Capítulo III
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O calor era insuportável dentro daquela cabine, não havia ventilação já que as escotilhas não abriam uma única fresta. Suando praticamente em bicas, Hana passava a maior parte do tempo sentada na cama, com seus pensamentos ou ocupando-se em comer. Vez ou outra, conversava com Shun, que lhe contara algumas histórias sobre as aventuras do Madrileña em águas caribenhas. E, notou ela, todas as vezes que falava sobre seu capitão, era nítida a sua admiração pela pessoa dele.
Estava começando a considerar que, se tivesse encontrado o capitão em outra situação, suas impressões sobre ele não seriam tão ruins. Mas claro que esses pensamentos perdiam força quando, ao cair da tarde, ele aparecia na cabine. Sentava-se em sua escrivaninha, ficava umas boas duas horas escrevendo em seu diário e depois saía, sem ao menos se dignar a olhar para a jovem em sua cama. Era um homem frio e rude.
-Senhorita? – ouviu a voz de Shun lhe chamar e se voltou para ele, com um sorriso. Notou que ele segurava algumas roupas entre as mãos.
-O que foi, Shun?
-É que está muito quente e como ainda temos pelo menos mais uma semana em mar adentro, Aiolos convenceu o capitão a lhe deixar sair da cabine e circular pelo navio.
-Quem é Aiolos?
-O oficial imediato do Madrileña... Acho que, com exceção de mestre Saga, é o único homem a quem o capitão dá ouvidos.
-Entendo... E essas roupas?
-Ah, são minhas, mas acho que servirão na senhorita. Afinal, não vai querer subir ao convés usando apenas uma camisa, não é?
Hana agradeceu a boa vontade de Shun e então pô-se de pé, trocando depressa de roupa. Estranhou um tanto as calças, ainda que fossem largas, e a camisa de amarrar, que era mais solta, mas logo se acostumaria. E, com toda certeza, seria bem melhor circular pelo navio vestida como um marinheiro do que com um vestido ou mesmo o que restara de sua camisola. Prendendo os cabelos com uma tira de couro, respirou fundo e saiu da cabine.
O ar com cheiro de maresia lhe invadiu os pulmões assim que subiu o primeiro degrau da escada de madeira de acesso ao convés. O sol, já a pino, banhou com seus raios os cabelos castanhos, dando-lhes alguns reflexos avermelhados. Mais alguns passos e estava "livre", sendo imediatamente observada por diversos homens, o que a deixou sem jeito.
-Se se sentir mais confortável, pode ficar no leme, há poucos homens por lá. – disse-lhe um jovem rapaz de olhos verdes e cabelos castanhos encaracolados. Sorriu, deduzindo quem seria.
-Obrigada, Aiolos... Mas se ficar por lá, certamente aborrecerei o capitão Shura com minha presença.
-Oh, não, senhorita... Sou eu quem comanda o leme, o capitão passa a maior parte do tempo circulando pelo navio. Vamos?
Hana assentiu e acompanhou Aiolos até onde ficava o leme, na proa do barco. Sentou-se em um caixote, ao lado do timão e por ali ficou um bom tanto de horas, ouvindo as histórias que o rapaz tinha contar sobre suas aventuras no mar, a família de origem grega, a esposa que o aguardava há quase três meses na ilha onde moravam e, claro, Shura.
Assim como Shun, as palavras de Aiolos quando se referia ao capitão eram de admiração e profundo respeito, principalmente pelos anos de amizade que os uniam. Vez ou outra, seus olhos percorriam o navio e ela reparava no rapaz, ora ajudando seus homens com algum dos afazeres do Madrileña, ora ditando ordens. Sua voz soava um tanto rude, mas, ao mesmo tempo, era respeitoso como os demais.
Então, de súbito, Hana se pegou pensando como e quando o homem bom e sincero descrito por Shun e agora Aiolos se tornara o ser de olhar tão frio e cheio de pose que se apresentava a si todas as tardes.
-Aiolos? – Hana chamou o oficial, precisava mudar de assunto, falar de algo que não fosse o capitão, ou a imagem dele não abandonaria tão cedo a sua mente.
-Sim?
-Pode me dizer para onde vamos? Nem Shun e tão pouco o "seu capitão" quiseram me responder nas vezes em que perguntei.
-Para Port Royal, senhorita Hana – Lis.
Um brilho se fez ver nos belos olhos castanhos de Hana, Port Royal! Já tinha ouvido falar do lugar, era o reduto inglês nas águas caribenhas, com certeza estaria cheio de guardas reais e da marinha por lá. Teria, então, chances de conseguir escapar do navio e procurar pela guarda, relatar seu caso e fugir de volta para sua casa. Mas, pensou logo em seguida, era um lugar lotado de piratas. Shura certamente não a ajudaria a enfrentá-los. Como faria, então?
A resposta veio na forma de um pequeno grupo de marinheiros, que formavam um pequeno círculo no convés. Dois deles, um loiro e outro moreno, lutavam entre si, mas não era exatamente uma briga. Parecia mais um treinamento de ataque e defesa.
-Aquele é Ikki, meu irmão... – Shun apontou o moreno, havia acabado de trazer o almoço para Hana no leme.
-Mesmo? Ele luta muito bem... Será que se eu pedir, ele me ensinaria alguma coisa?
-O Ikki eu duvido muito, é desconfiado demais... Mas o Hyoga – ele apontou o rapaz loiro – certamente a ensinaria alguma técnica de luta ou defesa.
Hana agradeceu a comida e a indicação e então desceu ao convés, indo se juntar ao grupo. E Shura, muito atento, a acompanhou com o olhar, não estava gostando muito daquilo. A jovem, por sua vez, logo fez amizade com os marinheiros e com Hyoga, que, após uma breve conversa, a chamou para o centro da roda.
Passou-se algo em torno de meia hora até que Shura, nervoso, resolveu intervir. E chegou no exato momento em que o rapaz agarrava Hana por trás e ela se debatia, tentando se soltar. O sangue espanhol subiu fervendo pelas veias, o capitão puxou o marinheiro pelo braço com força. O rapazinho soltou Hana, que caiu ao se desequilibrar, mas Shura não se importou.
-O que pensa que está fazendo?
-Na-nada, capitão, eu só estava ensinando a sen...
-Hyoga apenas estava atendendo a um pedido meu, capitão. – Hana falou levantando-se, sua voz saía cortante – O senhor tem alguma coisa contra ele me ensinar técnicas de luta e defesa?
-Não precisa desse tipo de coisa enquanto estiver em meu navio.
-E quando desembarcamos em Port Royal? – ela questionou, para se arrepender logo em seguida. Não era para Shura saber de suas intenções.
-E quem disse que a senhorita vai desembarcar em Port Royal?
-Vai me impedir?
-Vai ficar no Madrileña, aquele lugar não é para qualquer um que queira se aventurar.
-Não pode me manter prisioneira para sempre, Shura... Eu vou desembarcar em Port Royal, encontrar a guarde inglesa e voltar para a Carolina do Sul.
-Para o tal de Asterion?
-Esteja certo que sim.
Havia determinação naqueles olhos e Shura, tinha que admitir, gostava daquilo. Então, dispensando seus homens com novas e duras ordens, se voltou à Hana, que permanecia no mesmo lugar, os braços cruzados na altura do peito em sinal de desafio.
-Muito bem, se quer tanto voltar para ele, vai ter que me provar que merece tanto... Vamos ver o que consegue sendo eu e não Hyoga a impedí-la.
-O quê?
-Os piratas de Port Royal são maiores do que o Hyoga e mais perigosos, da mesma laia que Death Mask... Posso ensinar como se defender deles, se quiser.
Hana desfez a posição de desafio e aceitou a oferta do capitão. Shura a fez virar de costas para si e a segurou pela cintura. Hana engoliu em seco, as mãos dele estavam quentes.
-Quando eu a prender, quero que tente de tudo para se soltar, não importando se pode ou não me machucar. Entendeu?
Ela fez que sim com a cabeça. Então, Shura agarrou sua cintura e quadris, com uma chave de braço. Hana se debatia desesperadamente, tentava socar Shura, arqueava a cabeça para trás, dava pequenos pulos. E, sem perceber, tanta ação causava certos efeitos no capitão.
Um arrepio, assim com uma sensação de calor percorreu a espinha de Shura. Há quanto tempo não sentia em seus braços o calor de um corpo feminino, bem como a pele macia e perfumada? Praguejou, que diabos estava acontecendo consigo? Três meses no mar não estava lhe fazendo bem, pois se pegava agora desejando ter Hana para si.
Soltou-a bruscamente, quase que a jovem vai ao chão novamente.
-Isso é ridículo! – ela gritou, toda suada e com o cabelo desalinhado – Eu quase não consegui me mexer!
-Então, nada feito... Se não conseguiu escapar de mim, que nem a segurei com tanta força assim, que dirá de algum pirata. Não vai desembarcar em Port Royal.
-Seu... Seu... Maldito!
Hana quis bater em Shura, mas seu intento teve fim quando, de repente, uma onda mais forte pegou o navio de surpresa. Mal acostumada com os solavancos marítimos, a jovem caiu para frente, amparada pelos braços fortes do capitão, E, com o coração aos pulos, ficou quieta, esperando a respiração se normalizar.
-Hana? Está tudo bem?
A voz do capitão, tão próxima ao seu ouvido, a fez voltar à realidade, sentindo o corpo estremecer. Com a face aquecida, deixou o convés de cabeça baixa, indo direto à cabine. Que momento de fraqueza tinha sido aquele?
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Os dias passaram, mais uma noite chegou e com ela, uma tempestade. No início, Hana era jogada de um lado para outro a cada onda que atingia o Madrileña, teimando em querer se locomover pelo local. Por fim, vencida, ela ficou sentada na cama o tempo todo, cada vez que sentia o balouçar mais forte, se agarrava à cabeceira.
Era tarde quando Shura entrou na cabine e trancou a porta. Rapidamente, prendeu alguns móveis ainda soltos nas vigas da cabine e então foi até um velho baú, tirando sua camisa e pegando uma outra, de dormir.
-Vai dormir aqui? – Hana perguntou, sentindo o coração saltar para a garganta.
-Óbvio, afinal, a cabine é minha.
-E por que não vai dormir lá em cima, como em todas as outras noites?
-Os marinheiros que dormiam no convés estão todos na cozinha, para se abrigar da tempestade. Então, como eu sou o capitão e a cabine é minha, tenho todo direito de dormir esta noite aqui.
Hana resmungou, contrariada e ficou em silêncio, apenas observando Shura se trocar. Então, de olhos arregalados, ela não soube onde esconder o rosto quando, totalmente despreocupado, o rapaz virou-se de frente para ela para pegar uma calça sobre a cabeceira da cama. Estava nu.
-O que foi? – ele riu, diante do embaraço da jovem – Nunca viu um homem assim antes?
Silêncio mortal, quebrado pela gargalhada de Shura.
-Ora, não se preocupe, não direi nada ao seu querido Asterion. Ele jamais saberá que seus lindos olhos "perderam a inocência".
-Você é um cretino, capitão! Um homem nojento, sem moral alguma... Por isso está sozinho, ninguém em sã consciência iria querer alguém como você.
-Como se eu quisesse ter alguém, senhorita Hana... – ele falou, enquanto terminava de se trocar – Não confio nas mulheres, são todas falsas e mentirosas. Nunca nenhuma delas me deu motivos para confiar em suas promessas ou o que quer que fosse.
Apagando um dos lampiões que estava na cabine, Shura se sentou em uma poltrona de couro marrom, amarrada a uma viga, e se ajeitou como pôde. Hana deitou-se até cobrir parte da cabeça, mas quem disse que conseguia dormir. Primeiro, porque o navio balançava demais com a tempestade e segundo... Bem, era somente fechar os olhos que a imagem do capitão, totalmente nu, vinha à sua mente e dormir pensando naquilo não lhe parecia uma boa idéia. Fora que ele podia até ser um crápula sem escrúpulos, mas ninguém merecia ter que dormir naquela poltrona tão pequena e desconfortável.
Devia ter ser se passado uma hora ou mais quando ela se virou na cama e deu de cara com Shura a lhe fitar. Afastou-se um tanto para o canto da parede, levantando-se parcialmente.
-Não deve ser nada bom dormir nessa poltrona.
-Não é pior que o madeiro do convés, senhorita.
-Mas ainda assim não é lugar para se dormir em uma noite de tempestade... A cama é grande, cabemos nós dois nela... Mas terá que dormir sobre o cobertor!
Shura, com um semblante extremamente sério, foi até a cama, Hana encolheu-se o quanto pôde junto à parede. Logo, a chama do último lampião aceso se extinguiu e ela deu graças a Deus por isso, não iria gostar nada se o capitão visse o quanto suas faces estavam afogueadas por conta da proximidade dele.
Proximidade esta que a fazia se remexer a cada minuto, com medo de tocar o capitão.
-Será que dá para encontrar logo uma posição? Não consigo dormir com a senhorita se mexendo tanto.
-Desculpe.
Uma nova onda mais forte pegou o navio e Hana, pega de surpresa, acabou sendo jogada para junto de Shura. E somente não o derrubou porque, esperto o capitão tinha se segurado na cabeceira com um dos braços, enquanto o outro enlaçava a cintura fina.
O silêncio perdurou por mais algum tempo.
-Sua mãe.
-O que disse?
-Você disse que nenhuma mulher até hoje lhe deu motivos para que confiasse nela... Mas e sua mãe? Certamente confiava nela.
A resposta de Shura demorou tanto que Hana chegou a pensar que ele tinha finalmente dormido. Mas então ela veio, carregada de veneno e cinismo.
-Minha mãe é a última mulher em quem confiaria.
A resposta soou tão definitiva que Hana se manteve calada pelo resto da noite, até dormir. Shura ainda teve tempo de ouvir o leve ressonar antes de ele próprio cair no sono. Não sem antes pensar que, se não tivesse tido tantas desilusões no passado, talvez aquela jovem pudesse ser alguém interessante para si.
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No dia seguinte, quando acordou, o capitão já não estava mais na cabine. Lançou um olhar à escotilha para ver como estava o tempo e um pequeno grito de alegria lhe escapou da garganta. Uma faixa de terra, já bem nítida, despontava no horizonte. Estavam chegando à Port Royal.
Trocou-se depressa e subiu ao convés, vendo que os marinheiros se preparavam para desembarcar. Notou que tiravam suas roupas habituais e vestiam outras, algumas parecidas com as dos piratas.
-Não pense que descerá conosco, senhorita... Tenha certeza de que tomei todas as precauções necessárias para evitar seu desembarque.
Hana virou-se na direção de Shura pronta para lhe dar uma resposta atravessada, mas calou-se ao vê-lo. O rapaz usava um conjunto de calça e casaca negra, aberta na frente, com uma camisa branca e uma corrente de ouro, de onde pendia um crucifixo incrustado de rubis. Uma faixa vermelha amarrada na cintura e um chapéu de bico.
Um perfeito pirata.
-Você está... Está igual a...
-Um pirata? É, ajuda muito a circular pela região sem ser incomodado.
Hana virou o rosto em direção ao porto da região, não queria dar mostras da perturbação que lhe ocorrera ao vê-lo vestido daquela maneira. Sentindo um súbito calor, ela resolveu descer de volta à cabine, precisava pensar em uma maneira de desembarcar sem ser vista.
Pela escotilha, viu que o capitão, juntamente de seus homens, desciam ao mar em alguns botes. Contou meio por cima e notou que, pelo que sabia, todos os homens ou pelo menos a maior parte deles haviam descido. Ajeitando suas roupas, subiu ao convés para verificar quem ainda estava por ali e, para sua surpresa, parecia estar sozinha. Parecia.
-Veio se certificar de que o capitão realmente desembarcou, senhorita? – perguntou-lhe um rapazinho, de cabelos e olhos castanhos e sorriso travesso.
-Quem é você?
-Meu nome é Jabu, eu ajudo mestre Saga e Shun na cozinha do navio... O capitão me deixou aqui para vigiar a senhorita.
-Ah, claro, ele não podia perder de vista a sua preciosa isca para atrair Death Mask, não é mesmo?
-Sabe... – Jabu falou, meio baixo, como se temesse que alguém pudesse ouvir – Eu não acho certo o que o capitão está fazendo com a senhorita. Por isso, estou disposto a ajudar.
-E como?
-Conheço alguns guardas da marinha que tem sua base aqui em Port Royal. Posso levar a senhorita até eles, certamente farão alguma coisa para ajudá-la a voltar para casa.
-Mesmo? Então, o que estamos esperando?
Sorrindo, Jabu desamarrou um bote que ainda restava e o desembarcou na água, ajudando Hana a descer e embarcar nele. A tarde estava chegando, logo seria noite. E ela estaria livre de Shura para sempre. Se era esta sua vontade, então por que, de repente, sentia um aperto no peito ao pensar no capitão?
Em pouco tempo, estavam em terra firme, Hana até estranhou um tanto. Então, Jabu a levou para fora do pequeno porto, seguindo por uma região cheia de becos e ruas estreitas demais. Os lugares por onde passavam era sujos e mal-cuidados, Hana sentia-se mal com tudo aquilo. E um pressentimento ruim tomando conta de si, algo lhe dizia que a base da marinha não era por ali.
-Jabu, para onde estamos indo? Creio que o caminho não seja es...
A jovem não terminou a frase. Uma pancada, dada com força em sua cabeça, a fez desmaiar aos pés do rapaz e logo duas pessoas apareceram e a levaram dali.
O que estaria acontecendo, afinal?
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Fim de mais um capítulo, estão gostando? Até estou, mas, Sheila, cadê o romance, cadê o beijo, cadê? Calma, pessoas, logo eles virão, até porque Hana e Shura são gente, né?
Beijos a todos e até o próximo!
