As crônicas de Sesshoumaru

Por Amanda Catarina

Inuyasha e personagens pertencem à Rumiko Takahashi.

Nota: Sentenças entre aspas indicam pensamentos das personagens.

Capítulo 3: Prioridades

Rin resmungou no braço dele, fazendo-o abaixar os olhos em sua direção, irrequieto com a possibilidade de que ela estivesse sentindo muita dor.

– Bando de covardes - murmurou ele. – Atacando crianças... que deplorável.

Sobrevoavam o vilarejo que a youkai lobo havia mencionado, no entanto, Sesshoumaru estava com pouca disposição de descer até lá, afinal detestava ter que lidar com humanos.

– O senhor pretende mesmo parar nesse vilarejo por causa da Rin, senhor Sesshoumaru? - perguntou Jaken.

Antes que ele respondesse, a pequena se remexeu e logo despertou.

– Hã? Senhor Sesshoumaru? - exclamou ela, surpresa por se achar recostada no braço dele e não demorou a ficar corada.

– Como se sente, Rin? - perguntou o youkai, em seu jeito impassível.

Endireitando-se, com alguma ajuda dele, ela deu um sorriso envergonhado e falou:

– Estou bem. Só não lembro do que aconteceu.

– Fomos atacados e... - contava Jaken, mas Sesshoumaru o interrompeu.

– Se não lembra, é melhor assim. Já não importa.

Enquanto Jaken se retraiu todo, Rin assentiu com a cabeça. Seguiram em silêncio então por mais algum tempo, até que Sesshoumaru fez Arurun pousar num pequeno espaço em meio às árvores da floresta na divisa com aquele vilarejo. Começava a anoitecer.

Como se achavam ainda bem debilitados, além de exaustos, Rin e Jaken logo adormeceram, recostados em Arurun. Aproveitando o silêncio noturno, Sesshoumaru, próximo a eles, se pôs a refletir em tudo que acontecera nos últimos dias. Naturalmente, ele se sentia insatisfeito com seu atual nível de poder, uma vez que, em menos de uma semana, se viu em situações de risco por duas vezes.

– Os fragmentos da Jóia de Quatro Almas é que tornam Naraku tão poderoso - falou ele, bem baixo. – Basta que eu o elimine e me aposse desses fragmentos.

Algum tempo se passou, durante o qual ele ponderava se este seria o melhor meio de aumentar seu poder, mas eis que, num gesto meio involuntário, acabou virando seu rosto para Rin.

"Ela é um fardo para mim?" - ele se perguntou em pensamento.

As lembranças do ataque de Kagura voltaram à sua mente então. Rin desmaiada e rodeada por zumbis, Jaken desesperado e ele incapacitado de socorrê-los. O que teria acontecido se a tal Yeda não tivesse aparecido?

– Claro que eu teria evitado o pior - afirmou a si mesmo, pois a incerteza realmente o incomodou.

Sem que conseguisse evitar, diversas cenas começaram a voltar a sua memória numa sucessão repetitiva. Rin caída, com o rostinho sujo de terra, machucada. E se ela tivesse morrido?

– Eu poderia usar Tenseiga para revivê-la de novo.

Poderia? Na verdade, ele não tinha certeza de que sua espada pudesse reviver um ser humano mais de uma vez. E, obviamente, não faria sentido tirar essa dúvida ao custo da vida de Rin.

De repente, percebeu que parecia bem mais preocupado com o bem estar daquela menininha do que com seu próprio poder. Por certo, deve ter sido desconcertante a ele se acercar disso.

"Ora, ela não passa de uma humana. Como é criança não sabe ainda o que quer da vida, mas, cedo ou tarde, voltará a viver com os de sua raça."

Uma suposição lógica, sem dúvida, porém sua razão e seu coração travaram um verdadeiro duelo quando a ideia de abandonar Rin à própria sorte apenas perpassou por sua cabeça.

"Bobagem... Vivendo entre os humanos Rin apenas sofreu. É claro que comigo ela está mais segura do que com aqueles miseráveis."

– E é só uma questão de tempo até que eu esmague meus inimigos - ele falou um pouco mais alto que das outras vezes e isso acabou acordando Jaken.

Por um instante, o pequenino verde pensou em se manifestar, mas estava tão extenuado, que achou mais simples fingir que ainda dormia. Assim, bem quieto, ele também gastou algum tempo pensando nas coisas pelas quais vinham passando.

Lembrou que contra a youkai lobo viveram um apuro, mas que com Kagura foi muito pior; achou que iria morrer. Recordava perfeitamente do quanto Rin apertou seu braço, tão assustada e do pavor nos olhinhos graúdos dela. Foi horrível.

"Será que o senhor Sesshoumaru pode mesmo com esses inimigos?" - pensou ele.

Porém Naraku e seus comparsas que eram o problema, pois a youkai lobo já havia declarado que não os queria como inimigos e provou isso ao ajudá-los. Afastando então tudo aquilo de sua cabecinha, ele pensou no que acabara de ouvir do youkai branco e se tranquilizou.

"Sim, o senhor Sesshoumaru é invencível!"

Jaken acreditava nisso com todo seu ser e sabia que enquanto estivesse ao lado de seu senhor, não precisava temer nada e nem ninguém. Assim, reconfortado, ele logo voltou a dormir.

ooo ooo ooo

Na manhã seguinte, Rin e Jaken estavam brincando num riacho, ao mesmo tempo em que tentavam apanhar alguns peixes, enquanto Sesshoumaru, assentado numa rocha perto deles, fitava o céu claro. Achavam-se ainda nos arredores do mesmo vilarejo.

Uma rajada de vento soprou, fazendo Rin desviar o olhar para o youkai branco. Ela ficou a observá-lo, admirada, pois os cabelos tão longos dele estavam sendo levemente agitados pelo vento, então pensou consigo:

"Será que é porque o senhor Sesshoumaru é um youkai que ele tem os cabelos brancos mas não parece velho? Com os humanos não é assim" -, e apoiou o queixo numa das mãos, muito intrigada com aquilo.

– Senhor Jaken? - cochichou ela.

– O que é? - rebateu ele em seu jeitinho impaciente.

– Por que o cabelo do senhor Sesshoumaru é branco?

– Não é branco, Rin! - exclamou aborrecido. – É da cor da lua. Prateado - isso tudo ele falou em tom de cochicho também.

– Ah... - disse ela, com ares de descobrimento, e em pensamento acrescentou: "Mas a lua não é branca?"

De costas aos dois, Sesshoumaru, que tinha os escutado, riu discretamente. Depois de passar quase a noite inteira refletindo, ele se convenceu de que não precisava dos fragmentos da Jóia de Quatro Almas. Afinal, este seria um meio pouco apropriado a alguém como ele, que almejava evoluir em força através do próprio esforço.

Ademais, em seu confronto contra a youkai lobo, aprendera que não podia subestimar os inimigos, por mais inofensivos que aparentassem, pois youkais de nível elevado eram capazes de ocultar seu verdadeiro poder. Uma vez ciente disso, não cairia no mesmo erro.

Do empate contra Kagura, entendeu que a vantagem dela foi ter o distraído, ameaçando Rin e Jaken. Bastava se precaver para deixá-los sempre longe das lutas que também aquela estratégia não mais o surpreenderia.

– Senhor Sesshoumaru, para onde iremos agora? - indagou Jaken.

Após um breve silêncio, ainda de costas, ele respondeu:

– Atrás de Naraku - e em pensamento completou: "Os fragmentos não me importam, mas quero a cabeça daquele miserável."

– Mas como? Ele esconde sua presença e não temos a menor ideia de onde esteja agora!

– Por onde passa aquele miserável deixa rastros de destruição, basta seguirmos isso.

Assim, permaneceram naquele lugar pelo tempo de uma refeição e, no início da tarde, partiram sem rumo certo, porém a procura de Naraku.

ooo ooo ooo

Há cerca de seis dias seguiam em sua indefinida jornada. Cruzando uma floresta de árvores grandiosas, Jaken e Rin discutiam banalidades, ela montada em Arurun, ele seguindo a pé a seu lado. Sesshoumaru caminhava um pouco mais adiante.

Eis então que o youkai branco parou, farejando alguma coisa. Os dois pequenos silenciaram, olhando intrigados em sua direção.

– Sinto o cheiro daquela youkai lobo. E não apenas o dela, o de Inuyasha também.

Saindo do meio da vegetação, Sesshoumaru apareceu numa larga estrada de terra.

– Como é? - gritou Jaken, vindo correndo até seu mestre.

– Houve uma luta neste lugar - falou o youkai branco e, se abaixando rente ao chão, analisou com bastante critério os rastros que ali haviam ficado. – Essas marcas lembram a Ferida do Vento, porém não sinto a energia da Tessaiga.

Acompanhando atentamente os gestos dele, Jaken perguntou:

– Será que a youkai lobo também atacou o Inuyasha?

– Pode até ter sido...

Endireitando-se, Sesshoumaru deu alguns passos à frente e continuou:

– ...mas, daqui pra frente, os cheiros deles se misturam. Isso sugere que seguiram na mesma direção depois - concluiu ele.

Naquele momento, Rin também se aproximou da estrada, largando Arurun abandonado, porém ela logo se afastou um pouco, correndo para pegar algo que avistou mais adiante.

Jaken pensava em repreendê-la, mas como ela já corria de volta, ele apenas ergueu o rosto a Sesshoumaru quando este tornou a falar:

– É estranho... Houve com certeza um choque de energias aqui, mas apenas a energia da youkai lobo continua presente.

– Olha o que eu achei, senhor Sesshoumaru - falou Rin, entregando um pedaço de pano a ele.

– Ó! Mas isso não seria um pedaço daquela veste de babuíno do Naraku? - observou Jaken.

– Por certo... - concordou o youkai branco e silenciou por alguns instantes, pensativo. – Mas então tudo se encaixa. Essa estranha sensação que estou captando é um resquício da energia sinistra de Naraku.

Rin e Jaken apenas o encararam, ele com um certo temor, ela entendendo quase nada.

– Se é assim, vejamos até onde este rastro irá nos levar - anunciou Sesshoumaru.

Dessa feita, tomaram uma direção completamente diferente daquela em que seguiam.

ooo ooo ooo

Após uma semana, Sesshoumaru e seus protegidos chegavam aos arredores do vilarejo em que Inuyasha e seus amigos normalmente ficavam, por coincidência, no mesmo dia em que Naraku também apareceu neste lugar.

Ordenando a Rin e Jaken que se mantivessem bem escondidos, o youkai branco declarou que iria ao encontro de seu adversário. Mas, contrariando a ordem, Jaken insistiu tanto em querer seguí-lo que ele acabou consentindo, mas o advertiu dizendo:

– Cuide de não me atrapalhar dessa vez, Jaken.

– Sim, senhor Sesshoumaru!

Em pouco tempo os dois chegaram à divisa da floresta com o vilarejo e puderam avistar Naraku, em sua forma youkai, diante de Inuyasha e seus amigos. A youkai lobo também estava com eles.

"Então ela se aliou ao Inuyasha." - deduziu mentalmente Sesshoumaru e reparou que Naraku manifestava uma energia sinistra terrível e maciça; foi provavelmente por essa razão que nenhum deles pareceu se acercar de sua presença. Ele preferiu então acompanhar a contenda de onde estava, entre alguns arbustos.

Desse modo, viu Naraku disparar dardos, certamente envenenados, contra Inuyasha e a humana exterminadora de youkais amiga dele e isso os derrubou. Aguçando a audição, escutou Naraku chantagear a youkai lobo, dizendo que anularia o efeito do veneno se ela seguisse com ele.

Num primeiro momento, Sesshoumaru estranhou a exigência de Naraku, mas logo deduziu que ele só poderia estar querendo absorver o poder de Yeda.

– É assim, roubando as habilidades de outros youkais, que esse covarde se fortalece - falou ele ao servo, recebendo do mesmo um balançar de cabeça em concordância.

O youkai branco observou então a youkai lobo sendo envolvida pelos tentáculos de Naraku, só a cabeça ficou livre. Naraku atendeu o pedido dela quanto ao veneno e depois se ocupou em drenar sua energia até que ela perdesse os sentidos. Ao vê-lo então voltar a forma humanóide e tomar a youkai nos braços, Sesshoumaru ficou um tanto intrigado.

"Mas o que significa isso?" - se indagou em pensamento.

E o embate findou com Naraku desaparecendo, levando a youkai lobo consigo.

– E agora, senhor Sesshoumaru? O senhor pretende fazer alguma coisa? - perguntou Jaken.

– E eu deveria?

– Mas é claro que não! Perdoe a minha insolência, senhor Sesshoumaru.

– Aquela youkai nos ajudou e só por isso deveríamos retribuir?

– Perdoe-me novamente se parecer impertinência minha, mas não é assim que o senhor normalmente age?

– Pode até ser, mas só vejo nisso uma boa oportunidade de acertar as contas com esses três miseráveis: Naraku, Inuyasha e Yeda.

– Ah sim... - concordou, encarando-o com a admiração de sempre, apesar de não ter compreendido muito bem porque Inuyasha e Yeda foram incluídos na vingativa ameaça.

– Vamos!

– Sim, senhor Sesshoumaru.

CONTINUA...

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