Capítulo 3
Olhos nos olhos. Por causa do vento, uma pequena mecha castanha escapa do rabo de cavalo de Hermione e Malfoy, com toda sua agilidade certeira, captura-a e a coloca atrás da orelha da mulher. Suavemente, esfrega o polegar na bochecha da morena, que enrubesceu. Dos lábios de Draco escapa um sorriso bobo, meio de lado.
Tudo isso aconteceu muito rápido, em fração de segundos, provavelmente ninguém notara aquela pequena demonstração de afeto. Mas Pansy Parkinson não era qualquer uma e seu olhar furtivo captou cada detalhe da cena protagonizada pelo casal apaixonado.
Pansy sabia o quão vidrado ele estava por Hermione. Nunca havia visto os olhos de Draco brilharem ou um sorriso apaixonado aparecer em seus finos lábios. A morena sentiu um calor em suas entranhas: estava mortificada pelo ciúmes.
Controle-se! Você é Pansy Parkinson e não pode ser superada por essa sangue-ruim!
Mexa essa bunda gostosa e vá acabar com a alegria do casal logo!
Pansy passou as mãos nas laterais dos quadris, ajeitando o vestido roxo que estava usando; e os dedos, ao redor dos lábios para assegurar que o batom vermelho não estava borrado. Com o indicador direito empurrou seus óculos de sol mais rente à face e caminhou, rebolando, ao encontro de seu noivo.
Ao se aproximar, conseguiu chamar atenção de Draco, o qual rapidamente escondeu sua surpresa e deu um pequeno passo para longe de Hermione. Esta virou para ver quem se aproximava, baixando os olhos ao reconhecer a figura que de longe vinha rebolando. Diante do constrangimento causado, Pansy sorriu. Estava conseguindo o que queria.
- Olá, Draquinho! Você está atrasado, meu bem! – disse Pansy, dando um beijo rápido na boca de Draco.
- Eu e sua mãe ficamos muito preocupadas com sua demora! Sei que você não quer interferir nos detalhes do casamento, mas têm coisas que precisam do seu palpite. Sobre a decoração do loc..
Draco raspou a garganta.
- Pansy, com certeza se lembra de Hermione Granger, de Hogwarts? – disse o loiro, introduzindo a castanha ao assunto.
Finalmente, Pansy se virou para encarar Granger. Afastou os óculos de sol do rosto, apoiando-o na ponta do nariz, medindo a oponente de cima a baixo, gravando os detalhes de suas vestes ainda juvenis e do corpo esguio. Ela ainda parecia uma colegial. Ao menos Granger passara a usar salto alto.
Seu sorriso ficou ainda mais largo, pois conseguira atingir a castanha com a conversa sobre casamento. Hermione estava deveras constrangida diante da intimidade que imaginava haver entre Draco e Pansy.
- Como poderia me esquecer da sabe-tudo-grifinória mais irritante de toda Hogwarts? – zombou, em um tom de voz além do necessário para um corredor de uma universidade.
- Pansy! Olha como fala com Hermione. Não estamos mais no colégio! – Draco repreendeu-a, enquanto girava os olhos nas órbitas.
- Hermione? Não sabia que estavam tão amigos assim... – Retrucou Pansy com seu tom de desdém, enfatizando a palavra "amigos" – Calma, amor, é só uma brincadeira! Granger, você está linda a propósito!
- Obrigada, Parkinson. Bom, aparentemente, vocês dois têm muito que tratar. Até mais! – despediu-se a morena encabulada, sem coragem de encarar o loiro.
- Espera, Hermione! – disse Draco, projetando seu corpo em direção à castanha – Nos falamos mais tarde para terminar de discutir o trabalho, pode ser?
Hermione foi obrigada a encará-lo, afinal não poderia deixar Pansy desconfiar do envolvimento de ambos. Nesse momento, Draco sentiu como se tivesse levado um soco na boca do estômago. Mágoa dos olhos da grifinória era mais que ele achava que poderia suportar. O olhar do loiro beirou à piedade. Como podia tê-la deixado à mercê de Pansy?
Com toda sua acuidade, Hermione percebeu o sentimento de pena no semblante de Draco e imediatamente se recompôs. Até parece que deixaria Pansy ganhar espaço!
- Claro! Aguardo seu contato! Boa tarde! – respondeu com um falso sorriso. Deu as costas para o casal e foi embora, sem olhar para trás.
- Vamos aparatar, então, Draco! Não quero deixar sua mãe ainda mais irritada. Você sabe como ela fica depois, não cede por nada e não quero orquídeas amarelas em nosso casamento!
Dizendo isso, foi puxando o loiro, que ainda olhava Hermione ao longe se distanciar. Pansy tinha certeza que se não insistisse em resolver o assunto do casamento naquele momento, o homem arrumaria uma desculpa para sair correndo atrás de Granger. Sim, na frente de sua noiva. Sim, na maior cara de pau.
Aparataram na Mansão Malfoy. Enquanto Pansy e Narcisa tentavam chegar a um acordo sobre os detalhes da festa, Draco permanecia aéreo. Provavelmente, maquinando com seus botões, tentando não perder Hermione. Pansy tinha certeza que Draco não desistiria tão facilmente assim – ao contrário de Hermione, que já ficou acuada com o primeiro golpe.
Pansy sabia que o problema seria Draco. Ele e suas obsessões. Se quisesse levá-lo ao altar, teria que estar preparada para a guerra.
E Pansy adorava uma guerra. Fazia com que desejasse com mais ardor alcançar seu objetivo. Granger que preparasse suas armas.
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Como conseguiu terminar o trabalho um pouco mais cedo do que o planejado, resolveu aproveitar o tempo livre e se dirigir com antecedência ao Beco Diagonal. Assim conseguiria fazer uma surpresa para a castanha, comprando um exemplar da edição comemorativa de cem anos de "Hogwarts: uma história".
Aparatou num corredor ao lado da livraria. Quando entrou na rua principal, avistou ao longe cabelos ruivos se destacando dentre a multidão. Ronald Weasley. Já sentiu sua pulsação acelerar.
O que esse pobretão está fazendo aqui?
Ele estava indo em direção à sorveteria.
Não, não pode ser.
Resolveu segui-lo. Logo, numa mesa da sorveteria, pôs os olhos em Hermione. Weasley dirigiu-se diretamente à ela, cumprimentando-a com um beijo na bochecha. Ele puxou a cadeira e se sentou, aparentemente sem ser convidado.
Draco afrouxou o nó de sua cara gravata.
Eles pareciam íntimos demais. Hermione não demonstrou surpresa ao encontrá-lo, como se tivesse combinado o encontro ali, antes do horário marcado com Draco. Deve ser considerada a falta de vergonha na cara do Weasley, contudo ninguém senta com outra pessoa sem ter sido convidado. Especialmente se essa pessoa for sua ex-namorada.
A menos que sejam íntimos. A menos que isso seja um encontro.
O sangue de Draco ferveu. Não sabia dizer o que estava impedindo-o de ir até lá e dar uns bons sopapos no Weasley. Sim, pelo método trouxa. Utilizar a varinha agora não traria paz, não aplacaria sua raiva.
Ela riu com gosto de alguma coisa que o ruivo disse. Rony estendeu a mão e segurou a de Hermione, dizendo algo que enterneceu a feição da castanha.
Foi a gota d'água. Draco não poderia suportar aquela cena. Que Merlin o ajudasse a não matar o pobretão ali no meio do Beco Diagonal!
Ao avistar um loiro furioso e elegante se aproximando, Hermione puxou suas mãos, colocando-as debaixo da mesa. Forçou-se a sorrir.
- Olá, Draco – ofereceu a bochecha para ele a beijasse. Contudo, surpreendentemente, o loiro deu um rápido e duro beijo em seus lábios. A morena ficou com uma expressão interrogativa, mas resolveu não externalizar naquele momento.
- Olá, Herms. Desculpe o atraso. – dizendo isso, puxou uma cadeira e se sentou.
Rony estava estupefato demais para responder. Como Mione estava junto com esse babaca?
- Eu e Hermione temos assuntos particulares a tratar agora, Weasley – disse o loiro, encarando o ruivo com um sorriso de desdém no rosto. Puxou a mão de Hermione fazendo com que ficasse sobre a mesa, entrelaçando seus dedos nos dela.
- Está me expulsando, Malfoy? – desafiou o outro, com o olha fixo nas mãos juntas.
- Jamais expulsaria um amigo da minha namorada. Estou apenas convidando-o a se retirar.
- Quando é que vai acabar a competição entre vocês dois? – Hermione soltou os dedos dos de Draco, levantou e aparatou ali mesmo, sem que os dois pudessem fazer nada. Não seria joguete nas mãos de ninguém.
Rony levantou, afastando a cadeira com uma ferocidade desnecessária.
- Isso não acabou aqui, Malfoy! - deu as costas e foi embora.
- Com certeza, não, Weasley.
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Para Hermione Granger adolescente uma das poucas certezas era que se casaria com Rony Weasley – se sobrevivessem à guerra, é claro. O ruivo foi seu primeiro amor e estava convicta de que seria o último. Deu-se conta que estava apaixonada por ele no terceiro ano de Hogwarts, logo após terem superado aquela fase curiosa, em que meninos e meninas não suportam a companhia uns dos outros. Gostaria que a paixão tivesse sido revelada como para adolescentes comuns, ao se sentirem tocados por um sorriso ou um olhar, num dia ensolarado no jardim.
Mas eles eram o Trio de Ouro. Nada foi normal na adolescência deles.
Percebeu que amava Rony quando ele foi levado por Sirius Black, transfigurado em um cachorro preto, pelo buraco do Salgueiro Lutador. Naquela época, Sirius ainda era visto por eles como um assassino impiedoso, o qual traiu os pais de Harry, ocasionando a morte de ambos. O coração dela palpitava de nervoso, pulando algumas batidas. Mesmo tempo depois, quando a vida em Hogwarts voltou a ser segura de novo – antes de a guerra começar – ainda acordava de madrugada com os gritos estridentes de Rony e via a face desesperada do ruivo sumir pelo buraco da árvore. Aquelas madrugadas eram prelúdios de dias péssimos.
Guardou seu amor em segredo, pois lhe faltava coragem para revelar seu sentimento. Rony não dava qualquer sinal de se sentir de forma semelhante à ela, sequer a tocava ou a abraçava, como Harry às vezes fazia. O ruivo sempre foi mais distante e ela interpretou tal postura como uma falta de interesse, em especial quando se envolveu com Lavender Brown. Tinha medo de ser rejeitada, além de estragar a amizade dos três.
Beijaram-se pela primeira vez na Câmara Secreta, logo após terem destruído uma horcrux, em meio à batalha de Hogwarts. Totalmente inusitado e não poderia simbolizar melhor o relacionamento deles. Somente frente à iminência de morrerem é que tiveram coragem de demonstrar como se sentiam em relação ao outro. Como tudo em Ronald, o beijo também era sua suave, como uma chuva de verão.
Após a queda de Voldemort e, como consequência, o fim da guerra, engataram um relacionamento sério durante alguns anos. No começo, tudo foi maravilhoso: agora, tinham tempo, vontade e coragem para viverem juntos tudo aquilo que desejavam. Contudo, por ser demasiada calma a vida ao lado do ruivo, acabou por se tornar monótona. Não havia mais beijos fervorosos em Câmaras Secretas. O amor deles desabrochara em meio à guerra e não suportava o marasmo.
A calma e paciência de Rony desempenharam seus papéis, afinal foram fundamentais para aturar as crises de Hermione em meio ao relacionamento, além de marcarem momentos de grande importância em sua vida. Apenas não dava mais para ser tranquilidade todo o tempo, a vida precisava de um agito, eventualmente.
Por ser tão sereno é que ela escolheu o ruivo para ser seu primeiro homem. Quando fizeram amor pela primeira vez, já estavam namorando e ocorreu após um jantar, no apartamento dela. Hermione cozinhara salmão acompanhado de molho de limão e vinho tinto. Ficaram ligeiramente bêbados, levando ao inevitável. Amarem-se no sofá e dormiram abraçados.
O sexo com Ronald era suave. Sempre indagava à morena tudo sobre os desejos dela, colocando o prazer de Hermione à frente do próprio. Rony era um cara que sabia apreciar o prazer feminino, o problema se encontrava na execução: não ousavam, não variavam em nada. O que matou o relacionamento deles foi a mesmice.
Nesse ponto em específico, a relação com Draco era diametralmente oposta. A convivência de ambos não tinha nada de monótona, os dois viviam se alfinetando por qualquer coisa. Por vezes era deveras irritante, por outras seu dia era colorido por o sorriso satisfeito do loiro.
O sexo era explosivo e não tinha nada de convencional. Sempre transavam nos lugares mais inusitados, como em salas de aula, no automóvel trouxa de Hermione ou na mesa da cozinha do apartamento da morena. Eles gostavam é de espalhar seu prazer por aí.
A vida com Draco estava se tornando atrativa pelo fato de cada dia ter de lidar com uma emoção diferente. Ser surpreendida com demonstrações de afeto – mesmo que públicas - era fácil de suportar e de se cativar. Claro que Draco jamais lhe traria um ramalhete de rosas – e ela lhe agradecia, em seu íntimo por isso –, porém sempre comprava um chocolate ou café para ela. Eram pequenos gestos, os quais demonstravam, no entanto, o quanto ele estava atendo à ela, enternecendo o coração da castanha.
Entretanto, enfrentar o ciúme do loiro era algo que Hermione ainda estava digerindo. A cena com Rony inundou suas lembranças. Como Draco pôde disputá-la daquele jeito? Não entendia como poderia ser possessivo em relação a ela, já que não namoravam nem tinham qualquer coisa mais séria.
Não tinham nada? Seja mais honesta com você mesma, Hermione. Por ele pode até ser que vocês não tenham nada sério. Mas você não tem mais visto ninguém, desde a primeira vez que transaram. Isso tem cheiro de coisa potencialmente séria.
Veio à sua mente ele se apresentando como seu namorado. O que isso queria dizer? Falou porque realmente desejava que isso se convertesse em realidade ou por puro ciúmes?
Por que sentir tanto ciúme? Isso soava para ela meio doentio e exigia certo jogo de cintura de sua parte para não viver em constante conflito com o rapaz.
Chegou a vez de relembrar o encontro com Pansy. Esse episódio atingiu em cheio o orgulho de Hermione. De certa forma, a familiaridade com a qual eles se entreolharam, discutindo coisas sobre o casamento, era algo que ela e Draco jamais teriam. Não havia como negar que entre eles, seja lá qual era o nome que davam a isso, existia algo que os tornava cúmplices. Essa foi a parte em que Hermione sentiu ciúmes.
Porém, ciúmes não era nada perto da culpa que estava sentindo. Draco nunca omitira ou tentara diminuir fatos sobre o relacionamento com Parkinson. Claramente não gostava de tocar no assunto, mas quando perguntado diretamente, não costumava se esquivar. Hermione, mesmo sabendo não ser uma postura correta, aceitou pelo prazer do caso escondido e, logo após, pelo sentimento.
Saber dessa situação e conservá-la longe de si é uma coisa, ficar cara a cara com a pessoa que traiu, é outra. Ela e Pansy só trocaram ofensas durante a época em que conviveram. Mesmo assim, contudo, havia a culpa. Hermione Granger de Hogwarts não aceitaria ser "a outra" de ninguém, tampouco trairia as pessoas dessa maneira.
Não è à toa que mal tenho dormido ou tido coragem para me encarar no espelho.
O problema é que assumir seus erros implicava em perder Draco.
Angústia.
O problema também era conviver consigo mesma ao ajudar uma pessoa a ser infiel.
Ansiedade.
Sacudiu a cabeça, tentando afastar tais pensamentos e focar no momento presente. Consertaria as coisas mais tarde. O fato é que estava atrasada para o trabalho: a jornada no Ministério da Magia se iniciava às 8h. Faltavam 15 minutos para seu dia de trabalho começar e a morena ainda precisava tomar banho.
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Já era a terceira carta sem resposta. Hermione não compareceu à última aula da pós-graduação e não retornava o contato. Até cogitara, de início, que algo ruim poderia ter acontecido. Porém, ela era a sabe-tudo do Trio de Ouro, se algo a pusesse em perigo, o Profeta Diário já teria anunciado e o Ministério da Magia já teria se mobilizado.
Em seu íntimo, Draco sabia que ela estava evitando-o. Não poderia ser pura coincidência que a última conversa deles tenha sido aquela interrompida pela chegada abrupta de Parkinson. Com o Weasley, bom, não pode se dizer que tenha sido uma conversa. A castanha ficara magoada – visivelmente magoada. Draco teria de descobrir o quão profundo era seu ressentimento . Teria de tatear uma saída da fortaleza em que se encontrava enclausurada Hermione.
Precisava alcançá-la. Física e emocionalmente. Não queria bater à porta dela, mas estava ficando sem opções. E falta de opções o deixavam louco!
- Hermione, eu sei que você está aí! Abre a porta para conversamos! – Draco batia mais uma vez na porta.
- Eu não vou embora enquanto não sair daí! Você não pode me ignorar para sempre! Estou ouvindo seu gato, Hermione! – irritado, Draco deu um murro na porta.
Um dos vizinhos do apartamento abriu uma fresta da porta e espiou. De forma grosseira, enxotou Draco. Este, por seu turno, ignorou. Estava ali para falar com a castanha e atingiria seu objetivo por bem ou por mal.
- VOU COMEÇAR NOSSA CONVERSA AQUI NA FRENTE DOS SEUS VIZINHOS, ENTÃO! VOCÊ NÃO PODE SIMPLESMENTE ME IGNORAR! QUERO QUE OLHE NOS MEUS OLHOS E DIGA QUE NÃO ME QUER MAIS! – Agora estava esmurrando a porta.
- HERMIONE! HERMIONEEEE! HERM..
Sem aviso, a morena apareceu. Quando Draco caiu em si, já havia sido puxado para dentro do apartamento.
- Cala essa boca, Malfoy! Quer acordar meu prédio inteiro? Você é tão egoísta que não consegue nem respeitar minha vontade e ficar longe! – enquanto dizia isso, Hermione andava de um lado para o outro em sua sala de estar, puxando os cabelos enrolados para trás.
- Hermione, como você queria que eu mantivesse distância se não me deu qualquer tipo explicação. Nem conseguimos conversar! Não sei o que está acontecendo! – mais calmo, o loiro deu um passo na direção de Hermione, o qual foi seguido de um passo para trás da morena.
- Não ouse me dizer que você não sabe me dizer o porquê do nosso distanciamento. Em alguns meses, você será um homem casado! Isso tem que parar, Draco! – covardemente, fugiu da presença física dele. Todavia, tinha plena consciência de que não seria bem sucedida em fugir dos olhos desesperados do loiro. Por mais que desejasse, não poderia fugir dele para sempre.
- Parar, Hermione? Você sente essa tensão no ambiente? Isso é o desejo insano que tenho por você! Não dá para controlar! Sou louco por você, mulher! – poderia muito bem jogar na cara dela que a viu se encontrando às escondidas com Weasley. Ela não poderia contra-argumentar, pelo menos o noivado dele era de conhecimento público. Contudo, não diria isso para a castanha agora. Queria tê-la de volta – não queria causar seu afastamento, ou pior: fazer com que procurasse o pobretão.
Ao falar, Draco abria levemente os braços, fazendo que seu corpo expressasse a genuidade de suas palavras. Engraçado, Draco era a pessoa mais objetiva e honesta consigo mesmo que Hermione já conhecera. Quando ele se expressava dessa forma, tornava-se difícil contestá-lo.
- Draco, quero que vá embora e não volte a me procurar. Já tomei minha decisão: você segue com sua vida e eu, com a minha. Separadamente. – a mulher cruzou os braços, fechou a cara e foi andando em direção à porta.
Negação. Era esse o estágio em que Hermione se encontrava. Consigo mesma, decidiu que o ignoraria até que conseguiria enterrar o sentimento nutrido por ele. Às vezes, até os mais sagazes reduzem seus problemas, acreditando que somente negar a existência de conflitos seria suficiente para trazer alguma espécie de paz ou redenção.
O loiro puxou-a pelo braço antes que ela alcançasse a porta, forçando-a a olhar-lhe nos olhos.
- Fala que não me ama. – raiva brotava de cada poro da pele dele. O humor de Draco estava muito oscilante.
- Eu não te amo. – Hermione sempre fora uma terrível mentirosa.
- Me amar, Herms, exige sair da sua zona de conforto. Para isso, você precisa derrubar a barreira que você mesma criou para me afastar. Você só vai sofrer. Pare de negar e aceite o que estamos construindo. Eu vou esperando por você. Sabe onde me encontrar. – De repente, os olhos transbordavam ternura.
Dizendo isso, deixou o apartamento. Não sem antes olhar profundamente nos olhos dela, à porta.
- Boa noite – presenteou-a com um sorriso de lado.
A morena escutou os passos dele até a lareira no fim do corredor de seu andar e, logo em seguida, o barulho que a rede de flu produzia ao ser utilizada. Só então permitiu-se chorar.
Chorar era pouco. Na verdade, a castanha poderia ter enchido todo o lago negro com suas lágrimas. Graças à Merlin, um feitiço impedia que os vizinhos testemunhassem sua derrota em forma de soluços.
Aquela doninha egoísta! Só deixa para dizer que me ama quando já decidi me afastar.
A castanha queria poder viver esse amor. Acima de tudo, queria acordar desse pesadelo.
Tudo passa, Hermione. Tudo passa...
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Que dia cansativo! Aquele velho trouxa tem mais disposição do que sua idade sugere!
Após um belo banho, massageou o pescoço durante um bom tempo. Vestiu uma camisola toda rendada, jogou seu corpo cheio de curvas sobre a cama e refletiu sobre sua vida.
Da última vez que botou os olhos nele, Draco estava bem angustiado. Aparentemente, até perdera um pouco de peso. Suas ações para afastá-lo da sangue-ruim, ao que tudo indicava, estavam surtindo efeito. Só mais um pouquinho e ele recuperaria sua racionalidade e voltaria sedento para ela. Pansy o satisfaria com todo gosto, enlouqueceria-o de prazer para matar a saudade.
Separar os dois se tornou uma questão de vida ou morte. Ver Draco sofrer por outra mulher era uma agressão direta ao ego da morena. Ela precisava provar, de qualquer forma, que era melhor de Granger!
Perdida em seus pensamentos, não ouviu a campainha soar. Foi se dar conta de Draco encostado no batente da porta de seu quarto quando chamou por ela:
- Pensando nas merdas que fez na vida, Pan? – disse o loiro se divertindo com o susto da morena – Cansei de tocar a campanhia. Você simplesmente não aparecia.
- Ficou preocupada comigo, Draquinho? – maliciosamente, Pansy se virou na cama de modo a deixar seu decote bem evidente. Os olhos cinza grudaram em nos seios fartos instintivamente.
- Sempre fico, só Merlin sabe o que você é capaz de aprontar! – ambos gargalharam – Escuta, Pan, precisamos conversar.
- Pra quê conversar? – levantou-se da cama e foi na direção do loiro. Grudou o corpo feminino no dele, enquanto acariciava seu tórax.
- É sério, Pan. Se não conseguir se controlar, vamos ter que ir na cozinha – repreendeu-a, afastando a mão dela.
- Amor, qualquer lugar é lugar – deu uma piscadela e voltou a se sentar na cama, agora de forma mais composta – Pode falar, estou te ouvindo.
Draco respirou fundo. Ela não facilitaria para ele.
- Pansy, você muito sagaz. Sei que não estou te contando nenhuma quando digo que eu e Hermione estamos juntos – ela engoliu em seco, ele inspirou profundamente.
- Por que está me contando isso agora? Quer ouvir de mim que eu sei que é infiel? Que novidade! – a morena já estava de pé, andando de um lado para o outro – Não pense que vou tolerar isso depois de nosso casamento!
- Essa é a questão, Pan, não vai mais haver casamento – disse o homem pausadamente, para que a mulher compreendesse o significado de cada palavra.
Ela mirou-o. Estava estupefata.
- Não ouse me abandonar no altar, Draco Lucius Malfoy! – falou com uma voz esganiçada.
- Pansy, não estou te abandonando no altar. Estou impedindo que uma tragédia maior aconteça. Deixe-me explicar como tudo ocorreu. Quero que você compreenda a situação.
- Não use esse tom suave comigo, como se não estivesse me enxotando de sua vida e me fazendo passar a maior vergonha perante toda a sociedade bruxa – a morena estava descontrolada. Ora passava a mão pelos cabelos, ora apontava o dedo para o ex-noivo.
- Não posso mais ignorar Hermione. Não tem como virar essa página – conformado, disse a ela.
Pansy foi até sua penteadeira, pegou sua caixa de joias e atirou contra o loiro. Acertou-o em cheio no peito, espalhando todos os presentes recebidos no carpete vermelho do quarto.
- Que merda é essa, Pansy? – ele não contava com agressão física.
- SAIA DA MINHA CASA! – bradou a morena de olhos arregalados.
- Vim conversar em paz. Para de ser uma criança mimada, porra – agora, Malfoy também estava irritado.
- SAIA DA MINHA CASA! VÁ SER FELIZ COM AQUELA SANGUE-RUIM! ELA NUNCA ESTÁ À ALTURA DE UM MALFOY! VAI FAZER SUA FAMÍLIA PASSAR VERGONHA, SEU FILHO DA PUTA!
Draco Malfoy deixou os aposentados de sua antiga companheira. Quando estava descendo as escadas, um vaso de porcelana passou rente à sua orelha esquerda.
- VOCÊ VAI SE ARREPENDER, MALFOY! NINGUÉM TRATA PANSY PARKINSON ASSIM E VIVE PARA CONTAR A HISTÓRIA.
Enquanto ela buscava outro objeto para arremessar contra ele, Draco aproveitou a ocasião e aparatou.
Acreditou que pelo menos teria a oportunidade de explicar como as coisas aconteceram. Não imaginou que a morena explodiria dessa maneira. Uma coisa era certa: todo cuidado com Pansy e suas artimanhas agora seria pouco.
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Um alohomora resolveria parte de seus problemas por ora, naquela noite. Aguardou a dona da casa na sala de estar. Enquanto estava sozinha, permitiu que suas lágrimas corressem livremente pelo rosto, borrando um pouco da maquiagem. Recostou-se no sofá e abraçou os joelhos.
Por mais que não quisesse admitir, estava devastada. O fim do relacionamento com Draco era um golpe que não imaginava tomar. Ao contrário, estava convicta de que conseguiria pôr um fim na história dele com a Granger. Seus planos originais não envolviam esse desfecho.
Pansy e Draco nasceram para ficar juntos. Afinal de contas, os dois com seus jeitos loucos se completavam. Ela sempre acreditou que ele ficava ao lado dela porque enxergava a mesma coisa. Seus objetivos e formas de vida eram comuns. A vida, por seus caminhos tortos, arrumou uma maneira de eles se encontrarem e se entenderem.
Não tinha sentido tudo acabar assim. Não entendia como, de um momento para outro, simplesmente não haveria mais casamento. Ela não seria, então, uma Malfoy.
Desde sempre, para ela, só existiu o Draco. Todos seus esforços foram direcionados para um relacionamento com Draco. Depois de tantos anos, como viveria sem ele?
O que seria dela?
Foi interrompida de seus devaneios por um barulho no jardim: a anfitriã chegara. Pansy se recompôs com um feitiço de retoque de maquiagem, limpou as lágrimas e endireitou-se no sofá. Repassou mentalmente a desculpa que elaborou para justificar a invasão a domicílio. Botou um sorriso no rosto e aguardou.
A outra mulher, por encontrar a porta destrancada, adentrou à casa com a varinha empunhada na mão direita.
- Calma, Astoria, sou eu. – sorrindo, esticou os braços nas costas do sofá. – Vim fazer uma visita, assim quem sabe você para de me chamar de "desnaturada".
Astoria sorriu verdadeiramente enquanto esquadrinhava Pansy com o olhar. Astoria sempre deixava suas emoções transparecer pelo seu olhar e sorriso. Não havia dúvida de que ficara contente com a visita inesperada.
Os olhos castanho-esverdeados de Astoria despertavam muita curiosidade, vez que contrastavam com o ar delicado e harmonioso que irradiava de sua figura. Seus olhos espertos poderiam a qualquer momento saltar as órbitas e começar o interrogatório dos que estavam à sua volta. Meticulosa, ela examinava cada detalhe. Nada lhe passava desapercebido.
Ela sabia que Pansy não estava ali sem motivos, provavelmente já até percebeu o choro acobertado. Não tinha como esconder certas coisas de Astoria, contudo não encará-la seria pior, seria como uma confissão de culpa. Por essa razão, Pansy sustentou o olhar profundo.
- Como vai, Pan? – Astoria liberou a morena do olhar inquisitivo e seguiu para a cozinha, a fim de preparar algo para beber.
Era facilmente ser seduzido pela atmosfera acalentadora criada por Astoria. Dela emanava calma e conforto, como quando se chega em casa depois de um dia exaustivo de trabalho. E sob esse aspecto é que ela se fazia forte: com a proximidade criada com as pessoas poderia obter as informações e vantagens a que aspirava. Era uma sonserina, no fim das contas. Não fora escolhida pelo chapéu seletor apenas pelo sangue-puro.
Pansy e a dona da casa tinham jeitos e personalidades opostas. Pansy se sentia atraída pelo jeito cativante e astucioso de Astoria. À sua maneira, admirava-a por conseguir atingir seus objetivos de forma mais calma, mais calculista, enquanto Pansy era um verdadeiro furacão, não restando pedra sobre pedra quando passava. Curiosamente, cada uma chegava ao lugar previamente determinado, só que cada uma à sua maneira.
- Vou bem. Eu e Draco estamos acertando os últimos detalhes do casamento. Isso está me matando! Narcisa suga todas minhas energias! – disse enquanto seguia Astoria até a cozinha.
Astoria tinha acrescentado mais algumas canecas à sua coleção desde a última vez que Pansy visitara a casa. Metódica, organizava-as por cores. Pansy soltou um riso abafado, ao tempo que a outra estava de costas, colocando uma chaleira com água no fogão.
- Você veio, então, para uma despedida de solteira? – Astoria deu uma piscadela à morena. Depositou algumas ervas colhidas em seu quintal, assim que a água começou a ferver.
- Ah não! Fui desmascarada! – disse Pansy com um falso espanto, causando gargalhadas em ambas.
- Quando você vai aprender, Pansy Parkinson, que eu não sou Draco Malfoy? – com um sorriso leve no rosto, a anfitriã balançava a cabeça de um lado para o outro, como que incrédula pelo papel que a outra estava representando.
- O que quer dizer com isso? – perguntou a morena, na defensiva.
- Você não pode me enganar como faz com seu noivo. Precisa aceitar que não consegue mentir para mim. – Pansy se afastou e desviou o olhar - Estou vendo que está mal. Soube disso no momento em que pus os olhos em você e também pelo fato de ter arrombado minha porta. Situações drásticas exigem medidas drásticas, Pan?
Sabia que Astoria leria sua alma. Ela e seus malditos olhos! Seu inconsciente, traindo-a, levara-a até lá. Não poderia ter outra explicação! Não gostava de depender de ninguém, mas aparentemente, naquele momento, é o que seu corpo precisava. Enquanto não juntasse seus cacos, precisaria de alguém pra segurá-la em pé.
- Draco terminou comigo.
Astoria dirigiu-se até o armário das canecas, pegou duas e, depositando-as no balcão, serviu o chá. Apenas deixou que a morena falasse, sem interrupções.
- Ele está com Hermione Granger. – Astoria parou de servir o chá com o choque da notícia, mas não encarou a outra. Absorvido o impacto, como se nada tivesse acontecido, retornou à sua atividade.
- Não sei o que deu errado. Deixei que ele se divertisse um pouco com a sangue-ruim, mas sempre marcando o território, esfregando na cara daquela sabe-tudo que Draco era meu. Ela até ficou intimidada no começo. O problema é Draco. Ele simplesmente não desiste dela! Me trocou por aquela sangue-ruim metida a sabe-tudo! – Pansy deu um murro no balcão, tombando alguns objetos que estavam em cima dele.
Astoria largou sua xícara e venceu a distância que havia entre as duas. Mirando-a profundamente, passou os dedos por entre os cabelos lisos de Pansy e sorriu. Logo em seguida, abraçou Pansy, a qual permaneceu com os braços retos, na lateral do próprio corpo.
Não seria fácil encontrar uma fenda para cruzar a barreira criada por Pansy. Contudo, Astoria não desistiria tão fácil assim.
- Vai arrumar um jeito de tirá-la de seu caminho. – sussurrou no ouvido da morena, enquanto fazia leves círculos em sua nuca com o polegar – Você é sempre tão engenhosa! Draco vai perceber a besteira que está fazendo.
O corpo da morena relaxou dentro do abraço quente de Astoria. Vencida, Pansy enlaçou a outra com seus braços.
Mais uma vez ficou constatado que Draco era a chave de tudo. Astoria já havia aceitado isso. Só que, às vezes, não era tão simples ser estapeada na cara pela verdade. Às vezes, doía.
Tanta obstinação chegava a causar certo receio. Tinha medo que a amiga perdesse as rédeas qualquer hora.
Inalou profundamente o pescoço de Pansy para guardar seu cheiro. Libertou-a do abraço apertado. Colocou as mãos ao redor do rosto da morena e lhe beijo os lábios de forma breve e suave.
Ficaram um tempo com as testas recostadas.
- Senti sua falta, Toria.
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