3. Visão
Quando Samantha chegou ao quarto de hotel, encontrou duas malas e praticamente todas as suas roupas e a da irmã sobre a cama.
- Mas o que é isso? - indagou em voz alta, confusa.
- Vamos embora - respondeu Louise do banheiro - viemos à Califórnia visitar o papai e já o fizemos. Tanto é que mais um dia naquela clínica, quem vai ficar louca sou eu - a voz da garota se aproximava conforme ela ia chegando ao quarto com seus pertences em mãos.
- Algo me diz que essa sua decisão repentina de partir diz respeito aos rapazes que conhecemos no café - Samantha retirava as roupas de dentro da mala, mal humorada.
- E não é para menos - admitiu Louise - você sai contando a nossa história para dois estranhos! Que é que deu em você, Sammy? Eu jurava que era a mais madura entre nós duas!
- Não é questão de maturidade, é só que eles podem nos ajudar, Lou. Eles parecem entender bem dessas coisas estranhas que nos aconteceram...
- Ué, Samantha, não era você mesma que não queria falar sobre esse tipo de coisa até hoje de manhã?
- Não é que eu queira - meneou a cabeça, confusa - mas eles parecem tão... Tão iguais a nós.
- Nossa história é singular, Sammy, não tente compará-la, que não vai encontrar uma equivalente. E devolve essas roupas para a mala.
- Eu não vou embora - afirmou Samantha - vá, se quiser. Vou ficar para o Natal.
- Não seja mentirosa, não é por papai que você quer ficar.
- Por um lado, é. Ele gostaria que descobríssemos quem matou mamãe daquela forma.
- Então fique e descubra, porque eu estou pegando o primeiro vôo para Wisconsin.
Louise guardou de qualquer jeito as roupas e pertences e fechou a mala. Partiu para o banheiro tendo em vista os últimos preparativos. Ela estava decidida, e Samantha podia ver isso em sua mente. Ela não queria que a irmã fosse embora, então, mesmo a contragosto, usou nela o seu poder, pela primeira vez.
- Pensando bem - Louise voltou do banheiro com a escova de dentes em mãos - acho que podemos ficar mais um pouco, contanto que eu não tenha de ver novamente a cara daquele grosseiro.
Samantha sorriu consigo mesma. Naturalmente, não queria nunca ter de manipular a mente de sua própria irmã, mas sentia o quanto aquilo era necessário naquele momento.
No dia seguinte, as irmãs voltaram ao mesmo café, mesmo contra os protestos de Louise. Pediram pães de queijo e milk shake.
- Ah, não - disse Louise em tom audível, e a irmã virou-se para a porta do estabelecimento para saber do que se tratava a queixa da outra.
- Dean e Sam - Samantha disse com um sorriso no rosto.
Como previra mentalmente Louise, eles se sentaram na mesma mesa, precisamente Dean ao lado de Louise e Sam ao lado de Samantha.
- O café está vazio - a garota disse mal humorada.
Dean passou os olhos por todo o ambiente, com uma expressão curiosa.
- Acho que dá pra ver - respondeu - algum problema com ambientes vazios?
- Não, mas todos com mesas cheias demais, se é que você me entende...
- Escuta garota, fica na sua que eu fico na minha, está bem?
- Não fui eu que me intrometi na mesa alheia...
Enquanto isso, Sammy e Sammy conversavam, completamente alheios à briga ao lado.
- Desde quando vocês freqüentam esse café? - ele perguntou.
- Há quase um mês - Samantha respondeu, enquanto mexia o canudo de seu milk shake - desde que chegamos à cidade.
- Como nunca as vi? Dean e eu estamos aqui há quase dois meses.
- Acho que o destino quis que nos encontrássemos só agora.
- Você também acredita no destino?
- Piamente.
- Nós realmente nos parecemos - ele disse meio sem graça.
- Ah, qual é, Sam? - veio a voz de um esquecido Dean - vamos trabalhar ou você vai mesmo ficar galanteando a garota?
- E Samantha deixando-se ser galanteada... - completou Louise com uma voz tediosa.
- Ah, então - Sam falou sem graça - onde paramos ontem?
- Ai! - exclamou Louise, atraindo todas as atenções para si.
A garota segurou a cabeça, como se uma dor muito forte a dilacerasse. Fechou os olhos com força. Dean a segurou pelos ombros, sacudindo, de forma que voltasse o rosto para o dele. Os olhos de Louise estavam vidrados.
- O que aconteceu? - exclamou Samantha, beirando o desespero.
- Calma - tranqüilizou Sam, abraçando-a pelos ombros.
Dean continuou a segurar Louise pelos ombros, e então proferiu algumas palavras em latim. Em seguida, contou até três na mesma língua e sacudiu-a. Seus olhos, então, voltaram ao foco, e ela meneou a cabeça, confusa.
- Lou...
- Samantha - disse vagamente - a mamãe...
- O que é que tem a mamãe?
- A mamãe, eu a vi! - a voz de Louise começou a sair mais alta, chamando a atenção dos poucos clientes do café - Eu a vi!
- Ei, acalme-se - Dean envolveu a garota, deitando-a sobre seu peito - está tudo bem, nós estamos aqui.
- Eu a vi - repetiu - e ela pediu que falássemos ao papai...
- O quê? - indagou Sam.
- Que pedíssemos que ele fosse ao encontro dela, que ele morresse por ela!
- Não é a sua mãe - a voz de Dean soou preocupada - ela não pediria isso...
- Então o quê? - indagou Samantha aflita.
- Não sabemos ainda - admitiu Sam - mas vamos descobrir juntos. Nós quatro.
- Mamãe - murmurou Louise, ainda recostada ao peito de Dean - mamãe...
- Ela está abalada - ele disse - pelo que Samantha nos contou, viu a mãe no estado em que estava quando morreu.
- E por que essa visão agora? - indagou Sam - Por que a dor de cabeça e os olhos vidrados?
- O que está acontecendo? - desesperava-se Samantha.
- Não sei e não sei. Vamos investigar, certo? Sam, você está com as chaves do carro?
- Chaves do carro? - indagou Samantha - Para onde vamos?
- Para o hotel em que eu e Dean estamos hospedados. Depois decidiremos que rumo tomar.
- E quanto à garota apática? - disse Dean, colocando-a de volta ao lugar, e lá ela permaneceu, com um olhar perdido e embasbacado.
- Vai precisar de uma sessão de hipnose - respondeu Sam - e você sabe fazer isso, Dean. Vamos? Ah, claro, abrace-a e auxilie o seu andar, ela pode estar um pouco fraca.
- Só me faltava essa!
Muito a contragosto, Dean se ergueu e ajudou Louise a fazer o mesmo. A garota conseguia andar, embora parecesse completamente alheia a qualquer tipo de movimento. Dean a ajudava a caminhar, segurando-a pela cintura, reclamando baixinho, o que a garota, em meio a sua apatia, não podia retrucar. Embora Samantha não precisasse de apoio, Sam a abraçava pelo ombro enquanto caminhavam em direção ao carro. Queria se assegurar de que ela estaria protegida.
