Dias de Cura

Grimmauld Place, 12 - a casa ancestral da Família Black. Draco olhou em volta reparando nos vestígios da antiga glória e na decadência de anos de abandono. Mal podia acreditar que estivesse ali, sentado calmamente e esperando pelos amigos de Harry.

Respirou fundo. Podia sentir a tensão que emanava de Harry somar-se a seu próprio incômodo. Sabia que voltar ali não era fácil para Harry. Olhou para o relógio. Levara muito tempo para convencer Harry a fazer essa tentativa. E a própria decisão já era um fator desestabilizante. Se Granger e Weasley não aparecessem logo, eles perderiam a chance.

-eles estão demorando. Talvez não possam vir.

-Granger e Weasel vão mandar até o Ministro a merda para vir atrás de você.

Harry não riu do comentário. Principalmente porque os amigos dele aparataram nesse instante. Ambos vinham prontos para uma possível luta já com a varinha na mão. E Harry teve de evitar que Weasley se atracasse com Draco, que também sacara a varinha.

-O que ele está fazendo aqui?

-Não sabia que precisava de sua permissão, Weasel.

-Calma, Ron. Ele está comigo.

-Harry, você está bem?

Harry sorriu para Granger. Ela já abaixara a varinha.

-Não totalmente. – respondeu o mais honestamente possível.

Weasley se intrometeu:

-Cara, você sumiu. Hermione quase ficou louca de preocupação.

-Eu mandei notícias.

-Corujas com bilhetes não são notícias.

-Eu sei, Ron. Lamento.

-E o que esse aí tem a ver com isso tudo?

Draco percebeu os sinais de tensão em Harry aumentarem. Resolveu intervir:

-Weasley, vai com calma. Você não quer precipitar uma crise de abstinência agora.

-O quê?

-Draco sabe do problema com as poções.

Harry estava inquieto, para tranqüilizá-lo Draco passou o braço por seus ombros. Na mesma hora, Harry relaxou um pouco.

Antes que Weasley pudesse dizer qualquer coisa, Granger colocou a mão em seu braço e o deteve.

-Sentem. – Harry convidou, enquanto voltava a acomodar-se ao lado de Draco. – A conversa vai ser longa.

Weasley parecia desconfortável, e Granger extremamente atenta.

Draco entrelaçou os dedos com os de Harry, dando-lhe forças para começar a falar:

-Primeiro eu queria pedir desculpas pelas preocupações que tenho dado a vocês dois.

-Que isso, companh...

-Desculpas aceitas.

Draco sentiu uma boa dose de admiração pela reação perfeita de Granger e pela forma como ela evitou que Weasley dissesse besteira.

Harry deu um meio sorriso aliviado e continuou:

-Eu e Draco estamos juntos.

-O quê?

-É Weasley. Juntos. Dormindo juntos. Entende? Na verdade, estivemos morando juntos nos últimos meses.

-Você não disse nada disso nos bilhetes. – Granger estava obviamente preocupada.

-Eu queria dizer pessoalmente, mas eu... – Harry olhou para Draco, pedindo socorro.

-Granger, o que você sabe sobre as poções que Harry tem usado?

Era como vê-la novamente na escola. Sentada ereta e concentrada em dar a melhor e mais completa das respostas.

-Não existe histórico de alguém que tenha usado essas poções injetadas. Elas afetam as emoções. É uma combinação instável se ingerida em pequenas doses, injetada são ainda mais. O efeito delas parece ter um ciclo pré-definido de carrossel emocional que vai da euforia à apatia seguido de uma necessidade compulsiva de atenção e carinho. A duração dos ciclos é variável, sendo fortemente influenciada por fatores externos que repercutam nas emoções de Harry.

-É um bom resumo. – Draco admitiu. – Só faltou um detalhe crítico. A poção provoca dependência física. Não é como se Harry não quisesse parar, ou fosse fraco para conseguir se controlar.

Harry respirou fundo. Draco sabia o quanto ele precisava ouvir isso ser dito em voz alta. Harry precisava entender que não era um fraco ou um fracasso. Estava apenas lutando contra algo muito forte.

Conseguiu manter Harry tranqüilo quando Weasley perguntou:

-Esse tempo todo que você estava com Malfoy, você continuou usando?

-Sim.

-Escuta, Weasley. Eu sei que você e Granger querem ajudar Harry. Por isso estamos aqui.

Depois de um momento de silêncio, Draco retomou a conversa:

-Harry e eu nos evolvemos há uns três meses...

-Quando ele desapareceu.

-Não foi culpa de Draco, eu é que...

-Tudo bem, Harry. Sim, Weasley. Foi nessa época. Nós estivemos estudando essa mistura de poções...

-Andou usando Harry para experiências!

-Ronald Weasley, se não calar a boca agora eu vou amordaçar você até o fim dessa conversa.

Draco não escondeu o quanto achava graça do cala a boca que Weasley recebera da namorada.

Foi Harry quem continuou com o que realmente interessava:

-Nós estávamos procurando um meio de parar com isso. Consultei um medibruxo de confiança.

Ao ver o sinal de alerta no rosto de Granger, Draco esclareceu:

-Ele vai manter isso em sigilo. Não se preocupe. Não precisamos de um circo armado em volta de Harry.

-Não precisamos mesmo. Mas como você conseguiu que ele mantivesse silên... – Granger se interrompeu diante do sorriso arrogante de Draco. – Claro. O nome da família.

Antes que o assunto se desviasse, Draco resolveu continuar:

-O medibruxo fez uma série de exames e confirmou a questão da dependência física. Harry precisa se desintoxicar para livrar-se dela.

-E depois?

-Depois ele vai ter de lidar com a ausência da droga na vida dele e com o que o levou a usá-la no início. Mas isso é depois. Agora temos de lidar com a desintoxicação.

-E como é isso?

-Não aplicar a droga e agüentar o tranco até limpar todo o núcleo mágico dele.

-Oh! - Granger soltou uma pequena exclamação e conteve qualquer reação emocional. - Não podemos ir diminuindo a dose?

-Não. É pior. Uma dose fraca provoca ciclos rápidos e ele tem de usar outra vez em um tempo muito curto.

-E quando vamos fazer isso?

Draco olhou para Harry que estava calado há tempo demais. Os primeiro sinais do final do efeito da droga já se faziam notar. Tinham pouco tempo. Não queria ter de vivenciar outro ciclo inteiro.

-Hoje à noite. Na verdade, não acho que temos nem meia hora.

-Harry?

-Eu estou aqui, Mione. Draco está certo. Tem de ser feito. E logo.

Draco apertou a mão de Harry.

-Vamos fazer. – Weasley parecia ansioso em livrar Harry daquela merda toda. – Como vai ser?

-Vou me trancar com Harry em um quarto. Temos de tirar tudo que possa machucar a ele ou a mim de lá e impedir a desaparatação.

-Certo. Mas eu fico com ele.

-Não – Draco e Harry protestaram juntos.

-Weasley, presta atenção. Você nunca viu nem o início dessas crises. Eu já tentei uma vez, sem a concordância de Harry. Praticamente destruímos minha casa e terminamos os dois machucados.

-Por isso mesmo eu...

-Agora é diferente. Harry concordou. Ele quer isso. Além disso, você não vai ter sangue-frio o suficiente. E Granger não tem força física para contê-lo. Não dá para estuporá-lo e esperar o efeito passar.

-Escuta aqui, Malfoy...

-Porra, Weasley, não dá tempo de discutir. Olha para ele.

Harry tinha a respiração alterada e o olhar fixo no chão. Torcia as mãos e trincava os dentes.

Foi Granger quem decidiu a situação.

-Vem, Ron. Vamos arrumar o quarto que foi de Regulus. Malfoy, cuida de Harry.


Draco respirou aliviado. Harry tremia ajoelhado no meio do quarto, mas estava tudo pronto. Foi por um triz. Mais um argumento idiota de Weasley e teriam de recomeçar novo ciclo. Olhou em volta e teve de admitir que Granger fizera um trabalho bem feito em um tempo muito curto. Não havia móveis ou qualquer outro objeto. As paredes, o chão e até o teto eram acolchoados. E verde claro, para surpresa de Draco. Fosse o que fosse a tal da cromoterapia a respeito da qual Granger resmungara, era muito boa. Principalmente se evitava o vermelho berrante da Grifinória numa hora dessas.

Um feitiço silenciador fora colocado no quarto junto com o antidesaparatação. Draco precisaria dizer "herbologia trouxa" para quebrar o isolamento acústico e pedir alguma ajuda de Granger e Weasley que ficariam a postos do lado de fora. Só esperava que desse tempo, em uma emergência.

Porque havia riscos. Muitos, na verdade. Para minimizá-los, os dois estavam sem suas varinhas. Harry relutara em entregar a dele. Só depois de Granger e Weasley dizerem que cuidariam deles no caso de algum ataque externo é que ele a entregou. Agora os amigos de Harry teriam de cuidar dos dois.

Desde a Batalha em Hogwarts, Draco não ficava desarmado. E não gostava nem um pouco disso. Mas não podia arriscar. Já era ruim o suficiente pensar em magia espontânea e Harry Potter nessa situação. Ainda mais levar varinhas para aquele quarto.

Draco sabia que estava divagando. Evitando pensar nas próximas horas.

A tremedeira de Harry fez uma pausa e Draco pôde se aproximar e abraçá-lo.

-Draco.

-Sim?

-Eu...

-Tudo bem. Eu estou aqui.

Outra crise de tremores fez Draco dar espaço a Harry.

E foi bom ter se afastado, porque num movimento repentino, Harry se jogou para o lado, gritando de dor.

Draco já vira cruciatus antes - ele mesmo já aplicara mais do que gostaria de se lembrar -, mas a cena de Harry se contorcendo e gritando de dor era pior do que qualquer outra em suas lembranças.

O cruciatus afetava o corpo, a abstinência afetava o corpo e as emoções de Harry. E Draco não podia fazer nada a não ver vê-lo contorcendo-se no chão.

Tal como as vítimas de um ataque de cruciatus, Harry não tinha controle sobre seu corpo. Em um momento se encolhia, noutro firmava os pés e ombros no chão e erguia o corpo em um espasmo. E gritava. Gritava como se estivessem arrancando sua pele dos ossos.

Draco mantinha distância e tentava afogar as lembranças da guerra. Do vazio que sentia quando torturava alguém, dos pesadelos que tinha de ocultar do Lorde das Trevas. Mas a cada grito mais doloroso de Harry, ele revivia aquelas cenas.

E Harry gritou até sua voz ficar rouca. Então vieram os delírios. Suas piores lembranças voltaram. Harry as revivia, não como quando aconteceram, mas como um expectador adulto. E sentia em dobro toda a dor e mágoa de cada uma delas.

Por causa dos gritos, sua voz se tornara um sussurro rouco. Chorando, ele implorava de joelhos:

-Não! Não! Minha mãe não. Não mata ela.

Draco ajoelhou-se a pouca distância. Desejando tocá-lo, mas sabendo que não podia. Não ainda.

-Sirius, volta. Volta. Volta, por favor. Pai! Não mata meu pai. – Harry soluçava. - Não me deixa aqui sozinho. Tão sozinho. Frio. Escuro. Com fome.

Draco supunha que eram as memórias de infância. Lembranças de estar preso em um armário. Oh, Merlin! Como realmente gostaria de matar aqueles tios trouxas de Harry.

Um novo urro de dor interrompeu seus pensamentos.

Harry se arrastava pelo chão, como se fugisse de algo, ou alguém.

-Não me machuca. Não. Riddle, não! – E o medo virou ódio. – Desgraçado! Eu vou matar você. Eu vou acabar com sua raça.

Harry abriu subitamente os olhos e encarou Draco.

-Não vai embora, não me deixa sozinho.

-Eu vou ficar bem aqui, Harry.

-Vai embora. Some. Se protege de mim. – Harry se encolheu em um canto da parede. – Se protege de mim. Vai embora. Vou ficar sozinho. Eu sou uma aberração. Sozinho. Com todo mundo me olhando. Querendo ter um pedaço. VAI EMBORA!

Draco recorreu ao controle que tinha de demonstrar diante do Lorde das Trevas para não chorar e tomar Harry nos braços. Respondeu o mais calmamente possível:

-Eu não vou, Harry. E não vai acontecer nada de mau comigo.

Mas Harry já se perdera novamente em seus delírios:

-Professor? Dumbledore, me ajuda. Os dementadores! Tira! Tira eles daqui. Tira.

Harry começou a bater o braço contra a parede enquanto suplicava que o falecido diretor afastasse os dementadores. Sua voz foi morrendo aos poucos, enquanto ele aumentava a força das pancadas. Draco agradeceu aos céus a boa idéia de Granger de acolchoar o quarto todo.

As pancadas na parede se tornaram furiosas, e Draco teve de intervir. Tentou segurar Harry, mas o outro não parecia saber quem ele era e rosnou:

-Não me toca.

Sem dar tempo de Draco proteger-se, uma onda de magia o arremessou do outro lado do quarto. O ruído abafado de suas costas batendo contra a parede almofadada ecoou no súbito silêncio.

Permaneceu quieto, meio tonto.

De repente, Harry estava ao seu lado, com lágrimas escorrendo pelo rosto:

-Draco! Eu te machuquei. Me perdoa. Me desculpa. Eu te machuquei de novo. Pede ajuda. Chama alguém. Tira a gente daqui.

-Tudo bem, Harry. – Com alguma dificuldade, Draco sentou-se e trouxe Harry para seus braços. – Eu estou bem. Não foi nada.

Seu ombro doía, mas não parecia ter quebrado ou deslocado nada. E Harry soluçava, agarrado a ele.

-Eu não vou agüentar, Draco. Está doendo muito. Dói tudo. Me ajuda.

Draco embalou Harry como se fosse um bebê e deixou-o suplicar, sabendo que realmente doía, mas não podia ceder.

-Só mais uma vez. Deixa eu usar só mais uma vez. Depois eu paro. Eu prometo. Eu vou morrer. Tá doendo. Me ajuda.

Draco se agarrava a Harry, sem ter consciência das lágrimas que escorriam no seu rosto. Só queria que a noite acabasse logo.

Subitamente Harry o encarou com ódio no olhar.

-Você quer me ver morto, Comensal de merda. É isso, não é? Seu plano é me ver morrer assim. Desgraçado. Filho de uma puta. Comensal. Monstro. Torturador. Assassino.

Draco se contraiu, de dor pelas ofensas e de medo de uma agressão. Mas Harry voltou a chorar e suplicar:

-Eu estou queimando, Draco. Meu corpo inteiro está ardendo.

Outra crise de dor o fez atirar-se no chão e contorcer-se. O ciclo de dor, delírios, medos, agressões e súplicas recomeçou. E de novo, e de novo e de novo. Foi uma noite inteira no inferno.

Já era dia quando, enfim, Draco pôde dizer a senha que abria a porta e deixava Granger e Weasley entrarem definitivamente no quarto.

Durante os poucos períodos de calmaria, Draco permitira apenas que eles lhes enviassem água ou cobertas. Só agora eles podiam finalmente ver o amigo.

Quando eles entraram Harry dormia apoiado no peito de Draco. Seu rosto estava marcado por lágrimas e por arranhões que ele mesmo se infligira. Nas mãos e nos braços, tinha marcas de mordidas. As cobertas que Draco pedira no meio da noite estavam em farrapos, as roupas deles também apresentavam rasgões, mas corpo e a magia de Harry estavam livres da poção.

-Malfoy?

Weasley estava pálido e Granger ofegou quando viu o olho roxo de Draco.

Com um suspiro cansado, Draco pediu:

-Leva ele para cama.

Quando Weasley levou Harry, Draco só hesitou um pouco antes de dizer:

-Granger, acho que meu pé está quebrado. O pulso direito com certeza está torcido.

Suavemente a bruxa cuidou de Draco. Só quando terminou, ela o encarou.

-Vai ficar tudo bem, Malfoy. Harry vai conseguir.

Draco não sabia se ela acreditava ou só tentava ter fé. Respondeu com o máximo de confiança que conseguiu reunir:

-Harry sempre vence no final.


Harry acordou sentindo-se estranho. Levou um tempo até perceber que essa estranheza era a falta da ansiedade que sempre sentia depois de dormir. Respirou fundo.

Nada. Nem o pânico de estar sozinho, nem a euforia e nem o gelo que o protegia. Apenas um sentimento enorme de ter feito a maior merda de toda sua vida.

Sentou-se devagar. Apenas uma leve vertigem.

Nessa hora, a porta foi aberta cuidadosamente e Hermione entrou. Olharam-se por um instante antes de Harry começar a se desculpar:

-Eu sinto muito, Mione. Muito mesmo. Desculpe a preocupação toda.

Os braços dela o apertando com força foram um bálsamo na alma.

-O que importa é que você está bem.

-Mione?

Ela desfez o abraço, mas manteve o rosto de Harry entre suas mãos.

-O quê?

-Me desculpe. Me perdoa.

-Está perdoado.

Harry conseguiu sorrir enquanto tornava a abraçá-la. Um pigarro na porta anunciou Ron.

-Vai ficar agarrando minha noiva agora?

-Ron.

Harry levantou-se sem jeito, mas o sorriso do amigo o deu ânimo de ir até ele.

Antes que abrisse a boca, Ron o avisou:

-Nem pense em se desculpar. Nunca precisamos disso entre a gente. Você é meu irmão, Harry. E está tudo bem.

Trocaram um forte abraço, até que Harry se deu conta de um detalhe:

-Você disse noiva?

Ron e Hermione riram e se alternaram para contar que Ron tinha feito o pedido de casamento na véspera, enquanto velavam o sono de Harry.

-Não foi o momento mais romântico do mundo, mas eu...

-Foi lindo. – Hermione interrompeu com a convicção dos apaixonados.

-O que me importa é que ela disse sim. E prepare-se para ser padrinho.

-Vai ser a maior honra da minha vida.

Harry abraçou os dois. Estava feliz por eles. Mais feliz do que poderia dizer. O lado prático de Hermione veio à tona.

-Está com fome?

-Morrendo. E cheio de perguntas.

-Vou pedir para o Kreacher alguma coisa. As perguntas podem esperar um banho?

-Na verdade são duas mais urgentes. Quanto tempo eu fiquei apagado e onde está o...

Harry hesitou, sem saber mais como se referir a Draco.

Seus amigos, no entanto, entenderam. Foi Hermione quem respondeu:

-Dormiu por cinco dias e ele não deve demorar. Malfoy sempre chega por volta das seis da tarde.

-Não é como se eu não tivesse tentado nos livrar dele. Mas é que eu fiquei sem argumento depois da noit...

Ron interrompeu-se, mas Harry continuou por ele:

-Depois da noite que eu fiquei sem a poção?

-É.

-Ele tem vindo todas as tardes?

-Na verdade, ele dorme aqui. E passa uma boa parte do dia também. Mione tirou uns dias para poder ficar com você, mas é só durante à tarde. É quando Malfoy vai fazer as coisas dele.

Harry olhou para o relógio. Quase cinco da tarde.

-Banho e comida. – A voz de Hermione o tirou do seu ensimesmamento.

Sorriu para os amigos e foi para o banheiro. Havia muito no que pensar.

Depois do banho tomou um lanche reforçado na companhia de Ron e Mione. Era como estar novamente na adolescência. Nos poucos e preciosos minutos que puderam ser só adolescentes.

Estava rindo de alguma coisa que Ron disse quando o viu parado à porta.


Draco estava louco para ir para casa. Gritou com a secretária por sua inépcia em agilizar os papéis que precisava, evitou encontrar-se com Lucius. Não queria ter de falar com ele sobre Harry novamente. E saiu do escritório exatamente às seis da tarde.

Aparatou em Grimmauld Place. Diretamente no saguão de entrada. Subiu as escadas quase correndo. O medibruxo avisara que depois da desintoxicação, Harry ia passar alguns dias apagado. Mas já fazia cindo e nada dele acordar. Estava ansioso, querendo desesperadamente ver Harry acordado e bem, e com medo do que ia acontecer entre eles dali para frente.

Draco não sabia se Harry ia querer continuar com ele uma vez que estivesse livre das poções. Ou pior. Se ia querer ficar por algum motivo estúpido como gratidão ou um senso de honra grifinório qualquer. Porque se Harry quisesse ficar pelos motivos errados, Draco sabia que não ia ter forças para recusar. Em algum momento a obsessão se transformara em paixão, e em amor. E isso era uma grande merda, na opinião de Draco.

Na porta do quarto de Harry, respirou fundo. Teve a impressão de ouvir vozes. Abriu a porta o mais silenciosamente possível.

Harry estava sentado na cama, recostado à cabeceira e rindo com Weasley e Granger. O coração de Draco acelerou-se. Harry estava limpo, acordado e bem. Estava feliz com os amigos. Draco sentiu-se excluído. Fora do mundo de Harry, como quando estavam na escola.

Então Harry o viu, e seus olhos brilharam da mesma forma intensa que fascinaram Draco na primeira vez que ficaram juntos.

Granger foi a primeira a perceber que Harry parara de prestar atenção na conversa. Olhou para a porta e fez a mesma cara que fazia na escola quando sabia algo que os outros colegas não entendiam. Cutucou Weasley.

Nem Harry nem Draco, falaram muita coisa enquanto ela se despedia e arrastava o noivo com ela. E se Weasley parecia muito reticente em sair do quarto, Granger parecia quase feliz.

Quando passou por Draco, ela murmurou baixinho:

-Ele perguntou por você.

Quando ficaram sozinhos, Harry abriu e fechou a boca umas três vezes antes de conseguir dizer um eloqüente:

-Oi.

Draco também não foi muito brilhante:

-Você acordou, então.

-É. Tem pouco mais de uma hora.

Ficaram novamente em silêncio. Draco se perguntava o que podia dizer sem parecer patético demais. Ou se não seria melhor sair dali com um pouco de dignidade.

Com Potter drogado, ele sabia lidar. Sempre sabia o que dizer e na dúvida faziam sexo. Mas esse era o Potter de verdade. Com total domínio dele mesmo. E Draco não sabia o que esperar.

-Mione disse que você veio todas as noites dormir aqui.

-É. – Draco abriu o guarda-roupa e começou a procurar qualquer coisa dentro só para ter o que fazer. – Ela já ficava o dia todo. Na verdade eu nem fazia muita coisa. Era basicamente ver você dormir e...

-Me abraçar. – Harry o interrompeu.

-Como você sabe?

Durante aqueles dias de espera Draco passava horas deitado, abraçado a Harry, esperando que ele acordasse e tudo ficasse bem.

-Eu dormia melhor quando sentia alguém me abraçando. Imaginei que fosse você.

Novamente ficaram em silêncio. Até Harry parecer tomar coragem e ir direto ao centro da questão:

-Eu não sou daquele jeito.

-Eu sei.

-Eu... – Harry suspirou. – Eu nem te agradeci.

-Não precisa.

-Precisa. – Harry levantou e veio até Draco. – Eu machuquei você. E não estou falando só do soco e dos chutes daquela noite. Eu estou falando também das coisas que eu dizia quando estava na fase mais insensível da poção.

-Não era mesmo minha fase favorita.

-Mas tinha uma coisa que você dizia e que me tirava dela sempre que queria.

-E você nunca respondeu.

-Não. Eu não podia. – Harry pegou a camisa que estava nas mãos de Draco, e a colocou de volta no armário. – Mas você me deixava ficar falando aquelas coisas para você. Só me forçava sair dali quando não agüentava mais. Por quê?

Draco sabia que Harry estava novamente colocando-o na situação de apostar tudo ou sair sem nada.

-Você precisava daqueles descansos emocionais.

-E?

-E era quando eu podia conhecer certas coisas sobre você. De outra forma nunca ficaria sabendo.

-Não. É provável que não.

Harry fechou o armário e encostou-se a ele. Draco viu que ele sorria quando disse:

-Eu aprendia mais sobre você quando estava na outra fase.

Draco riu junto.

-Se esfregava em mim para tirar meus segredos, Potter?

-Você é bom de ser esfregado, Malfoy.

Com um alívio enorme, Draco abraçou Harry, bem apertado.

Quando Harry começou a beijar seu pescoço e enfiar a mão dentro de suas vestes, Draco ainda tentou ser racional:

-Você precisa de descanso.

-Foda-se o descanso. – Harry puxou Draco na direção da cama. – Sabe o que eu quero fazer?

-Tenho uma vaga idéia. – Draco não reclamou quando foi praticamente jogado de costas na cama.

-Então vou deixar bem claro. Eu vou chupar você. Depois vou te foder até que nenhum de nós saiba mais onde está e, então, quando você quiser e do jeito que você quiser, eu vou dar para você. Desse vício, você não me cura.

Draco não achou nada de errado nesse plano.

Harry usou novamente o feitiço para sumir com as roupas deles. Draco riu e ajudou Harry a cumprir o que prometera.

Mais tarde, relaxados e sonolentos ficaram deitados lado a lado. De frente um para o outro, tocavam-se de leve, como para ter certeza que era real.

Havia um monte de coisas a serem resolvidas. As cicatrizes emocionais dos dois eram só a primeira parte. Lucius e os amigos de Harry viriam logo depois na lista. As próprias diferenças de personalidades e objetivos. Mas nada disso importava agora. Estavam juntos e dispostos a tentar.

Draco estava quase dormindo quando ouviu Harry pedir:

-Diz?

-O quê?

-O que você falava para me tirar do estado de frieza.

Draco hesitou. Era a primeira vez que diria isso a Harry com ele totalmente consciente. Dava um certo medo, mesmo assim, mais uma vez, arriscou-se como um maldito grifinório faria. Respirou fundo e disse o que lhe ia na alma:

-Eu te amo, Harry.

-Também te amo, Draco. Demais.

Essa resposta era tudo o que importava. O resto era só detalhe.

FIM