Capítulo 3

Três anos atrás – Parte 2.

Tentei abrir os olhos; a claridade me cegou e logo voltei a fechá-los. Não era preciso tê-lo feito, pois por minhas pálpebras fechadas dava pra perceber que já era de manhã. O aroma de ervas estava mais brando, e já não me entorpecia tanto quanto ontem. Ou seja lá quanto tempo tenha se passado desde a última vez que acordei.

Acostumando-me com a claridade, comecei a olhar o quarto novamente. A janela estava aberta, e uma brisa com cheiro de grama molhada entrava por ela. Deve ter chovido bastante durante a noite, porque o ar em si ainda estava com um aspecto úmido. As cortinas balançavam lentamente com o vento que entrava, e uma sensação de alívio percorreu meu corpo. Fosse quem fosse que estivesse cuidando de mim, parecia ser alguém legal. Meu estômago manifestou-se nesse exato momento, tirando minha cabeça dos devaneios em que ela se encontrava. Tentei me mexer um pouco, e meus membros pareciam pesados. Minha cabeça doía um bocado, estava com cãibras pelo corpo todo e meu estômago estava começando a corroer a si mesmo por dentro. Nem me lembrava da última refeição que havia tido.

De repente, a porta se abriu. Instintivamente, fechei os olhos e fingi dormir. Pude ouvir passos, alguém colocar algo na escrivaninha e essa mesma pessoa sentar-se ao meu lado na cama. Ela então tocou no meu rosto, e me senti arrepiar. Seu toque era leve, macio e quente. Reparei que suas mãos eram pequenas, devia ser uma mulher. Ponto pra mim. Ela pronunciou em voz baixa algo numa língua que não entendi e tocou bem de leve nas minhas costelas. Soltei um gemido baixo, e ela retirou a mão, para logo depois colocá-la de volta, checando meus cortes. Depois das costelas passou para minha perna, que estava com um corte profundo. Ela retirou o pano úmido que estava cobrindo o corte e falou algo com ar de aprovação. Ao trocar o pano por outro com o líquido renovado, ardeu o suficiente para eu soltar um audível "ai".

- AI! Merda, puta-que-pariu, como arde essa bosta! – Bem audível, na verdade, e seguido de algumas expressões, eh, indecorosas.

Sentado na cama, já visivelmente acordado, lentamente virei-me, e logo a primeira coisa que vi foram os dois olhos dourados, me olhando de volta. Parei de pensar por alguns segundos, e logo que pude reciocinar de novo me forcei a parar de encará-los e olhar para a dona desses olhos. Sentada à minha frente, na cama, estava uma garota me encarando com um ar tão espantado quanto o meu ao encará-la de volta. Essa moça tinha cabelos negros, com a pele bem morena, e lábios grossos e rosados. Parecia não ter mais que dezesseis anos, e tinha um tipo físico pesado; se fosse baixa seria gordinha, mas devia ter 1,75 de altura, bem alta para sua idade. Seus cabelos estavam presos numa trança solta que estava passada por cima de seu ombro, pendendo sobre seu seio direito. Usava um vestido soltinho, azul claro, que assentava bem em sua cintura, e deixava parte de suas pernas morenas de fora. Achei-a muito bonita. Infelizmente, podia ser um pouco mais velha; não gosto de garotinhas.

Mas, obviamente, o que mais me chamou a atenção nela foram seus intensos olhos dourados, profundos e grandes, que pareciam levar tanta tristeza e calma, e, ao mesmo tempo, pareciam zombar de mim, como se me desafiando a tentar o impossível. Provavelmente também eram as sobrancelhas, arqueadas, grossas e bem feitas, com uma levantada, num claro sinal de ironia. Quase como eu mesmo na maior parte do tempo.

Não sabia se ela falava a minha língua, porque em todas as vezes em que eu estava "desacordado", ela usava um dialeto estranho. Balbuciei algumas palavras, perguntando se ela entendia o que eu dizia, apontando para mim mesmo e dizendo meu nome pausadamente, mas nada. Ela continuava me olhando com um olhar curioso, e logo desisti. Ela falou algo que não entendi, se levantou e pegou o que havia deixado em cima da escrivaninha: uma bandeja com um prato e vários potes com comida, e um jarro de suco. Dei um sorriso gigantesco, e a pedi em casamento mentalmente.

Comecei a comer vorazmente, e ela retribuiu o sorriso que eu havia dado momentos antes. Com isso, senti meu coração afundar um pouco mais no meu peito. Isso, ou meu estômago estava começando a corroer os outros órgãos também. Comi com gosto, e quase engasgaria se A Garota não estivesse lá para brigar comigo por comer tão rápido (creio eu), na sua língua peculiar. Eu a ignorei levemente e logo voltei a engolir tudo o que tinha no prato e nos potinhos. Sinceramente, a comida estava uma merda. Sério mesmo. Mas como ela nem passava pela minha língua e já ia direto pra minha garganta, nem liguei. Tá, não era tããão ruim assim. Mas eu iria ficar feliz por nunca mais ter que comê-la de novo.

Depois do almoço, A Garota trocou minhas bandagens em silêncio, enquanto eu "lia" um dos seus livros. Tentei interagir com ela, talvez descobrir seu nome, mas ela realmente não entendia bulhufas do que eu estava dizendo. Fiquei nessa missão de descobrir seu nome durante mais um tempo, mas os remédios começaram a exalar o forte cheiro de ervas novamente, e me senti entorpecer mais uma vez.

Com isso, ela se levantou, se inclinando levemente e pegou a bandeja com os pratos já vazios de comida. Antes de sair pela porta, entretanto, ela parou e me fitou com seu olhar penetrante. Mil pensamentos correram pela minha cabeça enquanto nós nos olhávamos dessa forma, e eu podia jurar que já estava começando a babar. Após o que me pareceu uma eternidade, ela cortou nosso contato visual, virou-se e se foi, sem mais uma palavra.

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Mais um capítulo numa linda (/ironia) manhã de segunda-feira.

Não tenho muito a acrescentar, além de falar que o Luxus fala palavrões. Bastante. Mas nem tanto mais pra frente. Quer dizer, quis deixar essa fic o mais real possível (o mais real que uma fic sobre magia e dragões possa ser), e ninguém fala "Infernos" ou "Pô" quando está puto. Palavrões são coisa natural – pelo menos pra mim. Mas se você não gostar, pode me falar e eu tiro ou troco. No problems.

Muuuuuito obrigada às pessoas que estão lendo, e mais ainda às que estão comentando. :D

Sério mesmo que é muito importante pra mim ser reconhecida, porque tenho a auto-estima de um emo em estado depressivo terminal (se é que ainda existe alguém assim – vivo, isto é), sério. Então quando leio um review, isso faz meu dia. Porque, sabe, minha vida é bem chata.

Continuem lendo. Quarta tem mais. Beijos. Ç: