Bad Luck, a fim de ter certeza que ninguém o ouve. Mas eles estão em torno da maquete discutindo algumas idéias para a apresentação. Mais tranqüilo volta a olhar para os amigos. – Vocês entram no escritório do presidente. Ele provavelmente saia mais cedo pra se preparar para o evento. Procurem algo suspeito.
- O que você tem em mente? – Yohji olha bem para ele. – Acha que prejudicaria a banda de maior sucesso da gravadora?
Aya pensa sobre isso e... É exatamente o que o incomodou na presença de Tohma! Seus olhos não saíam de Omi e de repente olhavam para Shuichi. Talvez o loirinho pudesse muito bem tomar o lugar do vocalista do Bad Luck. E o olhar frio dele para o garoto de cabelos cor de rosa demonstrou todo o ódio ali contido. Sim, ele prejudicaria alguém por quem tem esses sentimentos.
- Eu acho que faria isso sim. – Olha bem para o loiro. – A temperatura da sala até caiu quando ele olhou o Shindou.
- Também percebi. – Apesar de parecer sempre desligado, Kudou conhece muito bem aquele olhar. Suas noitadas lhe serviram de experiência para conhecer como as pessoas dizem uma coisa com as palavras e outra com o olhar.
- E o que procuramos? – Ken sempre pensa no lado prático nesses momentos.
- Confio em seu critério. – Aya disfarça se afastando um pouco, falando enquanto se vira para também se aproximar da maquete.
Pára ao lado de Omi, passando o braço por cima de seu ombro, os olhos dos dois se encontrando quando o pequeno volta o rosto em sua direção. Quer que fique bem claro que o problema dele não é o garoto, mas aquele... Yuki Eiri que não cruze seu caminho em nenhum momento dessa missão.
ooOoo
Mr. K caminha pelo corredor, seguido pelos membros de ambas as bandas, com um sorriso sarcástico estampado em seu rosto. Provas de roupa sempre são muito divertidas, mas desta vez há um adicional, o que a tornará ainda mais prazerosa. Olha para trás e seus olhos se encontram com o rosto do desconfiado ruivo dos Weiss. Sorri para ele, percebendo que os olhos violeta se estreitam, sabendo que o rapaz está ainda mais arisco.
Entram em uma sala aconchegante, diante de pequenos nichos fechados por cortinas, como um vestiário de loja, a única diferença estando no confortável sofá que fica de frente para eles. Um enorme espelho cobre toda a parede lateral e é com este que os quatro se deparam em um primeiro momento, seu tamanho sendo opressivo, ainda mais para eles que estão nervosos com o resultado das palavras 'prova de roupa' e 'estilo da banda'. Pensam em muita coisa que já viram ser usado por grupos de rock e não se animam muito com a idéia.
- Vou ver se Monsieur Natashou já chegou. – K diz já saindo.
Omi se aproxima do espelho, encostando-se nele, ficando de frente para os amigos ainda de pé. Os membros do Bad Luck estão sentados no sofá, tudo isso já sendo corriqueiro para eles.
- Só espero que Mr. K não queira nos dar um visual kei. – O loirinho suspira ao pensar nas bandas que ouve à exaustão, mas não desejando se vestir como eles.
- Visual kei?! – Ken, não sendo muito fã de música, preferindo muito mais os esportes, fica mais uma vez sem entender.
- Nem queira saber o que é. – Yohji prefere muito mais uma música pop bem romântica, mas já conviveu com muito visual kei nas boates que freqüenta. – Pode ser legal pros outros, mas... Não combina com a gente.
- Ele que não se atreva. – Aya sentencia sem demonstrar se sabe ou não no que isso implica. Mas seus olhos estão furiosos apenas pela possibilidade de imaginar que o americano possa estar aprontando alguma para provocá-lo mais uma vez.
- Mas eu quero saber! – O ex-jogador fica indignado em como lhe sonegam informações somente por acharem que ele não precisa saber.
- Eu te explico. – Shuichi se aproxima dele, lembrando que ele era o garoto que era tratado assim na escola. Podia não ser muito inteligente na sala de aula, mas se entende de algo é do mundo da música. E sabe de cor cada informação que leu nas milhares de revistas de música que leu. – As bandas de visual kei tentam expressar seus sentimentos ou fantasias contidos nas músicas também visualmente, mas com algumas diferenças de estilo.
- Usam cabelos pintados e penteados extravagantes. – Omi tenta colocar em termos mais diretos para o amigo que nada entende do assunto. – Além disso, se reflete nas roupas, maquiagem, acessórios e encenações durante os shows.
- Mas já vi algumas bandas de rock com você e não tinha nada disso. – Ken se sente uma criança, desprovido de conhecimentos que até aqueles dois chibis conhecem tão bem.
- Nem todo grupo de J-Rock tem um visual kei. – Omi fala se lembrando de todas que adora e mentalmente separando quais são ou não. – The GazettE, que é um dos meus favoritos, adota esse estilo, assim como o Dir en Grey, que foi visual... E um dos precursores, o X Japan.
- O meu ídolo, o Gackt, pertencia a uma banda visual, o Malice Mizer, mas... – Shu sonha com um dia ter o estilo atual de um de seus maiores heróis. – Gosto mais dele agora.
- O meu favorito é o L'arcenCiel... Adoro a voz do hyde. – Omi treme ao pensar nas incontáveis vezes que a voz dele embalou sua solidão, sendo seu único companheiro. – Que eu lembre eles nunca foram uma banda visual...
- Ok, ok... Vocês já começaram a divagar... – Ken começa a sentir a cabeça a rodar com tanta informação ao mesmo tempo e com algo pelo que não se interessa.
A porta se abre e entra K, acompanhado de um homem estranho, mais jovem do que poderiam esperar, já saindo um pouco do peso, cabelo castanho comprido com grandes cachos nas pontas, óculos e uma roupa altamente extravagante. Segura em mãos as fotos de todos, com nome e medidas, que tirara de Omi de manhã e dos demais no hotel na noite anterior. Olha um tanto assustado para Aya, observando o próprio dedão ainda roxo como aviso para manter-se longe dele.
- Muito bem rapazes... Meu nome é Monsieur Kaoru Natashou, sou estilista desde a escola e amo meu trabalho. Meu amado K me trouxe mais um desafio. Pediu que criasse um estilo para sua banda, algo que se tornasse a sua marca. – O homem sorri satisfeito, adorando fazer esses pequenos discursos introdutórios para apresentar suas maravilhosas criações. – Ele me passou suas fotos, falou de seus estilos pessoais, personalidades e basicamente o que pretendia para representá-los.
Ele pára por um instante tentando causar mais impacto, criando um suspense essencial para essas ocasiões. Nele tudo é teatro e todo esse drama o deixa ainda mais feliz com o resultado final.
- Toquei sua demo... É primordial para um stylist como eu conhecer qual sensação sua música me provoca. – Olha para os rapazes ainda mais temerosos. – E ela me evoca... SEXO. A guitarra é sensual, misteriosa... A bateria eficiente e cadenciada... O baixo sério e grave... O vocal... Rouco e libidinoso. Quase tive um orgasmo ouvindo sua música!
O homem respira fundo, claramente tentando acalmar-se. Os Weiss se entreolham, sabendo que coisa boa não vem depois de um discurso desses.
- E conhecendo-os percebi que a sua presença também exala as mesmas sensações. – Olha para Aya antes de continuar. – O ruivo forte, misterioso e... Puro perigo. O moreno esportivo e tímido, enquanto o loiro é puro sex-appeal e cinismo. Dupla perfeita! E o pequeno... Inocência no rosto e fogo nos olhos. Como um anjo assassino!
Esse uso das palavras os paralisa.
- Afinal, vocês são os Death Angels... Os anjos da morte. – O homem continua a falar sem nem sequer perceber o efeito de suas palavras sobre eles. – E o nome tem que combinar com o estilo... Sexy e perigoso.
Ele suspira contente com o fim de seu discurso, ficando satisfeito com as faces pálidas a sua frente. Devem estar impressionados com sua eloqüência e isso o faz sorrir como nunca, dando pulinhos histéricos de alegria.
Mas não é admiração o que empalidece os assassinos, mas a constatação de que neste meio onde todos são super expostos, o poder de observação é exacerbado, havendo uma necessidade ainda maior dos Weiss tomarem cuidado, ou seu disfarce pode cair.
"Eu não queria essa missão desde o início!" – Aya ainda resmunga para si mesmo.
K avança e entrega a cada um deles um cabide coberto, encarando fixamente o jovem líder ao colocar o dele em suas mãos. Há certo sarcasmo no seu sorriso de lado, fazendo o ruivo ter ganas de trespassá-lo com a katana.
"Mas isso pode esperar." – O sorriso de resposta que surge no rosto de Aya ao pegar o cabide faz K recuar. – "Também sei ser malicioso, seu gringo. Me aguarde."
Os minutos se arrastam enquanto os rapazes estão nos nichos, cortinas cerradas, vestindo aquilo que usarão no palco. K já se acomodara no sofá, entre Hiro e Shuichi, todos esperando o resultado da nova criação de Monsieur Natashou. O único que não parece estar muito interessado é o jovem tecladista, pois, por mais que pense em ser simpático, ainda não consegue aceitar o novo grupo.
A primeira cortina a se abrir é a do cubículo onde se veste Ken. Sai sem se importar, afinal não há nada demais no estilo criado para ele. Uma camisa branca sem mangas, uma gravata, uma calça preta justa, nada que ele não usaria para sair. Anda até aqueles que o observam atentos, enquanto o stylist levanta da poltrona em que se sentara, vindo em sua direção. Abre um pouco a camisa, que o moreno fechara até o último botão, afrouxa bem a gravata, dando um ar rebelde e entrega para ele um cinto cheio de botões metálicos, tirando um pouco da seriedade do traje. Os braços fortes se sobressaem do traje, arrancando um leve suspiro no estilista ao tocá-los.
- Não ficou muito sério? – Shuichi solta, logo se arrependendo ao perceber o olhar que Ken lhe dirige.
- O visual deve combinar com a personalidade... Vejo neste rapaz certa inocência e timidez, que precisa transparecer para o público. – O homem sorri orgulhoso. – Quem os vê tem de achar que este é o 'menino sério' do grupo.
Todos concordam com a cabeça, menos Fujisaki, que faz menção de sair, mas é contido pela mão de K que disfarçadamente segura seu braço. O garoto olha para ele súplice, mas o americano apenas abre o blazer, mostrando sua 45, o que faz o menino sentar no chão e desistir.
Mais uma cortina se abre e Yohji sai dela. O loiro sai meio sem jeito, um tanto corado, mas ao perceber que todos o olham com a boca aberta, sem qualquer observação maldosa, começa a se sentir a vontade e curtir a roupa nova. Ou a falta de uma. A sua única peça de vestuário é uma calça jeans, muito apertada, estilo Saint-Tropez, com a cintura tão baixa que seus pêlos começam a aparecer. O peito nu, ressaltando sua musculatura, a roupa fazendo-o parecer ainda mais alto do que já é. Um chapéu de cowboy completa o visual, emprestando-lhe um ar sexy e cafajeste. Monsieur Natashou lhe entrega um colar que chega até o meio do peito, com um lindo crucifixo cravejado de pedras vermelhas e uma munhequeira de couro. Fica atrás dele revirando os olhos, olhando o playboy de cima a baixo, soltando um leve suspiro que o faz olhar desconfiado para trás.
- Monsieur... Kaoru... Seu malandro. – Essas são as únicas palavras que Mr. K consegue dizer.
- Tive que tirar a cueca... Ela ficava aparecendo. – Yohji olha a roupa no grande espelho e percebe que seu bumbum está quase aparecendo.
- Querido... Essa roupa não é feita pra cueca... É pra homens que não tem nada a esconder. – Os olhos do homem até brilham ao observá-lo mais atentamente. – Homens e mulheres têm de desejá-lo ao primeiro olhar... Gostosão!
Ken, parado ao lado do sofá, não consegue tirar os olhos do amigo. Nunca o havia visto assim, nunca se excitara dessa forma diante do loiro playboy. Observa seu rosto já contente com o resultado da roupa, descendo pelo pescoço, ombro, tórax, abdômen, terminando no cós da calça, perigosamente revelando mais do que o moreno pensara em ver algum dia. Engole em seco e anda até o bebedouro no canto da sala, tentando disfarçar como ficou afetado por esta visão. Mas quando se dá conta o loiro está ao seu lado também pegando um copo para beber água.
- Deixa eu me acalmar um pouco. Nunca pensei que vestiria uma roupa assim. – Yohji diz sem notar como a proximidade mexe com o outro. – Gostei da sua roupa, Ken. Pensei que ele ia te colocar um uniforme de futebol...
- Cala a sua boca, Kudou. – Ken fica nervoso, sentindo-se estereotipado e ferido, parecendo que o loiro não vê que existe um homem até bonito por baixo do seu jeito esportivo. Afasta-se, sentando no braço do sofá.
Yohji fica parado por alguns minutos ainda, surpreso pela reação do amigo, pois estava apenas brincado. Nunca o ouvira mandá-lo calar a boca e muito menos o chamar de Kudou. O único que faz isso é Aya e somente quando está com muita raiva dele. Olha novamente para o moreno, tentando entender sua atitude, percebendo que está sentado, fingindo nem notar que está sendo observado, com uma expressão furiosa em seu rosto.
A cortina de Omi se abre, mas o garoto não sai de dentro do nicho onde se encontra, ficando oculto pelas sombras. Natashou se aproxima e o puxa pela mão, trazendo para frente do sofá. O garoto fica parado, cabeça baixa, evitando os olhares que recaem sobre ele. Sente-se constrangido, corado, seus olhos cheios de lágrimas, tamanha a vergonha que sente. Shuichi levanta e coloca o braço em torno de seu ombro.
- Veste o personagem, Omi. – O loirinho levanta o rosto e encara os brilhantes olhos violeta. – Este não é você... Não precisa ficar envergonhado.
O garoto se apruma e encara os demais, encontrando entre os olhos surpresos os verdes de Ken, que sorri em apoio. Quando levanta a cabeça todos podem ver perfeitamente a criação do stylist. O garoto veste uma jaqueta vermelha com brasão, como aquelas usadas pelos colegiais ingleses, que lhe vai até a altura do quadril, nada por baixo dele, e um short de lycra preto, tão justo e curto que Omi mal consegue respirar, suas coxas roliças ficando completamente desnudas. Tudo isso complementado por um boné e tênis, emprestando-lhe a aparência de um garoto do primário.
O pequeno tenta se acostumar com a roupa, sendo inútil o seu esforço, pois só consegue ficar ainda mais corado. Fica puxando o short, tentando evitar que a curva de suas nádegas fique aparecendo. Mas por mais que puxe... É em vão.
- Pára com isso! – Monsieur Natashou fica irritado, segurando Omi pelo braço. – É pra ser assim mesmo.
Abre a jaqueta toda fechada, deixando o peito nu de Omi totalmente à mostra. Tira do próprio bolso uma gargantilha e a coloca em torno do pescoço bonito, revelando a jóia de veludo negro, com um enorme diamante no centro. Aproxima-se por trás para travar o fecho, mas tão próximo que aspira o perfume do garoto sem disfarçar.
O arqueiro encara o homem com desdém, tentando puxar novamente o short. Olha para trás, para o nicho onde sabe que Aya está, temendo a reação dele ao vê-lo vestido assim. Ken o puxa para junto de si, desalinhando seu cabelo, tentando fazer com que o amigo relaxe.
- Pelo menos não é visual kei... – Omi diz se forçando a sorrir da situação. – Mas estou parecendo o Angus Young do AC/DC.
- Ahn... Quem? – Ken pergunta sinceramente sem saber.
- Esquece Ken... – Omi sorri para o amigo, pois nunca se lembra que ele não entende nada de música.
Está mais preocupado com a reação de Aya, que ainda não saiu do vestiário. Se sua roupa e a de... Engasga ao reparar na roupa de Yohji. Se a deles é tão... Assim... Imagina o que Mr. K aprontou para o seu ruivo demorar tanto a sair. Respira fundo, agradecendo ao fato da katana não estar ali no momento.
Mas os minutos vão se arrastando e nada do ruivo aparecer, deixando a impressão de que algo está muito errado. O stylist se move naquela direção, mas Omi o detém, não sabendo do que Aya seria capaz ao ver o homem. O pequeno se aproxima devagar, segurando de leve a cortina.
- Tudo bem... Aya? – O loirinho fica preocupado por não ter uma resposta. – A-Aya?
- Omi... – A voz dele é quase um sussurro. – Minha katana...
- Calma. Sei que deve ser... A minha também. – A resposta foi audível apenas para o ruivo, sabendo que o líder dos Weiss está no limite de sua paciência.
A menção à roupa de Omi faz com que ele saia, abrindo a cortina com raiva, observando o traje do garoto, pousando seus olhos no short curtíssimo, lançando um olhar de ódio para o americano. Suas pupilas em fogo imaginando formas e formas de fazer um loiro sacana sofrer. Bem devagar...
Só então ele se dá conta de que saiu do vestiário, sendo observado por todos, inclusive Omi. Sua roupa não diferia muito do que já usara antes... Um sobretudo preto quase até os pés, abotoado por fivelas, mas todas soltas, revelando estar sem camisa... Além de uma calça de couro tão justa que deixa pouco à imaginação. Talvez Aya esteja mais irritado por ter sido obrigado a vestir isso, não exatamente por ser algo que nunca vestiria. O estilista tenta se aproximar, mas percebe que não é um bom momento, voltando-se então para os outros.
- Este visual combina com a personalidade perigosa deste guitarrista. – Olha para o ruivo furioso e dá mais uns passos para se afastar dele, colocando o brinco que complementa o visual de Aya nas mãos de Omi. – Como uma pantera negra se esgueirando pela floresta.
- Não viaja! – Aya diz sem qualquer cuidado, vendo na expressão do rosto do homem que se volta para ele que suas palavras feriram de verdade. – Essa roupa é somente uma forma apelativa de fazer os fãs babarem. Não precisa disfarçar com estas definições bem ensaiadas... Não sei de onde vocês estilistas tiram essas baboseiras.
Monsieur Natashou desaba no chão em choro convulsivo, enquanto o espadachim lhe dá as costas e começa sua volta para o vestiário. Faz sinal para os outros Weiss, inclusive Omi, que está ao seu lado.
- Agora que já divertimos a todos. Tirem as roupas e guardem para o show. – Lança um olhar gélido para o americano, deixando claro que apesar da missão eles comandam as próprias ações. – Mr. K... Acredito que deveríamos estar nos preparando para a festa, não é?
A expressão do americano é de pura surpresa, percebendo que tudo o que já pensara sobre o líder dos Weiss ainda não é o suficiente para prepará-lo para a grande gama das suas reações. Olha bem para ele, vendo como se movimenta sempre com cautela, e se pergunta qual a verdadeira função do grupo na Kritiker, com a palavra 'assassino' proferida por Aya no dia em que se conheceram ainda ecoando em sua mente.
Os olhos dos dois ainda voltam a se encontrar antes que saiam. Todos sabendo que precisam se preparar para a festa e que mais algumas criações do homem jogado aos prantos no chão os esperam. Um banho, uma boa produção... E será a primeira aparição pública dos DEATH ANGELS.
Os Weiss não podem negar que a missão está indo além do que imaginavam, não tendo descoberto nada de significativo sobre o ataque. Tinham certeza que não chegariam a esse ponto, mas agora é inevitável. Entreolham-se quando Ken e Yohji saem apressados para sua parte da investigação, tendo esperança que alguma descoberta os salve de entrar naquele palco, mas sabendo que talvez isso não aconteça.
Aya puxa Omi para junto de si, abraçando-o forte, sentindo sua respiração pesada, sabendo que o pior está em suas mãos. Sente falta de seus abraços, de seus beijos, de vê-lo adormecer, tudo que faz a vida do espadachim ter sentido. Não sabem o que esta missão ainda lhes reserva, a única certeza que têm é que se amam e nada deve abalar isso.
Ficam ali por uns instantes, sem perceber que um par de olhos os observam, atentos para descobrir algo mais sobre Omi, o novo acompanhante de Shuichi. Sua parte do plano é essa... Será bem recompensado e lhe dará muito prazer ver Kobe destruir o idiotinha de cabelos cor de rosa.
Continua...
ooOoo
Oi gente! Sei que demorou, mas juro que foram problemas pessoais da minha beta, mas agora que ela está melhor as coisas vão caminhar mais rápido. Mas para compensá-las, já tenho mais dois caps em fase de betagem. Prometo que esses logo estarão postados, com direito a lemon, show dos Death Angels e encontro Yuki e Aya.
Neste cap vcs conhecem o costureiro Kaoru Natashou... As iniciadas no mundo anime vão reconhecer o aluno-costureiro-figuraça de Princess Princess. Sim, é ele mesmo, o responsável pela transformação dos três garotos protagonistas em adoráveis meninas. Ele era perfeito para esta história. Para quem não conhece... Recomendo e... Chorem de rir.
Para as garotas que estranharam meu jeito de escrever (sempre no presente)... Faz parte do meu estilo, ainda mais que eu escrevo roteiros de cinema (nenhum filmado, por enquanto) e me acostumei a escrever assim. Mas faz parte do meu desejo de ser... Diferente. Hahahahahahahahahahahahaha (que metida, não?). Sério... Se tornou meu estilo pessoal e deixa minhas betas malucas.
Relembro que essa fic é um presente pra minha amiga do coração e beta Yume Vy, que deixou mais uma de suas deliciosas reviews. Babei e fiquei mais que satisfeita de que vc tenha gostado. Mil beijos!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Agradeço a minha beta Freya de Niord que enfrentou uma 'barra', mas está betando minha fic, apesar da total falta de tempo. Agradeço pelas sugestões dos acessórios... Usei quase todas. Não posso esquecer dos agradecimentos a minha filhota Nii-chan que me orientou no mundo J-Rock, pra não cometer nenhuma gafe, e me ajudou a criar o figurino; além da minha afilhada Samantha Tiger Blackthorn que me agüenta nos momentos de insegurança e se tornou meu contraponto, sempre lendo as histórias ao longo de sua confecção.
Por fim, preciso agradecer de coração aos reviews deixados pro Kiara Salkys, Mandah, Jamara (Hikaro), Yue-chan, Babi-chan e Michelle. Seus comentários são um grande incentivo para continuar. Desculpa a demora.
Planejo terminar a fic até o final do ano e colocar nas mãos da beta.
09 de Novembro de 2007
4:27 PM
Lady Anúbis
