NARUTO NÂO ME PERTENCE, NEM A HISTÓRIA! III

Quando a campainha da porta tocou, Mikoto Uchiha já sabia que seu único filho, Sasuke, e seus netos, Sarada e Obito, haviam chegado.

— Não quer ficar para o jantar, meu filho? — convidou, enquanto abraçava as crianças que passariam o fim de semana em sua companhia. — Estará pronto em meia hora.

— Não vai dar, mãe — Sasuke se desculpou. — Vai haver uma reunião de emergência esta noite e eu preciso me preparar ainda. Vou comer um hambúrguer no caminho.

— Você não está se alimentando bem! — ralhou Mikoto, cuja silhueta rechonchuda denunciava seu amor por comida. — Está magro como um palito!

— Ora, mãe! Eu quis emagrecer, não se lembra? Hinata disse que eu estava ficando barrigudo.

A senhora franziu o cenho, mas não retrucou. Em vez disso, pegou o neto no colo, dizendo:

— Fiz biscoitos hoje à tarde, Obito. Se você comer seu aspargo até o fim, vai poder ficar com o pote!

O menino fez uma careta, pois sabia que era o que se esperava dele. Depois, sorriu para a avó e indagou:

— São de chocolate?

— Claro! E eu faria algum outro biscoito para meu neto favorito?

Obito era o único neto de Mikoto, mas Sasuke sempre desconfiara de que o garoto seria o predileto da avó, mesmo que houvesse mais meninos.

— Verdade? Gosta mais de mim que de Boruto ? — quis saber o garotinho.

Sasuke e a mãe já haviam dito ao pequeno Obito, várias vezes, que os filhos de Hinata não tinham nenhuma relação de parentesco com os Uchiha, mas o garoto parecia não estar convencido disso ainda. Afinal, Hinata era a única figura materna que conhecia, pois perdera a mãe verdadeira quando tinha menos de um ano.

Durante os anos sombrios que se seguiram à morte de Sakura, Mikoto estivera ocupada demais cuidando do marido inválido, agora falecido, para poder dar ao filho toda a ajuda que desejaria. Ambos sabiam que, se Hinata não fosse uma mulher tão boa, Sarada e Obito teriam sido criados por uma babá atrás da outra.

— Quando você ligou, à tarde, não disse por que queria trazer as crianças um dia antes — Mikoto comentou.

Ela morava em Morgantown e sabia que era fácil para Sasuke passar por sua casa sempre que queria, pois trabalhava ali perto. Mas trazer as crianças significava uma viagem de ida e volta a Coltersville.

— Pensei que a hora "H" da "Operação Cinderela" só fosse acontecer amanhã.

— E vai — confirmou Sasuke, sem conseguir reprimir um sorriso de expectativa.

Ele não contara à mãe os detalhes dos planos para a noite seguinte. Esperava que os problemas relacionados à refinaria não fossem atrapalhar a operação bem em sua fase decisiva, mas, sem dúvida, o acidente não podia ter acontecido em pior hora. No fundo, sentia-se um pouco culpado. Afinal, se houvesse se dedicado mais ao trabalho e menos à "Operação Cinderela", talvez pudesse prever e evitar a explosão em Red Rock.

Assim que viu Obito correr para a sala e ligar a televisão, comentou:

— Houve uma explosão na Refinaria de Red Rock, mãe.

A senhora Uchiha ergueu as sobrancelhas e exclamou:

— Por que não trouxe Boruto e as meninas?

Como já tomara conta das cinco crianças inúmeras vezes, acostumara-se a se preocupar com elas em conjunto.

— Eles ainda estão com o pai — Sasuke esclareceu. — Hinata acha que vão voltar no sábado, mas eu liguei para Naruto e pedi que inventasse alguma desculpa para ficar com eles mais um pouco. Não quero deixar Hinata preocupada, mas também não quero as crianças por perto até saber exatamente o que está acontecendo.

— Se é perigoso, Sasuke, você e Hinata não deviam se mudar de lá? — ela questionou, cada vez mais aflita. — Aliás, por que simplesmente não fecha a refinaria? Você tem poderes para isso, não?

Ele assentiu, explicando:

— Eu a fecharia agora mesmo se tivesse a menor prova de que não há segurança. Pelos relatórios, tudo está em ordem, mas... — Após uma pausa, revelou: — Tenho um pressentimento, mas não posso dizer exatamente com relação a quê.

A senhora compreendeu a apreensão do filho, pois acreditava muito na existência de um "sexto sentido" humano.

Sasuke, por sua vez, sabia que não conseguiria verificar se alguém falhara em detectar alguma irregularidade na refinaria sem levantar suspeitas. Kiba, por exemplo, podia ter aprovado válvulas defeituosas quando da última inspeção que fizera, em julho. Contudo, uma insinuação como essa faria com que Kiba, fatalmente, se ressentisse, o que tornaria impossível o trabalho conjunto realizado por eles. No entanto, seria inadmissível deixar de investigar um acidente como aquele. Especialmente quando Hinata e as cinco crianças estavam em perigo.

— Na verdade, não tenho nenhum motivo para acreditar que alguém violou os regulamentos — admitiu. — Tem-se falado muito de válvulas defeituosas ultimamente, mesmo quando são novas em folha. Sennin, o administrador, disse que substituiu todas as peças desgastadas, de acordo com o solicitado, mas... ele pode ter adquirido material de segunda categoria, que não era forte o bastante para agüentar a pressão. Nesse caso, a explosão de hoje pode significar algo bem mais grave, e isso me preocupa.

— Papai! — Sarada apareceu correndo e se atirou nos braços do pai. — Não se esqueça de dar comida para o Capitão. Eu sempre dou antes de você chegar em casa; então, ele vai estar morrendo de fome lá pelas seis horas, todo dia.

— Fique sossegada. Vou dar comida para aquele seu gato manhoso, querida — Sasuke assegurou, afagando os cabelos da filha. — Mas quem vai dar comida para mim?

— Tia Hinata! — Ao se lembrar de algo, a menina se corrigiu: — Hinata, quero dizer. Por que não podemos mais chamar tia Hinata de "tia"?

Ele engoliu em seco, sem saber o que responder. Depois de dar à filha um abraço apertado e um beijo na bochecha, prometeu:

— Eu explico tudo na semana que vem, quando vier buscar vocês, está bem?

— Está. — Depois de dar mais um abraço apertado no pai, a menina pediu: — Não se esqueça de perguntar a ela sobre Yosemite.

— Não vou esquecer.

As duas famílias sempre acampavam em Yosemite no fim da semana do Dia do Trabalho. Era por causa daquela excursão, já programada para dali a dez dias, que Sasuke queria resolver logo a situação entre ele e Hinata. Se seus planos não dessem certo, nada no mundo o faria suportar um acampamento na companhia dela.

Depois de se despedir de Obito, que estava fascinado com seu programa de televisão favorito, Sasuke agradeceu à mãe e voltou ao carro. Com a ajuda de Kiba, conseguira fazer seu pequeno e velho automóvel voltar a funcionar. Lembrou-se então de que, no dia seguinte, àquela mesma hora, estaria dirigindo uma perua nova em folha. "E grande o bastante para acomodar uma esposa e cinco crianças", pensou.

Antes que pusesse o carro em movimento, entretanto, foi detido pela mãe.

— Sasuke, sei que não é da minha conta, mas...

— Sim?

— Sobre amanhã à noite...

— Hum?

— Você já... se preparou para o caso de Hinata...

— Dizer "não"? — ele completou.

— Bem... sim! — a senhora Uchiha confirmou timidamente.

— Já sei que isso pode acontecer — ele declarou, contendo a impaciência. — É claro que pode.

Sasuke já imaginara o embaraço... ou, pior ainda, o divertimento com que Hinata reagiria ao saber de tudo o que fizera para ganhar-lhe o amor.

Seria fácil alegar que estava mais que na hora de substituir o carro velho por um novo, bem como renovar todo o guarda-roupa, mas... como explicar a reforma completa da casa, por dentro e por fora? Nos últimos meses, mandara executar todos os melhoramentos que Hinata vinha sugerindo havia anos, a fim de tornar a casa um lugar agradável para ela viver; ou, então, para que pudesse ser vendida, caso ela preferisse iniciar a nova vida em outro lugar. Chegara a cogitar a idéia de dar-lhe o casarão da alameda dos Morros Crescentes como presente de casamento. Mas a moradia era grande, extravagante e cara demais.

— Sei que nunca entendeu como Hinata e eu podíamos ser tão chegados quando éramos... só amigos — comentou, resolvendo se abrir com a mãe. — Mas ninguém é mais importante para ela do que eu... a não ser as crianças. Ela só precisa de um tempo para passar de amiga para amante.

— É sobre isso que quero falar, Sasuke — a senhora insistiu, balançando a cabeça. — Você não devia ter planejado tudo desse jeito! Não devia ter gasto tanto dinheiro em roupas novas e carro novo para impressionar Hinata, uma mulher que já o conhece tão bem. Ou ela o ama do jeito que você é, ou não ama.

Sabendo que não poderia dar razão à mãe sem admitir que realmente se excedera ao planejar a "Operação Cinderela", Sasuke teimou:

— Ela me ama, mãe, mas acho que não sabe disso, ainda.

— E acha que ela vai descobrir esse amor quando você a pedir em casamento? Se tivesse que ser assim, querido, não acha que já teria acontecido naturalmente, depois de todo esse tempo?

— Não! — ele insistiu, convicto. — Não depois de eu ter feito tudo para que isso não acontecesse! Logo depois que Naruto foi embora, Hinata se tornou presa fácil para qualquer um que a fizesse sentir-se mulher. Ela teria se casado comigo sem pestanejar, se eu a tivesse pedido; aliás, ela praticamente me pediu em casamento uma vez. Mas eu não a queria daquele jeito. Não queria me aproveitar da tristeza dela. — Depois de fazer uma pausa, em que tentou se acalmar, concluiu: — Mas, agora, ela já superou o trauma. Está pronta para voltar a se apaixonar, se não por mim por qualquer outro. Sinto que Hinata está mudando... e que eu estou perdendo tempo! Preciso convencê-la de que não pensei nisso apenas como uma forma conveniente de resolver o problema das crianças e das tarefas domésticas. Caso contrário, eu a perderei de vez.

Com os olhos umedecidos pelas lágrimas, a senhora Uchiha replicou:

— Mas não percebe que, se ela disser "não", vai perdê-la de qualquer forma, meu filho? As coisas nunca mais serão as mesmas entre vocês.

Sasuke sabia que a mãe tinha razão. Mas sabia também que o desejo que sentia por Hinata já estava chegando a um ponto incontrolável. Queria passar os dedos por seus longos cabelos escuros e fazê-la desejá-lo como homem, não como irmão. Quantas vezes não contivera o impulso de beijá-la sem parar e acariciar-lhe a pele nua sob a camisola? Mas Hinata jamais o perdoaria se traísse sua confiança dessa forma. Ele próprio jamais se perdoaria.

Fitando o rosto da mãe, declarou, cheio de convicção:

— Sei que é um grande risco, mas tenho de corrê-lo.

Hinata chegou cedo para a reunião na escola, ansiosa para ouvir mais detalhes sobre a explosão e aliviada pelo fato de Naruto ter pedido para ficar com as crianças durante mais um fim de semana. Embora o ex-marido não houvesse explicado os motivos do pedido, ela não discutira. Estava com saudade dos filhos, mas não queria que eles voltassem para casa até que Sasuke colocasse Red Rock em ordem.

Com impaciência, observou as outras pessoas que começavam a chegar: representantes da escola, da refinaria, corretores de imóveis, homens de negócios, pais e vizinhos irados.

De repente, o aroma inebriante de uma colônia masculina chegou-lhe às narinas. No instante seguinte, sentiu um toque leve em seu ombro. O contato inesperado provocou-lhe uma onda de desejo que percorreu todo o corpo. Surpresa e perturbada, voltou-se e viu Sasuke, que tinha o sorriso familiar estampado no rosto.

— Olá, Hinata. Não esperava ver você aqui hoje — ele falou em tom de alegria, enquanto a admirava no vestido novo de linho azul. — Não prometi que contaria tudo a você amanhã?

— Amanhã? — ela perguntou, intrigada pela reação que o toque de Sasuke lhe provocara.

Mas a expressão aborrecida que ele adotou logo a fez se lembrar de que já era a segunda vez naquele dia que esquecia o compromisso de jantar com ele na noite seguinte. Tentando apaziguá-lo, ergueu as mãos e começou a endireitar-lhe a gravata, sem necessidade, e a retirar grãos de pó imaginários do colarinho impecável.

— Claro, Sasuke — concordou, descontraída. — Amanhã!

Mas ele não se conformara. Adotando uma expressão estranha, que mesclava prazer e zanga, deteve as mãos de Hinata que roçavam a lapela de seu paletó.

— Não sou seu irmãozinho a caminho do primeiro baile — disse entre dentes. — Estou aqui representando o município... profissionalmente.

Hinata deu um passo para trás, envergonhada, mas também um pouco chateada pelo tom com que ele falara.

— Me desculpe. Eu só queria que você se apresentasse bem.

— Sou um homem adulto, Hinata, e perfeitamente capaz de me vestir sozinho.

— Sasuke! — Ela enrubescera. — Eu não quis...

— Psiu! — Ele ainda tinha o olhar severo, mas já falava em tom mais brando. — Eu sei que você só queria ajudar, mas esta não é a hora nem o lugar.

Hinata fitou-o no rosto, tentando entender por que ele se ofendera tanto. Uma das coisas que mais admirava em Sasuke era o fato de estar sempre de bom humor e raramente perder a paciência. Mas ele devia estar tendo um dia difícil, sem dúvida; portanto, era sua vez de apoiá-lo. Para que serviam os amigos, afinal?

— Eu peço desculpas novamente, Sasuke — disse, vendo as feições dele se abrandarem. — Você... você está perfeito. Eu gostei muito do bigode. Faz você parecer... mais velho.

— Mais velho?

Sasuke parecia ter-se divertido com o comentário.

Satisfeita, Hinata constatou que o desentendimento entre eles se acabara.

— Bem... talvez mais maduro — ela corrigiu. — Não que alguma vez eu tenha pensado que você não fosse, mas... — Com um suspiro de impaciência, finalizou: — Oh, esqueça!

Surpreso, Sasuke deu um largo sorriso e provocou:

— Hinata Hyuuga, acho que esta é a primeira vez, nesses treze anos que nos conhecemos, que vejo você ficar sem saber o que dizer!

Apesar de ter tentado, pouco antes, preservar sua imagem de funcionário público, ele se inclinou e beijou-a no rosto.

Hinata sentiu o bigode roçar-lhe a pele de uma forma que lhe pareceu uma carícia sensual. Recusava-se, porém, a admitir a existência da mais leve atração sexual pelo amigo. Talvez por isso, ao vê-lo caminhar até o pequeno palco da escola, ficou surpresa ao notar que ele adquirira certa elegância no andar.

— Hinata! — chamou uma voz masculina, em tom insistente, como se já tivesse se manifestado várias vezes antes que ela o ouvisse. — Quando eu disse que esperava ver você novamente, não pensei que fosse acontecer tão cedo.

Ela se voltou e, enrubescendo, exclamou:

— Kiba! Eu achei que você estaria aqui hoje...

Ele continuava a parecer tão bonito quanto naquela manhã, com os cabelos castanhos brilhando. Trajava outro terno impecável, cor cinza, que lhe realçava os olhos azuis.

— Andei com Sasuke o dia todo, como se fosse a sombra dele — Kiba comentou.

Hinata riu e declarou:

— Ele vai para a alameda das Amoreiras, número 347, depois da reunião.

O sorriso malicioso de Kiba não deixou dúvidas quanto à interpretação que ele fizera do comentário.

— Isso é um convite? — ele perguntou.

— Um convite? — Hinata repetiu, subitamente embaraçada. Já fazia anos que não praticava aquele jogo de indiretas.

— Eu... eu não sei... É que você disse que... — deteve-se, sem saber o que dizer.

Kiba fitou-a no rosto e percebeu que se precipitara ao fazer aquela insinuação. Hinata não era uma mulher acostumada a aventuras amorosas. Seria prudente conhecê-la melhor antes de se arriscar a lhe fazer propostas. Erguendo a mão, acariciou-a no rosto, onde Sasuke deixara um beijo pouco antes.

— Preciso ir agora, Hinata. A reunião vai começar e eu estou com muitas preocupações hoje. Mas vamos manter contato... — Ele sorriu de forma cautelosa, mas sedutora. — Sem dúvida... vamos manter contato, não é?

Sorrindo largamente, Hinata observou-o ir até o palco. Sentia-se tola e sofisticada ao mesmo tempo. O homem praticamente a convidara para um encontro. Sabia que muitos homens costumavam prometer que telefonariam sem ter realmente intenção de fazê-lo, mas sabia também que Kiba Inuzuka não tinha motivos para agir daquela forma. Eles mal se conheciam. Sasuke era o único ponto real de ligação entre ambos. E Sasuke...

De repente, ela percebeu que Sasuke observava a cena com olhar furioso. Com alívio, descobriu que a fúria do amigo tinha como alvo Kiba, que naquele momento subia os degraus, e não ela. Sem saber por quê, concluiu que, se brigasse com Sasuke, iria se sentir tão mal quanto quando brigava com Naruto.

Mas Naruto fora seu marido e... bem, Sasuke era só um amigo. De qualquer modo, nunca brigara seriamente com ele e não queria começar agora.

Sasuke parecia ter-se esquecido de Hinata. Naquele instante, praticamente fulminava Kiba Inuzuka com um olhar que proclamava: "Estamos empatados, mas esta é a minha vez de jogar".