Nova Escuridão

Ato III - Densetsu

Itálico: pensamentos.

A luz das velas iluminando os corpos que dançavam sob o suave som dos violinos, casais que iam e vinham, girando, sorrindo, nos passos da dança. Seus olhos atentos a todo e qualquer movimento, seus ouvidos recebendo cada mudança de tom na melodia, sua intuição dizendo-lhe que aquela noite seria uma noite diferente, marcante, especial.

Suas íris vermelhas observavam todo o salão, desde o teto tingido de amarelo pelo fogo das velas espalhadas, passando pelas paredes que, feitas de vidro, se transformavam em janelas, proporcionando uma bela visão da paisagem ao redor sob a luz do luar, até o chão de madeira, onde ecoava o som dos passos dos dançarinos.

Seu corpo se moveu por vontade própria, andando em passos lentos e silenciosos pelo salão, desviando habilmente dos corpos dançantes e dos castiçais que guardavam as velas. Não sabia ao certo para onde ia, apenas sentia como se uma energia o envolvesse e o fizesse caminhar no meio daqueles corpos que, aos seus sentimentos, pareciam fantasmas vazios dançando em comemoração a alguma ironia da vida.

De repente, em meio aos fantasmas bailando, seus olhos vermelhos acharam a imagem de uma sombra próxima à uma das janelas. Logo reconheceu a sombra como o dono da festa, Sephiroth, o homem que diziam ser uma demônio. Seu olhar vagou por todo o corpo de Sephiroth. Se aquilo era um demônio, ele não queria imaginar como seria um anjo! Aquele homem possuía uma beleza hipnotizante que o impedia de desviar o olhar. A pele, absolutamente pálida, brilhava tocada pela lua. As vestes negras acentuavam a beleza e a palidez daquela pele e daquele corpo. Corpo este, que era tocado por longos fios que oscilavam entre o preto e o prata absolutos, ao mesmo tempo destacando e escondendo os belos e profundos olhos verdes que aquele homem possuía. Olhos verdes que brilhavam de um jeito diferente, um jeito que pairava entre o divertido e o luxurioso, olhando-o, observando-o de uma maneira que ele percebia claramente, mas ao mesmo tempo não registrava, como se anulasse a capacidade que ele possuía de perceber e fugir daquele olhar. Abaixo dos olhos se encontrava o nariz fino e delicado e abaixo deste, a boca que, sorrindo da maneira divertida e maliciosa como sorria, se tornava altamente sensual.

Observou os lábios finos e vermelhos se abrirem para tocar a taça de cristal, que a mão pálida levava em direção aos mesmos, e sorverem o líquido vermelho que ali se encontrava. Em poucos instantes a taça foi deixada de lado, depositada em uma mesa ali perto, e o corpo pálido deu um passo para frente e foi aí que notou o quanto estavam próximos. Seu corpo o levara para tão perto de Sephiroth e ele nem notara! Com um único passo, o dono dos olhos verdes diminuíra a distância entre eles para apenas alguns centímetros.

Assim, tão perto, pôde notar o verdadeiro brilho e a verdadeira profundidade daqueles olhos. Aquele homem, Sephiroth, era diferente de todo e qualquer homem que já visto ou conhecido. Era como se uma energia o envolvesse, o tornando extremamente encantador, fascinante. Talvez ele realmente fosse um demônio. Embora sua aparência o fizesse parecer mais um anjo...

- Sephiroth. - ele sorriu, os olhos verdes fixos em seus olhos vermelhos.

- Vincent. Vincent Valentine. - respondeu lentamente, ainda atordoado, hipnotizado.

- Valentine. Já ouvi muito a respeito de sua família, Sr. Valentine. - a voz suave e forte ao mesmo tempo demonstrava a força que aquele homem possuía.

- Digo-lhe o mesmo.

- Apreciando o baile, Vincent? - Sephiroth sorria de maneira divertida, como se estivesse apreciando um jogo do qual só ele tinha conhecimento de que acontecia.

- Sim. - aos poucos conseguia sair do estado de torpor e recuperar seu auto controle.

Nem um pouco.

- Tem certeza? - o sorriso nos lábios de Sephiroth aumentou.

- Absoluta. Por quê? - o dono dos olhos vermelhos não entendera o significado da pergunta.

- Porque, pelo seu olhar, diria que acha esse baile um tanto quanto enfadonho.

Desviou o olhar. Sephiroth estava certo. Aquele homem... conseguia ler sua mente?

- Por falar em olhos - o dono dos olhos verdes começou - Você tem belos olhos, Vincent. Eles tem um brilho quase sobrenatural.

- Obrigado.

Mas nem mesmo por isso me chamam de demônio como chamam você.

- Com certeza não. - Sephiroth comentou em tom baixo.

- Como? - Vincent não conseguira entender a última fala do outro homem.

- Nada. - um sorriso cordial começou a se desenhar nos lábios vermelhos. - Já que não está apreciando o baile, o que me diz de um passeio, Sr. Valentine?

- Passeio?

- Sim. Pelos jardins. O que me diz?

Vincent ficou alguns segundos de silêncio.

- Claro. - aceitou o convite.

- Ótimo. - o sorriso cordial se tornou satisfeito.

- x -

Caminharam lado a lado para fora do salão. Ao chegarem ao jardim, pôde sentir o vento frio soprar e acariciar seus longos cabelos prateados. Seus olhos verdes sempre atentos a qualquer movimento feito por seu acompanhante. Desde os passos lentos até o olhar vermelho sempre dirigido a lua. Ele parecia gostar do astro prateado. Fazia muito tempo que observava aquele rapaz. Vira-o pela primeira vez quando ele era apenas uma pequena criança de pele clara, cabelos negros e belos e hipnotizantes olhos vermelhos. Uma doce e inocente criança que logo conquistou sua atenção. A atenção dele, que era chamado de demônio por quase todos que moravam naquela cidade. O chamavam de demônio e o temiam, mas ainda assim compareciam a seus bailes, as suas festas e aos seus jantares. Humanos! Criaturas tão incompreensíveis!Mas ele não se importava. Não ligava para nenhum deles. Dava bailes e jantares apenas por diversão. Não se importava com ninguém. Isso é, até uma criança de olhos vermelhos cruzar seu caminho. O tempo passara e a criança era agora um homem, mas ainda era uma criança se comparado a ele. Ele, que já vivera longos e solitários cinco séculos. Mas quem sabe, agora ele conseguiria uma companhia? E ele desejava a companhia de uma pessoa.

Tocou o braço alheio, sobre o casaco negro, chamando a atenção do dono dos olhos vermelhos. Com um movimento da mão indicou que deveriam seguir pelo caminho da lateral do salão. Guiou Vincent até uma área mais alta do jardim, onde se tinha uma visão do topo do salão e da rua a frente dele. Sentou na grama, puxando o braço, que não largara durante todo o percurso, convidando o outro a sentar-se ao seu lado. Foi prontamente atendido.

Naquele lugar, eles também tinham uma bela visão do céu noturno e da lua cheia. E mais uma vez seus olhos verdes contemplaram os olhos vermelhos se dirigem para o astro prateado.

- Você realmente gosta da lua, não é? - perguntou com uma voz suave.

Os olhos vermelhos imediatamente voltaram-se para si, mas logo desviaram em uma atitude de constrangimento.

- Sim, eu gosto.

- Eu também. A Rainha da Noite é como uma mãe para mim.

Viu os olhos vermelhos olharem em sua direção, um brilho de confusão presente em meio ao vermelho. Aqueles olhos sob a luz do luar ficavam ainda mais belos, ainda mais hipnotizantes. Tocou com suavidade a pele clara, deslizando seus dedos sobre a bochecha, sentindo a maciez da cútis quente sob seu frio toque. Viu o brilho de confusão ficar mais presente na face jovem. Aquela criança, a sua criança. Tão bela! Deixou que sua mão descesse até o pescoço, sentindo a pulsação do moreno sob seus dedos. O som do sangue correndo despertando em si o desejo, fazendo o palpitar em seu peito. O desejo que reprimira durante tantos anos, o desejo por aquele sangue, o desejo pela sua criança. Sua e de ninguém mais!

Aproximou o rosto da face confusa, seu toque cada vez mais firme sobre o pescoço claro. Permaneceu parado, aproveitando a proximidade, a barreira tão frágil entre os dois se despedaçando. Ah, e a aceitação da sua criança! Nenhum movimento era feito pelo moreno e essa espécie de aceitação só fazia seu desejo aumentar. Aumentar até o ponto em que ele não pudesse mais suportar e tomar aqueles lábios vermelhos para si fosse a única coisa sensata a se fazer.

- x -

Sentiu os lábios sobre os seus e não conseguiu reagir como não conseguira reagir diante das outras carícias. O toque daquele homem era frio como o gelo e os lábios sobre o seus também era frios. Aquele homem exalava frieza, mas não era esse o fato estranho. Era o fato de não conseguir reagir, de não conseguir negar, de querer apenas se entregar. Não negaria que se interessara por Sephiroth no momento em que o vira, o problema era que ele não era exatamente esse tipo de pessoa. Não que ele não desejasse ter alguém, não era isso, ele até queria alguém, o problema era se entregar, perder o controle sobre os próprios sentimentos, depender de outra pessoa, ele apenas não conseguia fazer isso. Mas Sephiroth.... Sephiroth o fazia querer se entregar e o fazia de tal forma que o assustava. Aquele homem tinha o dom de transformar um medo em um desejo, um toque em um pecado. Pecado era o que sentia vindo do dono dos olhos verdes. Pecado. E como tudo o que é proibido, aquele pecado parecia deveras tentador. E ele não conseguia fazer nada além de se entregar.

- Não pense. Não reflita. Sinta.

A voz grave sussurrada contra sua orelha e a respiração um pouco acelerada faziam arrepios correrem por sua coluna. Logo, ele sentia mais toques sendo distribuídos por sua pele: lábios deslizando por seu pescoço, dentes mordendo sua pele levemente, mãos correndo por seu tronco, dedos segurando sua cintura possessivamente. Toques frios, mas intensos como o fogo.

Deus, aquele homem realmente era o demônio!

- x -

Sabia a confusão que se passava pela cabeça do rapaz em seus braços, podia senti-la, mas não deixaria que ele aproveitasse dela. O faria esquecer suas dúvidas e seus temores. O queria para si e o teria, não importava o que isso fosse custar depois.

Fechou os olhos e se concentrou. O jardim não era o lugar apropriado para o que ele tinha em mente.

- x -

Piscou várias vezes tentando entender o que acontecera. Em um minuto ele estava olhando para lua cheia enquanto sentia os toques de Sephiroth em seu corpo. No outro encarava o teto do que parecia ser um quarto. Acha isso porque sentia o colchão sob seu corpo assim como os lençóis macios. Como eles foram parar ali?!

- Não pense.

Novamente o mesmo pedido. Pedido que soava como ordem tal era a força com que era falado. Mesmo o tom de voz sendo suave ele sentia a força por trás das palavras. Talvez ele tivesse razão, talvez fosse melhor não pensar, talvez fosse melhor apenas sentir.

E ele sentiu. Sentiu arrepios quando o frio do corpo de Sephiroth se chocou com o calor do seu próprio corpo. Sentiu calor quando os lábios vermelhos marcaram sua pele. Sentiu frio quando as mãos pálidas e geladas retiraram sua roupa e a roupa do próprio dono. Sentiu medo e calma quando aquele homem entrou em seu corpo. E sentiu algo estranho, algo que não conseguiu entender quando olhou nos olhos verdes de Sephiroth: sentiu dor. Sentiu solidão quando foi abraçado. Sentiu desespero quando foi beijado. E quando tudo terminou, sentiu tristeza. Mas bastou olhar para Sephiroth depois do fim para entender. O que havia sentido era o que Sephiroth sentia. Ele, com seus toques, mostrara, o fizera sentir tudo aquilo que sentia. Só que ele não precisava sentir para entender. Secretamente, ele também se sentia triste, desesperado, sozinho.

No final. ele e Sephiroth não eram diferentes.

- x -

Um beijo vindo do dono dos olhos vermelhos foi o suficiente para ele saber que tinha conseguido. Vincent havia entendido o que ele quisera mostrar. Sorriu acariciando o pescoço claro enquanto olhava diretamente nas íris vermelhas. Faltava ainda mais uma coisa para mostrar.

- x -

Sua respiração estava acelerada e ele se sentia cansado, mas ele ainda podia sentir aqueles lábios finos e macios em contato com a pele de seu pescoço, deslizando por ela, se abrindo para dar espaço aos dentes pontiagudos que perfuravam sua carne e levavam seu sangue direto para aquela boca perfeita. As mãos que deslizavam firmes por todo o seu corpo, o segurando, o apertando. A pressão daquela boca em seu pescoço drenava todas as suas forças. Ele estava completamente entregue aquele homem. Totalmente perdido naqueles toques. O afastar dos lábios lhe trouxe a sensação de vazio. A visão daqueles dentes mordendo os lábios finos e o sangue vermelho escorrendo lhe trouxe a sensação de quente, como se queimasse no fogo. No fogo da pecado. Os lábios vermelhos logo tomaram seus próprios lábios em um beijo profundo, forte, o sangue do anjo caído sendo colocado em sua boca e escorregando por sua garganta, o aquecendo. Era bom demais. Tudo, todas as sensações eram tão fortes! Tão profundas! Quando o beijo findou sentiu a escuridão o abraçando e o levando para longe daquele homem. Para longe de tudo.

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Acariciou os fios negros deslizando seus dedos até o rosto belo e adormecido. Escolhera bem. Era daquela criança que ele precisava, era aquela criança que por tanto tempo ele havia desejado. Sua companhia para a eternidade. Mas apesar de tudo, Vincent ainda era uma criança. Ele precisava crescer. Só assim poderia ficar ao seu lado.

- x -

300 anos depois

Acordou com os últimos raios do sol tocando seu rosto. Instintivamente colocou a mão sobre a face para se proteger. Foi quando notou que não estava sentindo dor. Olhou para a própria mão, intacta. Os raios do sol não o machucavam. Levantou do colo de Sephiroth, onde estava deitado, e se dirigiu para a janela do quarto.

Através do vidro, pôde ver o sol se pondo no horizonte. Os raios solares não o incomodavam. Abriu o vidro e colocou a mão para fora. Imediatamente sentiu sua pele queimar com o toque do sol. Tirou-a do sol e trancou a janela. Abaixou o olhar para a mão e viu a pele queimada começando a cicatrizar. E entendeu. Havia algo nos vidros que impedia que os raios solares atingissem aqueles que estavam dentro do quatro, protegendo-os.

Suspirou. Sua mão já estava completamente curada. Se afastou da janela, andando pelo quarto e pegando suas roupas, vestindo-as. Quando terminou de se vestir se dirigiu para a saída da aposento, mas antes de sair olhou para Sephiroth ainda adormecido. Sonhara com a noite em que o conhecera. E o sonho o fizera lembrar de uma coisa que já tinha esquecido: embora parecessem totalmente diferentes, ele e Sephiroth eram completamente iguais.

Sozinhos na eternidade.

Eles eram lendas. Lendas vivas.

- x -

Notas da Autora: Me desculpem pela demora.

Densetsu = Lenda

Espero que tenham gostado desse capítulo "flashback" ^_^

Um aviso para quem pediu que eu não fizesse os vampirinhos brilharem no sol: como vocês viram meus vampiros queimamno sol não brilham que nem o Orochimaru em dia de Parada Gay (vulgo purpurina) u.û

Nah, agora é sério: eu odiei aquela ceninha de vampiro brilhando no sol! Nada contra quem gostou, mas eu, como fã de vampiros, odiei. ¬¬

Agora:

Por favor, deixem reviews. Críticas e sugestões são sempre bem vindas, obrigada. E o que que custa hein? Deixar um reviewzinho para uma autora baka que nem eu? Lembre-se: deixar review faz bem ao coração! Ao meu e ao seu.

Arigatou Minna-san.

Lavi Black.