Capítulo 2

Umas horas mais tarde, Rin suspirou ao abrir a porta de seu duplex. Deixou o montão de cartas que levava na mão sobre a antiga mesa, que decorava o rincão adjacente à escada, e fechou a porta atrás dela, jogando o fecho. As chaves foram parar ao lado da correspondência.

Enquanto se tirava a puxões os sapatos negros de salto, o silêncio lhe golpeou os ouvidos e lhe formou um nó na garganta. Todas as noites a mesma rotina tranqüila: entrar em um lar vazio, classificar o correio, ler um livro, chamar a Sango, comprovar a secretária eletrônica e ir-se à cama.

Sango tinha razão, a vida do Rin era uma aborrecida e direta investigação sobre a monotonia.

Aos vinte e cinco anos, Rin estava muito cansada de sua vida.

Demônios! Inclusive Kohako —o incansável buscador de tesouros nasais— começava a parecer atrativo.

Bom, possivelmente Jamie não. E menos seu nariz, mas seguro que havia alguém aí fora, em algum lugar, que não era um cretino.

Ou não?

Enquanto subia as escadas, decidiu que viver de forma independente não era tão espantoso. Ao menos, tinha muito tempo para dedicar a seus entretenimentos favoritos.

Ou também poderia procurar novos passatempos, pensava enquanto caminhava pelo corredor que levava ao seu dormitório. Algum dia encontraria um entretenimento divertido.

Cruzou a habitação e deixou cair os sapatos junto à cama. Não demorou nada em trocar-se de roupa.

Acabava de recolher o cabelo em um rabo de cavalo quando soou o timbre.

Baixou de novo as escadas para deixar passar a Sango.

Logo que abriu a porta, sua amiga lhe soltou zangada:

— Não irá pôr isso esta noite, verdade?

Rin jogou uma olhada aos jeans cheios de buracos e depois se fixou em sua enorme camiseta de manga curta.

— Desde quando se preocupa meu aspecto? —E então o viu; na enorme cesta de vime que Sango utilizava para levar as compras—. Uh! Não. Esse livro outra vez, não.

Com uma expressão ligeiramente irritada, Sango lhe respondeu:

— Sabe qual é seu problema, Rin?

Rin olhou ao teto, rogando aos céus um pouco de ajuda. Infelizmente, não a escutaram.

— Qual? Que não me transtorna a luz da lua e que não arrojo meu gordo e sardento corpo sobre qualquer homem que conheço?

— Que não tem nem idéia de quão encantadora é em realidade.

Enquanto Rin ficava ali plantada, muda de assombro ante o pouco freqüente comentário, Sango levou o livro a sala de estar e o colocou sobre a mesa de café. Tirou o vinho da cesta e se dirigiu à cozinha.

Rin não se incomodou em segui-la. Tinha encarregado uma pizza antes de sair do trabalho, e sabia que Sango estaria procurando umas taças.

Empurrada por uma mola invisível, Rin se aproximou da mesa onde estava o livro.

Espontaneamente, estendeu a mão e tocou a suave coberta de couro. Poderia jurar que havia sentido uma carícia na bochecha.

Que ridicularia.

Não crie neste lixo.

Rin passou a mão pelo couro e notou que não havia título, nem nenhuma outra inscrição. Abriu a tampa.

Era o livro mais estranho que tinha visto em sua vida. As páginas pareciam ter formado parte, originariamente, de um cilindro de pergaminho, que mais tarde tinha sido transformado em um livro.

O amarelado papel se enrugou baixos seus dedos ao passar a primeira página; nela havia um elaborado símbolo feito à mão, formado pela intercessão de três triângulos e a atraente imagem de três mulheres unidas por várias espadas.

Rin franziu o cenho esforçando-se por recordar se aquilo podia ser uma espécie de antigo símbolo grego.

Ainda mais intrigada que antes, passou algumas páginas e descobriu que estava completamente em branco, exceto aquelas três folhas…

Que estranho…

Devia ter sido algum tipo de caderno de esboços de um pintor, ou de um escultor, decidiu. Isso seria quão único explicasse que as páginas estivessem em branco. Algo teve que acontecer antes que o artista tivesse oportunidade de acrescentar algo mais ao livro.

Mas isso não acabava de explicar por que as páginas pareciam muito mais antigas que a encadernação…

Retrocedeu até chegar ao desenho do homem, e observou com atenção a inscrição que havia sobre ele, mas não pôde tirar nada em claro. Ao contrário de Sango, ela evitou as classes de línguas antigas na faculdade como se fossem veneno; e se não tivesse sido por sua amiga, jamais teria superado aquela parte fundamental em seu currículo.

— Definitivamente, acredito que é grego — disse sem fôlego quando voltou a olhar ao homem.

Era surpreendente. Absolutamente perfeito e incitante.

Incrivelmente fascinante.

Cativada por completo, perguntou-se quanto tempo se demoraria em fazer um desenho tão perfeito. Alguém devia ter acontecido anos dedicados à tarefa; porque aquele tipo parecia estar preparado para saltar do livro e meter-se em sua casa.

Sango se deteve na entrada e observou como Rin olhava fixamente ao Sesshoumaru. Nunca a tinha visto tão extasiada desde que a conhecia.

Bem.

Possivelmente Sesshoumaru pudesse ajudá-la.

Quatro anos era muito tempo.

Mas Kohako tinha sido um porco narcisista e desconsiderado. Comportou-se de um modo tão cruel com Rin e com seus sentimentos, que inclusive a tinha feito chorar a noite que perdeu a virgindade.

E nenhuma mulher merecia chorar. Não quando estava com alguém que tinha prometido cuidar dela.

Sesshoumaru seria definitivamente bom para o Rin. Um mês com ele e esqueceria todo o referente ao Kohako. E, uma vez que descobrisse quão bem sabia o sexo compartilhado e real, liberar-se-ia da crueldade de Kohako para sempre.

Mas, primeiro, tinha que conseguir que sua teimosa amiguinha fosse um pouco mais obediente.

— Lembrou-se da pizza? —perguntou-lhe enquanto lhe oferecia uma taça de vinho.

Rin a colheu com um gesto distraído. Por alguma razão, não podia apartar os olhos do desenho.

— Rin?

Piscou e se obrigou a olhar para cima.

— Hum?

— Pilhei-te olhando — brincou Sango.

Rin se esclareceu garganta.

— OH, por favor!, Não é mais que um pequeno desenho em branco e negro.

— Céu, nesse desenho não há nada pequeno.

— Sango, é má.

— Completamente certo. Mais vinho?

E como se tivessem estado esperando o momento preciso, soou o timbre.

— Eu vou — disse Sango, colocando o vinho na mesa do telefone para dirigir-se ao saguão.

Uns minutos depois, voltou para a sala. Até que Rin chegou o maravilhoso aroma da enorme pizza de pepperoni e seus pensamentos deixaram a um lado o livro. E ao homem cuja imagem parecia haver-se gravado em seu subconsciente.

Mas não resultou fácil.

De fato, cada minuto que passava parecia mais difícil.

Que demônios lhe passava? Era a Rainha de Gelo. Nem sequer Brad Pitt despertava seus desejos. E os via em cor.

O que tinha que estranho naquele desenho?

Nele?

Mordiscou a pizza e se trocou de assento. Acomodou-se em uma poltrona na outra ponta da sala, a modo desafio pessoal. Sim. Demonstraria a Sango e ao livro que ela dominava a situação.

Depois de quatro porções de pizza, dois pedaços de chocolate, quatro taças de vinho e um filme, riam a mais não poder tombadas no chão sobre as almofadas do sofá enquanto viam Dezesseis velas.

— «Diz que é seu aniversário» - começou Sango a cantar, e ato seguido golpeou o chão— «Também é o meu».

Rin lhe golpeou a cabeça com uma almofada e lhe deu a risada tola ao comprovar os efeitos do vinho.

— Rin? —disse Sango zombadora—. Está bêbeda?

Rin voltou a rir.

— Mas bem, agradavelmente contente. Maravilhosamente contente.

Sango riu dela e lhe desfez o acréscimo.

— Então, está disposta a fazer um pequeno experimento?

— Não! —gritou Rin com ênfase, sujeitando-os mechas de cabelo depois das orelhas—e te juro que se vir uma só carta do Taro ou uma urna, vomitarei em cima dos chocolates.

Mordendo o lábio, Sango agarrou o livro e o abriu.

As doze menos cinco.

Sustentou o desenho para que Rin o observasse e assinalou aquele incrível corpo.

— O que opina dele?

Rin o olhou e sorriu.

— Está para lamber-se, verdade?

Bom, definitivamente a coisa ia progredindo. Não conseguia recordar a última vez que Rin lhe tinha dedicado um olhar completo a um homem. Moveu o livro frente ao rosto de sua amiga.

— Venha, Rin. Admite-o. Deseja a este bombom.

— Se te disser que não lhe deixaria sair de minha cama nem em troca de umas bolachas salgadas, iria me deixar em paz?

— Sim. A que mais renunciaria por mantê-lo em sua cama?

Rin pôs os olhos em branco e apoiou a cabeça sobre uma almofada.

— A comer miolos de macaco à prancha?

— Agora sou eu a que vai vomitar.

— Não está emprestando atenção ao filme.

— Farei-o se pronunciar este feitiço tão curto.

Rin elevou as mãos e suspirou. Sabia que não merecia a pena discutir com Sango… tinha aquela expressão. Não se deteria até sair-se vitoriosa, nem que caísse um meteorito sobre elas nesse mesmo momento.

Além disso, o que tinha de mau? Já fazia muito tempo que sabia que nenhum dos estúpidos rituais e encantamentos da Sango funcionavam.

— Ok, se assim se sentir melhor, farei-o.

— Sim! —gritou Sango e a agarrou por um braço para pô-la em pé—. Precisamos sair ao alpendre.

— Muito bem, mas não vou cortar o pescoço a um frango, nem vou beber nada asqueroso.

Com a sensação de ser uma menina a que tinham deixado dormir em casa de uma amiga, e que acabava de perder no jogo de verdade-Atrevimento, deixou que Sango a precedesse através da porta trilho de cristal que dava ao alpendre. O ar úmido encheu seus pulmões, escutou aos grilos cantar e descobriu milhares de estrelas brilhando sobre sua cabeça. Rin supôs que era uma noite perfeita para invocar a um escravo sexual.

Riu baixo.

— O que quer que faça? —perguntou a Sango —. Pedir um desejo a um planeta?

Sango negou com a cabeça e a colocou em metade de um raio de lua que penetrava entre as árvores e o beiral do telhado. Ofereceu-lhe o livro.

— Apóia-o no peito e abraça-o com força.

— OH, nenê! —disse Rin com fingido desejo enquanto envolvia amorosamente o livro com seus braços e o aproximava de seu peito, como se tratasse de um amante —. Põe-me tão brincalhona… Não posso esperar a afundar meus dentes nesse maravilhoso corpo que tem.

Sango riu.

— Para. Isto é sério!

— Sério? Por favor. Estou aqui fora em metade do alpendre, o dia de meu vigésimo quinto aniversário, descalça com uns jeans aos que minha mãe lhes prenderia fogo e abraçando um estúpido livro para invocar a um escravo sexual grego que está no mais à frente — olhou a Sango. Só conheço uma maneira de fazer que isto seja ainda mais ridículo…

Sustentando o livro com uma só mão, estendeu os braços a ambos os lados, jogou a cabeça para trás e começou a rogar ao escuro céu:

— OH! Fabuloso escravo sexual, me leve contigo e me faça todas as coisas escandalosas que saiba. Ordeno-te que te levante — disse, elevando as sobrancelhas.

Sango soprou.

— Assim não é como deve fazê-lo. Tem que dizer seu nome três vezes.

Rin se endireitou.

— Escravo sexual, escravo sexual, escravo sexual.

Com os braços em jarras, Sango lhe lançou um furioso olhar.

— Sesshoumaru da Macedônia.

— OH! Sinto-o —disse Rin voltando a apertar o livro sobre o peito, e fechando os olhos—. Vêem e alivia a dor que sinto em minhas partes baixas, OH! Grande Sesshoumaru da Macedônia, Sesshoumaru da Macedônia, Sesshoumaru da Macedônia —se girou para olhar a Sango. Sabe? Isto é um pouco difícil de pronunciar três vezes seguidas, e tão rápido.

Mas sua amiga não lhe emprestava a mais mínima atenção. Estava muito ocupada olhando para todos os lados, esperando a aparição de um arrumado estranho.

Rin acabava de pôr outra vez os olhos em branco, quando um ligeiro sopro de vento cruzou o pátio e um suave aroma a sândalo as envolveu. Voltou a inalar para recrear-se de novo no agradável aroma antes que se evaporasse, e então a brisa desapareceu, deixando de novo o caloroso e úmido abafado, típico de uma noite de agosto.

De repente, escutou-se um débil som procedente do pátio traseiro, e as folhas dos arbustos se moveram.

Arqueando uma sobrancelha, Rin contemplou como as folhas se balançavam. E então, a fantasia de diabo que havia nela cobrou vida.

— OH, Meu deus! —balbuciou e assinalou a um arbusto do pátio traseiro—. Sango, olhe ali!

Sango se girou a toda pressa ante o nervosismo de Rin. Um enorme sombra se balançava como se houvesse alguém detrás.

— Sesshoumaru? —chamou-lhe Sango, e deu um passo para diante.

O arbusto se inclinou e, subitamente, um miau romperam o silêncio, um segundo antes de que dois gatos cruzassem o pátio como uma exalação.

— Olhe, San. É o senhor Dom Gato que deve pôr fim a meu celibato — sustentou o livro com um braço e se levou o dorso da mão à frente, em um simulacro de desmaio—. OH, me ajude Senhora da Lua! O que vou fazer com as cuidados de tão desacertado pretendente? Ajude-me rápido, antes que me mate por causa da alergia.

— me dê esse livro — lhe espetou Sango tirando-se o de um puxão. Retornou a casa enquanto passava as páginas—. Droga!, o que tenho feito mal?

Rin abriu a porta para que Sango passasse ao interior da sala.

— Não fez nada mal, céu. Isto é absurdo. Quantas vezes tenho que te dizer que há um velhinho sentado na parte traseira de um armazém, escrevendo toda esta porcaria? Apostaria a que agora mesmo está partindo-se da risada por quão imbecis fomos.

— Possivelmente era necessário fazer algo mais. Jogo-me o que seja a que há algo nos primeiros parágrafos que não posso interpretar. Deve ser isso.

Rin fechou a porta de cristal e suplicou um pouco mais de paciência.

E me chama teimosa, a mim!

O telefone soou nesse instante e, ao respondê-lo, Rin escutou a voz do Mirok perguntado pela Sango.

— É para ti — disse lhe dando o telefone.

Sango o agarrou.

— Sim? —manteve-se em silêncio uns minutos. Rin podia escutar a voz nervosa do Mirok. Pela repentina palidez do rosto de sua amiga, deduziu que algo tinha passado.

— Ok, ok. Chegarei em seguida. Está seguro de que te encontra bem? OK, quero-te. Vou de caminho… não faça nada até que eu chegue.

Rin sentiu um horrível nó no estômago. Uma e outra vez, voltava a ver a polícia na porta de seu dormitório, e a escutar sua desapaixonada voz: Sinto muito lhe informar…

— O que acontece? —perguntou Rin.

—Mirok estava jogando basquete e quebrou um braço.

Deixou escapar o fôlego mais tranqüila. Obrigado Senhor, não foi um acidente de carro.

— encontra-se bem?

— Diz que sim. Seus amigos lhe levaram a um médico de guarda que lhe fez uma radiografia antes de que partissem. Disse-me que não me preocupasse, mas acredito que é melhor que volte para casa.

— Quer que te leve em meu carro?

Sango negou com a cabeça.

— Não, tomaste muito vinho; eu bebi menos. Além disso, estou segura de que não é nada sério. Mas já sabe quão apreensiva sou. Fique aqui e desfruta do que fica de filme. Chamarei amanhã pela manhã.

— Ok. Avise-me se for grave.

Sango agarrou a bolsa e tirou as chaves. Deteve-se metade de caminho e entregou o livro a Rin.

— Que demônios! Fique o Suponho que nos próximos dias te ajudará a rir a gargalhadas cada vez que te lembre de quão idiota sou.

— Não é idiota. Simplesmente, um pouco excêntrica.

— Isso é o que diziam da Mary Todd Lincoln. Até que a encerraram.

Rin agarrou o livro, rindo-se a gargalhadas, e observou como Sango caminhava para seu carro.

— Tome cuidado — gritou da porta—. E obrigado pelo presente, e pelo que esteja por vir.

Sango lhe disse adeus com a mão antes de subir a seu Jipe Cherokee de cor vermelha brilhante e afastar-se.

Com um suspiro de cansaço, Rin fechou a porta e arrojou o livro ao sofá.

— Não vá a nenhum lado, escravo sexual.

Rin riu de sua própria estupidez. Acabaria alguma vez Sango com todas aquelas tolices?

Apagou o televisor e levou os pratos sujos a pia. Enquanto lavava as taças, viu uma repentina chama.

Durante um segundo, pensou que se tratava de um relâmpago.

Até que se deu conta de que tinha sido dentro da casa.

— Que tem…?

Soltou a taça e foi para a sala de estar. Ao princípio não viu nada. Mas conforme se aproximava da porta, percebeu uma presença estranha. Algo que arrepiou seu cabelo da nuca.

Entrou na sala com muito cuidado e viu uma figura alta, de pé diante do sofá. Era um homem. Um homem muito arrumado. Um homem nu!

Então quem gostaria de achar o sesshy assim no meio da sala em seu apartamento.

Bem acho bom eu da uma olhadinha por aqui , quem sabe a lenda e real, beijos.

Alias valeu pelas reviews,no momento não posso responde-las agora pois estou super enrolada, mas prometo que logo, logo irei amei todos os comentarios.