Na manhã seguinte acordei cedo demais e, sem nada pra fazer, resolvi guardar minhas coisas direito e separar algumas roupas sujas. Nisso, acabei olhando os bolsos das vestes que havia usado quando fugi de casa e encontrei um pedaço de pergaminho dobrado de qualquer jeito. Desdobrei com cuidado e vi que dentro dele havia um outro pedaço menor, também dobrado. Abri os dois. Eram coisas que eu já havia me esquecido há muito tempo que existiam, mas que automaticamente eu ainda carregava comigo. No dia que fui atrás de Harry no Ministério coloquei num cantinho mais seguro do bolso, bem no fundo, para não cair nem amassar, e resolvi que quando voltasse já era hora de entregar. Mas eu não voltei e provavelmente não voltaria mais. Remus nunca soube da existência daquela carta que eu guardava há mais de vinte anos, pra, quando tivesse coragem, entregar a ele.

O pergaminho menor era uma poesia que achei num livro trouxa. Nunca gostei de poesia, mas as dos trouxas eu achava bonitas. Falavam de coisas tão simples, tão puras, como o amor e a chuva. Eles não precisam de nem sequer mencionar a magia, porque ficava bonito sem ela e talvez sua presença até estragasse tudo. Que graça tem ler sobre uma coisa que você vê e ouve todo dia? E então achei aquela poesia de um tal E. E. Cummings e decidi que entregaria a Remus junto com a carta.

Ouvi James me chamando da cozinha e vi que já era hora do café. De repente percebi que não consegui me lembrar direito do que estava fazendo antes de fugir de casa. Lembranças de um lugar estranho, cheio de pessoas duelando vinham à minha mente, mas por fim me lembrei que estava no meu quarto, me ajeitando pra uma maldita festa, e saí despreocupado para a cozinha.

Remus disse que ainda vem aqui antes das aulas começarem. – James comentou depois do café; estávamos no quarto dele jogando conversa fora.

Ele disse que dia viria?

Não, só disse que vinha. Mas, e então, você disse que a doce Sophie te convidou pra sair?

Mais ou menos isso. Era pro Moony ter me dito isso antes das férias, agora que ele atrasou e eu não respondi a ela, acho que já não tem nada certo. De um jeito ou de outro, eu não iria.

Porque não? Você idolatrava aquela garota! Até parecia eu com a Lily...

Não, espera aí, eu nunca cheguei a esse ponto de abobalhamento! – ele fez um muxoxo de reclamação e me atirou um travesseiro. – Eu só tinha treze anos quando gostava dela, e isso já passou. Foi bobagem.

É, mas ela até que é bonitinha e...

Vou dizer pra Lily que você disse que existe outra garota no mundo que é bonita. – mais um travesseiro voando pelo quarto.

... e você não costuma dispensar assim, sem mais nem menos.

Não é sem mais nem menos, só não estou com vontade.

Da última vez que você disse isso eu te espremi até que você disse que gostava da Sophie. Será que eu vou ter que fazer isso de novo... – ele fez uma cara pensativa, como se estivesse avaliando o que fazer. – Que nome vai ser dessa vez, Pad?

Nenhum, porque eu não gosto de ninguém – respondi aborrecido.

Ah, é? Então ta, eu vou fingir que acredito nisso pelo bem da nossa amizade, nada mais.

Ótimo, então agora se cale.

A porta do quarto se abriu com um estalido suave e a Sra. Potter apareceu.

Remus está lá embaixo, posso mandar subir?

Pode, mãe. – então ela saiu. – Eu não disse que ele vinha?

Olá.

Então, Moony, que história é essa de Sophie? – James perguntou ainda insistindo no assunto.

Eu achei que já tivéssemos encerrado isso, James.

Eu estou me dirigindo ao Remus, então não se meta. Então, Remus?

Ela apenas me abordou no Salão Principal outro dia e pediu pra mim perguntar ao Sirius se ele queria sair com ela. Não sei porque vocês estão fazendo tanto escândalo por uma coisa tão simples.

Porque Pad não quer sair com ela, então provavelmente há algo errado. – ele parecia realmente decidido a descobrir porque eu não queria sair com Sophie.

Ora, deixe ele! Vai que ele ta tomando jeito? – Remus saiu em minha defesa e eu me afastei para o lado dele na cama.

Exatamente. Tirando a parte do tomando jeito, claro. Eu só não to a fim de sair com ela, nada mais.

Não sei não. Pra mim isso ainda ta muito estranho.

Encerramos o assunto, mas eu sabia muito bem que era só porque James não se atrevia a discordar de Remus. Quando eu menos esperasse ele voltaria a falar da Sophie e desse maldito encontro que talvez ela mesmo já tivesse esquecido.

Algum tempo depois a voz da Sra. Potter chamava James para ajudar em não sei o quê e ele saiu do quarto.

Estão te alimentando direito? – Remus disparou de repente.

Sim, mamãe.

Muito engraçado... Você parece pálido.

Eu sou pálido, Remmie.

Ele sorriu de leve. Não sei porque sempre tive a impressão de que ele gostava quando eu o chamava de Remmie. Talvez fosse só impressão.

Quando vai ser a lua cheia mesmo?

Uma semana antes das aulas começarem. Não vamos falar disso agora, Sirius.

Eu sei que você não gosta de falar sobre isso, mas eu não me conformo de não podermos ficar perto de você nas férias.

Você sabe que meus pais me levam para uma caverna longe daqui quando é lua cheia nas férias.

Cavernas são frias, escuras e cheias de ratos e morcegos! Deve ser horrível ficar lá sozinho.

Eu estou acostumado a ficar sozinho, Sirius, não se preocupe. Você se preocupa comigo, não é? – ele acrescentou meio hesitante.

Claro que me preocupo! Não gosto de te deixar sozinho, Remmie.

Eu sei. Mas não precisa, eu vou ficar bem.

Nalgum lugar em que eu nunca estive, alegremente além

De qualquer experiência, teus olhos têm o silêncio;

No teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,

Ou que não ouso tocar porque estão demasiado perto.

A lua cheia passou e fiquei sofrendo na casa dos Potter, imaginando como Remus estaria, lá naquela tal caverna, sozinho. Poderia estar com frio. Se rasgando todo sem ter ninguém para controlar ele. Só me senti melhor quando o encontrei no Expresso de Hogwarts. Conversamos muito pouco porque logo ele dormiu encostado na janela da cabine, cansado e abatido. James assumiu o lugar dele como monitor, e saía de quando em quando tendo que andar pelos corredores do trem.

Ajeitei Remus melhor no banco da cabine, fazendo ele se deitar. Tirei um cobertor do meu malão, porque os dele eram muito finos e já estava começando a chover lá fora. Enrolei ele, que se mexeu um pouquinho e continuou dormindo. Ele sempre teve um sono pesado. Não resisti ao impulso de ficar ajoelhado em frente dele, o observando dormir. Nunca entendi porque eu tinha tantos cuidados com Remus. James também cuidava dele, afinal éramos todos amigos, irmãos. Mas eu sempre me achei mais preocupado com ele do que qualquer outra pessoa no mundo.

Teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra

Embora eu tenha me fechado como dedos,

Você me abre sempre pétala por pétala como a Primavera abre

(tocando sutilmente, misteriosamente) sua primeira rosa.

Ele era a única pessoa que consiga fazer que eu me abrisse, desabafasse alguma coisa qualquer que eu, fechado como sempre, nunca falaria pra ninguém. Era uma das pouquíssimas pessoas que eu sabia que nunca me deixaria só, que sempre estaria lá pra entender qualquer coisa que eu dissesse ou sentisse. Eu me sentia feliz só em estar olhando pra ele, ali, dormindo, como se o mundo fosse perfeito.

Oi. – dois olhos amendoados me acordaram dos meus pensamentos.

Oi. Está se sentindo?

Aham. E você ficou aqui só pra garantir que realmente estava tudo bem?

Hein? – percebi que ainda estava ajoelhado, bem perto do rosto dele. – Ah... é. – e sorri amarelo, novamente percebendo que estávamos tão próximos que eu podia ver todos os detalhes da boca dele. Mas porque eu estava olhando tanto pra boca dele?

Porque você está olhando tanto pra minha boca, Sirius?

Hã? É que você ta meio... pálido, só isso.

Ah, certo. – respondeu com um meio sorriso desconfiado e continuou descansando até chegarmos em Hogwarts.

Ou se você quiser me ver fechado, eu e

Minha vida nos fecharemos belamente, de repente,

Assim como o coração desta flor imagina

A neve cuidadosamente descendo em toda parte;

Primeiro ano aqui, vamos. – orientava James a caminho da torre da Grifinória, depois do banquete.

É engraçado ver o James sério assim, sendo monitor.

Eu acho muito estranho, isso sim. Pra mim ele só está querendo impressionar a Lily com seus "insuspeitados dotes como rapaz responsável e normal". – respondi ao Remus, avistando Lily Evans do outro lado do corredor da Mulher Gorda, orientando as meninas do primeiro ano. Quando a vi senti uma emoção um tanto quanto indecifrável. Era como se há muito tempo eu esperasse pra vê-la. Mas porque isso se a gente nem se falava?

Sirius, acorda. – Remus me puxava pela manga do uniforme. Eu estive distraído demais para notar que todo mundo já tinha entrado na sala comunal.

Olá, rapazes. – exclamou Prongs por trás de nós, assustando Remus. – Como foi minha performance como monitor?

Pomposíssimo, meu caro. Agora vamos subir porque eu realmente estou a fim de passar o resto dos meus dias dormindo.

Sonhei com Remus. Não que isso fosse estranho, porque vez ou outra eu sonhava com pessoas conhecidas. Só era estranho quando os sonhos eram com Remus, pois de alguma forma eu acordava sabendo que sonhara com ele, mas não me lembrava de nenhuma "cena'' do sonho. Mas daquela vez eu lembrei. Eu havia sonhado que estava na cabine do Expresso de Hogwarts, com Remus deitado no banco e eu ajoelhado em frente a ele, do mesmo modo que estive na noite anterior; mas no sonho ele estava perto demais. Acordei suando, tendo certeza de que no sonho eu havia... beijado Remus? Não, com certeza tinha sido só uma impressão por ele estar perto demais, só isso... Só isso.

Nada que eu possa perceber neste universo iguala

O poder de tua intensa fragilidade: cuja textura

Compele-me com a cor de seus continentes,

Restituindo a morte e o sempre cada vez que respira.

Tudo bem, Sirius? – olhei pro lado e me deparei com Remus me observando preocupado, abrindo as cortinas da minha cama. Quase gritei de susto mas ele tapou minha boca com a mão. – Hey, calma, quer acordar o dormitório inteiro? Eu só quero saber se você está bem. Sua cama estava rangendo, mas eu não vi nenhuma garota entrando aqui hoje. Achei estranho.

Está tudo ótimo, foi só um... Um sonho. – respondi ficando quase que subconscientemente triste por Remus ter tirado a mão da minha boca. As mãos dele eram macias e...

Você anda muito estranho ultimamente. Foi um pesadelo? – ele perguntou se sentando confortavelmente na minha cama, se recostando nos travesseiros.

Mais ou menos. Foi apenas um sonho estranho, acontece. Eu já estou bem, pode ir dormir agora, você precisa descansar. – falei isso me levantando da cama.

Aonde você vai? Não me diga que vai andar pelos corredores, você sabe que a essa hora não pode e...

Deixe os sermões de monitor pra outra hora, Moony, eu vou só me sentar perto da lareira. Relaxe.

Odeio quando você diz isso. – ele fez sua melhor cara de "estou ofendido". – Eu vou com você, não estou com sono.

Tem certeza? Você parecia cansado no trem.

Eu já dormi lá, estou melhor. Vamos?

Vamos.

Vestimos nossas capas e saímos para a sala comunal. Sentamos numa grande poltrona perto da lareira, tentando não nos esbarrar muito.

Quando éramos mais novos cabiam três de nós aqui. Agora ficou apertado. – reclamei sentindo uma onda muito estranha de calor me subir pelo pescoço toda vez que encostava em Remus.

Quando éramos mais novos nós éramos menores, Sirius. Bem menores. Mas porque você reclama tanto? Tem alguma espécie de alergia a mim?

Claro que não! Deixa pra lá, vai.

(não sei dizer o que há em você que me fecha

e abre; só uma parte de mim compreende que nas

vozes do teu olhar cabem todas as rosas)

ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas.

Começou a chover. Uma chuva fininha, fria. Apertei mais minha capa e de repente, ao olhar pro lado, percebi que Remus tinha um olhar distante. Ele nem notaria se eu ficasse horas lhe observando em silêncio. E foi o que eu fiz. Fiquei ali, olhando pra ele, tentando descobrir o quê naquela criaturinha aparentemente tão frágil me fazia me sentir daquele jeito; quente e com medo de algo. Mesmo naquele frio cortante que vinha da chuva que engrossava mais e mais a cada minuto eu sentia calor. Se eu fechasse meus olhos ainda poderia ver Remus, que parecia ter se grudado na minha cabeça; eu ainda poderia sentir o tal calor. E eu tinha medo. Tinha medo de que ele me rejeitasse de algum modo. Mas porque ele me rejeitaria? O que eu faria de tão grava pra que ele me rejeitasse? Eu não sei. Só sentia o medo.

Está realmente frio hoje...

Mais uma vez Remus interrompe meus pensamentos. Desta vez para se aconchegar no meu ombro. A voz dele tinha parecido meio sonolenta, então eu não sabia se ele estava dormindo ou não. De olhos fechados, com a cabeça encostada em mim, ele parecia bem confortável. Não ousei me mexer. Apenas passei o braço pelas costas dele, que se aproximou mais ainda, ainda meio incerto se eu deveria fazer aquilo mesmo. Com uma ousadia que eu não esperava que viesse de mim naquele momento, encostei o queixo no alto da cabeça dele, sentindo o cheiro suave dos seus cabelos. Ele colocou a mão no meu peito, talvez para se apoiar mais, pensei ingenuamente. A mão subiu lentamente para a curva do meu pescoço, ficando por lá. Quando eu achava que aquela noite já tinha chegado ao seu auge de estranheza, a mão de Remus resolveu subir mais um pouco e acariciar meu cabelo. Todos os pêlos do meu corpo se arrepiaram num calafrio. Todos. Mas Remus não percebeu. Ou pelo menos não demonstrou ter percebido. Estava concentrado na sua tarefa de me causar desconforto. Desconforto, era isso o que eu sentia?Não, acho que não. Eu estava, por algum motivo realmente muito estranho, gostando daquilo. Fechei os olhos e suspirei, involuntariamente. Era a deixa. Remus se movimentou de tal forma que no instante seguinte eu vi que ele tinha, não sei como, conseguido se sentar no meu colo, continuando a acariciar meu cabelo, com a cabeça encostada no meu pescoço. Eu podia sentir o nariz dele perto da minha nuca. Notei que sua respiração não estava mais calma como antes; ele estava nervoso, eu podia sentir.

O que é que está acontecendo com a gente, Remmie?

Perguntei com todo o fôlego que ainda me restava. Ele não respondeu imediatamente. Se ajeitou na poltrona de novo, agora com uma perna de cada lado do meu corpo, ainda com as mãos no meu pescoço e nuca, com o rosto muito perto. Seus olhos brilhavam muito, refletindo a lareira ao nosso lado, úmidos. Ele passou a língua pelos lábios ressecados pelo frio. Ainda chovia lá fora.

Você ainda não sabe? – respondeu com uma voz rouca, um tanto embargada. Outro calafrio percorreu meu corpo.

Sei. – respondi sem pensar.

Remus me beijou. Não sei se como no sonho, mas beijou. Encostou seus lábios nos meus de leve, depois com um pouco mais de força, talvez para constatar que de fato estavam lá. Abri a boca, inconscientemente esperando uma reação dele, que não veio, não sei se por inexperiência ou medo. Como ele não fazia nada, eu mesmo encostei minha língua na dele. Aos poucos ele correspondia, ainda hesitante. Sem fôlego, nos separamos. Ele estava extremamente corado, eu tinha certeza, apesar de não poder ver todo o seu rosto com clareza. Ofegava, assim como eu. Então simplesmente saiu correndo pela escada do dormitório. O barulho da chuva embaralhava meus pensamentos, tanto que não consegui reunir forças nem para chamar por ele. Me encolhi na poltrona, novamente sentindo frio, agora que Remus não estava mais ao meu lado. Alguns minutos depois, exausto como se tivesse corrido quilômetros, adormeci ali mesmo.