III.

Nunca Philippe a vira usar aquela cor. Ela gostava de tons frios, como o azul e o verde. Cores como o rosa, o coral e o vermelho não apareciam em seu guarda-roupa. Philippe estava escandalizado com aquele traje pouco discreto. Ia dizer alguma coisa, mas o Chevalier de Lorraine mandou-lhe um olhar de repreensão. Deu um sorriso amarelo:

-Que inesperado, Madame!

Ela sorriu. Aquele tecido era um presente da tia Sophie. Mandara fazer a roupa há mais de um ano e jamais tivera coragem de usá-lo. Mas aquela era uma ocasião especial.

- Gostaram dos arranjos para a ceia?

O Chevalier tinha um adorável sorriso expectante.

-Apesar de estarmos na França, meus caros, o tema de que vamos tratar é um tema germânico e, como tal, merece ser evocado.

Nenhum dos dois entendeu ao certo do que ela estava falando, mas ambos mantiveram a pose.

Jacques iniciou o serviço.

Philippe e o Chevalier de Lorraine viram diante de si pratos com fatias de pão escuro e porções de manteiga e pequenas salsichas . A Palatina sorriu quando percebeu que eles torciam o nariz.

Pumpernickel, pão de centeio da Vestfália. Eu sempre apreciei muito.

-Onde conseguiu isso, Elisabeth?

-Eu e Maria comemos sempre. Temos um fornecedor em Paris.

Philippe continuava sem entender aquela excentricidade.

-E porque vamos comer esse pão escuro como hors d'oeuvre?

-Porque eu acredito, que não há melhor forma de resgatar o passado que através dos sentidos. E o paladar, no meu entendimento, é o rei de todos os sentidos.

O Chevalier ficou impressionado com as palavras ousadas de Madame.

Jacques serviu uma taça de vinho para cada um deles. Philippe sentiu o buquê com relutância... Provou um pequeno gole.

-Notei que não é francês, mas até que é bom. –admitiu.

Liselotte sorriu.

-É um vinho da região do Reno. Foi presente de meu primo, Maximilian. Pode provar com moderação, Chevalier. Tenho certeza de que vai gostar.

O Chevalier tomou um bom gole. Fez um sinal e Jacques tornou a verter vinho em seu copo.

-É delicioso.

Comeram a estranha entrada. Para Philippe aquilo parecia uma merenda de pastores. Ela parecia agora compenetrada.

-Devem saber que meu pai, após divorciar-se de minha mãe, casou-se morganaticamente com uma dama da corte, Luise von Degenfeld . Eles já eram amantes enquanto ele ainda era casado com a minha mãe.

Philippe e o Chevalier ouviam aquilo tudo em respeitoso silêncio. Percebiam que aquela situação familiar provavelmente seria alvo de zombaria e descrédito na corte francesa, mas no Palatinado as coisas pareciam ser vistas de forma diferente.

"-Eu vivi quatro anos com minha tia Sophie, em Hanôver. Quando tinha onze anos, meu pai mandou que me trouxessem de volta a Heidelberg. Meu pai já tinha outros filhos com a nova esposa. Eu sentia saudades da minha tia, dos meus primos, da vida protegida que levava em Hanôver. Lá eu fui muito feliz. Enquanto não me acostumava, preferia vagar solitária, pelos jardins do castelo. Não tinha vontade de conversar. Muitas vezes levava um livro, um pequeno farnel e me isolava."

Philippe ouviu aquelas palavras com incredulidade. Não podia imaginar a esposa pensativa e melancólica. Ainda mais aos onze anos. Olhou para ela com simpatia.

-Como você era, Elisabeth?

-Pequena, grandes bochechas rosadas e muito, muito vivaz. A nossa Elisa é um pouco parecida comigo, mas é mais bonita, felizmente.

Tanto Philippe quanto o Chevalier ficaram tocados com tamanha sinceridade.

-Eu sempre fui muito observadora também.

Philippe sorriu.

"-Era verão e eu havia acabado de fechar o meu livro de fábulas de Esopo. Estava sentada na grama, escondida por uns arbustos. Acabara de dar a primeira mordida no meu belo pedaço de pão de centeio barrado de manteiga, quando uma algo me atingiu com força nas costas. Deixei cair o pão sobre a terra e dei um grito de dor. Ouvi passos e apareceram atrás das moitas, as cabeças de meu irmão Karl e de um rapazola gorducho. Meu irmão Karl, como todos sabem, é um ano mais velho que eu. O amigo devia ter uns quatorze anos e mais tarde pude notar que ele exercia uma espécie de liderança sobre meu irmão. Karl contornou os arbustos e me acudiu, explicando que estavam jogando no relvado e que a peça de madeira que me atingira fora arremessada acidentalmente. Mas ele logo se aprumou e fez as apresentações:

-Esta é minha irmã, a Princesa Elisabeth Charlotte do Palatinado, Condessa de Simmern.

O adolescente era grandalhão, louro, com um cabelo ralo e consideravelmente obeso. A cara era muito vermelha e as mãos grandes e balofas, com furinhos no dorso, como as dos bebês. Usava calções vermelhos e um casaco castanho de veludo com alamares dourados. Olhou-me de nariz empinado, examinando-me da cabeça aos pés.

-Este é Friedrich Magnus, filho do Margrave von Baden-Durlach.

Não prestei muita atenção, pois tentava esfregar minhas costas doloridas. Meu irmão ficou preocupado.

-Ainda está doendo, Liselotte?

-Sim.

Friedrich Magnus lançou um último olhar de descaso e nos deixou, voltando para o relvado onde estavam os bastões.

-Quem jogou isso?

Meu irmão ficou mudo. Senti que tinha sido o amigo. Não tivera sequer a decência de se desculpar.

Eu tive o receio de me encontrar com ele à noite, mas como ele já tinha quatorze anos, foi admitido na mesa dos adultos. Karl parecia ter ficado impressionado com a figura de Friedrich Magnus. Eu desejei que o destino tivesse tirado aquele rapaz desagradável do meu caminho para sempre. Mas eu estava equivocada.

No dia seguinte, eu estava na sala de estudos esperando Herr Lachtermacher, meu professor de latim. Meus irmãos menores, filhos do segundo casamento de meu pai, brincavam na saleta contígua e pela porta aberta eu podia ouvi-los. Ludwig, na ocasião, tinha cinco anos e Karoline, apenas quatro. De repente eu ouvi uma imprecação e minha irmãzinha começou a chorar. Levantei-me e fui ver o que era.

Na saleta estavam meus irmãos, a aia e Friedrich Magnus. Ele encarou-me e inquiriu:

-Onde está o seu irmão?

Não respondi. Primeiro porque não sabia e segundo pela rudeza de sua atitude. A aia pegara a pequena Karoline no colo para consolá-la e permanecia muda. Ele retirou-se.

-O que houve?

Ludwig parecia assustado.

-Ele derrubou Karoline.

A aia interveio.

-Não foi nada sério. A menina foi na direção dele e agarrou-lhe uma das pernas. Ele se desvencilhou e Karoline caiu sentada e se assustou. Acho que esse jovem senhor não gosta muito de pequenos.

Aquela atitude só confirmou a minha primeira impressão. Friedrich Magnus, a despeito de seu nascimento ilustre, não me pareceu uma pessoa agradável."