Depois de todo aquele barulho e dos minutos agonizantes que se transcorreram, era a parte mais negra antes do alvorecer. A meu ver, foi uma coisa bonita. O céu fervia, da cor do chocolate. Chocolate escuro. Amargo. Amargo pelas lágrimas de prata que escorriam pelo rosto da menina.

Podia sentir a tensão que a embriagava, que jazia entre nós. Estava escondido em meio as árvores, recuperando a vitalidade para voltar ao cenário de dor e incerteza. Incerteza aquela que habitava seus olhos vagantes.

Ela virou-se para mim, como se estudasse-me.

Seu rosto suplicava.

Anos haviam se passado mas eu reconheci aqueles olhos.

Porém, ela não me viu, embora parecesse ter consciência de minha presença. A esperança invadiu-me. Diluiu-se com mais um olhar ao desespero da criança.

MAIS UMA COLEÇÃO DE FATOS

Às vezes, não preciso exercer meu dom.

A agonia real é tão palpável que dispensa quaisquer outras.

E me assombro quando vejo

Algumas pessoas se agarrando à ela

Mais do que seria esperado.

- Alice? – ouvi sua voz dizer, hesitante, temerosa. Ela estendeu a mão. Buscou, tateou e seu rosto se apagou ao não encontrar nada. Tive um impulso de correr até ela e estancar diante de si. Desejei que ela me tocasse. Pedi em silêncio para que sorrisse para mim. Ah, Deus, como eu quis ser merecedor daquele toque.

Um pequeno conjunto de minutos se passou e tudo chegou a seu fim. Não restava mais nada no mundo que pudesse acontecer, não naquela noite.

Primeiro vi o robusto, a respiração desordenada e uma postura cansada. Surgiu em meio a vegetação e seus sentidos deveriam estar à flor da pele, pois bastou o ar encher-lhe os pulmões para que seus olhos disparassem na direção dos meus. Um pequeno rosnado. Bastou-me.

Corri pela mata íngreme.

Desejei que ela pedisse-me para ficar.

Às vezes, espanto-me com minha própria estupidez.

Não precisei ir muito longe. O rapaz esqueceu-me assim que viu a menina. Nada disse, e eu logo percebi o porquê. Tinha receio. Receio de tocar em um anjo, mesmo com palavras. O invejei com todas as minhas forças. Desejei, por apenas um instante, que ele a confortasse. Mas ele continuou sem falar.

Por mais quantas vezes o silêncio a faria sofrer?

A bailarina chegou poucos segundos depois. Não teve forças para sorrir, mas aquilo era irrelevante para a menina e, por conseqüência, para mim. Sua pele fria tocou o braço rígido do companheiro. Ele permaneceu imóvel. Formavam um contraste interessante. O másculo, de feições rudes e semblante inóspito; covarde demais para dizer algo. A pequena fada, cujos traços eram delicados e perfeitos, como um Michelangelo convidativo. Diga alguma coisa – eu supliquei mentalmente. Qualquer coisa, vamos, diga! E seus lábios se curvaram de alívio. Ela desejava poder chorar.

- Minha pequena criança – murmurou, e suas pernas bambas tomaram iniciativa para mover-se. Um, dois, três passos. Dançava sobre a relva, e mesmo distante pude identificar a melancolia que as separava – Tudo vai ficar bem. Eu lhe prometo.

A menina tocou a pele fria com a ponta dos dedos.

O alívio lhe foi tangível.

Elas se abraçaram e desabaram no chão.