A mulher de cabelos loiros, que haveria provocado o esbarrão não propositalmente, agora sorria, mostrando-se feliz por reencontrar a de cabelos pretos.

Isa tentou esboçar um sorriso, em resposta à outra, embora parecesse evidente o seu nervosismo pela situação.

"Isa..."

A outra pronunciara seu nome, enquanto sorria. Não aparentava mais estar nervosa.

Pelo contrário... Sentia como se não pudesse estar melhor.

"Quanto tempo..."

A outra continuava.

Isa desejava secretamente que esse pesadelo tivesse um fim, e que a outra se calasse.

Ouvir sua voz a fazia recordar muitas coisas...

"É..."

A voz de Isa quase não saiu, apenas pensando: "Mas eu preciso dizer algo..."

"Sempre penso em você, sabia?"

A mulher de olhos castanhos imediatamente percebeu que assustara a de olhos pretos, com sua súbita crise de honestidade.

A outra ficara imóvel. Por que seria tão importante que, após tantos anos sem contato algum, ainda seria lembrada sempre?

Isa pensara no que a outra poderia estar querendo dizendo aquilo, mas prometia honestamente a si mesma, preferir não saber.

"Quero dizer, lembro de você. Você sabe, nós fomos muito próximas"

A loira esboçava um sorriso. Agora aparentava sinais mistos de nervoso e constrangimento.

Ela tentara consertar, mas ficara pior, e vira nos olhos pretos de Isa a sua confusão.

"Como assim muito próximas? Eu namorei com você 2 anos, você foi o amor da minha vida e você diz pra mim que nós fomos 'muito próximas'!"

Embora Isa não estivesse intencionada a dizer nada disso, não pode evitar esse pensamento.

Na realidade, ela simplesmente disse:

"Sim, sim, muito próximas"

"Não deveria ter dito isso", pensou, ainda mais angustiada. Parecera ironia.

Ela não teria tido a intenção, mas... Ou teria ?

Sim... Infortunadamente, sim. Teria.

Raíssa percebeu pela expressão facial e a voz de Isa, que aquela não teria sido uma boa forma de expressão e procurou corrigir, imediatamente.

"Você sabe, por tudo que nós passamos e vivemos...

Isa se sentira mais aliviada e não pôde evitar um pensamento do tipo "Menos mal".

"... juntas"

Continuara Raíssa, trazendo em sua face um súbito olhar de melancolia.

Outros segundos de silêncio profundo reinaram no local.

Enquanto pessoas passavam por entre elas, pedindo licença para conseguir passagem, ou apenas conversando entre si, as duas não manifestavam vontade de se afastar.

Porém, no interior de Isa, aquela situação a estava deixando fora de si. Ela não sabia o que fazer.

Enquanto Raíssa sorria aparentando estar sem graça, Isa aproveitava o silêncio para olhar ao redor, em busca de uma saída de emergência.

Sentia como se fosse precisar sair correndo dali a qualquer momento.

Maquinava desculpas para poder se retirar, sem ser rude.

"Um princípio de incêndio talvez?!", pensava por um momento... mas a dúvida pairava no ar.

Sabia que Raíssa era esperta o bastante para não cair em qualquer desculpa, e tudo que não queria era parecer uma boba aos olhos da outra.

"Por Deus, Isabela Moreto! Você não tem mais 18 anos! Você é adulta agora, então aja como tal".

Isa engoliu em seco, diante do seu próprio pensamento. Tentava se estimular a reagir, mas seu corpo permanecia imóvel apenas encarando-a aquela face que tanto tinha ferido sua existência.

"Não nos falamos a quanto tempo? 10 anos?"

Isa se surpreendera. Raíssa sabia.

Lembrava o tempo que fazia sem que elas se vissem.

Se sentira ao menos um pouco importante.

Isso a fez surpreendemente bem.

"Sim. 10 anos"

Falou casualmente, como se não se importasse em nada.

A outra percebeu.

"Quanto tempo né?"

"É..."

Isa já suava frio.

Voltou a procurar pela saída estratégica, mas na livraria só havia uma porta, e as janelas.

Além disso, não imaginava uma desculpa para correr dali.

"E como estão as coisas?"

"Bem"

Isa respondeu a pergunta de Raíssa atropelando suas palavras, e sentiu pela expressão de desapontamento na face da loira, que aquele tipo de resposta não era a que ela desejara ouvir.

"Você está trabalhando aonde, Isa?"

Isa respondeu, detalhadamente. Respondia até mesmo o que não fora perguntado.

Trabalho era a única coisa que ela se sentia bem em falar com Raíssa.

Desarreigava-a um pouco do passado.

"Ah, sim. Conheço claro"

Isa sorriu, pela primeira vez conseguira ficar calma.

"Qualquer dia te farei uma visita"

Isa permaneceu tranquila.

Acreditava piamente que Raíssa nunca faria algo assim.

Um silêncio constragedor se instaurara novamente.

"Bom, eu tenho..."

"É, eu também..."

Isa sentira-se derrotada.

Lhe faltou a coragem para se despedir, e agora sentia-se mal.

Raíssa teria se antecipado.

Mas, apesar de ter sido Raíssa quem demonstrou necessidade de ir embora antes, Isa não pôde deixar de observar que, com a sua resposta em seguida, a loira ficara triste. Podia quase jurar que teria demonstrado decepção em seus olhos castanhos claros.

"... atrasada"

Isa pegara em seu livro, apontando-o e disse, como sua única saída.

Queria sair dali o mais rápido possivel.

"Bom, então..."

"Tchau"

Isa se precipitou se despedindo e deu um passo para frente visando a saída, quando recebera, consternada, um abraço apertado de Raíssa.

Isa nem conseguira se mexer.

Apenas dava um sorriso amarelo, que forçara para aparentar menos o seu nervoso.

Tudo para não mostrar-se infantil diante de Raíssa.

Agora a loira havia conseguido fazer com que Isa se sentisse pior do que nunca.

Isa olhara pela janela, pensando no quanto queria pular dali exatamente agora.

"Tchau"

Após a resposta "tardia" de Raíssa, na opinião de Isa, a mesma saiu na frente, apressando os passos.

Fora até o caixa, e pagara o livro, tudo em um pulo. Saíra praticamente correndo do local.

Raíssa a acompanhara com os olhos até a saída do local.

Permanecera no mesmo lugar, imóvel.

Seu olhar profundo se traduzia na palavra "mistério".

Isa saíra apressada do local, temia que Raíssa a chamasse novamente.

Temia...

Ou será que na verdade, era o que ela desejava?
E esse seu temor apenas traduzia a verdade sobre ela?

Isa não tinha certeza de nada naquele instante, mas realmente preferia não saber.

Não queria passar por tudo aquilo de novo.