Disclaimer: A saga As Crônicas de Gelo e Fogo pertece a George R. R. Martim e seus parceiros comerciais, assim como a série Game of Thrones pertence a HBO. Nada do que você reconhece aqui me pertence e nenhum lucro foi obtido através dessa publicação.
Nota: Eu mesma revisei esse texto, leia por sua conta e risco! Um salve para Naaai Prince e Magma Igneus, que gentilmente deixaram seus comentários, incentivando-me a continuar a escrever essa fanfic. Espero que gostem, abraços!
Capítulo II – O Passarinho engaiolado.
E perguntas que dor trago secreta
A roer minha alegria e juventude
E em vão procuras conhecer-me a angustia
Que nem tu tornarias menos rude?
A Inês – Lord Byron.
Ela deu um passo para trás, assustada. Não podia ser, não podia. Ela ouvira sobre a sua morte, o Cão Louco das Salinas. Ela lamentara silenciosamente e até oferecera uma prece aos Sete em seu nome. Não podia ser o Cão de Caça ali, na sua frente. Mas ninguém no mundo a chamava de Passarinho, ninguém exceto ele.
Roubou-me uma canção e um beijo e me deixou com apenas um manto ensanguentado.* Sansa Stark havia guardado aquele manto, uma recordação funesta. Sansa Stark algumas vezes lembrara do Cão de Caça e suas terríveis cicatrizes. Mas não Alayne Stone.
_ Irmão? – ela tornou a perguntar, retomando a compostura – O senhor me ouviu bem? Sou Alayne, Alayne Stone – ela reforçou – Vim ver como os senhores estão pass...
Ele se moveu rápido demais para um homem tão grande e logo estava no meio do aposento, ao lado dela segurando com força seu braço e roubando-lhe o fôlego. Seus olhos escuros como aço estudaram o rosto dela, cada polegada. Sua mão grande se ergueu para capturar uma mecha dos cabelos castanhos.
_ Inferno sangrento, é mesmo o Passarinho. Mudou as cores das penas, é verdade, mas não consegue enganar esse cão. Um cão sente o cheiro das mentiras, eu já lhe disse uma vez.
Coisinha linda, e tão má, mentirosa. Um cão consegue farejar uma mentira, você sabe. Olhe em volta e dê uma cheirada. Aqui são todos mentirosos... e todos eles são melhores do que você.* - a lembrança se abateu sobre ela num rompante, as palavras que ele havia lhe dito no auge de sua embriaguez. Ele não estava bêbado agora.
_ Irmão... – ela ainda tentou, debilmente. Pelos Sete, estou perdida.
_ Não sou um Irmão, assim como não sou nenhum Sor, nem Senhor. Nenhum título desses me serve, menina. Já devia ter-se acostumado com isso. O que é que San...
Ela levou rapidamente a mão na boca dele, calando-o. Sob seus dedos ela podia sentir a barba áspera, os lábios secos e rachados, seu hálito quente. Aquilo pareceu o surpreender.
_ Aqui não, sor... Clegane. – era a primeira vez que o tratava pelo nome, ainda que pelo nome de sua Casa e soou infinitamente estranho em seus lábios – Conversaremos mais tarde, se quiser. Mas não aqui... não agora, por favor.
Ele assentiu lentamente, seus olhos ainda devorando cada polegada do rosto dela, como se não acreditasse no que via. Ele a soltou lentamente. Sansa de repente se deu conta que era a única a segurá-lo, sua mão ainda repousada sobre os lábios cruéis. Ela se afastou alguns passos.
_ Vejo que está bem, Irmão, pela graça dos Sete que os trouxeram em segurança até aqui. O Senhor Petyr Baelish ficará satisfeito ao saber que estão sendo bem tratados. Eu devo me retirar agora. – ela esperava que ele havia entendido o recado.
Sansa encostou-se na parede do lado de fora, levando a mão ao coração, com as pernas bambas demais para dar mais um passo sequer. O que faria agora? Era a primeira vez que alguém a reconhecia e não sabia o que fazer. O certo seria correr a Petyr e lhe dizer que o Cão de Caça dos Lannister estava no Vale. Baelish sabia que ele poderia estragar tudo.
Ela sabia que Mindinho iria mandar matar o Cão. E ela hesitou... O Cão nunca a espancara, ele a salvara durante a revolta, lhe deu seu manto quando Joffrey a despiu perante a corte, roubou-lhe um beijo. Ela poderia carregar o peso de sua morte?
Descubra o que um homem quer e então saberá como manipulá-lo. – Mindinho a ensinara uma vez. O que um homem como o Cão de Caça iria querer? Sansa suspeitava que já sabia. E não era de todo ruim que ela encontrasse seus próprios aliados, afinal de contas era assim que se jogava o Jogo dos Tronos.
Ela titubeou, parada em frente ao espelho em seu quarto. Poderia ser tão ousada? Sansa tinha certeza de que essa sua empreitada era perigosa, o Cão era um homem perigoso, sua ira fazia homens feitos tremerem como rapazes verdes de verão. Haveria espaço para uma disputa? Se ela ousasse jogar com o Cão, seria esse um jogo justo? Ela acreditava que não.
O tempo havia cumprido sua promessa, transformando-a em uma mulher feita, em uma beleza que roubava fôlegos e despertava a inveja de senhoras com menores atributos. Sansa não desconhecia seus atrativos e sob a tutela de Petyr ela aprendeu a usá-los a seu favor, aprendeu finalmente o que Cersei certa vez lhe insinuara e que na época lhe causara tamanho estranhamento. Cortesias não eram as únicas armas de uma mulher.
Hoje ela se constrangia de sua ingenuidade, de sua fé cega... mesmo seu senso de honra parecia se envergar diante do peso das conquistas que apenas a manipulação certa dos egos frágeis que a cercavam poderia lhe proporcionar. Margaery, Cersei, as mulheres da corte... todas conheciam as regras do jogo e haviam escolhido deixá-la no escuro. Não há espaço para a lealdade cega e para o pudor, quando sopram os ventos do inverno. Não há espaço para a honra, quando se pretende sobreviver ao jogo... aqueles que escolhiam a honra, como seu pai, como Robb... viram seus dias se findarem mais rápido do que aqueles que ousaram percorrer caminhos mais escuros. Doía-lhe... doía-lhe desistir dessa parte de si mesma, dos dias mais simples, dos sonhos dourados da infância... da inocência, mas era o que deveria ser feito se ela tinha intenção de sobreviver.
E preparando-se para a guerra, Sansa vestiu sua armadura. Uma armadura relativamente frágil, de fato. Não havia placas de aço ou cota de malha, mas tecidos esvoaçantes e perfumes inebriantes... Nada que a protegesse dos golpes afiados de uma espada, mas a arma que Sansa empunharia não servia para ferir os corpos, ela cortava fundo é verdade, mas atingia somente o coração, confundia a mente... enfeitiçava os sentidos.¹
Os corredores estavam vazios e silenciosos e Sansa rezava para não encontrar ninguém, para que Petyr não surgisse de repente e a obrigasse a despejar seus segredos. Ela mesma contaria a ele mais tarde, dependendo do que descobrisse com o Cão, havia decidido. Uma vela frágil tremeluzia a sua frente, iluminando parcamente o caminho. Procurou o quarto onde o havia encontrado na primeira vez, mas antes de chegar uma mão saiu das sombras e a agarrou.
_ Shhh, Passarinho. Sou eu. – a voz rouca do Cão raspou em sua orelha esquerda, o hálito quente causando-lhe cócegas. Um alivio estranho a atingiu, o mesmo sentimento que a atingira anos antes, quando se deparava com Sandor na volta de suas escapadelas ao Bosque Sagrado na Fortaleza Vermelha, algo em seu íntimo, que ela nunca tivera a curiosidade de se debruçar intuía desde àquela época: estava segura com ele.
_ Você me assustou, sor.
_ Hmm, continua um passarinho assustado, morrendo de medo do velho Cão de Caça?
Eles estavam muito perto, Sansa podia sentir o calor que emana do corpo grande do homem à sua frente. Essa parte do castelo estava mais fria do que ela teria imaginado, ela sentia seus mamilos se retesarem sob o corpete, os pelos dos braços se eriçarem e, de repente, ver-se cercada por aquele estranho homem foi quase... reconfortante. A luz fraca da vela emprestava um brilho alaranjado a face semicoberta do Cão, um brilho quase cruel aos seus olhos cinzentos. Ela temeu, por um segundo, que havia entrado naquele jogo sem uma ideia real da crueldade do seu oponente. Poderia ele ultrapassar essa barreira invisível que ela começava a construir como sua muralha? Seria ele o tipo de homem que sem pudor viola uma mulher? Ele morreria depois, ela tinha certeza. Petyr não descansaria até encontra-lo, mas ali, quase colada ao seu corpo grande e poderoso, Sansa não tinha certeza se ela poderia sobrevier a um ataque.
Esse pensamento sombrio, no entanto, durou apenas pelo tempo da batida do seu coração, porque ela viu, quase com assombro, o Cão se inclinar assim, poucos centímetros em direção ao seu pescoço, seus olhos fechados em concentração. Foi o súbito inspirar que ele deu que revelou a Sansa o que ele estava fazendo. Ele está me cheirando? Um cão - ela pensou – Um cão, de fato.
_ Sor? Eu não disponho de muito tempo e precisamos conversar.
_ Eu sei. Foi por isso que vim te esperar aqui fora. Os outros irmãos estão comigo no quarto, não achei que o Passarinho ia gostar de ser vista procurando pelo velho cão no meio da noite.
Ele estava certo. O irmão que havia ingerido uma dose quase cavalar de leite de papoula provavelmente ainda estaria desmaiado a essa hora, o que forneceria aos dois a privacidade adequada, mas com os outros irmãos dividindo o quarto isso se tornava inviável. Sansa parou um momento para pensar.
_ Venha comigo. – ela murmurou – E faça silêncio.
Ele, obediente como um cão, a seguiu pelos corredores escuros, iluminados apenas pela luz fraca da vela que ela carregava. Entraram em um cômodo quase vazio, que servia de quarto para alguns dos soldados de baixo nascimento do Vale, mas que estava em desuso então. Ela sabia que as vezes os homens se arrastavam até ali, com as empregadas da cozinha para algum divertimento, mas não hoje... não hoje.
Ela cerrou a porta atrás de si, depois que os dois estavam dentro e ergueu a vela acima da cabeça. Avistou um toco de vela em cima do peitoril da janela e tratou de acendê-la. Não havia muita mobilha no quarto, só uma cama velha com um colchão malcheiroso e um pequeno banco.
_ Sente-se, Clegane.
Sansa viu o Cão mancar em direção a cama e lhe pareceu uma escolha acertada, pois o banquinho não teria conseguido manter o seu peso. Ela se perguntou à toa o que teria acontecido com ele.
_ Eu lhe trouxe um pouco de vinho e queijo. – ela aproximou-se com os embrulhos e mesmo na luz bruxuleante das velas viu os olhos dele vagarem sobre o decote avantajado. Ele ignorou o queijo, mas desarrolhou o odre com os dentes e tomou um longo gole, sem tirar os olhos dela.
Sansa conhecia bem esse olhar agora, conhecia sobre os desejos de um homem. Alarmou-a um pouco, estar sozinha com esse homem em um quarto escuro na parte vazia do castelo, mas parte dela sabia que ele não a machucaria. Ele nunca fez. O silêncio cresceu entre eles, denso e pesado.
_ Eu pensei que você havia morrido. Fico feliz em estar enganada. – ela começou, casualmente arrastando o banquinho frágil para um pouco mais perto de onde ele estava. Perto o suficiente para que ele a visse com clareza, toda ela.
Sandor bufou – Ainda uma coisinha mentirosa, pelo que eu vejo. Não precisa tentar me enganar com essas falsas cortesias. Você não está feliz... Ficou tão assustada quando me viu que parecia ter visto o próprio Estranho. Agora veio aqui para falar comigo. Uma coisa te concedo, é verdade... Passei a tarde toda esperando topar com um dos capangas do Mindinho, mas pelo visto não deve ter contado para ele que me viu. Porquê?
Sansa decidiu por contar uma meia verdade – Acaba de voltar do mundo dos mortos, sor. Não tenho certeza se estou disposta a enviá-lo para lá assim tão depressa. Assustei-me, é verdade, mas foi porque não esperava encontra-lo aqui e também porque... – seus grandes olhos azuis, ela teve certeza, continham apenas a fragilidade suficiente para fisga-lo – temi que pudesse entregar aos outros quem eu sou.
A primeiro movimento do jogo: deixe-o pensar que tem alguma vantagem. Deixe-o acreditar que ela depende, mesmo que um pouco, da misericórdia dele. A desconfiança no olhar dele amansou, só um pouquinho e Sansa comemorou mentalmente, ela estava ficando boa nisso.
_ E de que isso me valeria, eu te pergunto? Pareço acaso com algum eunuco, que porque perdeu o pau, vive de descobrir e espalhar os segredos da corte? – ele mesmo riu de sua piada, bebendo outro gole do vinho.
_ A rainha pagaria uma boa recompensa pela minha cabeça. Talvez até lhe concedesse perdão, por ter desertado na batalha.
Sansa quase se arrependeu por ter mencionado aquele dia fatídico, quando as chamas encheram a Fortaleza Vermelha com sua agourenta luminosidade verde, quando o cão bêbado e assustado veio lhe roubar uma canção. Hoje ela sabia qual canção ele foi buscar de verdade e se surpreendia que ele tivesse se contentado com o que ela havia lhe dado.
_ Cersei pode enfiar seu ouro e seu perdão no cu. Joff devia ter morrido queimado, isso sim era o fim que aquele merdinha merecia. Mas então, suponho que devo um brinde a você e ao seu marido, o Duende – ele ergueu o odre – Regicidas. Um traço de família, pelo que eu vejo.
É claro que a notícia do seu casamento com Tyrion havia chegado até ele, junto com os boatos que inundavam o reino acerca da morte de Joffrey. Quão irônico que os verdadeiros assassinos agora desfrutassem de lugar privilegiado na corte, enquanto Cersei perseguia inocentes. Sansa mediu o que contaria a ele, era necessário ganhar sua confiança, apesar de tudo.
– Me casei com o Lorde Tyrion, sim. Mas não tive participação na morte de Joffrey. Foi uma sorte que Petyr tenha me ajudado a escapar justamente durante o casamento, ou do contrário provavelmente já teriam me enforcado como cumplice de um crime do qual sou inocente.
_ Petyr. Petyr. – ele zombou - É assim que o trata agora? Nunca imaginei que o Mindinho fosse se interessar pelos restos do anão, mas então... – olhou-a longamente – quem realmente se importa?
Sansa não gostou da insinuação – Fiz o que tinha que fazer para sobreviver.
_ Sim, você fez. Ninguém esperava que fosse sobreviver a tanto, não depois de Joff. Mas parece que o Passarinho trocou de gaiola. E trocou suas cortesias por outra coisa.
Havia alguma fúria no olhar dele e Sansa não havia esperado por isso. As palavras cruéis sim, mas não nesse sentido. Ela se sentiu mortificada, de repente muito descoberta sob o olhar desse homem.
_ Não é como você pensa. – ela se viu tentando argumentar.
_ Acho que não, acho que é exatamente como eu penso. Você saiu da cama do anão para cair na cama do Mindinho, é a verdade crua.
Oh, Sansa havia descoberto como os homens valorizavam a virtude de uma mulher. Como ao mesmo tempo que procuravam corrompê-la, envaidecia-os pensar que eram os primeiros. Que eram tão sedutores e irresistíveis que haviam conseguido ultrapassar as barreiras que as Septãs tão fervorosamente tentavam incutir em suas pupilas. Petyr havia se envaidecido quando ela confessou (falsamente) que fora com ele que ela experimentara, pela primeira vez, a sensação de ser beijada. Orgulhava-o saber que ele e apenas ele havia descoberto alguns segredos deliciosos de Sansa Stark. Ela imaginou que o Cão também se envaideceria, se algum dia fosse esse o caso.
_ Eu não me deito com ele. – ela tentou explicar. Fique corada Sansa, fique corada! Ela tentou parecer envergonhada, humilhada. Seus olhos com um brilho de lágrimas não derramadas – Eu o beijo, as vezes – ela assumiu, porque o Cão não poderia ser tão obtuso a ponto de acreditar que o dono de bordel mais famoso de Westeros iria deixá-la completamente livre de suas garras – Mas é preciso manter a minha... a minha honra intacta se eu quiser anular meu casamento com Lorde Tyrion.
_ Você está me dizendo que nenhum deles, mesmo quando era o seu direito, foderam você? Que homem de verdade resistiria a esse belo par de tetas, Passarinho? – ele riu, sua risada rouca e cruel, o vinho subindo rapidamente depois de um longo período de abstinência.
Sansa se encolheu no uso da palavra vulgar. Homens melhores talvez estivessem mais aptos a acreditar na honra de outros homens com mais facilidade. Mas esse era o Cão de Caça, e desde muito cedo ele já conhecia os monstros do mundo. – Você resistiu, naquela noite quando você veio ao meu quarto. Você sabe o que você queria fazer... – ela olhou para o chão, quase com temor e então, num ato de confiança e coragem ergueu os olhos para encontrar os dele – Mas você me roubou apenas um beijo e uma canção diferente e depois foi embora.
Ela pareceu chocá-lo ao trazer essa lembrança à tona, aquele momento em que o Cão poderia tê-la arruinado para sempre. Ele estava tão bêbado. Teria ele guardado essa lembrança, do mesmo jeito que ela guardou? Se lembraria daquele beijo cruel e áspero? Das lágrimas que se misturavam com o sangue em seu rosto? Do cheiro de fumaça e vômito? Sansa se lembrava com clareza de cada detalhe, do seu aturdimento quando o Cão se inclinou em sua direção, colou seus lábios aos dela e depois foi embora num rompante, deixando-a com o gosto estranho de sangue e vinho na boca.
Oh, ele se lembrava. E mesmo agora essa lembrança lhe era custosa. Sansa era tão pequena debaixo do corpanzil dele e ainda assim, tão quente, tão macia. Como ele desejou poder se deleitar com as curvas dela, mas ela estava trêmula e tão, tão assustada. Seus olhos muito azuis arregalados de medo, custando a mirar seu rosto hediondo. Seu irmão o havia transformado em um monstro por fora, enfurecia-o que as pessoas tivessem medo e nojo apenas de olhar para ele, mas olhavam e tocavam sem receio a pele sem mácula de monstros de verdade, como Gregor ou Joffrey. Naquela noite ele quase se tornou o monstro que todos achavam que ele era, mas algo o impediu. Ele nunca quis que Gregor completasse sua obra, sempre se recusou a ser como o irmão. Isso e o terror nos olhos dela, ele não suportaria.
As palavras do Irmão Mais Velho vieram a Sandor nesse momento – Talvez algum dia você encontre essa garota outra vez, irmão. E talvez nesse dia você possa pedir a ela perdão pelo homem cruel que você foi, pelo que você quase fez. E talvez... talvez, quando ela lhe perdoar, você possa encontrar em seu coração espaço para perdoar a si mesmo.
Ele mirou o chão, sem coragem de encontrar os olhos dela, subitamente grato pelas bandagens que ainda envolviam seu rosto, certo que a visão de sua face horrenda a fariam menos benevolente – Não foi certo – ele disse bem baixinho e então pigarreou, tentando deixar a voz mais clara – o que eu quis fazer com você naquela noite. Eu estava bêbado e meio louco, por causa da merda do foto... E eu só pensava... Não que eu tivesse... Foda-se, Passarinho, eu não sei como fazer isso.
Ocorreu então a Sansa que essa era a tentativa atrapalhada de Sandor de se desculpar e uma partezinha quase extinta do seu coração se permitiu experimentar um arroubo de afeto por esse homem alquebrado na sua frente – Está tudo bem, eu não guardei mágoas daquele dia.
Sandor acenou e Sansa foi tomada pela súbita vontade de ver o rosto dele, o rosto dele inteiro – parte queimada e intacta, mas se conteve.
_ Você parece melhor, muito melhor do que em Porto Real – ele disse, finalmente erguendo o rosto para encará-la – É uma mulher agora, mas não confie que Mindinho vai se contentar com beijos para sempre. Nenhum homem se contentaria.
_ Eu não vou ficar com o Mindinho para sempre. Estou noiva. – ela contou, porque não era exatamente um segredo que ela estava comprometida com Harry, o Herdeiro – Bem, Alayne Stone está noiva.
Se Sandor não gostou de ouvir a notícia do seu noivado, ele disfarçou bem – E seu noivo não sabe quem é você de verdade.
_ Ainda não. – ela confessou – Não é seguro. Meu primo tem a saúde frágil e ficou ainda mais doente depois da morte da tia Lysa. Honestamente, eu não acho que ele vá chegar a idade adulta, mesmo com todos os nossos cuidados. Harry, meu noivo, é o herdeiro depois de Robert.
Novamente, Sansa não havia contado nada que fosse secreto. Tudo isso era de conhecimento geral, muito embora pudesse parecer um gesto de confiança para Sandor.
Ele pareceu pensar um pouco – Suponho que depois de se casarem esse Harry vá viver apenas tempo suficiente para colocar um filho na sua barriga e então você terá o controle do Vale e... do Norte.
Ela se surpreendeu um pouco por ele ter juntado os pontos assim, tão rápido. Ela sabia que ele era um soldado competente, mas não pensava que fosse assim tão perspicaz.
_ E do Norte. – ela confirmou – Mindinho me prometeu que eu vou recuperar Winterfell.
_ Não vai ser fácil, principalmente se ele acha que Roose Bolton vai abrir mão facilmente do seu maior trunfo, mesmo com a falsa Arya.
_ Não, mas a minha pretensão é melhor do que a de Arya... Como você sabe que é uma falsa Arya? – novamente, Sansa se surpreendeu com esse homem. Como ele sabia que, lá longe no Norte, uma menina qualquer que fingia ser a filha mais nova de Eddard Stark havia se casado com o bastardo Bolton?
Sandor a olhou longamente – Porque eu estava com a verdadeira, quando chegou a notícia de que o bastardo tinha se casado.
Os olhos dela se arregalaram em surpresa e ela levou a mão a garganta – Arya está viva?
_ Não sei se ela continua viva, Passarinho. Mas sim, ela estava bem viva da última vez que a vi. – ele disse, algo entre um estranho carinho e certo rancor.
_ Mas como? Como isso aconteceu? Todos pensam que ela está morta! Perdida entre os cadáveres no dia em que prenderam o senhor meu pai.
_ Devo a ela essa queimadura aqui. – ele ergueu o braço e arregaçou a manga, mostrando a Sansa queimadura que ela havia notado anteriormente – A ela e àquele idiota do Dondarrion. Ela era cativa dele quando os encontrei e eles roubaram o meu ouro. Então eu a raptei, para conseguir um resgate do seu irmão. Estive com ela nas Gêmeas, durante o Casamento Vermelho... Ia entregá-la a sua mãe e pegar o resgate, mas quando chegamos eles já tinham assassinado o seu irmão e a sua mãe. Ia vir para cá, no Vale, entregá-la a sua tia Lysa, mas fomos abatidos no meio do caminho por homens do meu irmão... Foi onde eu consegui isso – ele esfregou a perna aleijada – Nós saímos de lá, mas a ferida infeccionou e eu estava morrendo. Pedi a ela o dom da misericórdia, mas ela me deixou morrendo à beira do Tridente e foi embora. Não sei para onde a lobinha foi, não sei se morreu no caminho. Mas eu sei que eu a vi matando pelo menos dois homens adultos com as próprias mãos. Se eu tivesse que apostar, apostaria que ela está viva em algum lugar, esperando a hora certa de aparecer. Ela sabe se virar.
Sansa não sabia se conter de tanta alegria. Arya estava viva! Viva! Ela não estava mais sozinha. As lágrimas vieram sem que ela fosse capaz de conter, lágrimas de um choro mais sincero do que ela se lembrava de chorar há muito tempo. Ela viu surgir em seu campo de visão um quadrado simples de pano, um lenço que o Cão lhe oferecia, meio sem jeito. Ela riu em meios as lágrimas, recordando que o Cão parecia viver para lhe oferecer tecidos: um lenço, uma capa... Quão estranho que esse homem tão bruto podia se mostrar tão gentil as vezes. Ela aceitou o lenço e limpou com delicadeza suas lágrimas, tentando se recompor.
_Obrigada, sor. Você não faz ideia do quanto essa notícia me deixa feliz.
_ Não sou nenhum cavaleiro. – O cão resmungou, parecendo constrangido.
Não – ela pensou – Você nunca foi nenhum cavaleiro. E ainda assim consegue ser mais gentil que muitos deles. Que muitos lordes, que muitos reis. Ainda tomada por essa felicidade, num súbito arroubo de imprudência Sansa se levantou de repente, fechando o espaço entre eles para depositar um beijo casto no rosto do Cão, quase uma donzela que oferece o seu favor ao seu campeão. Ela não soube dizer mais tarde se aquele gesto fora calculado ou espontâneo, mas mesmo no escuro do seu quarto ela ainda se sentia meio constrangida ao se lembrar de como se sentiu a pele dele sob seus lábios. Ela se afastou rapidamente, um pouco surpresa, um pouco encabulada.
_ Não precisa fazer isso. – ele disse, depois de um longo e desconfortável silêncio, sua mão pousada no lugar onde os lábios dela haviam tocado. Sandor ergueu o odre aos lábios e olhou-a com olhos insondáveis – Seja o que for que tenha aprendido com o Mindinho para agradecer um homem, não quero que faça comigo. Não precisa me beijar.
Sansa sentiu a face em chamas. Qualquer outro homem teria aceitado de bom grado aquele beijo casto, um sinal quase modesto de afeto depois do favor que ele havia lhe feito. Mas Sandor, que até poucos momentos atrás fora tão gentil lhe oferecendo o lenço, agora devolvia-lhe o beijo com um insulto.
_ Não... eu estava apenas feliz. Eu não quis te seduzir ou... ou usar qualquer coisa que o Mindinho tenha me ensinado. Eu só estava o agradecendo, sor, por ter me contado sobre a minha irmã. Eu sinto muito.
Um longo silêncio pairou entre eles, interrompido somente pelo barulho suave de Sandor engolindo com gosto outro gole de vinho. Ela estava quase se levantando quando ele tornou a falar.
– Que seja, Passarinho. Não importa. Vou embora assim que o dia raiar. Não precisa incomodar o senhor seu pai com a notícia da minha estadia no Vale, não tenho pretensão de entregar seu segredo.
_ Eu não teria vindo se pensasse que você me entregaria.
Ele não se ofereceu para resgatá-la outra vez. Essa não era mais a mesma garota de Porto Real, a gaiola na qual o Mindinho a mantinha, embora oferecesse alguns riscos, era mais confortável do que a que tinha na corte, se ela não aceitara então, porque aceitaria agora? Ele assentiu solenemente, mas não disse nada.
_ Você mudou. – Ela constatou de repente, à guisa de despedida, encarando-o de frente.
Ele a encarou de volta e de repente notou também o que havia mudado nela. O que parecia tão fora do lugar na aparência do seu Passarinho. Com um sobressalto ele percebeu que fora isso que o atraiu o tempo todo, que a fazia parecer irresistível aos seus olhos, mesmo quando ela ainda era jovem demais. Não foi sua beleza que o atraiu. Foi a inocência. Foram os sonhos e canções que ele tanto tentou esmagar para que ela sobrevivesse. Ela sobreviveu de fato, mas ele lamentou a perda da inocência em seu olhar.
_ Você também mudou, Passarinho.
_ Eu sei. – ela disse tristemente – Eu sei. Mas não tanto quanto imagina.
_ É bom que tenha mudado. Não dá para viver nesse mundo e continuar a acreditar nesses contos de merda com que encheram sua cabeça quando você era criança. Mas ainda é uma tola se por um segundo qualquer acredita nas boas intenções do Mindinho, ele pode não ter assassinado o seu pai, mas garanto que se pudesse a mão dele também teria segurado aquela espada.
Sansa sentiu-se na obrigação de defender o homem que a havia livrado de Joffrey – Petyr não trairia meu pai, ele prometeu a minha mãe que o ajudaria e eu sei que ele a amava. Que homem quebraria uma promessa feita a mulher que ama?
_ Amava, é? Uma mulher viúva é mais fácil de levar para cama do que uma casada, se quer saber. Se acredita nas mentiras do Mindinho, não importa que lhe tenham crescido tetas menina, ainda é o estupido passarinho cantando suas canções em Porto Real. – Ele tomou outro gole do vinho.
Sansa confiava em Mindinho, apesar de tudo. Ele a havia livrado de um destino terrível em Porto Real, e mesmo com seus avanços indesejados, ela se sentia grata.
_ Você realmente acredita que Petyr teve alguma participação no que aconteceu com o meu pai?
_ Não sou um homem de segredos e tramoias, não tenho passarinhos sussurrando para mim como a Aranha. Mas um cão vai morrer por você, mas nunca mentir para você.* Tenha cuidado, Passarinho– ele disse, simplesmente.
Tem olhos honestos - ela pensou, ao encarar seus olhos cinzentos - Olhos dos homens do Norte. Havia algo ali, algo diferente. Ela não tinha certeza se gostava ou não, mas tinha certeza que a censura nos olhos dele lhe parecia pesada demais. Sandor se levantou num rompante e sem nenhum adeus foi embora mancando pelo corredor escuro.
Ela havia encontrado seu próprio quarto tão silencioso como quando saíra, com a benção dos Sete. Randa tinha o sono pesado e doses extras de vinho no jantar não a ajudavam a manter a vigília. Sansa não conseguiu dormir, remoendo em sua cabeça tudo o que sabia sobre Mindinho.
É possível que tenha traído seu pai? Ou o papel que ele dizia desempenhar era apenas uma tentativa de se resguardar? Ela tinha certeza que ele poderia ter feito isso, salvar a sua pele mesmo que para isso tivesse que condenar Lorde Eddard.
Ocorreu-lhe então uma lembrança tardia, sua tola tia Lysa, que tanto amava Lorde Petyr, confessando seus pecados antes de ser atirada sem nenhuma clemência pela Porta da Lua. Mindinho tramara a morte de Jon Arryn, tramara para que a senhora sua mãe acreditasse que os Lannister haviam feito isso. Poderia ter tramado a queda de Bran? A senhora sua mãe culpou os Lannister por isso e Lorde Tywin declarara guerra. Seu pai se indispôs com o rei e os Lannister e daí para frente tudo deu errado. A mão de Petyr estaria por trás desses acontecimentos? Seria ele um jogador tão audacioso, capaz de prever com exatidão os movimentos dos seus oponentes? Sansa sabia que ele era inteligente, perspicaz... Que mesmo nas circunstâncias mais inoportunas ou suspeitas ele havia conseguido se safar com maestria. Ela sabia que ele era paciente... não estava agora mesmo tramando conquistas que talvez lhe levariam anos para usufruir?
Só amei uma mulher, garanto. Só Cat. – a voz de Mindinho ressoou e ele empurrou Tia Lysa. Uma mulher viúva é mais fácil de levar para cama do que uma casada, se quer saber. – disse o Cão com sua voz rouca. E no entanto a Senhora Catelyn estava morta e Mindinho não poderia tê-la mais, mesmo se conseguisse o seu favor. Mas ele tem você. Você que se parece tanto com ela. – ela pensou e um sentimento de nojo e horror se instalou no fundo de suas entranhas.
Se Sansa algum dia sentiu algum deleite nos beijos mentolados de Mindinho, agora ela se envergonhou desse sentimento. Agora a perspectiva de ter os lábios dele sobre os dela outra vez a enchiam de repulsa.
Deitada na cama, ouvindo Randa ressonar levemente, Sansa se dedicou a pensar em suas opções, nos movimentos que poderia fazer e em suas consequências, tentando antecipar os movimentos dos oponentes. Em sua cabeça Sansa se imaginou num duelo de cyvasse, um jogo que ela não havia praticado muito na infância, embora conhecesse bem as regras. Lhe parecia apenas a licença poética adequada se imaginar jogando esse jogo complexo. Ela se lembrava de Sor Rodrik ensinando o jogo aos seus irmãos, de ver Robb e Jon entretidos algumas tardes, absolutamente concentrados nas peças. Sansa achava o jogo entediante, complexo demais para a sua cabecinha.
Não se preocupe. – Havia lhe garantido a Septã Mordanne, certa vez – Não é necessário que as mulheres aprendam cyvasse. Isso é para os homens e suas guerras, para que aprendam sobre estratégia e estejam aptos a defender suas crianças e mulheres. Você não precisa disso, minha querida, o senhor seu pai vai lhe encontrar um marido adequado, um que tenha aprendido todas essas artes e que seja capaz de defende-la, caso chegue a hora.
Como ela estava errada. Todos os homens bons estavam mortos, não havia ninguém para defende-la agora. Sansa precisava aprender a proteger a si mesma e não havia sequer sido preparada para isso. A cortesia é a arma de uma mulher. Nem todas as cortesias do mundo haviam salvado Septã Mordanne, ou sua mãe... todas as suas cortesias não a haviam protegido de Joffrey. Alguma cortesia poderia salvá-la de Mindinho?
Sansa não era tola. Ela sabia que Mindinho eventualmente iria querer entrar em sua cama, se não fosse agora, quando seu manto de donzela precisava permanecer intacto, talvez depois da noite de núpcias com Harry. Talvez antes, se ele estivesse se sentindo particularmente imprudente, mesmo Harry não objetaria muito em se casar com uma mulher corrompida, se ela significasse a chave para o Norte.
E era isso que Sansa era para todos os seus pretendentes, a chave para o domínio do Norte, ela sabia disso agora. A ela só foi permitido ser noiva de um príncipe por causa do seu sobrenome. Stark, era isso que todos queriam. Quase ninguém se importava com a Sansa, todos se importavam com a mulher Stark.
Petyr podia bancar o homem apaixonado, mas ela duvidava que ele seria tão obsequioso se ela fosse uma qualquer. Ele podia invocar nela o espirito da mulher que ele amava e mesmo que seu amor por ela fosse verdadeiro, Sansa sabia que ele amava mais a si mesmo. Ela não podia ter certeza se ele traiu ou não Lorde Eddard, mas ela tinha certeza de que ele não hesitaria em fazê-lo. E a ela? Petyr a trairia alguma vez?
Se ela se rebelasse, se recusasse a casar-se com Harry, se recusasse a receber passivamente seus avanços inadequados... Ele continuaria a trata-la com afeto e cortesia? Ali ela estava totalmente dependente da benevolência dele, uma palavra em falso, um gesto descuidado e Petyr poderia entregá-la de bandeja aos seus inimigos, não poderia?
Outro Cavaleiro. – ela pensou – Outro Cavaleiro de armadura dourada que se transforma em monstro. Eu não sou nenhum Cavaleiro. – A voz do Cão ressoou forte em seus ouvidos, mesmo na escuridão do quarto. – Podia mantê-la a salvo. Todos têm medo de mim. Ninguém voltaria a lhe fazer mal, caso contrário eu os mataria.*
O dia ainda nem raiara. Os empregados estavam começando suas tarefas, nas cozinhas os fornos começavam a assar, mas os senhores do castelo continuavam adormecidos em suas camas quentes e macias. Sansa saiu apressada do seu quarto, depois de ficar acordada a noite toda, pensando febrilmente no que faria, qual seria seu próximo movimento. Decidira-se por um movimento arriscado, sem garantias, mas um movimento que talvez permitisse que ela estivesse no jogo por mais tempo. Encontrou-o nos estábulos, selando a besta negra que era o seu cavalo e suspirou de alívio – receava que ele já tivesse partido.
_ Eu aceitaria sua oferta dessa vez. – ela disse, cuidadosamente, à guisa de bom dia.
O Cão virou-se rapidamente, alarmado. Mas acalmou-se ao ver a moça esguia a sua frente. Ela tinha passado na cozinha e carregava alguns alimentos para entregar as irmãs silenciosas, seu pretexto para estar acordada a essa hora. Ouvi dizer que elas madrugam em suas orações. Estão fracas e são mulheres santas, merecem um pouco de atenção. Não era estranho, portanto, que trocasse algumas palavras com um dos Irmãos, perto dos estábulos.
_ Que oferta?
_ Você se ofereceu para me ajudar a fugir uma vez, lembra-se? Eu aceitaria se você me perguntasse agora.
Ele encarou-a longamente, estupefato. O que essa menina estava sugerindo? Ele faria isso? Uma coisa era ele escapulir sozinho, outra completamente diferente seria ele escapulir com Sansa Stark. Estariam atrás deles rapidamente, Mindinho jamais permitiria perder seu trunfo no Norte.
_ Diabos, menina... O que está me pedindo?
Sansa mordeu o lábio inferior... tão assustada, tão temerosa. Tão tentadora. Ela precisou esconder um ligeiro sorriso que teimou em aparecer quando ela viu o olhar do Cão cravado em sua boca.
_ O que você me disse ontem... Você estava certo. Lorde Baelish – ela evitou cuidadosamente chama-lo de Petyr – não é confiável. Ele me tirou de Porto Real é verdade, mas penso agora que ele sempre teve planos para mim. Esse casamento esteve armado o tempo todo... Ele até pode cumprir sua promessa de me levar para Winterfell, mas eu nunca teria o controle do Norte, nunca estaria segura de verdade. Eu pensei muito a noite toda, acho que sei como conseguir minha casa de volta sem a ajuda dele. Mas não posso fazer isso sozinha, não consigo. – ela piscou e uma gorda lágrima perolada rolou sobre a sua face rosada de frio - Foi um erro não ter aceitado sua oferta da primeira vez. Eu vejo isso agora.
Ele olhou para ela, medindo-a, duvidando – Isso é alguma armadilha?
_ Não, sor, eu juro. Só quero sair daqui, não quero mais nenhuma gaiola.
_ Como vamos passar pelos portões com você? Eu poderia passar sem problemas, mas a filha bastarda do senhor do Vale não tem essas regalias.
_ Eu tenho um plano, vai dar certo. Apenas espere mais um pouco. – ela sussurrou – Mindinho vai viajar hoje, se eu não me despedir dele ele vai saber que tem algo errado. Partimos depois, a ausência dele vai nos comprar um pouco de tempo, creio eu.
Sandor olhou para essa jovem mulher parada ao seu lado, implorando por ajuda. Essa linda mulher. Mesmo em seus sonhos mais ousados ela nunca teria de bom grado se juntado a ele, recorrido a ele para salvá-la. Algo em seu íntimo o alertou, apontou que havia muitas peças que não se encaixavam nessa estranha incógnita que havia se tornado Sansa Stark, mas outra parte dele estava mais que feliz em ignorar esse seu lado cuidadoso, uma parte que havia sobrevivido ao fogo, uma parte que ainda era um garotinho com sonhos de cavalaria – Muito bem.
Todo o ar que Sansa estava segurando escapou em um suspiro aliviado, ela ergueu a mão, equilibrando com cuidado a pesada bandeja, para dar um aperto firme e carinhoso no braço forte de Sandor, deixando escapar um sorriso quase secreto, seus olhos agradecidos encarando suavemente os dele - Basta ficar escondido então... já informei a ele sobre os Irmãos e não mencionei nada sobre você, mas ele o reconheceria se o visse, mesmo com as bandagens. Evite entrar no caminho dele que tudo ficará bem.
Sandor assentiu, o rosto severo – Veja se arranja um jeito de não acabarmos mortos. Porto Real eu conhecia bem... essa terra aqui que me é estranha.
_ Eu sei. Vai dar tudo certo, eu juro. Apenas seja um pouco mais paciente.
Sansa voltou com passos firmes em direção as cozinhas agora que a primeira parte do seu plano estava concluída. Os empregados, já atarefados com seus muitos afazeres, não repararam na estranha volta até os estábulos que a filha do Senhor Baelish dera para entregar uma refeição as irmãs, cujos quartos não eram muito distantes da cozinha e se algum reparou não fez questão de fazer notar essa estranheza.
Das três irmãs que chegaram ao Vale duas pareciam bem o suficiente, mas uma terceira parecia encarar suas últimas horas. O Meistre tinha tratado dela na noite anterior, mas sua condição não melhorara em nada. Ferira-se a caminho e agora ardia em febre e balbuciava palavras sem sentido. Suas irmãs de fé colocavam panos frescos em sua testa, tentando abrandar a febre, mas não adiantava. O fogo a consumia.
_ Terrível... terrível... Havia algo ali nos observando, eu senti... eu senti. - A mulher sussurrava e se debatia freneticamente, horrorizada. E a outra tentava acalmá-la com gestos.
_ Ela vai ficar bem? – Sansa perguntou, deixando a bandeja sobre uma mesinha e se aproximando. As irmãs olharam para ela com expressões confusas, uma delas simplesmente balançou a cabeça com veemência, apontando em direção ao céu e depois juntando as mãos em oração. Ela se lembrou que eram Irmãs Silenciosas, haviam feito um voto de silêncio.
_ Devia ter contado, menti a vida inteira para protege-lo, mas não posso morrer com essa mentira. Os Sete não me perdoariam. Preciso me confessar. – a Irmã enferma parecia alheia aos seus votos. Sua voz era rouca e pesada e parecia-lhe um esforço enorme falar.
Os olhos dela eram brilhantes e ardentes e Sansa sentiu pena da mulher, talvez alguma culpa por incluí-la nesse seu plano de fuga, o plano que a tiraria em segurança do Vale.
_ Você. – ela ordenou, apontando para a terceira irmã no quarto – Vá procurar nosso Septão. Ele deve ouvir suas confissões e acalmá-la na morte. E você – ela indicou a mulher que cuidava da enferma – Vá procurar o Meistre, talvez leite de papoula lhe conceda algum alívio. Ficarei aqui com ela até voltarem. – ela arrastou um banco até perto do leito da irmã e gentilmente tomou a mão dela na sua, consolando-a.
Bastou as irmãs se afastarem pela porta que Sansa, ainda que com gentileza, largou a mão da mulher, para procurar entre as trouxas que haviam trazido consigo da Ilha Silenciosa, pelas vestes das irmãs. Elas não haviam trazido muito, talvez pela pressa em escapar, talvez porque já não tivessem muitos pertences... Alguns vieram apenas com as roupas do corpo. Mas não fazia sentido deixar a Irmã Wylla completamente vestida e coberta em seu febril leito de morte e assim ela encontrou as vestes dela cuidadosamente descartadas em um canto. Estavam sujas e cheiravam a suor e doença, mas serviriam bem ao seu propósito. Não foi fácil dobrar as vestes cuidadosamente e escondê-las dentro das grossas roupas de baixo que Sansa havia escolhido vestir essa manhã, a todo momento ela olhava receosa para a porta, horrorizada com a possibilidade de alguém entrar e pegá-la em ato tão constrangedor, com as saias arguidas acima da cintura, roubando de uma moribunda. Graças ao Sete ela conseguiu sem nenhum grande transtorno e observando-se cuidadosamente concluiu que o volume da saia do seu vestido ocultava bem o fato de que havia algo além das suas roupas íntimas por baixo.
Sansa voltou para perto da irmã, finalmente livre para prestar atenção aos delírios que ela não cansava de entoar, quase em desespero. Ela mergulhou uma faixa de tecido na água fresca e gentilmente limpou a testa da irmã repleta de suor. O quarto tinha cheiro de morte.
_ Minha senhora Lyanna... – a mulher sussurrou, seus olhos arregalados mirando o teto e vendo coisas que já não estavam ali – Me perdoe... me perdoe. Não consegui salvá-la, não consegui.
_ Shhh... acalme-se... O alívio já vem.
_ NÃO VEM! – ela gritou – Não vem... O príncipe criado como um bastardo. Um bastardo... Não é certo... não é direito. E eu me calei... o senhor ordenou e eu calei minha boca e dei de mamar ao menino. Me perdoem Sete, mas menti por tempo demais.
_ Já passou, irmã. Já passou...
_ Eu não me deitei com ele... o menino não era meu. Era da Senhora Lyanna. Tirei o filho dela, tirei dele o direito de nascença... o principezinho. Não me deitei com Lorde Eddard... o menino não era meu...
O nome do pai trouxe a atenção de Sansa para os delírios da mulher. Lorde Eddard... Senhora Lyanna... Poderia ser do seu pai e sua tia que a mulher estava falando?
_ Lorde Eddard? Lorde Eddard Stark? É dele que a senhora fala?
A mulher agarrou o pulso de Sansa com uma força impossível para alguém tão doente – Sim! O honroso Lorde Eddard... encontrou-nos naquele dia. A senhora Lyanna estava tão fraca, tão fraca... Não pude salvá-la, mas salvei o neném, ela implorou para que ele vivesse, para que fosse escondido do novo Rei. Lorde Stark, ele não queria... não sabia do amor deles, do casamento, mas prometeu a ela que cuidaria dele, sangue do seu sangue. Então ele pegou o príncipe Jon e me obrigou a falar que era seu bastardo. O filho de meu Senhor Rhaegar com sua amada Senhora Lyanna... o príncipe... o príncipe... virou um bastardo. E eu me calei. Eu me calei. Não contei do seu pecado... não contei a ninguém. Mas não posso morrer com isso, não posso! Os Sete não me aceitarão.
Sansa estava chocada. Aterrorizada. Havia alguma verdade nos delírios moribundos dessa senhora?
_ É verdade isso? Diga-me, é uma ordem.
_ Oh... é verdade. Ele queria que ela se casasse com o Rei... o que virou Rei Robert. Disse que ia contar ao mundo que o menino era de Rhaegar, como era certo. Como era direito. Mas então minha senhora desesperou-se... ela amava... amava o príncipe, se casara com ele. "Não vou me casar com Robert" ela disse "Ele não vai aceitar o meu filho" e ela estava morrendo, não poderia se casar mesmo se quisesse... "Prometa-me Ned" minha senhora disse "Prometa-me que não vai entregar Jon a Robert, prometa-me que não vai deixa-lo matar o meu filho" e ele prometeu. E o neném chorou e o Senhor o tirou de mim e olhou para ele e para sua cabecinha cheia de cachos negros e seus olhos escuros. "Ele é do sangue de Lyanna... não há nenhum traço dos Targaryen nele... Você vai dizer que ele é seu filho, está me ouvindo? Vai dizer que se deitou comigo e essa criança é meu bastardo. Ele estará a salvo assim." E foi o que eu disse... e os Sete me perdoem... foi o que eu fiz. E o pequeno príncipe virou um bastardo. Que os Sete me perdoem.
Sansa olhou descrente para a mulher, sem saber ao certo como encarar isso. Seu pai havia chegado a Winterfell com uma criança bastarda, seu meio-irmão Jon Snow, para a fúria da Senhora Catelyn. E a sombra da traição sempre pesou sobre o honroso Lorde Eddard Stark. Mas poderia ser pior? Ele aceitou a desonra de trair sua esposa para cumprir a promessa que fizera a irmã? Para proteger Jon?
Ninguém nunca soube quem era a mãe de Jon. Lorde Eddard nunca permitiu que se tocasse no assunto, mesmo Jon não sabia sequer o nome dela. Mas que motivos seu pai teria para manter isso secreto? A não ser que a verdade fosse amarga e terrível e perigosa... Como o relato dessa mulher.
Sansa olhou para ela horrorizada, sem ousar acreditar nesse relato que parecia tão fantástico e notou que a mão da mulher que prendia seu pulso afrouxara e pendia agora mole sobre a borda do colchão. Os olhos dela estavam baços, sem foco. Não viam mais nada. O Irmã finalmente confessara seu pecado e sentira-se livre para partir.
Delicadamente Sansa fechou os olhos dela, quase no mesmo instante que o Septão vinha adentrando apressado o quartinho. – É tarde demais – ela disse – É tarde demais.
Sansa se afastou com pressa, tentando colocar ordem em seus pensamentos. Tentando entender essa estranha reviravolta. Mas fazia sentido, tanta coisa agora fazia sentido. Foi como se ela tivesse passado a vida inteira observando uma tapeçaria que contava a história da família Stark, sabendo o tempo todo que alguns detalhes foram propositalmente escondidos. O que ela descobrira, na verdade, é que não se tratava apenas de omissão. Lorde Eddard havia ele mesmo bordado uma história alternativa por cima da história verdadeira, escondido aos olhos de todos, mesmo do próprio rei ou da esposa, o seu maior segredo. E agora, com o relato perturbador dessa mulher – Wylla, era esse o nome dela? – Sansa havia descoberto um fio solto, que ao ser puxado não descosturava a tapeçaria, não abria nenhum buraco, mas revela por baixo uma história completamente diferente e que, ela percebia agora depois de vê-la pela primeira vez, era uma história muito, mas muito mais condizente do que aquela que havia ali antes. Era uma história terrível sim, mas infinitamente mais bonita. Era uma história que conciliava para sempre a imagem do honroso Lorde Eddard Stark, esse homem que havia desistido da própria honra para cumprir uma promessa a sua amada irmã. Sansa sabia, sabia bem nos seus ossos, que esse era o tipo de sacrifício que o seu pai teria feito.
Meu pai protegeu Jon. Protegeu-o da ira de Robert. Rei Robert jamais permitiria que ele vivesse, não se ele fosse um Targaryen, seria uma lembrança ruim... um estorvo na sua pretensão ao trono. Que os Sete tenham piedade... meu meio-irmão Jon Snow é o último filho de Rhaegar Targaryen, é herdeiro do Trono de Ferro. ²
Alayne beijou o senhor seu pai na bochecha antes de ele partir com seus homens do Vale, logo no início da tarde. Sansa sentiu um gosto amargo - Eu sei o que você fez Mindinho, eu sei o que você tramou. Mas ela sorriu e acenou para ele em sua despedida, desejando boa sorte em sua viagem e depois foi colocar o resto do seu plano em prática.
Ela juntou algumas joias que havia ganhado de Mindinho e surrupiou discretamente algumas das provisões que deveriam encher os alforjes dele, inclusive uma bolsa de veados ouro. Dos vestidos que pertenciam a tia deixou quase todos, mas levou alguns mais quentes e uma capa com forro de lã. Apenas um era um vestido fino, de seda cinza. Foi o primeiro que pediu a costureira para reformar, quando chegou ao Vale, saudosa que estava de vestir as cores de sua Casa. Mas Mindinho nunca a deixou usá-lo. Mas ele serviria agora... se tudo desse certo ela ia precisar dele.
Ela mesma levou alguns mantimentos para os homens santos reclusos sem seus quartos, ouvindo os servos murmurarem acerca dos cuidados que ela, tão caridosamente, dedicava aos servos do Sete que vieram se refugiar no Vale. Enrolado ao redor da caneca, que ela tomou o cuidado de entregar a Sandor, estavam as instruções acerca de sua fuga. Estava tudo pronto, eles só precisavam aguardar.
ESPAÇO
_ Você viu o tamanho daquele irmão? – Myranda perguntou, enquanto jantavam em seus aposentos – Aquele, todo enfaixado.
_ Eu notei. – disse Sansa, cuidadosamente – É muito alto.
_ E forte, parece um soldado. Me pergunto como é que foi se tornar um Irmão.
_ Teria que perguntar a ele.
_ Será que tem o rosto bonito? Ou será que tinha o rosto bonito, agora deve estar uma bagunça, para usar todas aquelas bandagens... mas será que foi bonito um dia? – essa mulher parecia sempre andar atrás de rostos bonitos para flertar, a viuvez a fazia cada vez mais desejosa de provar novas iguarias masculinas.
Não. – Sansa pensou – Seu irmão acabou com suas chances de ser bonito no dia que enfiou sua cabeça nas chamas. - Eu não sei, Randa. Vai ver que não, nunca vi um Irmão que fosse bonito.
Mas ela tentou imaginar... duas metades iguais no rosto de Sandor Clegane. Duas metades ilesas. Um rosto feroz sim – ela decidiu – Mas não bonito. Um rosto comum.
Myranda riu do seu comentário – Pois eu já vi. Ele era jovem e louro e forte. E tinha uns olhos azuis brilhantes. Será que os deuses me culpariam se ele quebrasse os seus votos e me levasse para a cama?
Sansa lançou-lhe um olhar de censura – Creio que os deuses o culpariam por quebrar os próprios votos. Mas culpariam você por permitir um homem na sua cama de solteira.
_ Ah, os Deuses devem ter mais preocupações do que prestar atenção em para quem eu abro as pernas. Uma mulher também tem o direito de ter o seu prazer.
_ Com o senhor seu marido, sim. – Sansa disse, lembrando das antigas lições da Septã Mordanne e tentando esquecer seus encontros com Mindinho.
_ Você não se casou ainda Alayne... mas quando se casar vai descobrir depressa que o senhor seu marido vai estar mais preocupado com o próprio prazer do que com o seu. Eles só vão subir em cima de você, meter algumas vezes e depois cair no sono. Nunca obtive prazer com o meu marido. Mas talvez Harry se mostre uma agradável surpresa, sim?
Sansa corou, mas permaneceu calada. Se tudo desse certo ela nunca descobriria quais surpresas Harry, o Herdeiro, poderia ou não revelar.
_ Mas acho que ele deve ser grande. – Randa continuou perdia em suas próprias ruminações, apoiando o queixo em uma das mãos ao mesmo tempo que levava o garfo a boca, mastigando pensativamente.
_ Harry? Bem, ele é alto, mas não é muito musculoso, aparentemente. Não sei se grande o descreveria bem.
Myranda riu com gosto, como se tivesse ouvido uma piada muito engraçada. Sansa apenas olhou-a sem entender.
_ Não estava falando do Harry, embora minha querida eu deva lhe dizer que mesmo alguns rapazes de baixa estatura conseguiram me surpreender nessa vida. Mas não, estava falando do irmão. Acho que ele deve ser grande.
_ Mas isso é bem mais que visível, Randa. Basta ter olhos e olhar para ele que se nota que é um homem grande.
A viúva olhou-a longamente, sua expressão algo entre a dúvida, a piedade e o divertimento - Ah... minha pobre e inocente Alayne. Você é muito recatada para uma bastarda. Eu não estou me referindo a estatura dele, estou falando de suas partes de senhor.
Sansa engasgou, subitamente tomada por uma imagem mental não requisitada de Sandor Clegane vestido com as roupas do dia do seu nome. Oh, Deuses... Ela sentiu um rubor subindo pelo seu pescoço, enquanto ouvia Randa rir histericamente e tentou retirar a todo custo aquela estranha imagem que sua mente havia projetado. Mas era difícil, era como pedir-se para não imaginar um lobo gigante rosa.
_ Myranda! – ela ralhou, esforçando-se para recuperar a compostura – Ele é um homem santo! Mesmo pensar em algo desse tipo é um pecado.
_ Ah, Alayne, você é tão puritana! – ela bebeu um gole de vinho, seus olhos atrevidos encarando-a sobre a borda do copo – Não acredito que nunca tenha pensado nessas coisas, nunca tenha tido algum tipo de curiosidade. Não digo pensar sobre o Irmão, eu não esperaria tanto... Mas vais se casar em breve, jura que nunca imaginou como será sua primeira noite com Harry?
Sansa desviou os olhos, modesta. O que a outra interpretou como uma confirmação. Não era verdade que ela era assim tão inocente quanto se fazia parecer, Baelish de muitos modos cuidara disso e ela mesma já tinha se permitido uma outra fantasia com o seu noivo, imaginando o que poderia ser diferente do que o que até então sentira ao ser tocada e beijada por Mindinho. Ela imaginou, com alguma satisfação perversa, a cara de espanto de Randa quando finalmente descobrissem que tanto ela quanto Sandor não estavam mais no Vale. Para uma mulher tão ousada, Sansa duvidava que Myranda alguma vez teria coragem para fugir com um quase desconhecido.
O dia ainda estava escuro quando Sansa encontrou-se com Sandor atrás dos estábulos. Ele já tinha selado seu cavalo e assustou-se quando ela apareceu vestida como Irmã Silenciosa.
_ Poderei cobrir o rosto assim e não precisarei falar, por causa dos meus votos. Creio que é a melhor chance de conseguirmos passar. Basta dizer-lhe que Irmã Wylla confiou-nos uma missão, que precisamos cumprir a promessa que ela fez aos Sete, para que sua boa alma possa descansar em paz. Os guardas não estão muito preocupados com quem deixa o Vale, não farão muitas perguntas. Creio que ficaremos bem.
_ Com a benção dos Sete. – Sandor disse, em tom de zombaria, fazendo o sinal da estrela de sete pontas, mas colocou-a em cima de Estranho e seguiu puxando as rédeas – Assim que estivermos fora da vista dos portões iremos cavalgar juntos, mas por enquanto sou um Irmão dos Sete e não seria decente dividir a cela com uma Irmã da Fé.
Sansa assentiu e apesar de toda a confiança que ela queria demonstrar em seu plano ela precisou cerrar os punhos para que Sandor não visse suas mãos tremerem em seu colo. Ela rezou enquanto ele a puxava em direção aos portões, rezou fervorosamente aos Deuses Velhos e aos Novos, a qualquer entidade que poderia ouvir suas preces, para que lhes fosse permitido atravessar em paz.
No fim, ela estava certa. O guarda cansado e sonolento, ansioso pela troca de turno, não estava muito preocupado com os Irmãos que pediam a travessia do Portão, sobretudo porque eles estavam deixando o Vale. Ao que lhe cabia, quanto menos bocas houvessem para o castelo alimentar no inverno que se aproximava, melhor era. Ele teria sido cuidadoso se por um momento sequer tivesse suspeitado que embaixo das vestes escondiam-se o Cão Louco das Salinas e a filha do seu Lorde Protetor. Lorde Baelish talvez tivesse ordenado algumas precauções extras, se alguma vez tivesse passado pela sua cabeça que Sansa Stark pudesse encontrar recursos suficientes para se arriscar a fugir de suas garras, ela não tinha mais ninguém, depois de tudo. No final, quem poderia mesmo adivinhar? Quem poderia ao menos suspeitar? Quem seria louco o suficiente para mesmo sonhar com os eventos que desencadearam nessa fuga?
Ninguém.
* Citações retiradas integralmente da obra de George R. R. Martim.
¹ - Se você achou esse trecho familiar e, como eu, também é um fã da saga Harry Potter, saiba que a inspiração veio diretamente das Masmorras de Hogwarts, especificamente da primeira aula de Poções ministrada por Snape, em Harry Potter e a Pedra Filosofal.
² - Pode não parecer, sobretudo devido ao fato de eu estar postando agora, mas o trecho com a revelação da maternidade de Jon Snow foi escrito muito antes da exibição do episódio Os Ventos do Inverno, na sexta temporada da série produzida pela HBO. Assumo que inicialmente o relato da irmã Wylla era mais sombrio, com acontecimentos muito mais dramáticos do que os que agora estão descritos aqui, mas achei aquela cena tão linda, mas tão linda... que não resisti ao tentar reproduzi-la, mesmo que com alguns acréscimos importantes para o futuro dessa história. Também não sei se o Rhaegar de fato se casou com a Lyanna e transformar o Jon em um filho legitimo pode ser meio que fanservice sim, mas eu não tô nem aí... Jon domina meu coração e espero que ele seja o rei da porra toda.
