Autora: Emily Giffin
Título original: Something Borrowed.
Essa história não me pertence. Apenas estou a postando no universo de Card Captor Sakura.
CAPÍTULO III
Editado por: Tammy Souza
Quando acordo na manhã seguinte, aquela garota despreocupada tomando um milk-shake já foi embora, corroída pela culpa e por trinta anos de obediência. Não consigo mais racionalizar o que fiz. Cometi um ato deplorável contra uma amiga, violei um preceito fundamental da fraternidade. Não há justificativa. Então irei para o plano C porque eu já passei do B. Vou fingir que nada aconteceu. Minha transgressão foi tão grande que não tenho escolha, a não ser desejar que toda a coisa desapareça. E, continuando com os negócios de sempre, abraçando minha rotina das manhãs de segunda-feira. É isso que pretendo fazer.
Tomo um banho, seco o cabelo, visto o meu terninho preto mais confortável com sapatos de salto baixo, pego o metrô até Grand Central. Compro um café e o jornal na minha banca de sempre, depois subo dois lances de escadas rolantes e tomo um elevador até o meu escritório no prédio daMetlife. Cada parte da minha rotina me leva um passo mais longe de Syaoran e do incidente. Respiro fundo.
Chego ao escritório às 8h30, cedo demais para os padrões dos escritórios de advocacia. Os corredores estão silenciosos. Nem mesmo as secretárias chegaram. Estou passando para a seção de notícias locais do jornal, bebericando meu café, quando noto a luz vermelha de mensagens piscando no meu telefone; geralmente um sinal de que há mais trabalho à minha espera. Alguns daqueles sócios imbecis do escritório devem ter me telefonado durante o único fim de semana da história recente em que deixei de checar minhas mensagens (!). Aposto todas as minhas fichas em Sasuke, o homem que domina minha vida e o advogado mais imbecil de todos os que povoam estes seis andares de escritórios. Digito minha senha, espero.
– Você tem uma nova mensagem de um telefone externo. Recebida hoje, às 7h42... – A gravação me informa. Odeio essa mulher automatizada. Com bastante freqüência ela é portadora de más notícias e faz isso com uma voz alegre. Eles deveriam ajustar essas gravações nos escritórios de advocacia, adotar uma voz mais sóbria... Como a música ameaçadora do filme "Tubarão" ao fundo. – Você tem quatro mensagens novas... – A voz alegremente aterrorizadora 'descarrega'.
O que é desta vez? – Penso enquanto aperto o play.
– Oi, Sakura... Sou eu,... Syaoran... Quis telefonar para você ontem para conversar sobre sábado à noite, mas... Simplesmente não deu. Acho que a gente deveria conversar sobre isso, você não acha? Telefona para mim quando puder. Devo estar por aqui o dia todo. Até logo.
Meu coração sucumbe. Por que ele não adota a boa e velha técnica de evitar e ignorar o assunto: "Nunca mais falar nisso?". Essa era a minha tática de jogo. Não é de se estranhar que eu odeie meu trabalho. Sou uma advogada da área de (1) litígios, detesto confrontação. Pego uma caneta e fico batendo na beirada da mesa. Ouço minha mãe me dizer para parar com isso em algum lugar da minha mente. Largo a caneta e fico olhando para a luz piscando. A mulher exige que uma decisão seja tomada a respeito desta mensagem; posso ouvir outra vez, armazenar ou apagar.
Sobre o que ele quer conversar? O que há para ser dito? Coloco a mensagem para tocar mais uma vez, na expectativa de que as respostas me ocorram com o som da voz dele, com sua cadência, mas Syaoran não deixa transparecer nada. Ouço vezes e mais vezes até que a voz dele começa a soar distorcida, exatamente como uma palavra soa na sua boca quando você a repete o bastante: ovo, ovo, ovo, ovo; esta costumava ser a minha favorita. Eu a repetia várias vezes, até parecer que eu estava dizendo a palavra errada para a substância amarela que eu logo comeria no café da manhã. Okay... Estou saindo do assunto.
Ouço Syaoran uma última vez antes de apagá-la. A voz dele definitivamente soa diferente. Isso faz sentido porque, de certa maneira, ele está diferente. Nós dois estamos. Porque mesmo que eu tente esquecer o que aconteceu, mesmo que Syaoran não mencione mais o incidente depois de um telefonema rápido e sem jeito, nós estaremos para sempre na lista um do outro - Aquela lista que todo mundo tem, seja registrada num caderno espiral secreto ou guardada num canto da memória. Seja curta ou longa. Seja organizada por desempenho, importância ou data. Seja completa com primeiro nome, nome do meio e sobrenome ou meras descrições, como na lista de Meiling: Tomoharu Natsume com músculos deltóides de matar.
Syaoran está para sempre na minha lista. De repente, sem querer, penso em nós dois juntos na cama. Durante aqueles momentos passageiros, ele foi apenas Syaoran; separado de Meiling. Algo que há muito tempo ele não era. Algo que ele não era desde o dia em que apresentei os dois.
Conheci Syaoran durante o meu primeiro ano no curso de Direito na Universidade de Nova York. Diferente da maioria dos alunos que vai direto para o curso de Direito quando não consegue pensar em nada melhor para fazer com históricos escolares brilhantes, Syaoran Li era mais velho, com experiência de vida de verdade. Ele havia trabalhado como analista de mercado na Goldman Sachs, o que superava em muito os meus estágios de 9h00 as 17h00 durante o verão e os trabalhos de escritório, preenchendo formulários e atendendo telefonemas. Syaoran era seguro, relaxado e tão bonito que era difícil parar de olhar para ele. Eu estava certa de que se transformaria no Takashi Yamazaki e no Eriol Hiiragizawa do curso de Direito. Dois caras brilhantes, sem dúvida.
Como era de se esperar, estávamos apenas na nossa primeira semana de aula quando começou um zunzunzum a respeito dele; as mulheres especulavam sobre seu estado civil, notando que seu dedo anelar esquerdo não tinha nenhum adorno ou, por outro lado, preocupando-se que ele fosse bem vestido e bonito demais para ser heterossexual. Mas descartei Syaoran de cara, convencendo a mim mesma de que sua aparente perfeição era entediante. Uma postura que foi até melhor para mim, porque também sabia que ele não era para o meu 'bico'. – Odeio essa expressão e a presunção de que as pessoas escolhem seus parceiros baseadas tão fortemente na aparência, mas é difícil negar esse princípio quando você dá uma olhada em volta; num casal, os dois parceiros geralmente se caracterizam por um poder de atração semelhante e, quando isso não acontece, salta aos olhos. – Além do mais, eu não estava tomando um empréstimo de trinta mil dólares por ano só para arranjar um namorado.
E, para falar a verdade, provavelmente teria mesmo passado três anos sem falar com ele, se por acaso não tivéssemos acabado sentando perto um do outro na aula de Responsabilidade Civil, uma aula com lugares marcados, ministrada pelo sardônico professor Terada. Apesar de muitos professores na Universidade de Nova York usarem o método socrático, apenas Terada o utilizava como uma ferramenta para humilhar e torturar seus alunos. Syaoran e eu nos unimos pelo ódio que sentíamos por nosso cruel professor. Enquanto eu tinha um medo irracional de Terada, a reação do Syaoran era mais de repugnância.
– Que idiota! - Resmungava ele depois da aula, geralmente depois de Terada ter levado algum colega às lágrimas. - Eu adoraria tirar esse sorrisinho afetado da cara pedante dele.
Aos poucos, nossas lamentações se transformaram em conversas mais demoradas na sala dos alunos ou durante passeios pelo parque. Começamos a estudar juntos, uma hora antes da aula para nos prepararmos para o inevitável: o dia em que Terada se dirigiria a nós. Eu tinha pavor de que chegasse a minha vez, porque sabia que seria um massacre, entretanto no íntimo não via a hora de Syaoran ser chamado. Terada ia atrás dos fracos e daqueles que se intimidavam e Syaoran não se encaixava em nenhuma dessas duas categorias. Tinha certeza de que ele não se renderia sem lutar.
Ainda me lembro muito bem, Terada de pé, atrás do pódio, examinando o mapa da turma, – Um esquema com nossos rostos recortados do livro do primeiro ano – praticamente salivando ao escolher sua presa. Ele espiou por sobre os óculos pequenos e arredondados – Daqueles do tipo pode ser chamado de (2) pincenê – na direção dos alunos em geral, e disse: – Senhor Lin.
– É Li - Syaoran disse, sem hesitar.
Perdi o fôlego no agora; ninguém corrigia Terada. Agora Syaoran ia se dar mal!
– Bem, perdão, senhor Li. – Terada disse, com uma pequena reverência fingida. – Palsgraf versus companhia ferroviária de Long Island.
Calmo, Syaoran não se mexeu na cadeira e manteve o livro fechado, enquanto o resto da classe nervosamente folheava o material em busca do caso que havíamos sido instruídos a ler na noite anterior.
O caso envolvia um acidente ferroviário. Enquanto corria para entrar num trem, um funcionário da ferrovia derrubou um pacote de dinamite que estava na mão de um passageiro, causando ferimentos em outro passageiro, a senhora Palsgraf. O juiz Cardozo, como na maior parte das decisões precedentes, sustentou que a senhora Palsgraf não era uma vítima previsível e, como tal, não poderia ser indenizada pela companhia ferroviária. Talvez os funcionários da companhia pudessem ter previsto o dano para a pessoa que portava o pacote, a Corte explicou, mas não o dano para a senhora Palsgraf.
– O senhor acha que a vítima tem direito a ser indenizada? – Perguntou Terada para Syaoran.
Syaoran não disse nada. Por uma fração de segundo fiquei em pânico imaginando que ele tivesse paralisado, como outros antes dele. Diga não, pensei, mandando para ele ondas cerebrais intensas. Siga a mesma linha das sentenças anteriores. Mas quando olhei para sua expressão e para o modo como seus braços estavam cruzados sobre o peito, percebi que estava apenas sem pressa, num contraste marcante com o modo como a maioria dos estudantes de primeiro ano oferecia respostas rápidas e nervosas sem pensar, como se o tempo de reação pudesse compensar a dificuldade de compreensão.
– Em minha opinião? – Indagou Syaoran.
–Estou me dirigindo ao senhor, senhor Li. Portanto, sim, estou pedindo sua opinião.
– Eu diria que sim, a vítima deveria ser indenizada. Concordo com o voto divergente do juiz Andrew.
– Oh, é mesmo? – A voz de Terada era alta e nasalada.
– Sim. É mesmo.
Fiquei surpresa com a resposta dele, já que havia me dito um pouco antes da aula que não sabia que as pessoas já fumavam crack em 1928, porque o juiz Andrew certamente estava drogado quando deu seu voto divergente. Fiquei ainda mais surpresa pelo descarado "é mesmo" atrelado ao final da resposta, como se para atingir Terada. O peito magricela de Terada se expandiu visivelmente.
– Então, você acha que a segurança deveria ter previsto que um inofensivo pacote medindo quarenta centímetros de comprimento, embrulhado em jornal, continha explosivos e causaria danos à vítima?
– Era certamente uma possibilidade.
– Será que ela deveria ter previsto que o pacote causaria dano a qualquer pessoa no mundo? – Perguntou Terada, com um crescente sarcasmo.
– Eu não disse qualquer pessoa no mundo. Eu disse à vítima. Em minha opinião, a senhora Palsgraf estava em zona de perigo.
Terada aproximou-se da nossa fileira todo empertigado e jogou seu jornal sobre o livro fechado de Syaoran. – O senhor se importaria de me devolver o meu jornal?
– Preferiria não fazer isso – Disse Syaoran.
O estado de choque que se instalou na sala era quase palpável. O resto de nós teria simplesmente cooperado e devolvido o jornal, mero objeto de cena no interrogatório de Terada.
– O senhor preferiria não devolver? – Disse Terada erguendo a cabeça.
– Correto. Poderia haver dinamite embrulhada dentro dele.
Metade da sala engoliu em seco, a outra metade teve de fazer força para não rir. Obviamente, Terada tinha alguma carta escondida na manga, alguma forma de reverter os fatos contra Syaoran. No entanto ele não mordeu a isca. Terada estava visivelmente frustrado.
– Bem, vamos supor que o senhor de fato tenha escolhido me devolver o jornal e que o pacote de fato contenha uma banana de dinamite e que de fato cause algum ferimento ao senhor. E então, senhor Li?
– Então eu processaria o senhor e provavelmente ganharia.
– E essa indenização seria consistente com a fundamentação do juiz Fujitaka, que seguia a mesma linha das sentenças anteriores?
– Não, não seria.
– É mesmo? E por que não?
– Porque eu processaria o senhor por delito intencional, e o juiz Fujitaka falava de negligência, não é? - Syaoran levantou a voz para ficar no mesmo tom de Terada. Acho que parei de respirar quando Terada juntou as palmas das mãos e aproximou-as com cuidado contra o peito, como se estivesse rezando.
– Sou eu quem faz as perguntas nesta sala, se o senhor não se importa senhor Li.
Syaoran deu de ombros, como se dissesse que Terada podia fazer como bem entendesse que para ele não fazia diferença.
– Bem, vamos supor que acidentalmente eu tenha deixado cair o jornal sobre a sua mesa e o senhor tenha me devolvido e se machucado. Será que o juiz Fujitaka lhe concederia indenização total?
– É claro.
– E por quê?
Syaoran suspirou para mostrar que o exercício era maçante e aí disse rápida e claramente: – Porque era inteiramente previsível que a dinamite pudesse me causar ferimentos. Sua ação de deixar cair o jornal sobre meu espaço pessoal violou meu interesse protegido por lei. Sua negligência ocasionou um risco aparente aos olhos da vigilância comum.
Consultei as partes destacadas no meu livro. Syaoran estava citando literalmente a opinião do juiz Fujitaka, sem nem ao menos dar uma olhada no livro. A classe inteira estava maravilhada. Ninguém tinha se saído tão bem, ainda mais com Terada tão perto.
– E se a senhorita Myers o processasse? – Terada perguntou, apontando para uma trêmula Karin Myers do outro lado da sala, sua vítima do dia anterior. – Será que ela teria direito à indenização?
– De acordo com o que sustenta Fujitaka ou com o voto divergente de Andrew?
– Do juiz Andrew. Já que é a opinião com a qual o senhor compartilha.
– Sim. É dever de todos evitar atos que coloquem em risco a vida de outras pessoas além do aceitável. – Disse Syaoran, numa outra citação completa do voto divergente.
O interrogatório prosseguiu dessa maneira por quase uma hora, Syaoran distinguindo nuanças em pequenos detalhes dos fatos modificados pelo professor, nunca hesitando, sempre respondendo de forma conclusiva. Por incrível que pareça, quando já havia se passado uma hora completa, Terada disse: – Muito bem, senhor Li.
Era a primeira vez que isso acontecia. Saí da sala exultante. Syaoran havia triunfado por todos nós. A história se espalhou por todas as turmas de primeiro ano, rendendo a ele mais pontos com as garotas, que há muito tempo já tinham decidido que ele estava totalmente disponível. Contei a história para Meiling também. Ela havia se mudado para Nova York na mesma época que eu, só que sob circunstâncias completamente diferentes. Eu estava lá para me tornar advogada; ela veio sem trabalho, sem plano e sem dinheiro suficiente. Deixei que ela dormisse num futon no meu dormitório até ela encontrar algumas garotas para dividir um apartamento – três aeromoças da American Airlines em busca de alguém para espremer um quarto corpo no já tão dividido conjugado delas.
Meiling pediu dinheiro emprestado aos pais para pagar o aluguel enquanto procurava um trabalho e finalmente se estabeleceu como garçonete no Monkey Bar. Pela primeira vez na história da nossa amizade eu estava mais feliz com a minha vida em comparação com a dela. Eu era tão pobre quanto ela, mas pelo menos tinha um plano de carreira. As perspectivas de Meiling não eram tão boas, já que a sua média final na Universidade de Indiana não era das melhores.
– Você é tão sortuda! – Meiling resmungava enquanto eu tentava estudar.
Não, sorte é o que você tem, pensava eu. Sorte é comprar um bilhete de loteria e ficar rica. Nada na minha vida tem a ver com sorte. Tudo é uma questão de trabalho duro, uma luta ladeira acima. Mas, é claro, eu nunca disse isso. Disse apenas que as coisas logo, logo iriam mudar para ela.
E como era de se esperar, mudaram. Mais ou menos duas semanas depois, um homem entrou no Monkey Bar, pediu um whisky e começou a bater papo com Meiling. Quando acabou o seu drinque, já tinha prometido a ela um trabalho numa das melhores empresas de Relações Públicas de Nova York. Ele lhe disse para aparecer para uma entrevista, mas que ele tomaria providências para que ela conseguisse o cargo. Meiling pegou o cartão dele, me pediu para revisar o currículo dela, foi para a entrevista e recebeu uma oferta na hora. O salário inicial era de 7 mil dólares. Mais uma verba de representação. Praticamente o que eu conseguiria ganhar se me desse bem e arranjasse um trabalho num escritório de Nova York.
Então, enquanto eu suava a camisa e acumulava dívidas, Meiling começava sua glamorosa carreira como RP. Planejava festas, promovia as últimas tendências da moda da estação, ganhava um monte de coisas de graça e saía com uma série de homens bonitos. Em sete meses, deixou as aeromoças comendo poeira e foi morar com uma colega de trabalho chamada Rika, uma garota esnobe e bem relacionada de Greenwich.
Meiling tentou me incluir em sua vida acelerada, embora eu raramente tivesse tempo de comparecer aos eventos, festas ou encontros às cegas que ela armava para mim com caras que jurava serem totalmente gatos, mas que eu sabia que eram apenas as sobras dela. O que me traz de volta ao Syaoran. Falei muito bem dele para Meiling e Rika, disse a elas como ele era incrível, inteligente, bonito, engraçado. Em retrospecto, não sei bem por que fiz isso. Talvez porque fosse verdade. Porém talvez porque tivesse um pouco de ciúme da vida glamorosa que elas levavam e quisesse apimentar um pouco a minha. Syaoran era o que havia de melhor no meu arsenal.
– Então por que você não gosta dele? – Perguntava Meiling.
– Ele não faz o meu tipo. – Dizia eu. – Somos apenas amigos.
O que era verdade. Claro, houve momentos em que senti um lampejo de interesse ou o coração disparar um pouco quando sentava perto dele. Mas me mantive alerta para não me apaixonar, sempre me lembrando que caras como Syaoran saíam apenas com garotas como Meiling. Foi só no semestre seguinte que os dois se conheceram. Um grupo da faculdade, incluindo Syaoran, planejou uma saída de última hora numa quinta-feira à noite. Há muitas semanas, Meiling vinha me pedindo para conhecer Syaoran, então telefonei a ela e disse que era para ela estar no Red Lion às 20h00. Ela apareceu, mas Syaoran não. Pude perceber que Meiling encarou a saída como um esforço em vão, reclamando que o Red Lion não tinha nada a ver com ela, que ela já tinha passado da época desses bares encardidos, cheios de jovens universitários, – Cujos lugares que ela freqüentava até alguns meses antes. Que a banda que estava tocando era uma droga – e será que nós poderíamos, por favor, ir para algum lugar mais agradável, onde as pessoas valorizassem uma aparência bem cuidada?
Naquele exato momento, Syaoran apareceu caminhando bar adentro com um casaco preto de couro e uma bela suéter bege de cashmere. Ele veio em minha direção e me deu um beijo no rosto, coisa com a qual eu ainda não estava acostumada; o pessoal do Meio-Oeste não cumprimenta deste jeito. Apresentei-o a Meiling e ela apertou o botão do charme, dando risadinhas, brincando com o cabelo e balançando a cabeça enfaticamente todas as vezes que ele dizia alguma coisa. Syaoran foi agradável com ela, mas não pareceu interessado demais e, num dado momento, enquanto ela despejava uma lista de nomes de pessoas da Goldman, – Você conhece esse ou aquele cara? – Syaoran de fato pareceu estar fazendo força para não bocejar. – ele foi embora antes da gente, dando tchau para o grupo e dizendo para Meiling que tinha sido legal conhecê-la.
No caminho de volta para o meu quarto perguntei o que ela tinha achado dele.
– Ele é bonitinho. – Disse, oferecendo o mínimo de aprovação. Sua resposta indiferente me irritou. Ela não podia elogiá-lo porque ele não havia ficado deslumbrado por ela o suficiente. Meiling esperava ser a pessoa a ser conquistada. E era isso que eu tinha passado a esperar também.
No dia seguinte, quando Syaoran e eu tomamos um café, imaginei que ele fosse mencionar Meiling. Tinha certeza de que era isso o que ele faria, mas não fez. Uma pequena – Está bem, uma grande – parte de mim gostou de contar a Meiling que o nome dela não tinha sido mencionado. Pela primeira vez alguém não se desdobrava para estar com ela. Eu deveria ter adivinhado. Uma semana depois, do nada, Syaoran me perguntou qual era a da minha amiga.
– Que amiga? – Perguntei me fazendo de boba.
– Você sabe. Aquela morena do Red Lion.
– Oh, Meiling. – Respondi. Depois fui direto ao assunto. – Você quer o telefone dela?
– Se ela for solteira.
Dei as notícias para ela naquela noite. Ela sorriu fazendo charme:
– Ele é bem fofo! Vou sair com ele.
Syaoran levou mais duas semanas para telefonar a ela. Se ele esperou de propósito, a estratégia fez maravilhas. Ela estava num frenesi quando ele a levou ao Union Square Café. O encontro obviamente transcorreu bem, porque no dia seguinte eles foram tomar um brunch no Village. Logo depois disso, Meiling e Syaoran estavam ambos fora do mercado de relacionamento.
No começo o romance deles foi turbulento. Eu sempre soube que Meiling adorava brigar com os namorados, – Não tinha graça, a não ser que envolvesse muito drama – mas eu via Syaoran como uma criatura racional e calma, superior a esse tipo de coisa. Talvez ele tivesse sido assim com outras garotas, mas Meiling o havia sugado para o seu mundo de caos e altas emoções. Ela achava um número de telefone num dos seus cadernos de faculdade, – Ela era uma bisbilhoteira assumida – fazia a pesquisa, chegava até uma antiga namorada e, se recusava a falar com ele. Um dia ele fora para a aula de Responsabilidade Civil com uma expressão meio acanhada, com um corte na testa, bem acima do olho esquerdo. Meiling tinha lançado um cabide de arame nele num acesso de ciúme.
O contrário também acontecia. Nós saíamos juntos e Meiling ficava de papo com outro cara no bar. Eu observava enquanto Syaoran dava umas olhadas furtivas na direção deles, até que não conseguia mais suportar. Ia até lá para buscá-la, parecendo furioso, mas sem perder a compostura, e eu a escutava justificando seus flertes por conta de ligações sem muita importância com o cara: – O que eu quero dizer é que estava apenas conversando sobre os nossos irmãos, e como eles eram da mesma fraternidade estudantil. Meu Deus, Syaoran! Você não precisa reagir dessa forma!
Mas finalmente o relacionamento deles se estabilizou, as brigas se tornaram menos intensas e menos freqüentes e ela se mudou para o apartamento dele. Então, no inverno passado, Syaoran a pediu em casamento. Eles marcaram a data para um fim de semana em setembro e ela me escolheu como madrinha.
Eu o conheci antes, agora digo para mim mesma. Não é mais (3) inexorável do que a defesa no caso Palsgraf, mas eu me agarro nisso por uns momentos. Imagino minha jurada compreensiva se inclinando para frente enquanto absorve essa informação. Ela até mesmo levanta a questão durante as deliberações.
– Se não fosse pela Sakura, Syaoran e Meiling nunca teriam se encontrado. Portanto, de certa forma, Sakura merece um tempo com ele.
Hum, concordo. Eu mereço! – Penso feliz da vida, com uma expressão vitoriosa no rosto.
Os outros jurados olham para ela incrédulos, e a Terninho Channel, fala para ela não ser ridícula. Que isso não tem nada a ver com nada.
– De fato, pode até ser que funcione ao contrário. – Retruca Terninho Channel. – Sakura teve sua chance de estar com Syaoran, mas esta oportunidade já passou há muito tempo. E agora ela é a madrinha. A madrinha! Trata-se da traição máxima!
Oh, que cruel eu fui. – Penso, agora espantada e com uma expressão de derrota máxima (!).
Trabalho até tarde naquela noite, adiando retornar a ligação de Syaoran. Considero até mesmo esperar até amanhã de manhã, até o meio da semana, ou nem telefonar. Só que quanto mais eu esperar, mais estranho será quando inevitavelmente me encontrar com ele. Então eu me forço a sentar e ligar. Torço para que caia na secretária eletrônica. – Covarde! – Uma voz grita na minha mente. – Sou, e daí? – Retruco em voz alta para o meu subconsciente, o promotor nas minhas "Horas Perigosas".
São 22h30. Com o mínimo de sorte ele já vai ter ido embora, vai estar em casa ao lado da Meiling. Deus queira. Ele há de querer.
– Syaoran Li. – Responde ele, o tom é todo profissional, Syaoran está de volta à Goldman Sachs, tendo sabiamente optado por trilhar o caminho dos bancos em vez do caminho dos escritórios de advocacia. O trabalho é mais interessante e o dinheiro é melhor.
– Oi. – Minha voz quase nem saiu. E agora, Deus? – Pergunto-me, silenciosamente, com certa raiva Dele.
– Sakura! – Ele parece genuinamente feliz que eu tenha telefonado, embora um pouco nervoso, a voz meio alta demais. – Obrigado por ter ligado. Estava começando a achar que você não fosse telefonar.
E não ia!
– Eu ia. É só que... Estava muito ocupada... Um dia lou...louco. – Gaguejo. Minha boca está completamente seca.
– É, aqui também está uma loucura. Segunda-feira típica. – Diz ele, soando um pouco mais relaxado.
– É...
Há uma pausa incômoda. Bem, pelo menos eu a acho incômoda. Será que ele espera que eu mencione o incidente? Tomara que não. Ainda não estou pronta para falar sobre isso. Na verdade, acho que nunca estarei.
– Então? Como é que você está se sentindo? – A voz dele está mais baixa.
– Como estou me sentindo? – Meu rosto está pegando fogo, estou suando, não consigo afastar a idéia de vomitar o sushi que comi no jantar. – Respondo mentalmente.
– Quer dizer, o que você acha do que aconteceu sábado? – A voz dele fica ainda mais baixa, quase um sussurro. Talvez ele esteja apenas sendo discreto, certificando-se de que ninguém no escritório o escuta, mas o tom é de intimidade.
– Não sei o que você está me perguntando... – Faço-me de ingênua por alguns instantes.
– Você está se sentindo culpada?
– É claro que estou me sentindo culpada. Você não? – Olho pela janela para as luzes de Manhattan, na direção do seu escritório no Centro.
– Bem... É, eu me sinto. - Ele diz com sinceridade. – Obviamente não deveria ter acontecido. Não há dúvidas a esse respeito. Foi errado... E eu não quero que você pense que, você sabe, que isso é uma coisa que faço sempre. Eu nunca tinha traído a Meiling antes. Nunca! Você acredita em mim, não é?
Digo a ele que é claro que sim. Que eu acredito nele. Outro silêncio.
– Pois é. Para mim essa foi a primeira vez. – Diz ele. Mais silêncio. Imagino Syaoran com os pés em cima da mesa, o colarinho desabotoado, a gravata jogada sobre o ombro. Ele fica bem de terno. Quer dizer, ele fica bem com qualquer coisa. E sem nada também. Ahhh! Meu Deus... O que eu acabei de pensar? Não estou controlando meuspensamentos, e agora?
– Ahã – Digo, afirmando algo que não sei se é verdade, porém vou dar um crédito de confiança a ele, afinal, apesar de tudo, ele é meu amigo. Estou segurando o telefone com tanta força que os meus dedos doem. Troco de mão e enxugo a mão suada na saia.
– Eu me sinto muito mal que você seja amiga tão antiga da Meiling, e essa coisa que aconteceu entre nós, dói... Deixar você numa posição pavorosa... – Ele pigarreia e continua. – Mas, ao mesmo tempo, não sei...
– O que você não sabe? – Pergunto, contra minha decisão sensata de que é melhor colocar um ponto final na conversa, desligar o telefone, usar meu instinto e fugir.
É! Fugir! Sou uma covarde. Lembra?
– Não sei. Eu só... Bem, de alguma maneira... Bem, falando objetivamente, sei que o que fiz foi muito errado. Mas simplesmente não me sinto culpado. Isso não é horrível? Você acha que sou pior por causa disso?
Não tenho a menor idéia de como responder a essa pergunta. Sim parece cruel e crítico; não pode dar bandeira. Encontro um meio-termo seguro.
– Não tenho como julgar ninguém. Tenho? Eu estava lá... Eu também fiz.
– Eu sei, Sakura. Mas a culpa foi minha.
Penso no elevador, a sensação do cabelo dele entre os meus dedos.
– Nós dois estávamos errados... Nós dois estávamos bêbados. Devem ter sido aquelas doses... Simplesmente me pegaram de jeito e eu não tinha comido muito naquele dia. – Fui falando na esperança de que a conversa acabasse. Só que Syaoran me interrompe.
– Eu não estava tão bêbado assim. – Diz ele com todas as letras, quase desafiador.
Você não estava tão bêbado? Como se tivesse lido meus pensamentos, ele continuou.
– Quer dizer, é verdade, tomei alguns drinques, estava mais desinibido, mas sabia o que estava fazendo e, de certa forma, acho que quis que aquilo acontecesse... Bem, suponho que essa seja uma declaração um tanto óbvia... Mas o que eu quero dizer é que conscientemente eu quis que aquilo acontecesse. Não que tivesse sido premeditado. Mas já tinha passado pela minha cabeça várias vezes antes...
Várias vezes antes? Quando? Na faculdade? Antes ou depois de você conhecer Meiling? De repente, lembro de uma ocasião quando Syaoran e eu estávamos estudando para as nossas provas de Responsabilidade Civil na biblioteca. Era tarde e nós estávamos meio grogues, quase delirantes por falta de sono e excesso de cafeína. Syaoran começou a imitar Terada, citando certas frases preferidas dele, e eu ri tanto que cheguei a chorar. Quando finalmente me recompus, ele se inclinou sobre a mesa estreita e enxugou uma lágrima do meu rosto com seu polegar. Exatamente como numa cena de filme, com a diferença que nos filmes as lágrimas geralmente são de tristeza. Ficamos olhando fixamente um para o outro.
Fui a primeira a desviar o olhar, voltando para o livro. As palavras pulando por toda a página. Não pude, por mais que me esforçasse me concentrar em negligência ou causa imediata, apenas na sensação de seu dedo em meu rosto. Mais tarde, Syaoran se ofereceu para me acompanhar de volta ao meu dormitório. Educadamente disse que não precisava, que estaria bem sozinha. Naquela noite, quando começava a dormir, decidi que tinha apenas imaginado sua intenção, que Syaoran nunca me consideraria mais do que uma amiga. Ele estava apenas sendo gentil. Ainda assim, às vezes imagino o que teria acontecido se eu não tivesse ficado tão na defensiva. Se eu tivesse dito sim à oferta dele naquela noite. Neste momento estou pensando intensamente nisso.
– É claro que estou bem consciente de que isso nunca mais vai poder acontecer! – Diz ele com convicção. – Certo? – Essa última palavra é sincera, ele está quase sem defesas.
– Certo. Nunca mais, em tempo algum. – Digo e na mesma hora me arrependendo da minha juvenil escolha de palavras. – Foi um erro.
Erro. Ele errou. Eu errei. Não é? – Reflito, confusa demais para achar uma resposta conclusiva naquela hora da noite.
– Mas não me arrependo. Eu deveria, mas simplesmente não me arrependo. – Diz ele, parecendo-me convicto.
Isso é tão estranho, penso, mas não digo nada. Apenas fico parada, esperando que ele fale novamente.
– Enfim, Sakura, sinto muito por ter colocado você nesta posição. Mas achei que deveria saber como me sinto. – Syaoran conclui e depois ri nervosamente.
Digo tudo bem. Agora eu sei, e acho que devemos seguir em frente e deixar isso para trás e todas essas coisas que achei que Syaoran tinha ligado para dizer. Nós nos despedimos, então desligo o telefone e fico olhando pela janela, atordoada. A ligação que deveria representar um ponto final apenas me trouxe mais desassossego. E uma minúscula inquietação dentro de mim, uma inquietação que decido sufocar.
Levanto, apago a luz do escritório e desço até o metrô, tentando tirar Syaoran da minha cabeça. Mas enquanto espero na plataforma, volto a me lembrar do nosso beijo no elevador. As intensas imagens vão aparecendo dentro de mim, sem controle. A sensação do cabelo dele. E a forma como ele dormiu na minha cama, coberto só em parte por meus lençóis. Essas são as imagens das quais eu me lembro mais. São como fotografias de ex-namorados: você quer desesperadamente jogar fora, mas não tem coragem de se livrar delas. Então, em vez de jogar fora, guarda numa caixa de sapato velha, no fundo do armário, e decide que não há mal nenhum em guardá-las somente para o caso de querer abrir a caixa e lembrar alguma coisa dos bons tempos.
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CONTINUA!
Dicionário:
(1) litígios: Processos; demanda judicial.
(2) pincenê: Óculos sem hastes, presos ao nariz por uma mola.
(3) inexorável: Que não cede; que não move à compaixão; implacável, austero.
N/A: Desculpas a demora, mais eu estou sem computador. Minha mãe nem sabe quando irá arrumar ele e pelo o que o técnico disse parece que queimaram algumas peças. Então nem faço idéia de quando irei consegui dá um jeito nele. Chegando de dramas a única que me deixa feliz é: Minhas aulas NÃO voltaram! Sim, eu como qualquer pessoa normal, já era para está estudando. Só que ainda não sei em que colégio eu irei estudar. Então em por enquanto, fico nas minhas tão sonhadas férias!
Bem, sem mais de blás, blás. Desculpas de novo a demora. Quem sabe eu não posto mais rápido desta vez? Quem sabe...
N/E: Olá a todos! Estou me sentindo honrada em editar uma história desta categoria. AMO esse universo que esta Fic me mostrou. Essa coisa de trair a melhor amiga com o noivo da mesma e ser a madrinha é sensacional! Uma ênfase pro"sensacional" e "madrinha!" Aeee! (fazendo festa). Muito bom! E esses elementos só tornam a estória ainda mais interessante, cativante. Não é? Este capítulo me mostrou outra coisa que amo-adoro: o mundo do tribunal! Sempre gostei; ainda mais dos juízes poderosos, dos advogados lindões, dos promotores gostosões, dos réus charmosos e inocentes! ... AÍ! (olho brilha!) Me dá até um frenesi! xD Pois é, mas também sempre aprovei e aprovo a justiça! Se não tivesse tanta certeza da faculdade de Letras, eu cursaria Direito. Agora para não abusar muito da simpática e querida Saakurinha, vou ser objetiva (limpando a garganta): AHHAHAHHAHAHAHAHAHA BEM FEITO! HAHAHAHAHA É CORNA! CHIFRUDA! QUEM MANDA SER TÃO PRESUNÇOSA! TÃO CHEIA DE SI! AHAHAHAHA FOI CORNEADA PELA MELHOR AMIGA! NAS SUAS COSTAS! VÊ SE ABAIXA PARA NÃO BATER O CRIFRE, HEIN! DOI, NÉ? HAHAHAHA! Pronto. Extravasei! Perdão a todos, mas eu estava precisando disso! hehe Estou adorando ver a Sakura desse jeito. Vc a encaixou muito bem nessa estória, Saakurinha-chan! Ela e a Meilyn. Já o Syaoran nem se fala. ELE É PERFEITO PARA ESSE PAPEL! Parabéns por ter tido esta ideia de adaptar elesnessa trama maravilhosa e super inusitada. Tô super empolgada com ela.
E querem saber a minha opinião? Justiça seja feita. A Sakura viu ele primeiro! Se a própria não pegou ele, o próprio destino se encarregou disto.
Fim de papo! (por hora)
P.S. básico: Quero deixar claro uma coisa, pq eu sempre demonstro que adoro essa chinesinha: Eu gosto da Meilyn, mas nestas circunstâncias eu acho merecido. Não que eu a odeie, não é isso, porém as atitudes dela levaram-na a tudo isso. O que eu posso fazer, gente... ? Chorar por ela... vou rir! E MUITO! Pronto. Falei! XD
Tchauzinho, gente. O/
Beijocas e abraços.
