Mello saiu do carro com cuidado. Óculos escuros, roupas pretas. Discreto. Capuz sobre a cabeça, peruca preta e despenteada por cima das mechas loiras.

Talvez não tão discreto, mas andava a passos ligeiros e silenciosos.

Pronto. Havia entrado no imóvel — grande movimentação — agora só precisava se misturar entre as pessoas. Não seria tão difícil, pela quantidade delas que havia lá. Astuto como sempre, desviava facilmente dos passantes e se aproximava, sem ser especialmente notado. Estava muito perto. Perto demais. Podia sentir o chei

Miiiiiiihaeeel!

O grito estridente o denunciou. Ele sentiu — e acompanhou — os olhares da multidão virarem, todos ao mesmo tempo, em direção àquela voz que se aproximava rapidamente de si. Seus punhos se cerraram de tal modo que, se tivesse unhas um pouco mais longas, teria furado a si mesmo.

Virou devagar. Não porque realmente estava fazendo isso, mas porque, para ele, tudo parecia estar em câmera lenta.

Era o inferno. O próprio demônio vinha em sua direção, sorridente, empurrando um carrinho de compras. Sentia suas mãos tremerem com o impulso de sacar a Magnum e trucidar todos à sua volta. Mas não podia. Correu em direção ao seu algoz e o pegou pela gola da camisa (apesar de querer tê-lo pego pelos lábios, para aproveitar e arrancá-los no processo).

Qual é o seu problema?

Mello falava entre os dentes, baixo, mas forte o suficiente para fazer alguém chorar.

— Ué, do que ta falando? — Matt o olhava cinicamente, ainda com um sorriso idiota na cara.

— Você. Você usou meu nome. Você TEM IDEIA do mundo em que vivemos hoje? Você SEQUER TEM IDEIA de que eu estou sendo procurado pela polícia de PELO MENOS três PAÍSES? — Os sussuros do loiro ficavam cada vez mais violentos, enquanto aproximava o rosto a cada ênfase. — KIRA. Seu idiota. Você no mínimo já IMAGINOU o que pode acontecer se KIRA conseguir o meu nome?

O ruivo desviou o olhar para o lado, deixando uma expressão entediada tomar forma em sua face. Os descontos no sabão em pó pareciam mais interessantes que aquela conversa toda.

NÃO ME IGNORE, PORRA — Matt virou bem a tempo de segurar um de direita que o outro acabava de mandar em direção ao seu nariz. Resolveu voltar a prestar atenção no que ele dizia, seria mais seguro para o seu belo rosto. — Como me reconheceu no meio de tanta gente seu filho da mãe? — Mello perguntou, ainda visivelmente irritado — Eu até compus um disfar-

— Eu senti o cheiro do cacau no seu organismo, meu caro. — Cortou Matt, tentando se livrar das mãos do amigo, que havia prendido seus dois pulsos.

— ... Agradeça por eu não falar do seu cheiro, imbecil. — Respondeu ele, ainda entre dentes, após acertar a cabeça do ruivo com um de seus próprios punhos. Em seguida, apenas largou-o e seguiu andando para a seção alimentícia.

—Ai, ai, ai! Como você é violeento! — Choramingou Matt, pondo as duas mãos no local atingido — Por quê? Não tenho medo da sua língua afiada não, ok. Tenho cheirinho de menta, quer apostar?

— Claro, só se for daquele cigarro de viado que você compra às vezes. "Mentolado" é como chama? Pff-

Matt curvou as sobrancelhas e apertou o passo, alcançando o loiro e passando à sua frente.

— Haah~ aposto que isso é só inveja de todas as garotas que podem sentir o gostinho refinado que eu tenho. — Disse ele, sorrindo cheio de orgulho para o nada, enquanto andava com as mãos na cintura.

Mello o olhou com notável repugno, fazendo rir até algumas crianças por quem passava.

Tch, sai daqui seu estranho, já me basta a casa fedendo a tabaco o dia todo. Se eu quisesse sentir gosto de fumaça beijaria um cano de descarga antes de tentar com você. — Retrucou, virando à direita e seguindo o caminho traçado em sua mente.

O ruivo parou, abrupto, fazendo uma careta para o amigo enquanto o seguia, os braços atrás da cabeça.

— Uuh... Que groosso... Assim você me magoa, seu insensível. — Ele inflou as bochechas, soprando as orelhas do outro em seguida. — Nunca vai conseguir uma namorada desse jeito, sabia? — Provocou, parecendo estar subtamente interessado nos anúncios aglomerados nas prateleiras.

— Foda-se, não to interessado. Você não vai embora, não?

Matt fuzilou o loiro com o olhar, enquanto este apenas seguia sem nem se dar ao trabalho de olhar para trás.

— ... Ei, por que não compramos desses biscoitos aqui? Parecem mais gostosos que aqueles que você sempre compra...

— ...

Nenhuma resposta.

Não era um bom sinal.

Matt franziu mais as sobrancelhas, sacodindo a cabeça em seguida e mostrando uma expressão contente, com a qual foi até o lado do amigo para que ele pudesse vê-la.

— Ei, o que quer que eu cozinhe hoje? Eu descobri umas receitas com macarrão bem legais!

— ...

Pronto. Agora era oficial. Estava sendo ignorado.

O ruivo desfez seu sorriso à uma expressão fúnebre, e, finalmente, acompanhou em silêncio, para a felicidade do outro.

Após passarem por duas ou três prateleiras cheias de biscoitos e salgadinhos de todo tipo, depararam-se com uma parte mais fina daquele supermercado. Podia-se ver alguns bons vinhos expostos de um lado, numa estante de madeira escura e polida, já num outro lado, alguns tipos de queijo envelheciam bem amarelos e inocados, com cara de "você nunca será capaz de comer um quilo meu em sua vida". Não demorou muito para o ruivo se tocar da situação.

...

...

...

...

— Ei, você veio comprar chocolate?

Não é da sua conta, infeliz.

Vitória!

Mais uma vez, lá estavam eles. Matt abriu um sorriso maldoso. A liderança era sua novamente.

— Eu achei que tinha te dito que isso ainda vai te fazer mal. Sabe, é gorduroso pra caramba. Se bem que você até precisa de alguma gordura nesse corpo magrelo... Mas já pensou que você podia começar a ter espinhas? Aí, sim, você nunca arranjaria uma...

PARA DE ME ENCHER E VAI PRA CASA, CARALHO — Explodiu ele, quase correndo na direção oposta a Matt.

O ruivo sorriu maliciosamente em direção ao amigo, que já estava a uma boa distância. Seus olhos afinaram-se como os de uma raposa, e seus lábios de abriram, sem pressa, e ele gritou:

Devo fazer o jantar, meu amor?! ~

Mello sentiu suas pernas travarem no meio da multidão. As pessoas ao redor voltaram sua atenção para as duas figuras de novo. Começavam a cochichar coisas umas com as outras, outras tinham em seu semblante uma típica expressão de censura, algumas de nojo, e um grupo em especifico ria baixinho, com os rostos vermelhos e mãos nervosas próximas aos rostos.

Mello sabia do que falavam. Ah, como ele sabia.

Todos devem estar pensando a mesma coisa.

Já era noite quando ele voltou ao apartamento. Possuía um novo estoque do seu pequeno vício em mãos, cuidadosamente protegido dentro de uma caixa. Cheiro de comida quente no ar.

Após algum tempo do início de sua estadia, apenas pouco do apartamento Mello havia conseguido mudar. Depois uma vitória contra o ruivo no Mahjong — da qual o amigo se defendeu falando que, se fosse em qualquer um dos seus games, ele o teria vencido na metade do tempo — estabeleceu um trato em que obrigava Matt a varrer o chão ao menos uma vez por dia, e a sempre trocar os lençóis e toalhas por limpos. Já as paredes, antes horrorosas, haviam recebido algumas boas e más pinceladas de tinta branca. Agora, só estavam um pouco feias. Quanto ao resto, continuava tudo como antes. Mal arrumado, mal limpo, e mal amado.

Os otimistas diriam que estava melhor.

Mello depositou suas coisas no sofá — com cuidado somente desta vez, por causa dos chocolates — e seguiu aquele cheiro, parando na porta da cozinha.

Matt virou-se, abrindo um sorriso bastante carinhoso — de dar calafrios, diria Mello — e soltou a colher que estava em mãos dentro de uma panela que já estava ao fogo.

— Merocchi! — Ele pareceu sorrir mais ainda, se é que era possível, ao pronunciar o vocativo. Mello estremeceu. — Por que não disse "estou de volta" ao entrar?

Os olhos azuis analisaram o ruivo de cima a baixo. Matt usava uma calça cinza de moletom qualquer, uma camisa preta, de mangas longas e gola larga, sem importância, e um avental branco, delicado, com rendas em suas bordas, sujo de molho.

— Vai querer comer agora? Ou tomar um banho antes?

Se pudesse ver por trás daquele rosto sorridente, com certeza veria o próprio Satan queimando de satisfação por incomodá-lo. Mello sentiu seu almoço voltar.

— Vai se ferrar.

Com um arrepio percorrendo sua espinha, se virou e foi embora, em direção ao banheiro. Mais tarde iria tentar se livrar da dor de cabeça e de tudo que aquele dia havia feito ao seu psicológico com um banho quente. Era pouco provável, mas não custava tentar.

"O que eu fiz para merecer isso...? Não, sério, o que...", pensava, cobrindo o rosto vigorosamente ao ouvir Matt gritar que o jantar estaria pronto em cinco minutos.

Mello abriu a torneira e encharcou o rosto, sentindo-se um pouco melhor com isso. Instantes depois voltou à sala, onde se sentou no sofá e tirou a jaqueta, a peruca, e soltou os cabelos. Em seguida, abriu os braços e os apoiou no encosto do móvel, levantando a cabeça e a encostando ali também. Fechou os olhos e se pôs a pensar em nada, querendo relaxar um pouco.

Obviamente, os pensamentos não deixaram de ser pensados só porque era esse seu plano. A tarde havia sido cansativa o suficiente e agora sua cabeça latejava. Já bastava ter tido que andar para todo canto com aquelas roupas grossas e escuras, sem falar naquela peruca idiota que fazia sua nuca coçar. Então, quando chega em "casa", as coisas não pareceram estar melhorando. Não mesmo. Meu deus do céu, onde aquele idiota havia arranjado aquela coisa? Já estava acostumado com ele cozinhar todo dia, mas por que aquele maldito tinha que inventar de brincar de casinha... Do. Nada. Amanhã ele apareceria com o conjunto completo de luvas, avental e saia justa. Tinha certeza.

CREDO, NO QUE EU TAVA PENSANDO AGORA?

Seu rosto estava vermelho de indignação: as sobrancelhas franzidas, os olhos arregalados e os lábios comprimidos. Se perguntava por que havia pensado aquelas coisasrepugnantes quando Matt adentrou o local.

— Proonto, Merocchi, pode vir. — Ele parecia animado em especial, já se virando para voltar à cozinha.

— Você vai insistir em me chamar assim? — Mello levantou, tentando acalmar-se do devaneio mal calculado que teve um segundo atrás.

— Você sabe que sim.

Matt afinou o sorriso e seguiu na frente, voltando à cozinha sem olhar de novo para o outro, que mordia os dentes com a mesma força que seu olhar fuzilava a silhueta do ruivo desaparecendo pela porta. Logo, estavam os dois sentados na pequena mesa que havia dentro daquela cozinha apertada, servindo-se de almôndegas cozidas e macarrão para Yakisoba, pois era o que havia sobrado na dispensa quando Matt se esqueceu de comprar macarrão comum nesta tarde.

Mello estava faminto, após um dia como aquele não estava nem aí se iria lhe fazer mal comer rápido ou não, apenas se concentrava em devorar tudo aquilo à sua frente. Porém, Matt não havia começado a comer. Observava interessado ao loiro devorar o jantar, apoiando o rosto numa das mãos.

— Hmpf? — Mello o notou — Qqfo? — Indagou ele, de boca cheia.

Matt sorriu, um sorriso esperto, mas ainda assim tranquilo, comprimindo os olhos e sumariamente ignorando a pergunta de Mello.

— Tá gostoso?

O loiro parou de mastigar e engoliu. Olhou, então, para o que comia e respondeu, meio baixo:

— Uhn... Tá sim.

Matt pareceu se animar. Apoiou os dois cotovelos na mesa e o queixo na palma das mãos.

— Ótimo! Vai querer sobremesa?

— Você não vai comer?

— Oh, eu já comi mais cedo. E então, vai querer?

— Hmm... — Mello o estranhou, mas refletiu sobre sua pergunta — Não precisa, já vou comer os...

— Ah, pena, fiz um bolo tão bonito... — Ele dizia manhosamente, enquanto levantava e recolhia os pratos — Forrado de cho-

— Duas fatias.

— Pf... — Matt segurou o riso.

Se havia uma coisa de que realmente gostava era de mostrar a Mello o quanto ele era previsível. Em sua alma ele havia escrito, como seu passatempo oficial, 'ser sádico com meu querido Mello'. E com apenas um enrubescer, uma careta ou um palavrão, ele já conseguia se sentir vitorioso pelo resto da noite.

Pôs os pratos na pia e pegou um limpo num pequeno armário ao lado, colocando-o em frente a Mello e indo buscar seu belíssimo bolo forrado de cho-você-sabe-o-quê. Poucos instantes, então, já havia servido ao amigo e encontrava-se sentado à sua frente novamente, com uma expressão contente enquanto partia um pedaço com o garfo, e o apontava para Mello.

— Diga "ahh" — pediu, aproximando o garfo em direção a Mello, que olhou desconsertado para Matt e para o garfo, e então para Matt de novo.

— Aaahnm... Matt. — Ele arqueou uma das sobrancelhas — Tá fazendo o quê?

— Te alimentando como faço todos os dias desde que você resolveu morar na minha casa sem pagar aluguel. — Respondeu ele, sério como se a atitude de Mello ao perguntar que fosse realmente a estranha. Mello sentiu rugas nascendo em seu rosto exasperado.

— Hm. Mas eu sei segurar o garfo e comer sozinho, sabe.

Matt curvou as sobrancelhas decepcionado.

— Oh... Certo, certo, se você não quer eu como. — Retrucou, levando o garfo para perto da própria boca.

Ahn? Ei! Espera aí! Tá, tá, tá! Me dá logo isso aqui! — Bufou Mello, ao puxar o braço do ruivo e abocanhar o garfo.

O bolo estava delicioso, de fato. E seu suposto cozinheiro ria baixinho ao apreciar sua reação. Após essa, outra garfada já estava pronta. E em seguida outra. E foi assim até que terminassem quase todo o prato.

— Isso é ridículo, chega. — Disse Mello, com desgosto, mas mastigando a última garfada.

— Ah, mas é tão divertido. Você fica tão moe quando vai morder.

Mello parou no meio do caminho de outra abocanhada. — Eu fico o quê?

— Moe. — Respondeu Matt, bastante calmo.

— Mo... — Mello recostou em sua cadeira — Moe? Que diabo é isso? — voltou a perguntar, parecendo confuso.

Matt continuava indiferente, o que destruía com a paciência do outro. — Significa... Hm... "Fofo". — Ele respondeu, querendo encurtar a explicação.

— ... Fofo?

— Isso.

— ... Como... Assim... Fofo?

— Ah, fofo, bonitinho como... Aquelas ninfetas das revistas que você guarda embaixo da cama. — Disse, coçando a cabeça.

Mello congelou.

O que você disse...?

— Eu prefiro chamar de lolita, mas achei que você não entenderia também. Sério mesmo, não sei como você pode achar aquelas coisinhas magrelas atraentes, hahaha...

Você...

— Sabe, você precisa saber o que é uma mulher de verdade, cara.

Mexeu...

— Já vi umas que devem fazer esse seu tipo, mas com mais corpo...

Nas minhas coisas?

— ... Oh. Bom, você me mandou varrer o apartamento todos os dias, e embaixo da cama também tem chã...

Mello levantou-se bruscamente, apoiando as mãos na mesa e de cabeça baixa.

A... Aquilo ali eu encontrei na rua por acaso, ok?! E-eu nunca li aquilo!

Matt parou um momento para observar o rosto do loiro. Estava tão vermelho quanto poderia, e também tremia, de leve. "Hah... É isso que chamo de moe."

— Tudo bem, não precisa gritar, acredito em você, amigo...! — Matt tentou acalmá-lo, ajudando-o a sentar de novo — ... Então! Você ainda vai comer o resto do bolo?

— ... Vou. — Respondeu ele, ainda um pouco perturbado.

Matt entregou o garfo ao amigo e voltou a sentar à sua frete. "Talvez eu tenha exagerado um pouco, melhor não forçar tanto se eu não quiser levar um tiro, heh..."

Aos poucos Mello voltou a comer, emburrado. O ruivo ficou a observá-lo em silêncio, aguardando seu término.

— ...

— ...

— ...

Enfim, Mello levantou-se e colocou o prato na pia, sendo seguido pelos olhos do ruivo, que parecia envolto em pensamentos.

— ...

— ...? — Mello o encarou de volta — O que foi?

Matt não respondeu rapidamente, fazendo com que o outro se virasse para ir embora.

— ... Merocchi.

Mello parou ao atravessar a porta, virando um pouco o rosto para o outro.

— Hm..?

— ...

— ...

— Os DVDs você também encontrou na rua?

— ...

— Oh, droga.