Hello!
Vou começar pedindo desculpas pela demora, esse capítulo foi realmente uma dor de cabeça; escrevi, reescrevi, acrescentei, recomecei do zero e acabei voltando para o primeiro rascunho. No final das contas ele ainda não está me agradando muito, mas algumas as coisas são simplesmente como tem que ser, goste eu ou não.
De qualquer forma, espero que gostem ou que, pelo menos, não achem muito confuso, mas qualquer coisa é só perguntar que eu explico.
Agradecendo, como de costume, a adorável Sadie Sil pela revisão e pelos conselhos.
Só lembrando que as partes em itálico são lembranças/alucinações/sonhos.
Todas as reviews são bem vindas.
Beijos e Queijos,
9O.
Já estava acordado, mas permaneceu com os olhos fechados, a cabeça pesava no travesseiro e a fadiga parecia consumir-lhe o corpo muito mais agora que havia se permitido descansar. Os últimos dias haviam passado lentamente e quase nada acrescentaram na vida do Fëanorion.
No lugar dos ratos sua nova companhia era a jovem servente, ela vinha trazer-lhe as refeições e passava o dia no corredor ao lado da porta à espera de novas ordens. Talvez ele preferisse os ratos, tinham mais iniciativa.
Maglor passava a maior parte do tempo dormindo, não por sono e sim por tédio. Ele tinha permissão para sair do quarto, mas aonde iria?
Nada conhecia ou entendia do funcionamento daquele lugar. Não havia janelas, apenas estranhos buracos no teto por onde circulava o ar e podia-se ver o céu, não que houvesse muito o que ver, era sempre nebuloso mas nunca chovia, as estrelas não se mostravam, nem o Sol ou a Lua.
Havia também silêncio demais, em nenhum momento Maglor viu ou ouviu criatura viva alguma perambular pelos corredores, com exceção de sua criada.
Poderia ter questionado a moça, qualquer informação tinha valor naquela situação, mas cada vez que o elfo abria a boca ela se encolhia como quem espera receber uma surra, era um desperdício de paciência, a pobre coitada nada deveria saber que fosse de serventia.
A verdade é que sabia pouquíssimo sobre aquela fortaleza ou as terras onde se encontrava, nem podia se recordar de como chegara ali, suas ultimas lembranças estavam deturpadas pela insanidade.
Mar cinza. Tempestade.
O mesmo cinza dos olhos de seu irmão e de seus próprios olhos, mas aquele mar era Maedhros.
As águas revoltosas se sacudiam, as ondas vinham quebrar com toda a sua potência contra a costa rochosa. Inútil. As pedras não se moviam, a espuma era arrastada de volta, iria tentar novamente.
Era Maedhros.
Sempre entregando toda a força em suas batalhas, mesmo se a derrota fosse eminente.
Nunca importa que a pedra não ceda, o prazer da água é tentar.
Em frente aos seus olhos existia apenas, o mar cinza e frio, ele podia ouvir a voz do irmão chamando, ele iria ao fundo e estariam juntos novamente.
Então tudo se desfez, o frio tornou-se calor insuportável, o cinza, brasa.
O fogo se alastrou, perfurando, dominando, conhecendo, consumindo seu irmão e desta vez ele não lutava, se entregou. Não havia mais mar ou recife, foi-se a cantiga de Maedhros, só restaram duas chamas vivas.
Um par de olhos cor-de-ambár.
Aqueles olhos.
O coração de Maglor tamborilava enlouquecido no peito, estava no chão, as mãos frias apertando o pequeno pescoço do ser à sua frente, ele apenas via os mesmos olhos amarelados que assombravam seu sono.
"Eu não sou ele." Vórimo arfava, a pele empalidecendo pela falta de ar, ainda assim sua voz pareceu despertar definitivamente o elfo.
"Ele quem?" As mãos de Maglor se afrouxaram, mas ele ainda mantinha o garoto imobilizado no chão.
"Com quem o senhor estava sonhando?" Havia um ar desafiador na voz do menino.
"Você não possui nem a coragem para pronunciar o nome dele, o seu próprio pai." Não era exatamente uma afronta e sim uma constatação. "O que veio fazer aqui?"
O elfo soltou Vórimo finalmente e ambos deixaram-se ficar sentados no chão, o garoto já havia recuperado completamente a compostura, não parecia ofendido pelo comentário, suas órbitas claras passeavam curiosas pelas feições do Fëanorion.
"Não tinha a intenção de assustá-lo... Parecia estar tendo um sonho ruim. O senhor tem uma tendência ao estrangulamento, imagino que deva ter sido uma característica bem útil..."
"Não estava sonhando. E isso não explica por que estava aqui em primeiro lugar!"
Vórimo tentou se concentrar, sentia-se deveras empolgado em conversar novamente com o mentor, mas o elfo moreno já estava irritado. Era engraçado ver alguém tão velho com tão pouco controle das próprias emoções.
"Pensei que o senhor estivesse doente, só dorme o tempo todo."
"Elfos não adoecem. Espere, como sabe o que faço?!"
Os olhos do garoto finalmente focaram-se nos de Maglor.
"Existem muitos tipos diferentes de doenças, algumas fazem mal ao corpo outras não. Ninguém pode ser imune a todas elas."
O Eldar abriu a boca por um instante, mas seja lá o que ele tinha a dizer pareceu subitamente inútil, resolveu mudar de assunto então.
"Não importa o motivo, você não pode simplesmente invadir o quarto de alguém e vigiar o sono dessa pessoa. Eu poderia ter te matado!"
"Isso que dizer que o senhor já não o deseja fazer intencionalmente?!"
Vórimo permitiu-se sorrir. O novo mestre era mesmo muito divertido.
Maglor apenas respirou fundo.
"Se você precisa vir aqui, por que não o faz durante o dia quando eu estiver acordado?"
"Sou muito ocupado, mestre. Não posso te fazer companhia o tempo inteiro. Agora, por exemplo, preciso ir, já amanheceu e preciso me aprontar para o desjejum." O garoto já caminhava até a porta deixando o perplexo Fëanorion para trás. "Bom dia, mestre. Até amanhã"
"Amanhã?! Você não vai voltar aqui para..."
"Não, mestre. Amanhã é nossa primeira lição."
Parado, agora, naquela enorme biblioteca lhe ocorreu que, de fato, montar guarda contra ratazanas não era o mais indigno dos serviços.
À sua frente estava o mesmo par de olhos curiosos responsáveis por colocá-lo nesta situação, orbitas idênticas àquelas que refletiam a alma de um monstro, mas inundadas pela inocência das crianças.
Contudo, apenas, naqueles olhos cor-de-mel podia-se ler alguma emoção; com a postura impecável, pernas levemente separadas, braços cruzados nas costas e um rosto frio, Vórimo, que mal alcançava a altura dos ombros de Maglor, já se portava como um soldado a espera de ordens.
O sol já havia completado um quarto de sua trajetória pelo céu desde que o elfo chegará naquele cômodo pela manhã acompanhado pela criada que agora se encontrava estática ao lado da porta, uma moça para qual ele não havia, sequer, perguntado o nome. Maglor suspirou, não importava o quão baixo ele chegasse, sempre surgia a oportunidade de cavar um pouco mais para o fundo.
Por Elbereth! Como ele sentia falta dos ratos!
Voltava a se questionar, pelo o que parecia a centésima vez, as razões que o levaram a acatar as ordens de Sauron. Não, ele sabia porque estava ali. Sua alma se prenderia a qualquer chance de redenção que se apresentasse, qualquer minúscula possibilidade de fugir de toda aquela sujeira que o infectava e consumia. O elfo moreno faria tudo o que fosse preciso para libertar os elfinhos que ele mesmo havia condenado anos atrás.
A única e persistente questão, naquele momento, era: o que seria preciso fazer?
Ele desconhecia o território inimigo, não tinha nenhum aliado e, com certeza, o Lorde do Escuro já esperava por tentativas de fuga e o estaria vigiando a todo o momento. Maglor também não sabia nada sobre Eluréd e Elurín, o que pensariam a seu respeito, o quanto sabiam sobre o próprio povo, como viviam naquele ambiente, na verdade, nem sequer havia recebido qualquer prova de que os gêmeos estavam ali ou até mesmo vivos.
Era isso que ele tinha que fazer, precisava ver os elfos.
"Acredito que você me disse que teria companhia de outros estudantes durante minhas lições, Lorde Vórimo. Onde eles estão?"
Foi a primeira vez que falara aquela manhã, os outros dois ocupantes da sala estavam parados na mesma posição, há uma quantidade considerável de tempo, esperando que o novo mentor despertasse de seus devaneios e desse ordens. Por esse motivo, tanto a servente, quanto o pequeno Lorde não conseguiram conter os suspiros de alívio ao perceber que não estavam sendo punidos.
Vórimo ainda precisou de uns instantes para acordar do estado letárgico em que se encontrava. Quis rir um pouco, mas conteve-se, Lorde Maglor, definitivamente não sabia ser sutil.
"Eles só estarão presentes em uma das lições semanais, mestre."
O menino respondeu calmamente. A mesma maldita calma do pai, Maglor não pôde deixar de notar.
"Entendo." Com aquela resposta o elfo moreno, finalmente, moveu-se, parando perto da escrivaninha de madeira escura localizada em um dos cantos da biblioteca.
Pela primeira vez Maglor observou o ambiente aonde já havia passado metade da manhã, não existiam janelas, apenas os mesmo estranhos buracos no teto que vira no quarto, as numerosas estantes eram feitas da mesma pedra escura e lisa que constituía as paredes e o chão. Havia diversas escrivaninhas espalhadas pelos cantos do enorme cômodo, uma grande mesa com mapas e pergaminhos e duas poltronas em frente a uma lareira. Não era exatamente uma aparência convidativa, na verdade, lembrava a antiga cela do Elda, entretanto era maior, limpa, mobilhada e um pouco mais arejada. O lugar estava vazio e intocado, assim como todos os outros ambientes que Maglor visitara até então. .
"Venha. Começaremos, então," o elfo chamou ao perceber que, do contrário, o menino não se moveria.
Atendendo ao novo mestre, Vórimo aproximou-se um pouco e voltou a sua posição rígida de espera.
A ação fez Maglor bufar ruidosamente, tudo naquela criança era perturbador e irritante, principalmente o doloroso sentimento de piedade que ela começava a provocar.
O elfo sentia-se, novamente, perdido. Havia, até então, ignorado o fato de que precisaria, realmente, lecionar. Ele precisava ganhar tempo e para isso teria que agradar Sauron.
Agradar Sauron!
De repente, ser banquete para ratos parecia-lhe muito glorioso.
O som de Vórimo pigarreando sutilmente trouxe-o de volta à realidade, o menino olhava-o com curiosidade e, talvez, um pouco de tédio.
"E essa foi nossa primeira lição."
O pupilo não pôde evitar que a surpresa marcasse toda a sua face, nem que a mesma fosse rapidamente substituída pelo desespero. Ele estava expressando emoções cruas. Maglor quase sorriu.
"Mestre... Eu sinto muito, mas eu não acho que tenha entendido a lição."
"Claro que você entendeu, apenas não entendeu que entendeu, ainda."
Vórimo envergou muito as sobrancelhas e mordeu os lábios parecendo inteiramente infantil. Depois de alguns instantes ele desistiu de buscar a resposta, havia reparado em uma distorção no rosto do mestre que se assemelhava a um sorriso e sabia, por experiência própria, que a alegria de um mentor era a derrota do aluno. Abaixou os olhos, então, esperando sua punição, mas não estava, realmente, com medo, ele conhecia a crueldade e não podia ver tal coisa dentro de Maglor.
O jeito como as emoções morreram tão rapidamente no rosto do garoto deixaram o elfo desconcertado, contudo, considerando toda àquela situação seria pedir demais esperar que Vórimo fosse uma criança normal. Não havia salvação para o filho de Sauron e ele não era seu problema, Maglor tentava se convencer.
"Não é educado nem agradável devanear em público."
Vórimo levantou os olhos novamente, inclinado o rosto para o lado em sinal de dúvida, mas nada falou.
"Essa foi sua primeira lição."
Ao invés da indignação que Maglor esperava o menino sorriu genuinamente impressionado.
"Obrigado, mestre."
"Não há necessidade de me chamar assim," Maglor comentou, ligeiramente incomodado com o tom de admiração na voz do garoto.
"Mas eu quero."
E lá estava de novo; a mesma petulância do pai. Seria inútil tentar competir com aquilo e o elfo não precisava de mais um inimigo fervoroso.
"Sentemo-nos, então."
Antes queMaglor pudesse tocar a cadeira, um pensamento veio-lhe de súbito.
"Imagino que haja materiais para desenho aqui."
"Claro, mestre. O senhor deseja que eu pegue?"
Vórimo ficara verdadeiramente interessado e surpreso naquele momento, esperava que o mentor não tivesse nenhuma idéia do que fazer e ficasse preso em seus devaneios e alucinações durante toda a manhã, mas, aparentemente, estava errado.
"Sim, sim."
O garoto partiu com passos rápidos e confiantes, desaparecendo atrás de uma das estantes e voltando momentos depois equilibrando pergaminhos e uma caixa com penas e tintas.
"Aqui, mestre. Tem mais, caso o senhor deseje."
Maglor, que agora demonstrava calma e concentração, olhou sem muito interesse para o garoto que colocava os materiais sobre a mesa, e acenou positivamente com a cabeça.
"Você nunca teve aulas de artes, não é mesmo?"
"Não, senhor."
"Então, precisarei testar suas habilidades primeiro e, caso elas existam, poderemos avançar no treinamento."
"O que eu devo fazer, mestre?"
"Vamos começar com algo prático. Desenhe este... lugar, é sua casa afinal, deve conhecê-la bem. Seja preciso, desenho é uma arte minuciosa, terá que se esforçar visando perfeição nos detalhes."
Foi a vez de Vórimo sorrir. De fato, o mestre não era nada sutil.
"Como quiser, mestre."
Maglor já tinha os olhos virados para uma estante lá avistou o que lhe pareceu uma coletânea, eram 15 volumes com capa de couro e sem nome algum nas laterais, um deles se destacava por sua espessura, o elfo apanhou-o , fazia muito tempo desde a última vez que lera algo e já sentia enorme saudade de não ter essa opção.
No centro da capa, em bela caligrafia, podia-se ler.
MELKOR
Rei dos Ainur, Senhor de Arda
"Aqui está, mestre."
Vórimo entregou o rolo de pergaminho no qual havia passado todo o dia trabalhando. As aulas com Lorde Maglor não deveriam ultrapassar o meio-dia, entretanto o mestre não o havia liberado ou mencionado quando pretendia fazê-lo. O garoto sabia que teria problemas por faltar às outras aulas, mas ele sempre tinha problemas mesmo, pelo menos desenho era divertido, melhor do que as lições de combate manual; absolutamente melhor do que as de política.
Maglor analisou o pergaminho cuidadosamente, o menino tinha habilidade, ele não podia negar. Não tinha dom par desenho artístico ou pintura, em seus traços faltavam beleza e sentimento, mas havia leveza e relativa precisão, com o devido treinamento seria um excelente cartógrafo. É claro que isso não podia acontecer.
"Levarei ele comigo, em nosso encontro reportarei minha opinião sobre tuas habilidades."
O elfo se virou para encarar o garoto que apreciava o próprio desenho por sobre os ombros do mestre.
"Está dispensado."
"Sim, mestre."
Ele caminhou em direção à saída, mas, ao tocar na maçaneta, Vórimo deteve-se.
"Sabe, Lorde Maglor, imagino que seja um pouco difícil analisar a veracidade e precisão de um mapa sem conhecer de fato o território em questão, afinal as coisas não são sempre o que parecem, não é mesmo?... Bom, de qualquer forma, boa noite, mestre."
E ele se foi, deixando um pasmo e enfurecido elfo para trás.
Maglor sentou-se ao lado de Maedhros, um deles deveria estar descansando, mas nenhum parecia associar a idéia de sono à reposição de forças
"Ainda não posso crer que Turgon foi enganado debaixo do próprio teto." O irmão mais novo sussurrou.
"Necessidade." Veio a resposta distraída.
"O que?"
"A necessidade traz a maioria dos aliados, mas também cria os piores traidores. Morgoth sabe disse, Turgon se esqueceu."
