CAPÍTULO 2
IT'S BEEN A LONG TIME
Azkaban já fora uma vez o lugar mais temido por todo e qualquer bruxo da Grã-Bretanha. A maioria dos criminosos que iam para lá não sobreviviam. Os guardas da grande prisão eram os Dementadores, criaturas horrendas que se alimentavam da felicidade dos prisioneiros, deixando-os desolados, até que morressem na cela.
Mas isso era nos tempos do Lorde das Trevas, antes de sua derrota definitiva na batalha de Hogwarts. Os Dementadores se rebelaram e uniram-se a Voldemort. Depois do fim do bruxo as criaturas se espalharam e não se tinha notícias delas desde então. Os Dementadores foram substituídos por bruxos e Gárgulas, que serviam mais para amedrontar os presos que para vigiá-los.
Naquela tarde, McFlint estava sentado no banco de sua cela (que, por sinal, era o único lugar onde ele poderia sentar e deitar), quando um guarda o chamou.
- Você tem visitas – disse o guarda.
McFlint estranhou a notícia. Sabia que nenhum familiar seu jamais poria os pés em Azkaban para alguma visita, os atos dele haviam envergonhado demais a família. Então quem poderia ser?
O guarda amarrou os pulsos de McFlint com um feitiço e, grosseiramente, começou a arrastá-lo pelo corredor das celas da prisão. Este estava silencioso. A maioria dos presos estava sentada no banco ou em algum canto da cela, com sua cabeça baixa. Não saberia dizer se estavam pensando ou dormindo.
Os dois homens desceram alguns lances de escada em espiral. Num destes, McFlint conseguiu ver através de uma janela. O sol ainda estava alto, estimou que eram mais ou menos 2 da tarde, e tocava majestosamente o mar, que brilhava como se fosse uma pedra preciosa. O mar, que era a única coisa que ele conseguia ver até seu olhar se perder no horizonte.
Depois de muitos degraus, o prisioneiro se viu num largo corredor, que terminava em uma porta de ferro, com uma aldrava sinistra. O guarda o levou até lá e, com um movimento de varinha, a porta se abriu pesadamente, provocando um barulho fantasmagórico.
McFlint foi empurrado para dentro da sala quadrada à frente. Tochas iluminavam o lugar, deixando-o um ar peculiarmente medieval. No centro da sala havia uma mesa de madeira trabalhada e duas cadeiras, uma de cada lado da mesa. Uma daquelas estava reservada para ele. E na outra estava sentada uma bela figura de cabelos vermelhos.
Lílian estava brincando com um galeão, batendo-o na mesa, para se distrair, enquanto esperava pelo homem. O guarda que a guiou até ali disse que ele não demoraria mais que cinco minutos, e ela esperava que fosse verdade. O lugar lhe dava arrepios.
A auror abriu a pasta que trouxera consigo e retirou o livro misterioso que havia encontrado com McFlint de dentro dela. Abriu-o e começou a folhear, na esperança de encontrar algum detalhe que não percebeu.
Minutos depois ela ouviu um barulho alto de ferro em movimento e ergueu a cabeça, vendo a porta se abrir lentamente. Um guarda trazia McFlint, aparentemente amarrado. O guarda empurrou o prisioneiro, que lhe deu uma olhada.
- Sente-se, por favor – disse Lílian, num tom suave e com um pequeno sorriso no rosto.
McFlint torceu o nariz, numa expressão de nojo, e cuspiu no chão.
- Não vou obedecer a ordens de uma sangue-ruim – disse ele.
A ruiva continuou com seu sorriso, de forma sínica, e lembrou da Maldição Imperio que seu pai lhe mostrara há algum tempo. "Não as use, Lílian." Tudo bem, não vou usar.
- Não era uma ordem – esclareceu ela. – Se prefere ficar de pé, não vou me opor – ela fechou o livro negro, girou-o e o fez deslizar na mesa, em direção ao neo-comensal. Sua expressão se alterou por uma fração de segundo, mas Lílian conseguiu captá-la. Ele sabia o que era. – Gostaria que você me esclarecesse algumas dúvidas sobre este objeto.
- Nunca o vi na vida – disse ele, quase imediatamente, encarando o livro, respirando de forma tensa.
Lílian levantou-se calmamente e colocou a cadeira sob a mesa. Andou até o outro lado da mesa, com as mãos para trás. Sentou-se próxima ao livro, de costas para este, e colocou seu braço direto sobre a mesa para se apoiar. Depois de um suspiro, ela disse:
- Nós dois sabemos que você já o viu. Eu o encontrei no chão, depois de capturá-lo. Agora faça do meu trabalho menos cansativo e me diga o que é e como se lê!
O tom de Lílian era ameaçador e afetou o prisioneiro. Ele olhou para ela por alguns segundos e voltou a olhar para o livro.
- Você não pode lê-lo – disse ele, em voz baixa. – Você não tem esse direito.
Lílian soltou um bufo de impaciência e olhou para o teto de pedra.
- As coisas podem melhorar ou piorar McFlint, você escolhe – falou a auror, ainda olhando para o teto. – Vai me contar algo ou não?
O prisioneiro pareceu cogitar a proposta, mas estava cada vez mais tenso. Seus lábios tremiam incontrolavelmente e ele parecia prestes a chorar.
- Não posso dizer... – balbuciou o homem. – Não posso dizer...
A auror perdeu a paciência e deu um murro na mesa, causando um estrondo forte. Furiosa, ela se dirigiu a porta e a abriu. Um guarda olhou para dentro, aparentemente confuso.
- Deixe-o aí – comandou ela. Ele assentiu em resposta, ainda confuso.
A ruiva caminhou em passos raivosos até o escritório do guarda que a havia guiado até ali. Quando abriu a porta se deparou com o homem lendo um livro sentado na sua poltrona, com os pés sobre a mesa, fumando um cachimbo. Ele recompôs-se rapidamente, surpreso com a entrada brusca.
- Sim, senhora? – perguntou ele.
- Chame meu irmão.
...
Em seu cubículo no Ministério da Magia, sentado na sua poltrona, o auror estava lendo as últimas páginas de um romance que havia comprado há algumas semanas.
Era um homem corpulento, de cabelo preto curto. Os óculos de armação fina deixavam-no muito parecido com o pai. Ele já estava no clímax da cena quando alguém abriu a porta da sala, assustando-o.
- Sr. Potter, sua irmã requisitou sua presença em Azkaban – disse um dos secretários do Ministério. Ele arfava levemente, parecia ter corrido até ali. Deveria ser urgente.
O auror olhou com pena para o livro e fechou-o. Termino depois.
- Azkaban? – perguntou ele.
- Sim, senhor.
O que Lílian estava fazendo em Azkaban? E mais: para que precisava dele?
- Tudo bem... Obrigado pelo aviso.
O rapaz sorriu e fechou a porta. O auror levantou-se e pegou a jaqueta que estava pendurada na poltrona. Nunca estivera em Azkaban antes e nunca pretendera estar. Pelo menos o lugar não estava infestado de dementadores como era no tempo de seu pai.
Ele saiu do seu escritório e se dirigiu ao andar de transportes do Ministério, onde haviam centenas de lareiras conectadas a rede de flu. Ele pegou um punhado de pó de flu e entrou em uma lareira, indo para Azkaban.
...
Lílian esperou em frente às quatro lareiras no hall de entrada de Azkaban. Pó de flu era a única forma de se entrar no lugar (de forma legal), que estava protegido até mesmo contra aparatações.
Não demorou muito para que ele surgisse em uma das lareiras. Uma chama verde materializou o irmão dela no lugar, que sorriu ao vê-la. Infelizmente ela não estava com humor para sorrir.
- Que bom que veio, Tiago – disse a ruiva.
- Um secretário aparece correndo e diz que você está em Azkaban – comentou Tiago. – Imaginei que o mais rápido que eu chegasse, mais fácil seria de salvar o seu traseiro de encrenca.
Os dois riram, enquanto Lílian já o encaminhava para o destino.
- Então, qual é a encrenca? – perguntou o irmão.
- Preciso que você extraia algumas informações para mim.
Tiago suspirou, mostrando que já sabia que ela pediria algo do tipo. Depois de ele obter sua Especialização em Legilimência, Lílian já havia pedido até para ele vasculhar a mente de alguns pretendentes seus.
- Quem é o cara? – perguntou ele.
- Um neo-comensal – disse Lílian. – Capturamos ele ontem. Nome: McFlint.
Tiago fez uma cara de surpresa e parou de andar.
- Ian McFlint? – perguntou, boquiaberto.
- Sim. Conhece?
- Ele ficou em Hogwarts no mesmo período que eu – o auror olhou para o chão, pensativo, enquanto retomava a caminhada.
- Hunf, sonserinos...
- Ele era da Corvinal – interrompeu Tiago. Foi a vez de Lílian ficar espantada. Geralmente eram os sonserinos que iam para o lado das trevas. – Por que você acha que me espantei quando me disse o nome dele?
...
McFlint tremia. Estava sentado na cadeira há alguns minutos, desde que a auror que o interrogara tinha saído. Ele olhou o livro, segurando suas lágrimas. Não eram lágrimas de tristeza, e tampouco de felicidade. Eram lágrimas de medo.
Ele não podia dizer nada. E de fato não iria. Em algum momento eles iriam se cansar de perguntar e desistiriam dele. Capturariam um companheiro seu e então o interrogariam, também sem sucesso. Nenhum poderia contar a eles o que eles queriam saber.
Ele começou a se sentir um tanto claustrofóbico. Arfava profundamente enquanto olhava para todos os lados, procurando uma saída. Não havia. As portas foram camufladas, parecendo fundirem-se à parede, formando um grande cubo, do qual ninguém pode sair.
A porta à sua frente começou a abrir, lenta e sonoramente. Entraram então duas pessoas: a auror que o estava interrogando e mais um homem. A mulher tinha uma expressão raivosa no rosto, a mesma que McFlint vira quando ela saiu. O outro já estava indiferente, mas pareceu estranhar a situação do prisioneiro.
- Olá Ian – disse o homem.
McFlint fitou-o por alguns momentos, e então se lembrou de quem era.
- Potter?
- Faz tempo, não? – disse Tiago. – Nunca pensei que teria de vê-lo assim...
Tiago pegou a cadeira do outro lado da mesa e trouxe-a mais para perto de McFlint. Sentou-se curvado para o antigo conhecido.
- Hora de trabalhar – disse a ruiva.
Tiago a olhou por alguns instantes, depois voltou a observar McFlint. O auror ergueu a varinha e McFlint se sentiu estranho. Sentia como se sua cabeça estivesse de alguma forma dormente. Com um suspiro, Tiago disse:
- Pode perguntar.
Lílian pegou o livro que estava sobre a mesa e segurou-o na frente do prisioneiro.
- O que é isso? E como se lê?
Antes que ele pudesse raciocinar que deveria responder "Não vou dizer", sua mente trouxe à tona diversas imagens onde o livro aparecia.
Uma noite, enquanto McFlint estava sentado numa poltrona em seu quarto, ele lia aquele livro. A escrita tinha um formato esquisito e as letras eram avermelhadas, ele mal conseguia ler.
Outra ocasião, quando ele tinha na mão direita sua varinha e na esquerda segurava o livro aberto, tentando produzir os efeitos de algum feitiço que estava ali.
McFlint se sentiu tonto e, paralelamente às lembranças, estava completamente consciente do que acontecia naquela cadeira. Percebeu que cada lembrança que aparecia era mais antiga e todas elas envolviam aquele livro preto na mão de Lílian.
Quando entendeu o que estava acontecendo, o prisioneiro se encheu de pavor, e Tiago percebeu isso. As memórias voltaram para a atualidade, e sua mente reproduziu o momento em que a auror ruiva o interrogara.
- Não... – disse ele, se esforçando para lembrar a palavra que precisava falar.
O bruxo à sua frente, então, ergueu mais a varinha, como se forçasse a barreira mental que McFlint criara. O prisioneiro não conseguia repelir a força de qualquer que fosse o feitiço que Tiago estava usando.
- Por favor... Pare...
O desespero de McFlint tornava seu cérebro mais difícil de acessar, e as lembranças vinham mais confusas. Mas Tiago sabia como lidar com isso... Era sua função como Especialista em Legilimência...
- Por favor... – implorava McFlint. – O feitiço Fidelius!
No momento em que o prisioneiro gritou, sua mente trouxe a cena daquele momento para Tiago.
McFlint estava em pé, em seu próprio quarto. A figura de alguém encapuzado o encarava silenciosamente, segurando a varinha entre eles. McFlint segurou a varinha junto com o outro bruxo. O medo fluía por dentro dele, mas a recompensa seria grande...
Quando percebeu o que estava para acontecer, Tiago tentou parar o encanto...
O bruxo encapuzado disse, numa voz calma e sombria:
- Você jura fidelidade aos ensinamentos do Lorde das Trevas?
- Sim, eu juro.
Um fio vermelho saiu da ponta da varinha e lentamente circundou os dois bruxos.
Num último esforço, Tiago tentou sair bruscamente da mente de McFlint. Mas ele tinha usado um feitiço forte demais...
- Você jura jamais revelar o segredo do Livro de Voldemort?
Tiago arfava ao mesmo passo que o bruxo na cadeira, e o pavor de McFlint foi passado a ele.
- Sim, eu juro.
...
Dois guardas estavam esperando ao lado da porta por onde dois aurores haviam entrado minutos antes. Eles não sabiam ao certo porque ficavam monitorando, nada de mais costumava acontecer em interrogatórios assim. Os criminosos sempre negavam tudo ou ficavam quietos.
Mas, então, eles ouviram um grito vindo lá de dentro. Entreolharam-se, um tanto incrédulos, e começaram a abrir a porta.
- Maldita porta, por que é tão pesada? – reclamou um deles.
Após conseguirem abrir, os dois se depararam com uma cena perturbadora: a mulher ruiva estava apavorada, olhando ora para eles, ora para as cadeiras à sua frente; na cadeira mais próxima estava o outro auror que acompanhava a primeira. O homem estava ofegante e suava, curvado em direção a outra cadeira; nesta, estava o prisioneiro. Seu corpo estava completamente relaxado, as mãos estavam livres das amarras, a cabeça jogada para trás, virada para eles.
E, estarrecidos, eles perceberam os olhos vidrados do prisioneiro. Sangue escorria deles, assim como da boca, das narinas e das orelhas do bruxo.
O homem estava morto.
Continua...
