Paletós para Sesshoumaru
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03. It's Friday, Friday, gotta get down on Friday!
É sexta, sexta! Tenho que curtir a sexta!
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Ah, a sexta-feira. Que dia maravilhoso, não?
Sexta é um dia glorioso. É na sexta que começa aquela excitação sobre o que acontecerá após o expediente e no resto do fim de semana. Na sexta a noite se pode estrear a roupa que você correu para comprar durante o horário de almoço enquanto enfiava um sanduíche de salame goela a baixo. Sexta, quando se vai para a balada, é que bate aquele orgulho de ter um emprego — porque é assim você ganha dinheiro para patrocinar a bebedeira.
É na sexta que você se dá conta que vai ficar livre do trabalho por dois dias! Completas quarenta e oito horas sem precisar agradar clientes que não merecem nem um pingo da sua simpatia — sim, me referindo ao loiro patético.
Enfim, era sexta-feira.
Eu podia ouvir a Katy Perry cantando Last Friday Night no fundo da minha cabeça. O horário de almoço já havia passado há algum tempo e não faltava muito para que o expediente finalmente terminasse e eu pudesse correr para casa — onde eu jogaria Guitar Hero por um hora e depois sairia com Ume para o pub mais próximo.
Tudo corria bem.
Então, Ume apareceu das profundezas do inferno — me assustando no processo — e pediu para que eu a acompanhasse até uma das salas mais próximas.
Havia duas opções: primeira, eu havia feito algo errado e ela, como era muito minha amiga, deixara para me alertar em privado para que eu não passasse vergonha em frente aos colegas de trabalho.
Segunda: ela havia feito algo um pouco duvidoso e, como era orgulhosa e muito minha amiga, deixara para me contar em privado para que ela não passasse vergonha em frente aos colegas de trabalho.
Sem querer me gabar, a segunda opção era mais provável. Fazia um bom tempo que eu não dava mancadas dignas de alertas em privado.
Chegamos na sala de provas e Ume trancou a porta.
— Primeiro, prometa que vai me escutar antes de me julgar.
— Ume, o que aconteceu…?
— Apenas prometa.
— Você beijou uma menina? Porque você lembra que eu não tenho preconceito algum com—
— Não, não! — ela balançou as mãos freneticamente. — Não beijei menina alguma dessa vez. Prometa.
— Ok… — eu disse, com cautela. — Eu prometo.
— Promete…?
— Prometo que vou escutar antes de julgar. — repeti como um robô.
— Ok, ótimo. — ela suspirou e jogou uma mecha do cabelo para trás. — Marquei um encontro com Ogashi.
Levei alguns segundos para processar a informação.
— Você... Ogashi... Encontro? — ela assentia enquanto eu balbuciava as palavras.
Quando me dei conta do que aquilo significava, não pude deixar de conter o sorriso malicioso que brotou em meus lábios.
— Ogashi, hein.
— Você prometeu que não me julgaria antes de eu terminar!
— Não estou julgando, apenas disse "Ogashi, hein". — repeti a frase com o mesmo tom malicioso de antes e recebi um olhar acusador como resposta.
— Kagome!
— Ok, ok! — levantei os braços em sinal de rendição. — Conte-me.
Ela suspirou.
— Então, na quarta-feira a noite, Ogashi e eu nos encontramos por acaso, veja bem, por-a-ca-so, naquele pub que nós duas costumamos frequentar. Então, conversa vai, conversa vem, bebida vai, bebida vem…
— Você foi para a cama com ele!
Até hoje não consigo identificar de onde aquela almofada veio. Tudo que me lembro é que ela bateu na cara com muita, muita força.
— Higurashi, sua pervertida! — Ume exclamou. — Eu nem ao menos o conheço direito!
— Isso nunca a impediu antes… — murmurei, desviando de outra almofada.
— Nesse caso é diferente! Nós trabalhos juntos, pelo amor dos deuses!
Quando vi a expressão insana no rosto de Ume, percebi que ela não estava para brincadeiras. Pedi a ela que se acalmasse e me contasse o resto.
— Enfim, como eu dizia… Depois de alguns drinks, ele acabou me beijando. — tive a impressão de vê-la corar por um momento.
— E você? Fez o quê?
— Eu o beijei de volta, oras!
— E…? — incentivei a continuar. — Vocês se falaram depois disso?
Ela assentiu.
— Nos falamos ontem, após o expediente, na verdade. Ele é tão gentil, Kagome… Disse que sabe foi precipitado da parte dele me beijar, mas que era algo que ele gostaria de fazer há tempos. Então, me convidou para jantar hoje a noite.
Pude ver uma mistura de confusão e excitação nos olhos de Ume. Ela geralmente ficava nervosa antes de encontros e, mesmo sem ter a experiência que ela tinha, eu sempre a acalmava.
— Então, já sabe o que vai usar?
Ela arregalou os olhos.
— Oh, deuses, não! Não tive tempo de sair para comprar uma roupa e as lojas fecham exatamente no horário que saímos!
— Calma, garota. — eu segurei as mãos dela. — Depois do expediente, nós duas vamos até a minha casa e você pode escolher a peça que quiser. Se não se sentir bem com elas, vamos até o seu apartamento e eu ajudo a montar um look incrível com o que você já tem!
Ela sorriu e me abraçou.
— O que eu seria sem você, pirralha?
— Você seria um completo desastre.
Nós duas rimos enquanto nos separamos.
— De volta ao trabalho? — perguntei. Ume balançou a cabeça afirmativamente.
— De volta ao trabalho.
Saímos da sala e caminhamos pela loja. Não faltava muito para fecharmos, por isso o movimento era pouco. Os únicos sons lá dentro eram os dos sapatos batendo no chão, um zumbido criado pela fala dos funcionários e a música baixinha das caixas de som.
Tudo estava calmo.
Até que Sato passou pelas portas do nosso andar com aquele sorriso convencido que eu adoraria arrancar da cara dele a base do tapa. Ele era charmoso, devo admitir: sempre se vestia elegantemente, possuía dentes branquíssimos e os olhos castanhos tinham um certo brilho malicioso. Ele descoloria o cabelo — Ume e eu fazíamos algumas piadinhas sobre isso —, mas tomava cuidado para nunca deixar a raiz castanha aparecer.
Outro loiro sacana. Só que esse me perturbava regularmente.
— Higurashi! — ele sempre me chamava pelo sobrenome, adicionando alguns litros de sarcasmo a pronúncia. Parou perto de mim, com as mãos nos bolsos do blazer.
— Bom dia, Sato. — eu não o olhei quando respondi, fingindo que as camisas penduradas ao meu lado eram mais dignas de minha atenção. E realmente eram.
— Como vai a vida de subordinada, criança?
Odeio que me chamem de criança. Simplesmente odeio. Passei a encará-lo, refreando o impulso de mostrar a língua — eu disse que odiava ser chamada de criança, não que não tinha atitudes de uma.
— Bem. — respondi entredentes. — E você? O oxigênio rarefeito do terceiro andar já está assassinando o que restou de seus neurônios?
Eu não devia ter respondido daquela maneira. Não mesmo. Mas eu estava apenas aproveitando o meu dia de glória e o desgraçado veio me encher a paciência. Outra coisa que odeio: pessoas que arruinam a minha sexta-feira.
(Sato estava em quase todas as minhas listas de "coisas que eu odeio").
— Você tem a língua muito afiada para o meu gosto, Higurashi. — ele estreitou os olhos. — Vamos ver se ela terá serventia quando você perder o seu emprego.
— Kagome não vai perder coisa alguma. — a voz de Ume ecoou atrás de mim. Graças aos céus. Eu realmente não estava afim de perder o emprego por causa daquele homem das cavernas.
— Ora, ora, se não é a defensora dos menores. — o sorriso de Sato se alargou. — Como vai, Ume, querida?
— Podia estar melhor. Agora, se nos der licença, Kagome e eu temos que continuar a trabalhar. — senti a mão dela em meu ombro, como um sinal para que eu me retirasse.
Comecei a andar para longe junto de Ume, mas Sato a pegou pelo braço.
— Adoro quando você se faz de difícil. — eu o ouvi sussurrar. Eca. Eca. Eca. Lugar errado na hora errada, Kagome.
— Não estou me fazendo de coisa alguma. — Ume puxou o braço com força.
Sorte a nossa a loja estar praticamente vazia naquele instante. O dono não ficaria nada feliz recebendo reclamações sobre a situação que estava acontecendo ali. Na verdade, o dono da Don Juan — um jovem ruivo que dera muita sorte com os negócios no sul do Japão — adorava uma ceninha de vez em quando. Desde que o estabelecimento não fosse prejudicado, é claro.
— Kagome, se me der licença, vou mostrar a saída a este senhor.
Ume saiu batendo os pés com força, o som do salto alto ecoando pela loja. Sato a seguiu com o sorriso cafajeste ainda aberto, como um cachorrinho. A verdade era: ele tinha uma queda por ela. Um precipício, na verdade. Mas ainda assim, era um cachorro sarnento, um loiro desgraçado.
Como se o capeta escutasse as minhas reclamações mentais, eu avistei o loiro-da-segunda-feira passar pelas portas da loja.
Naquele mesmo instante, meu orgulho começou a tomar conta do meu ser.
Eu falava demais, não é?
Então tá.
O jogo da mudez pode ser jogado por duas pessoas, cretino.
Caminhei em direção a ele, desviando dos montes de cabides e roupas no caminho com facilidade. Quando me viu chegando, parou de andar e esperou que eu fosse até ele.
Arqueei uma sobrancelha quando parei a poucos centímetros de distância de onde ele estava.
— Sim?
Cruzei os braços em frente ao peito e comecei a bater o pé enquanto esperava uma resposta. Ele estreitou os olhos e me olhou por um tempo. Fiquei quieta.
— Preciso de outro paletó.
Apenas me virei e comecei a andar em direção a arara que havia mostrado ao cliente na primeira vez em que ele aparecera. Não me preocupei em olhar para trás dessa vez, nem em perguntar se ele havia mudado de ideia sobre o estilo de paletó.
Empurrei com força todas as opções que ele ignorara na segunda e peguei os modelos que ele rejeitara, de propósito. A intenção era fazê-lo passar um bom tempo naquela sala comigo fazendo nada se não o ignorando.
Fala demais. Fala demais meu nariz!
O som de meus passos me lembrou muito de Ume poucos segundos antes, quando estava fula da vida com Sato. Eu não devia ficar tão paranoica com a opinião de um estranho, mas era justamente o fato de ele ter falado mal de mim sem nem me conhecer que me deixava furiosa.
Ok, o objetivo da folha de avaliação era avaliar os funcionários, mas poxa, ele podia ter sido mais gentil.
Abri a porta da sala com força, indo até a mesa e largando os paletós. Tomei distância, me encostando na parede e passando a observar minhas unhas.
Mentira. Eu só estava fingindo. Na verdade, eu esperei o cliente virar de costas para poder observá-lo.
Como um homem tão bonito podia ser tão... tão... tão? Devia ser do tipo bonito que sabe que é bonito. Este é o pior tipo de homem que existe.
Eu não reparara no que ele vestia quando entrara na loja: os mesmos tênis pretos, uma calça mais escura do que a outra e uma camisa jeans com o primeiro botão aberto e as mangas arregaçadas até metade do braço. Os cabelos estavam presos em um rabo baixo, algumas mechas caindo no rosto sério.
Ele ponderou sobre qual paletó escolher primeiro por um bom tempo, e acabou escolhendo um de corte inglês. O modelo era lindo: possuía duas fendas no fundo, e o corte era mais solto. Tinha bolsos com abas em ambos os lados e os ombros não eram tão estruturados.
Claro que eu não diria isso a ele.
O cliente se olhou no espelho e despiu a peça. Caminhou até mim e a estendeu em minha direção.
Sério? Tão rápido?
— Número maior.
É claro. Os ombros largos.
Saí da sala e fui até os paletós a procura de um número maior para o modelo escolhido. Achei e quando me virei para voltar, dei de cara com Ume.
— O bonitão está de volta? — ela sussurrou. Assenti.
— Outro paletó. — balancei a peça que estava em minhas mãos.
— Quem diabos compra dois paletós na mesma semana?
— Eu sei lá. — resmunguei. — Pelo menos vou ter a oportunidade de me vingar do nojento.
— Kagome, não faça besteira. — ela me repreendeu. — Ele não sabe que você leu a avaliação—
— Exatamente. Eu falo demais? Não é o que está acontecendo hoje.
Ume apenas balançou a cabeça, incrédula. Ela me deu passagem e eu voltei até a sala onde o cliente me esperava. Entreguei o paletó em suas mãos, sem olhar em seus olhos, e me afastei, voltando a mesma posição de antes.
Ele não provou o paletó dessa vez. Apenas o dobrou cuidadosamente e o ofereceu de volta para mim.
Peguei o paletó na mão e rumei para a saída da sala. Fizemos o caminho até o caixa no maior silêncio possível. Akite estava disponível novamente e eu larguei o paletó em cima do balcão.
Virei-me para o cliente e o encarei.
— Tenha um bom dia, senhor…
Quando ironizei a palavra "senhor", nunca pensei que teria uma resposta:
— Taisho. — ele murmurou. — Sesshoumaru Taisho.
Fiz o máximo que pude para controlar a minha surpresa e creio que consegui. Assenti, pigarreando numa tentativa absurda de prevenir minha voz de sair esganiçada, mas no fim acabei por dar batidinhas com o dedo indicador na plaquinha pendurada em minha camisa, indicando meu nome.
— ...Taisho. — completei a frase, para não parecer uma boboca.
Eu me virei e andei em direção a sala em que estivéramos para recolher os paletós de cima da mesa. Tinha um sorriso convencido no rosto e estava me sentindo muito bem por ter conseguido descobrir o nome do bonitão detestável.
Sesshoumaru Taisho.
Aquele nome soava familiar. Apenas balancei a cabeça, mandando embora todos os pensamentos sobre Sesshoumaru. Eu havia tido minha vingancinha e tivera o bônus de vê-lo se apresentar para mim.
Já disse que adoro sextas-feiras?
Olá! :D
Estou postando antes porque tenho internet aqui no apartamento (e porque quando eu chegar em casa amanhã, a única coisa que vou fazer é dormir).
Obrigada pelas reviews, gente s2 Acho que o próximo capítulo vem sábado!
Beijos, mamãe ama vocês.
