Reviews for me, meus amores.

Xoxo


Três

Caminhei por várias horas na trilha que aparentava ser pouco usada,pois não tinha sulcos de rodas de carroça ou mesmo pegadas recentes. Um silêncio estranho vinha da mata,não conseguia ouvir som de animais e nem mesmo do vento chacoalhando as árvores.

Magritte havia se cansado de andar e eu a carregava há um bom tempo,meus braços estavam doendo pelo esforço,minha filha era uma criança pequena ,mas eu me desacostumara a fazer qualquer exercicío físico. Apfel trotava alegremente atrás de nós e de vez em quando sumia entre os troncos e só aparecia quando eu o chamava.

Quando anoiteceu eu comecei a me preocupar,não havia onde se abrigar e animais selvagens poderiam nos atacar. Por fim me decidi por ficar no oco de uma árvore onde ajeitei uma cama de folhas secas para Magritte e a cobri com a manta , depois de lhe dar um lanche de pão com queijo e uma pêra e uns bons goles de leite de amêndoas até que ela tivesse matado sua sede. Dei um pedaço de pão para Apfel e eu mesma comi uma pê enrosquei em volta de Magritte e mantive meus olhos abertos por minutos longos e escuros até que o cansaço me venceu.

Quando acordei demorei pra lembrar onde estava e porque estava onde estava. Me levantei sonolenta e só então percebi que Magritte e Apfel haviam sumido.

"Magritte!Apfel!"Minha voz trêmula de medo. "Magritte!Magritte!Filha!" Eu comecei a correr por entre moitas espinhosas que me arranhavam a pele e árvores que me batiam com seus galhos mais baixos,minha respiração entrecortada e lágrimas escorrendo pelos meus olhos.

"Magritte!"Eu gritava desesperada até que exausta e completamente perdida caí numa clareira e desatei a soluçar. Era tudo culpa minha!Minha filha havia sido devorada por um lobo e eu era a culpada. Se eu não fosse tão egoísta,se eu tivesse aceitado a vida que o destino me havia incumbido de viver,nada daquilo teria acontecido. Eu pensava essas e outras coisas enquanto chorava como uma lunática,meu rosto e mãos arranhados ,folhas por todos o meu cabelo e terra no meu vestido.

Só fui sair do meu estupor quando era quase de noite. Levantei atordoada e continuei andando floresta adentro sempre chamando por minha filha e as vezes por Apfel. Amanheceu e eu continuava caminhando,meus pés doíam e minha voz não passava de um grunhido estava com sede,com fome,sono,cansaço,medo e absolutamente desesperançosa de rever Magritte.

Mais tarde,quando o Sol já estava a pino no céu,eu podia ver por entre as copas das árvores,me deixei cair ao lado do leito de um riacho seco.Não tinha mais forças para continuar procurando e então eu adormeci.

"Levante-se."

Acordei de um homem de altura aterradora me empurrava com a ponta da bota. Vestido totalmente de um cinza acastanhado,carregava uma espada na cintura e uma aljava de flechas nas costas. Seu cabelo era cor de chumbo,longo e liso jazia preso num meio rabo,seus olhos,que pareciam prata líquida,me fitavam com um que de interesse mesclado a pena. Era o homem mais alto que já vira na vida,enquanto eu me levantava e me preparava para correr pude notar que mal chegava a seus ombros.

"Você é a criaturinha mais barulhenta que já vi." Disse num tom jocoso ao me rodear me impedindo de sair correndo. "E fugidia també. Estou te procurando ha quase doisd ias e só o que consigo são ouvir seus gritos irritantes."

Abri a boca para replicar mas minha voz não saiu. Ele olhava para mim atentamente,me examinando como todos os homens faziam,foi então que notei,ele não era um homem. Suas orelhas eram pontudas e sua pele quase reluzia na fraca luz do entardecer,podia se dizer que ele era mais branco que era um elfo. Um bonito,para ser franca.

"Venha."

Ao me ver parada ele se aproximou de mim e comecei a tremer descontroladamente.

"Tem um lobo te seguindo,se não vier agora não vai mais existir você para se seguir." O elfo murmurou isso rente ao meu ouvido e me arrepiei e comecei a segui-lo.

Ele me levou por trilhas invisiveis e caminhos que eu jamais teria achado sozinha. Passei por clareiras onde grandes pedras em formatos de ogros circundavam uma fogueira,andei por entre rochas de onde de um imenso pedaço de granito saía o punho de uma espada, passei por cima de uma ponte onde um riacho caldaloso cantava com voz de mulher e entre árvores que tinham globos de luz azul pendendo da ponta de seus galhos.

Depois a floresta se tornou mais... comum. Apenas pinheiros,abetos e platanos,algumas moitas de azevinho e o rio quase seco. Estava de volta ao mundo normal. Ele havia cortado o caminho atravessando alguma passagem do véu má levou até uma cabana que ficava na orla da floresta. Era pequena ,mas bem construída. Ao fundo pude ver uma cabana menor com um chaminé afunilada de onde saíam rolos de fumaça preta.

O elfo abriu a porta e me fez entrar. Ao ultrapassar a soleira divisei uma mulher loira com lindas tranças no cabelo sentada numa cadeira de madeira e Magritte em seu colo com Apfel brincando no chão.

"Magritte!" Minha voz saiu num chiado baixo.

"Mamãe!" Minha filha veio correndo e se atirou nos meus braços,Apfel fez festa aos meus pés. "Mamãe o que aconteceu com você?Você está horrível." Seus olhos castanhos me miravam preocupados e eu não pude responder ,pois havia começado a chorar de novo.

Depois de um tempo ,quando me recompus e o elfo e a mulher haviam se afastado um pouco para a outra ponta do aposento,após de me darem um bons goles de leite quente ,sentei numa das cadeiras e coloquei Magritte no meu colo.

"Onde você esteve?"Sussurrei.

"Apfel quis fazer xixi e eu fui com ele.É perigoso sair pela floresta sozinho,você sempre diz." Ela respondeu com orgulho na voz.

Tive de me segurar para não rir de nervoso.

"Querida você nunca,nunca,nunca mais saia de perto de mim sem me avisar entendeu?" Como ela não respondesse segurei seus bracinhos com mais força e fiz com que olhasse para mim. "Responda."

"Entendi." Sua expressão estava desconsolada,ela não entendia porque Apfel podia ir pela floresta sozinho e ela não.

"Você jura para mamãe?"

"Juro."

"Então está bem."

Após uma nova rodada de admoestações de minha parte e beicinhos zangados de Magritte fui finalmente capaz de voltar minha atenção para os outros dois ocupantes da cabana e para própria cabana. Era uma construção de madeira clara bem vedada contra o vento de fora,pois a lareira estava acesa e ali dentro parecia o interior de um forno! Uma escada subia para o andar superior e ao lado havia uma porta fechada,algumas janelas e a mesa também de madeira cercada por cadeiras, um alaúde encostado ao lado da lareira e uma panela fumegava no fogo presa por uma haste de ferro . A moça loira parecia estar na casa dos 30,tinha olhos prateados e orelhas pontudas també um vestido que parecia ser azul escuro,mas quando ela se mexia adquiria todas as tonalidades possíveis de vermelho,rosa,beje,dourado,verde,laranja e amarelo e por mais que você fixasse seu olhar não poderia dizer qual era a cor verdadeira.

Os dois estavam em silêncio em frente a lareira,mas estranhamente,eu podia perceber que se comunicavam mesmo assim. Os olhos prateados fixos no fogo crepitante,ambos postados numa posição praticamente imóvel e seus peitos subiam e desciam tão lentamente que era quase dificil dizer que realmente respiravam.

Amendrotada por estar entre estranhos e estranho mágicos resolvi fugir me aproveitando de seu aparente alheiamento,porém,no momento em que me levantei a moça se virou pra mim e sorriu e foi a coisa mais bonita que eu já vira na vida.O ar parecia cantar e um estranho zunido encheu minha cabeça,minha filha parecia alheia aquele fato e eu imaginei o que eu sentiria caso visse o homem elfo sorrir.

"Você não precisa ter medo,nós não vamos te fazer mal."Ela disse. "Eu me chamo Awdrina e esse é meu irmão Aeric." Ela sorria,ele não.Só olhava para mim intensamente,alias,olhava para tudo com uma intensidade desmedida. Seus olhos pareciam querer descobrir os segredos mais profundos da chaleira de metal que ficava em cima da prateleira sobre a lareira. Daqui a pouco seus olhos iam abrir rombos nas paredes.

"De que está fugindo?"Awdrina continuou parecendo apenas levemente interessada.

Engoli em seco,minha filha olhava pra mim muito quieta.Não podia dizer "Meu marido!" porque afinal não era verdade e podia magoar Magritte. "Estou fugindo de Branca de Neve." Eu respondi trêmula ao constatar a seriedade do que havia acabado de dizer.

Por anos eu não fora nada mais do que Branca de Neve .Para minha madrasta que de forma odiosa e jocosa me chamava assim , para me lembrar da minha mãe e de meu pai e de tudo que eu havia perdido e não podia ter. Da boca dos anões quando me olhavam extasiados. Achando que eu precisava de sua proteção,como se fosse uma de suas pedras preciosas,delicada e valiosa demais para se olhar até. Pelo meu marido que me via como o troféu que possuía por ter sido praticamente obrigado a se casar com uma moça a quem ele não conhecia. Por todo o reino ao vislumbrarem uma rainha de contos de fadas que só existia da porta dos meus aposentos pra fora.

"Qual o seu nome?"O elfo,Aeric,me perguntou parecendo intrigado.

"É Clara." Clara que gosta de correr por entre o mato descalça e sem todas as roupas incômodas e desnecessárias , que gosta de cozinhar doces,que gosta de ler e de nadar nua,que tem medo de escuro e que morre de amores pelas músicas dos trovadores , que sabe bordar-mas não costurar-,que odeia maçãs,que gosta de dormir com o cabelo úmido-pois é fresquinho-que ama sua filha mais que tudo no mundo e que desejava esquecer tudo e começar de novo.

"E eu sou Magritte." Minha filha pulou do meu colo e se agachou para acariciar meu cachorro. " E este é Apfel." Falou apertando o corpinho roliço de Apfel de encontro ao peito. ' E eu estou com fome mamãe."

"Eu-eu perdi meu alforje enquanto te procurava. Mas vou dar um jeito,não se preocupe." Acrescentei rapidamente,afinal,eu estava fazendo tudo sozinha e sozinha eu ia conseguir dar um jeito em tudo.

"Vocês podem ficar pra jantar.Não podem Aeric?" Awdrina perguntou com um sorriso e uma cotovelada na barriga do irmão.

"Ai!" Ele reclamou esfegando o plexo solar. ".O jantar logo estará pronto." Ao receber um olhar intimidante da irmã ele continou. " Não gostariam de um banho?Parecem cansadas."

E então eu e Magritte , e Apfel nos seguindo, fomos levadas para o andar de cima onde uma grande tina de madeira foi enchida com água quente e onde pudemos nos lavar da terra e do suor.