Kalahari
Capitulo 2
Um solavanco me trouxe de volta a realidade. A voz de Jacob Black disputava minha audição com o barulho ensurdecedor do motor daquele jipe. Eu sentia meu suor aderindo a minha pele com aquela roupa, minha boca estava seca e minha cabeça latejava.
_Onde estão as minhas coisas? – eu tive que gritar.
Black, sem importar-se de parar de falar, apontou para um canto do jipe, perto do animal fedorento. Suspendi a minha respiração e meti meu nariz lá. Lágrimas saíram dos meus olhos, aquele animal deveria estar em decomposição, que diabos eles iriam fazer com aquilo?
Achei minha frasqueira, a peguei como se fosse um tesouro precioso, mas quando a abri, vi somente alguns papeis sem importância e minha identificação. Tudo o mais sumira. Enfiei meu nariz um pouco mais a baixo e lá estava apenas o cantil, tão seco quanto minha goela. Eu havia perdido tudo! Nem meu anel de quinze anos eles deixaram...
Voltei a sentar no banco com a frasqueira no meu colo, olhei para cima desalentada. O que eu faria naquele fim de mundo, sem uma pena para me valer? Os olhos negros de Jacob Black me olhavam atentamente.
_Madre?
Quase pulei no banco e dei um beijo nele, pois ele me lembrou que aquela roupa de freira tinha compartimentos internos, bolsos. Eu passei a me tatear nos lugares que eu sabia que havia escondido e, feliz da vida, pela primeira vez desde que abrira meus olhos eu sorri. Meus dedos tocaram três volumes quadrados bem gordinhos. O alivio saiu pela minha boca seca em forma de suspiro e eu encostei a minha cabeça no vidro da janela. Eu fugira dos Estados Unidos com uma, digamos, somatória indecente de dinheiro e agora, após passar pelo fio da navalha e pelo buraco da pistola, eu tinha em minhas mãos somente uma frasqueira inútil, com papeis sem qualquer valor, mas nos meus bolsos a minha salvação. Não era um terço do que me fora roubado, mas já era alguma coisa. Olhei para fora sentindo que a esperança voltava para o meu corpo e ri feito uma besta.
Quando fugira da boate da Sue vestindo aquela roupa, nunca iria imaginar que as pessoas realmente acreditassem no que estavam vendo. O hábito me fazia passar por uma pessoa acima de qualquer suspeita, até mesmo com os piratas que atacaram aquele pesqueiro onde eu estava. Eu fui a única que não morreu naquela noite e, ainda, tive o salvo conduto até o continente africano com a valise.
_Santa Madre, não se preocupe, já chegamos nas terras da fazenda Cullen, logo a senhora poderá se refrescar.
Mais uma boa noticia!
Olhei para fora, o sol a pino, a vegetação rasteira e a terra rachada, naquele instante, tudo aquilo era lindo de se ver. Depois de tudo pelo o que eu passei, senti que estava livre, finalmente. Não sei como uma garota de dezenove anos consegue se meter em tanta confusão, mas eu não precisava mais me preocupar com a máfia ou com o FBI. Tudo ficaria lá trás, tão morto quanto o italiano mafioso, o Gordo, do outro lado do oceano.
Fechei meus olhos e relembrei o dia em que conheci o figurão. Fui levar uma bebida para ele no quarto. Eu sabia que ele iria querer algo a mais, na verdade, a vida na boate não era tão ruim, desde que eu ficasse somente cantando. Aprendi em um dia que o mundo não era cor de rosa quando fui contratada como corista. Sempre havia algo a mais. Durante vários meses eu me safei numa boa. Era muito simples, eu colocava um pouquinho de "boa noite anjinho" na bebida do freguês. Quando ele acordava, no outro dia, nem se lembrava do que havia acontecido. Claro que eu havia somente pego homens casados, que fugiam em uma noite de rebeldia. Eles nem voltavam para perguntar o que havia acontecido.
Os mais espertos, as meninas que tinham mais tempo de casa, cuidavam. E ficou cômodo para mim, pois eu nunca me interessara em aumentar as minhas gorjetas ou em ganhar uma echarpe francesa. Meus sonhos eram mais gananciosos, ir morar na França, por exemplo, e me tornar uma cantora reconhecida, quem sabe atriz de cinema. Eu havia planejado que aquela vida de cantora de boate teria seus dias contados. O que eu não planejara era que o tal do Gordo fecharia a casa e exigiria minha presença no quarto dele.
_"Não vou!"
_"Bella, você tem que me entender, se não subir ele vai quebrar a minha casa!" – Sue implorava, ela era a dona da boate, junto com Leah, elas tinham um relacionamento intimo demais.
_"Sue, eu tenho que agradecer a sua ajuda, mas eu não sou prostituta!"
O trato fora aquele, a quase um ano, eu vira a placa de contrata-se corista. Não havia aprendido nada no pouco tempo que fiquei com as freiras, nem rezar. Mas aprendi a trabalhar as minhas cordas vocais e descobri que podia ganhar dinheiro cantando. Eu não era cega, via as meninas subirem para o andar de cima e voltarem somente no dia anterior. Deixei bem claro que apenas cantaria. Como Sue estava precisando aceitou meus termos. Mas a amiguinha dela, a Leah, foi mais dura e disse que se eu ficasse na casa, um dia teria que fazer de tudo, ou voltasse para o convento de onde fugira. Foi ai que estabeleci meu curto prazo de permanência naquela boate.
_"Bella, você faz o que eu te ensinei, serve uma bebida para ele já preparada e depois vai embora. Mas tem que saber, ele não é idiota, você vai ter que fugir."
Naquela noite eu fui até meu quarto coloquei o que tinha de mais valioso na minha frasqueira e deixei a roupa que Sue me arranjara arrumada. Aquela fora a noite das surpresas, pois a roupa era de verdade, ou seja, pertencera a Sue em um passado muito remoto.
_"Vai ter que fugir disfarçada Bella. Vai para bem longe, se o Gordo de pega, ele te mata!"
Sue me deixou um pouco de dinheiro, o suficiente para comprar uma passagem de trem e viver por alguns dias. Era aquilo ou virar a garota do Gordo. Depois pequei a bandeja com a bebida pronta e subi. Após bater na porta ouvi um entre.
_"Feche a porta meu bem!" – a voz dele era morna.
Eu o vi parado de frente para a janela. Apena encostei a porta, para uma fuga estratégica e quando me voltei, mal consegui conter a surpresa. Em cima da mesinha central tinha uma valise aberta cheia de dinheiro. Acho que fiquei assim, parada feito a estatua da liberdade, mas ao invés da tocha eu tinha uma bandeja na minha mão. Eu ouvi o Gordo voltar a dizer alguma coisa, mas meus olhos estavam presos naquela valise. Eu teria que nascer de novo para ver tanto dinheiro junto!
_"Você é muito bonita, sabia?" – meus olhos ergueram-se da valise e firmaram-se no rosto do homem chamado Gordo. Ele era alto, loiro, tinha incríveis olhos azuis e, era magro!
_"Fiz questão de tê-la esta noite, paguei uma boa soma de dinheiro para a dona da casa. Espero não me arrepender." – ele tinha um resto de cigarro entre seus dedos. O Gordo andou até uma poltrona e sentou-se nela e depois jogou a bituca do cigarro no chão, pisando em seguida nela. Depois ele fez um sinal com os dedos para mim.
_"Venha cá Piccolo!"
Comecei a tremer. Tinha um volume no meio das pernas dele muito grande. Eu havia treinado, enquanto subia as escadas, dar o meu melhor sorriso e fazê-lo beber logo a bebida, mas agora, olhando para o azul daqueles olhos eu soube que não seria tão fácil assim. Caminhei lentamente até ele e abaixei a bandeja com o corpo.
_"Eu lhe trouxe uma bebida." – minha voz estava tremula e percebi que isto atiçou o homem que me puxou de repente pela barra da minha saia.
_"Si, molto premurosa! Mas eu bebo somente do que trago."
Vi com terror uma garrafa na mesinha lateral ao lado da poltrona. Depois, o Gordo, tirou a bandeja da minha mão e jogou o copo longe. A bebida voou pelo ar, assim como minha esperança de me livrar dele naquela noite. O ar começou a faltar no meu peito e eu me vi empurrando ele com todas as forças que eu tinha. Isto apenas causou riso no homem que se ergueu comigo em seus braços e caminhou a passadas largas até a cama.
Uma mão dele já estava por baixo da minha saia apertando com gosto minhas nádegas e dedos atrevidos se infiltrando pelo elástico da minha calcinha. Eu dei um tapa na mão grande dele enquanto me esquivava da boca que babava querendo me beijar.
_"Me solta!" – gritei e fui arremessada na cama, meu corpo quicou para depois ser amassado pelo peso do corpo dele, que veio certeiro para cima das minhas pernas. Eu não sei como, mas minhas pernas já estavam abertas e eu sentia o volume apertando a minha intimidade.
_"Grita mais! Eu fico excitado quando vocês fazem isto...!" – a voz dele estava estranha, meio rouca e lenta. Eu mordi meu lábio inferior segurando o grito de repulsa, não daria aquele gostinho para ele. Um aperto forte em um dos meus seios fez sair uma lágrima dos meus olhos. Ele começou a se esfregar em mim e a coisa dele cresceu mais ainda.
_"Grita Picollo!" – ele me beijava, me lambia e me apertava por inteira. Eu chorava e tentava me defender apenas.
_"Você é durona! Mas vai gostar de mim, vai ser minha garotinha especial!"
Eu olhei ao redor, parte de minha roupa de cima já estava rasgada. Com desespero vi um vaso em cima do armarinho perto da mesa e me estiquei. Meus dedos o agarraram e com rapidez eu bati na cabeça loira do Gordo. Eu não conseguia entender, nas peças teatrais eles sempre desmaiavam, por que aquele homem ainda estava ali, firme e grande no meio das minhas pernas e me olhando furioso?
Não tive muito tempo para pensar, um tapa me atingiu a face e quando eu já iria entregar os pontos a porta foi escancarada. O Gordo saiu de cima de mim com as calças na mão. Eu ainda estava zonza pelo tapa e comecei a ouvir eles brigando, falavam uma língua diferente, acho que era italiano. O homem que entrara, era atarracado e tinha uma cicatriz horrível na face. Ele entrou no quarto com uma pistola na mão. Como eu estava livre do peso do Gordo, gritei com gosto. Aquilo atraiu a atenção do cicatriz que se virou para mim, tive apenas tempo de me jogar no chão. Ouvi estampidos de tiros! Ergui minha cabeça acima da cama, acho que servi de distração para o Gordo que arranjou não sei onde outra arma e atirou no cicatriz que revidou.
Os dois tombaram no chão. Eu tremia feito vara verde, mas minha cabeça estava a mil e sem pensar nas conseqüências, eu me levantei e peguei a valise de dinheiro e corri para a porta escancarada. Uma mão me segurou pela canela e eu gritei novamente.
_Calma madre! – era a voz de Jacob Black me trazendo de volta a realidade. Ele tinha a mão sobre meus ombros. Eu fiquei com a boca aberta olhando para ele que sem jeito, recolheu a mão enorme de cima de mim.
_Pérdon Madre!
_Você é italiano? – eu comecei a tremer.
_No Espanol! – ele sorria com orgulho.
_Na África?
Jacob deu de lado, como a dizer, coisas da vida! Depois eu percebi que o carro havia parado e a porta estava aberta para mim. Eu peguei na mão quente do tímido Jacob e sai novamente no sol. Foi inevitável não sentir uma leve vertigem e tombei para o lado.
_Madre, Ah mio Dios!
Estava muito quente, o sol, aquelas roupas e o corpo forte do espanhol. Eu estava passando mal e ouvi o barulho de cascos de cavalo e depois um relinchar perto da minha cabeça. Com sacrifício ergui meus olhos, mas tive que colocar minha mão sobre eles. Senti novamente algo repuxando minha pele do pescoço enquanto erguia meu queixo para olhar para cima, vi somente o brilho verde de olhos duros.
_Uma freira?
_Madre superiora hombre!
_Jacob, mandei você resgatar o meu bezerro! E você me traz uma freira?
_Si, por supuestro! Esta é a Madre Superiora Swan, filha de Renee.
Tentei me aprumar. Em nenhum momento desviei meus olhos dele, o homem era enorme e usava um chapéu estilo vaqueiro na cabeça. Ele saiu de sua montaria e se aproximou de mim com um ar perigoso demais, depois, com a ponta de um dedo bateu na aba do chapéu que revelou uma face máscula e dura.
_Então, por que diabos, Rennee nunca me disse que tinha uma filha religiosa? – eu vi a pergunta sendo sussurrada enquanto aquele homem inclinava o corpo para frente e me avaliava abertamente. Sentindo-me pequena recolhi-me atrás de Jacob Black que era tão grande quanto aquele cowboy grosseirão. Minha língua estava travada e minhas pernas bambas.
Ele passou a me ignorar por completo e deu a uma cusparada no chão antes de voltar a falar: _Esta mulher te enganou Jacob!
_Hombre que está lá nos documentos a identificação da madre.
Depois o gigante abriu a porta do jipe e tomou de modo pouco cortez minha frasqueira e a revirou jogando minhas coisas no banco.
_Tenha paciência Jacob, não se pode acreditar em tudo o que se lê! Moça, aqui esta escrito que você é filha de Rennee e Charles Swan. Mas eu conheço Rennee por mais de dez anos e, ela nunca me falou que tinha uma filha metida em batinas.
Meu sangue fugira do meu corpo como minha alma, trinquei meus dentes e retruquei aquela agressividade com a voz mais cândida que me era possível: _Talvez, pelo fato, de eu pouco falar com ela em todos estes anos! – eu também inclinei meu corpo para frente me apoiando em Jacob.
_Então, você sabe falar?
Quando retruquei, procurei entoar a frase como se estivesse de fato em um convento :_E o senhor, sabe mugir?
Continua...
