Cap. 2 – França, Anno Domini 1428

O sol se punha vagarosamente, tingindo o horizonte de vermelho. As águas do rio Loire tremulavam, formando pequenas ondas a favor do vento que soprava, cálido, do sul. O campo, de um verde contagiante, luzia em dourado e rubro. O ar era úmido: o rio era uma bênção. Camus de Beauregard, o Duque d'Aquitaine, observava a tudo calado: sentia-se flutuar. Era como se o pôr-do-sol dançasse ao ritmo de uma melodia hipnótica e altamente emotiva. Um sorriso se formou em seus lábios, e ele suspirou: Chinon não era Aquitaine, mas também era um lugar bonito. Isso, nem mesmo Camus de Beauregard poderia negar.

Sentado à beira do rio, Camus refletia sobre sua vida. Que, caprichosa, o trouxera até aquele ponto: uma encruzilhada em que ele deveria escolher qual dos caminhos tomar. A bem da verdade, não era uma decisão muito difícil; ele já a tomara há algum tempo. Entretanto, era chegada a hora, e Camus não mais poderia evitar. Do outro lado do rio, imponente, o Castelo de Chinon surgia, com suas altas torres e grossas muralhas. "Impressionante!", pensou o Duque. Suspirou profundamente e se levantou. Bateu a terra das calças e parou por um instante. – Eu sei que você está aí! – disse sem emoção alguma na voz de timbre grave e harmônico.

– Mas será que nunca vou conseguir surpreendê-lo, Monsieur le Duque? – perguntou, numa voz carregada de sotaque, um homem extremamente alto, de tez morena e olhos grandes e profundos. Vestia uma calça escura e uma espécie de túnica marrom por cima. Calçava sapatos baixos e usava um chapéu vermelho. Às mãos trazia um instrumento musical: uma espécie de violão bojudo, um alaúde.

Camus virou-se para trás e seus frios olhos azuis refletiram a ausência de emoção que lhe era característica. – Você pode sempre tentar, Aldebaran. Pode sempre tentar...

O homenzarrão gargalhou. – Seigneur Camus de Beauregard, sempre tão bem humorado! Me dá até vontade de cantar...

– Se tem amor à vida, Aldebaran, por favor não o faça! Não estou em meus melhores dias! – comentou o Duque.

– E o que vai fazer? Congelar-me com o bom humor de sempre? – perguntou Aldebaran jocosamente. – Conheci um homem uma vez... seu nome era Camus de Beauregard, e ele era o Duque D'Aquitaine... seu humor não era dos melhores, mas ele tinha uma bela voz... – cantarolou ao som do alaúde que trazia consigo.

Camus levou as mãos aos ouvidos. – Oh não! Não temo a guerra, nem a morte! Contanto que fique longe de você, oh estrupício! Estorvo!

Mais uma vez uma gargalhada divertida brotou de Aldebaran. – Você diz isso mas no fundo se diverte comigo!

– Maldigo a hora que você saiu do fim do mundo e veio até minhas terras... – suspirou Camus. – Eu ainda me pergunto o porquê disso. Que pecado estou a pagar por te agüentar, Aldebaran?

– Bem, Monsieur le Duque... – pontuou Aldebaran em tom professoral – Primeiramente, o Condado Portucalense não é o fim do mundo. Em segundo lugar... lá ouvi dizer que os melhores trovadores vinham da ProvencePor essa razão, e não outra, vim para cá: aprender a trovar.

– Veio ao lugar certo, creio eu. Até hoje suas rimas são horríveis! – Camus não conseguiu evitar um sorriso. – Só esqueceram de lhe avisar que a Provence não é em Aquitaine, nem vice versa.

Aldebaran aproximou-se de Camus e colocou-lhe o dedo em riste. – Acontece, Camus, que eu duvido que em Provence houvesse alguém tão divertido de irritar com minhas canções como você, que encontrei em Aquitaine.

O francês baixou os olhos e levantou-os logo em seguida. Em seus lábios, um quase semi sorriso havia se formado. – A verdade é uma só, meu caro Aldebaran. Um trovador não é nada sem inspiração. E você quer se inspirar em meus feitos, não é?

O mais alto fez um gesto de comemoração no ar. – Você adivinhou, meu amigo. Mas, para isso, é melhor você começar efetivamente a realizar esses feitos. Venha, vamos voltar: le Dauphin Charles VII Valois mandou-me chamá-lo.

Camus suspirou profundamente. – Bem, Aldebaran, meu amigo, a hora é agora. Seja o que Deus quiser! – disse. Ajoelhou-se solenemente e, fazendo o sinal da cruz, proferiu: – In nomine Patris, et Filli, et Spiritus Santi.

– Amém! – tornou Aldebaran automaticamente. – Agora vamos, Camus. Bem sabe que le Dauphin não gosta de esperar.

O francês lançou-lhe um olhar enigmático. – Aldebaran, alguém na posição dele tem de estar acostumado à espera. Longa e desesperadora espera.

– Seja como for, amigo... mais cedo é melhor que mais tarde! – argumentou o mais alto. – Vamos!

O francês não disse mais nada: somente concordou com um aceno de cabeça e pôs-se a caminhar. Seguia à frente: vestia uma calça escura, marrom, colada ao corpo, bem no estilo da época; por cima, uma túnica azul de corte reto e mangas compridas. Nos pés levava sapatos baixos de couro também marrons. Seus longos cabelos lisos, de um ruivo impressionantemente forte, balançavam ao sabor do vento. Pendurado ao pescoço, trazia um pingente de uma cruz dourada, ornamentada com uma grande safira ao meio: era sua jóia mais importante, e ele a levava sempre consigo.

Logo atrás seguia Aldebaran. Dedilhava sons sem maiores significados em seu alaúde: estava sempre em busca da melodia perfeita. Caminhavam os dois pelos campos de Chinon, à margem do majestoso rio Loire. Prosseguiram durante algum tempo, até que finalmente encontraram o tronco de madeira que estava fazendo as vezes de passagem entre os dois lados do rio. Naqueles tempos, o rio funcionava como uma espécie de fronteira natural entre a França ocupada e a resistência, e a primeira medida para frear o avanço dos usurpadores tinha sido a destruição de todas as pontes do Loire. Até o momento, a tática provara-se eficaz.

Atravessaram até o outro lado sem dificuldade, como se não fosse nada nova aquela travessia. Já surgia a noite, e as primeiras estrelas despontavam brilhantes no céu da França. A lua, redonda e imponente, abrilhantava o céu com seus raios transparentes. A luz pálida iluminava os olhos azuis de Camus, que seguia com uma expressão séria: as sobrancelhas uniam-se pelo cenho franzido. As muralhas do Castelo de Chinon surgiram diante dos dois caminhantes, e os portões já estavam sendo fechados: a noite era perigosa.

Acima, nas ameias, o movimento intensificava-se conforme a noite ia surgindo: uma legião de arqueiros e piqueiros tomava conta das muradas. Nas torres, e nos muros de quando em quando, fogueiras eram acesas para iluminar o ambiente. O Castelo assumia sua posição de fortaleza mais importante da França: como morada temporária do Dauphin, deveria ser simplesmente intransponível.

Camus e Aldebaran caminhavam displicentemente pelo bando de cavaleiros agitados em suas armaduras, arqueiros que verificavam seus arcos e lanceiros que preparavam suas lanças. Seguiram adiante até que finalmente alcançaram o castelo, e os vigias deixaram-nos passar sem maiores problemas: eram figuras bem conhecidas ali. Entraram e Camus apertou o passo, subindo os intermináveis degraus com uma agilidade que Aldebaran não pôde acompanhar.

O ruivo chegou finalmente até a porta da sala de reuniões, que ficava na torre setentrional da bela fortaleza. Suspirou rapidamente e ajeitou os fios de cabelo que haviam se desgrenhado com a corrida. Esperou ser anunciado e adentrou o recinto, com o caminhar cadenciado que lhe era característico.

– Seja bem vindo, Camus de Beauregard, preposto do Duque D'Aquitaine! Só faltava você para darmos início à nossa reunião! – comentou um homem de porte médio, cabelos aloirados e olhos castanhos vívidos. Levava um manto sobre as costas, e à cabeça uma coroa simples de ouro maciço.

Camus ajoelhou-se em frente ao homem, baixando os olhos azuis e frios. – Mil perdões, Dauphin. Estava longe, precisava refletir.

– E espero que o tenha feito, Seigneur Camus... – respondeu o homem, com um gesto forçando o ruivo a se levantar. – Pois eu, Carlos VII Valois, tenho algo muito importante a lhe dizer.

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O último Duque D'Aquitaine a realmente reinar em seu ducado havia sido Louis VII, rei dos Francos, de 1137 a 1152. Aliénor D'Aquitaine tornara-se a Duquesa em 1137, após a morte de seu pai Guillaume X, o Paladino, e desposara o rei Louis dos Francos. Entretanto, após a morte do rei, Aliénor, ambiciosa, casara-se com Henry II Plantageneta, rei da Inglaterra, Duque da Normandia e Conde D'Anjou, que foi sucedido por seu filho, ninguém mais e ninguém menos do que o rei Richard the Lionheart – Ricardo, o Coração de Leão. Foi dessa forma que, ainda no século XII, o grande ducado D'Aquitaine passara impiedosa e legalmente para mãos inglesas.

Entretanto, a casa D'Aquitaine permaneceu na região, com os descendentes de Guillaume X e Louis VII. Eram eles a família Beauregard, que eram como prepostos do verdadeiro Duque, que sempre era preocupado demais com seu próprio reino para olhar pelo belo ducado. E o anno domini de 1409 havia sido particularmente abençoado para a família: dono de uma bela penugem vermelha sobre a cabeça, nascera, sob o signo de Aquário, o filho primogênito do casal. Aqueles eram anos difíceis, pois o rei da Inglaterra, não contente com suas possessões, resolvera reivindicar todas as terras de França. O motivo alegado era uma descendência feita de linhagens de reis e rainhas que sucessivamente se misturaram entre si, até que, por direito, o reino de França deveria pertencer à Inglaterra.

Mas os franceses não aceitaram essa imposição, até porque desde o século XIV, quando a Inglaterra decidiu tomar a França, o amontoado de feudos, principados, ducados e possessões que formavam o país começaram a se transformar, pouco a pouco, numa Nação. Os ingleses plantaram a semente que, posteriormente, la Pucelle viria a colher. E Bordeaux, a capital D'Aquitaine, transformou-se em base inglesa nas terras de França.

Para a família Beauregard aquilo foi uma grande afronta: foram eles obrigados a lutar contra seu próprio rei. Sim, pois os Valois surgiram como Dauphins, príncipes regentes, que aguardavam pacientemente em Bourges ou Chinon, a depender da época do ano, até que a profecia sobre a donzela que traria a paz de volta à França se concretizasse. E o Dauphin Carlos VI Valois havia enviado emissários à Aquitaine, informando ao preposto do Duque que seus astrólogos haviam previsto o nascimento de uma criança, um menino de cabelos tão vermelhos quanto o pôr-do-sol no Vale do Loire, sob o signo de Aquário; e que esta criança traria o ducado de volta às mãos da família à qual sempre deveria ter pertencido.

A criança foi muito bem vinda, e cresceu sob cuidados especiais. Desde pequeno que Camus de Beauregard aprendera a manejar a espada, a montar, a atirar de arco-e-flecha. Numa luta corpo a corpo, não havia quem o vencesse. Seus dotes físicos eram realmente invejáveis, mas não só: o menino desenvolvera-se intelectualmente. Como tutor, foi-lhe designado um homem místico, um monge de proveniência obscura conhecido apenas como Saga. E Saga era verdadeiramente um sábio: Camus aprendeu a ler e escrever em latim, grego, occitano (língua de seu ducado), inglês e francês. Saga também ensinou-lhe os antigos sábios: Aristóteles, Platão, Plínio, Sócrates, Hipócrates... e não só Santo Agostinho, como previa a educação dos nobres da época.

A verdade é que a Aquitaine fazia parte da região conhecida como Occitane, região esta que também compreendia o Midi-Pyrinées, o Languedoc e a Provence. E essa região havia sido lar dos Cátaros, religiosos que foram considerados hereges no século XII e massacrados pela Igreja. Os Cátaros tinham uma filosofia diferente: pregavam o amor livre, a igualdade entre homem e mulher e a comunidade das terras. Saga era oriundo desta tradição, e passou esses conhecimentos a Camus.

Foi assim que o pequeno Camus de Beauregard cresceu em habilidade e beleza. Adorava os trigais de seu belo ducado, tão dourados quanto o sol, e a sensação correr livremente entre eles: sentia-se pleno e cheio de vida. Era uma criança diferente, que acreditava num mundo livre e sem violência. Não gostava de regras e sentia uma certa dificuldade em segui-las, embora o fizesse. Tornou-se um jovem orgulhoso e altivo, dono de uma bela armadura dourada com o símbolo de seu signo estampado no braço esquerdo e o de sua casa no direito. Era extremamente mortal, e raramente sorria.

Uma das únicas pessoas que conseguia trazer um sorriso espontâneo dos lábios de Camus era Aldebaran. De sobrenome desconhecido, o rapaz viajara desde o Condado Portucalense até as terras de França em busca de inspiração. Era um trovador seduzido pelas belas poesias palacianas produzidas na Provence. Entretanto, antes de chegar até lá foi atacado por um grupo de dez bandoleiros. Aldebaran era forte, mas não iria resistir por muito tempo. E Camus surgiu, cavalgando seu belo corcel branco, vestido em sua armadura cor de ouro, e o salvou. Foi assim que o forasteiro resolveu acompanhar seu salvador, pois Aldebaran estava sempre em busca da melodia perfeita. E sabia que a melodia perfeita deve acompanhar a história perfeita. Aldebaran viu em Camus a possibilidade de enfim conseguir contar a melhor história que poderia contar em sua vida de menestrel.

E agora, no fim do anno domini de 1428, Camus contava com 19 anos completos. Havia sido convocado por Carlos VII Valois para ir até Chinon, o que fizera de bom grado: seu destino sorria-lhe e era momento dele mostrar que poderia enfim recuperar o ducado e o prestígio há muito perdidos por sua família. Levara consigo Aldebaran, amigo de muitos momentos, e Hyoga, um jovem que tomara para seu escudeiro.

O pai de Camus havia morrido no ano anterior, lutando pelos ingleses sob o comando do Barão de Warwick, morto pelo exército francês comandado pelo Conde Dunois. O maior legado dele havia sido a cruz que Camus agora carregava no pescoço, jóia de ouro maciço com uma grande safira ao meio. O pai de Camus era muito católico e, a partir de sua morte, o jovem prometeu a si mesmo que jamais desrespeitaria as leis da Santa Madre Igreja. Embora não concordasse com a grande maioria delas.

Os olhos de Camus de Beauregard, Duque D'Aquitaine, eram frios, gélidos como dois pequenos flocos de neve azuis. Ele raramente demonstrava emoções, o que não significava que não as tivesse. Camus estava preparado para tudo, mas ainda assim seu coração pesava: talvez nunca mais fosse ver os trigais D'Aquitaine novamente.

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Inegável que a sala de reuniões tornou-se pesada com a chegada de Camus. Estavam lá os maiores representantes dos Armagnacs, a nobreza francesa leal ao Dauphin. E era evidente que Camus de Beauregard não era bem visto entre eles. Carlos VII caminhava a passos lentos e medidos pela sala de reuniões: na verdade, uma sala alta na torre setentrional do Castelo de Chinon. Não era um salão luxuoso e muito bem ornamentado: tratava-se apenas de uma pequena sala com uma mesa ao centro, cercada de cadeiras de encosto alto.

Estavam presentes dois dos mais fiéis vassalos de Carlos VII: La Hire e o Duque D'Alençon. O olhar dos dois era de ódio, raiva e desprezo. Os olhos de Camus exalavam indiferença, ao passo que os olhos do Dauphin oscilavam do divertido para o astuto. – Pois bem, Camus, a quem chamamos de Duque D'Aquitaine pois acreditamos que o é por direito. Aqui está, bem vindo em meus salões, pois os astrólogos de meu pai previram que você recuperaria as terras e o prestígio de sua família.

– E eu muito agradeço por isso, Dauphin. – respondeu Camus com a impassibilidade que lhe era costumeira. – E anseio saber o porquê de minha convocação.

La Hire grunhiu qualquer coisa incompreensível, e Alençon riu. – Não adianta, La Hire... é aposta ganha!

– Aposta? – perguntou Camus erguendo uma sobrancelha.

Carlos VII sorriu. – O que você sabe sobre o torneio de Agincourt, Camus?

O ruivo olhou para cima, como quem percorre memórias. – Me parece ser o torneio mais importante que se tem notícia. Um torneio perigoso, mas cujo campeão goza eternamente de reputação irreprochável.

– Olha como ele fala difícil! – caçoou La Hire, sua gorda barriga balançando conforme ria escancarando os dentes podres.

Alençon pousou um braço no ombro do amigo. – É pra nos impressionar!

– Não tento impressioná-los. Somente disse o que sabia. – retrucou Camus com a mesma calma de sempre. – Agora, Dauphin, se puder por gentileza explicar o que o torneio de Agincourt tem a ver com minha convocação. Não sabia que o torneio continuava a ser disputado, mesmo depois da batalha de 1415.

– Sim, meu caro Camus. O torneio continua sendo disputado. E gostaríamos muito que o torneio deste ano fosse vencido por você! – tornou Calor VII.

O ruivo balançou a cabeça, como quem tenta entender alguma coisa. – Me desculpe, Dauphin, mas não compreendo. Já participei de alguns torneios, mas o que o leva a crer que poderei vencer o maior deles?

– Já disse, Carlos! Esquece esse aí! – agitou-se Alençon. – Chame Dunois pra competir. Ano passado Dunois derrotou 3000 homens de Warwick. Soube que quando o precioso Barão retornou, morreu de desgosto.

– Dunois permanece cercado em Orleans, Alençon! Não pode sequer sair de sua cidade, quem dirá competir por aí! – resmungou Carlos, lançando um olhar de repreensão ao amigo. – E sabem bem que ele precisa ganhar! – continuou, apontando para Camus.

– Desculpem interromper, mas... – pontuou Camus. – por que eu preciso ganhar esse torneio?

Carlos VII caminhou até Camus e pousou um braço em seu ombro. – Não devíamos ter de te explicar isso. Disseram-me que você é muito perspicaz, meu caro Duque D'Aquitaine, e tenho certeza de que consegue adivinhar nossas intenções. Até La Hire entendeu!

La Hire e Alençon gargalharam na outra extremidade da mesa. Camus começou a caminhar de um lado para outro da sala, até que de repente ele parou. Seus olhos por um momento deixaram de ser gélidos e brilharam de excitação. – Mas é claro! Eu, preposto do rei da Inglaterra, ganhar o torneio de Agincourt em nome do Dauphin. É simplesmente perfeito! Isso os deixará desmoralizados!

– Excelente, Camus! – comemorou Carlos. – Que bom que você compreendeu!

– Entender ele entendeu, resta saber se vai conseguir ganhar, não é mesmo? – sorriu Alençon, debochado.

– Ah, meu caríssimo Alençon... – Carlos estreitou os olhos, não escondendo um sorriso. – É por isso que você e La Hire estão aqui!

La Hire sacudiu a cabeça veementemente. – Não, me recuso. Não vou treinar um traidor.

Camus suspirou, visivelmente cansado. – Não sou traidor, simplesmente porque há dois séculos minha família não é vassala do rei de França, e sim dos reis de Inglaterra. Se alguém pode me chamar de traidor, esse alguém é o jovem Henry VI, e não Carlos VII Valois. Mas mesmo assim estou aqui, oferecendo minha lealdade aos Valois, e não aos Lancaster. Meu pai morreu lutando contra a França, e Deus sabe como lutar contra sua gente o torturava. Estou aqui para recuperar minhas terras e meu prestígio, e não vou admitir que continuem me chamando de traidor! – pontuou Camus, com voz pausada mas firme.

La Hire riu, mais uma vez sacudindo a barriga gorda. Andou desengonçadamente até Camus e deu-lhe uma forte batida nas costas, fazendo o ruivo desestabilizar e quase cair. – Agora sim, Camus de Beauregard! Provou ter brios! Fique tranqüilo, Carlos. Nós treinaremos o ruivo.

Camus sorriu imperceptivelmente. – Agradeço, La Hire. Obrigado, Alençon. E Dauphin, sua é minha lealdade. Hoje e sempre. – ajoelhou-se o ruivo aos pés de seu soberano.

– Pois então, Camus de Beauregard... a despeito do que dizem os outros... eu te declaro Duque D'Aquitaine! – tornou Carlos puxando a espada. – E de agora em diante, que morra quem disser o contrário! – prosseguiu, pousando a espada uma vez em cada ombro do homem ajoelhado diante de si.

Alençon sorriu e La Hire gargalhou. – Muito bom! Mais um para sofrer conosco! Agora vamos, Camus. Temos muito o que fazer! – pontuou Alençon.

– E Alençon, pode ir pagando o que me deve! Você perdeu a aposta! O rapaz tem culhões! – sorriu La Hire, estapeando carinhosamente a cabeça de seu amigo Alençon. Camus fez uma careta, mas no fundo gostou dos dois nobres rústicos e amalucados que iriam lhe treinar.

Camus de Beauregard, o Duque D'Alençon e La Hire seguiram juntos e deixaram Carlos VII Valois com um sorriso estampado nos lábios, pois o Dauphin começava a ver ali o início de sua vitória. Quanto a Camus, este se perdia em pensamentos enquanto se dirigia a seu quarto, pronto para o desafio que viria a seguir. "Conseguirei vencer o desafio? Lavarei a honra de meu pai e de minha casa? A Aquitaine será finalmente liberta do jugo inglês?", pensava. "E por que esse peso em meu peito? Essa sensação estranha de que algo diferente, grandioso e acima de meu controle vai acontecer? Misturada com essa angústia estranha, essa sensação quase certa de que jamais verei minhas terras novamente?", Camus perguntava para si mesmo.

Ajeitou-se no quarto amplo e livrou-se das roupas. Vestiu a camisola de linho que usava para dormir e deixou-se levar. Sonhou com os trigais dourados da Aquitaine. E com uma cruz enorme que lhe perseguia, apagando o dourado com marrom. Acordou sobressaltado e transpirando. Apertou a cruz em seu pescoço com força e ajoelhou-se ao lado da cama. Fez o sinal da cruz e rezou. Rezou pelo seu povo, por sua mãe e irmãos, por suas terras, por seu rei, para que a donzela fosse-lhes enviada logo, para que se saísse bem em seu treinamento, para que ganhasse o torneio e para que os ingleses conseguissem enfim ser expulsos da França. E principalmente para que ele voltasse a ver a Aquitaine novamente.

Naquele anno domini de 1428, Camus jamais imaginou que Deus atenderia a quase todos os seus pedidos. Quase todos.

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A/N

Bem, aqui vai a história do Camus. Espero que tenha ficado boa!

Sei que a fic está parecendo uma aula de História (espero que pelo menos uma aula legal, rs), mas prometo que fica melhor.

Situando: Carlos VII Valois realmente foi o Dauphin (ou Delfim), que posteriormente ficou conhecido como O Vitorioso por vencer a Guerra dos Cem Anos.

La Pucelle é Joana D'Arc.

La Hire, o Duque D'Alençon e o Conde Dunois foram os mais fiéis a Carlos VII e a Joana D'Arc, e ajudaram a reconquistar a França. Dunois realmente bateu 3000 ingleses sob o comando de Warwick.

Tudo o que foi contado sobre a Casa de Aquitaine (e Aléanor – ou Eleanor – D'Aquitaine) é verdadeiro.

Não houve família Beauregard.

Agradecimentos a todos que acompanham, e especiais a:

Mi-chan: linda, brigada por ter comentado mesmo com erro no site! Obrigada mesmo!

Ana Clara: Obrigada por acompanhar minhas fics, de coração. Pois é, a coisa aqui há de ser ainda mais difícil que em Caserna. Quanto ao seu terceiro ponto, bem... prefiro pedir pra que você aguarde o desfecho. Um beijo, e obrigada!

Valete de Copas: Aquele obrigada super especial: por acompanhar, por postar review, e por agüentar meus comentários sobre casas reais francesas! Merci beaucoup!

Enfermeira-chan: que sempre dá aquela força!

E também a: Maxin, Arashi Kaminari, Sangazath, Athenas de Áries, Elizabeth Bathoury Black e Ansuya. A vocês, responderei através do site. Meu muito obrigada!

Nem preciso dizer, não é? Deixem uma autora feliz! Reviews, please!