Notas da autora: Esse capítulo iria ser postado originalmente como o capítulo 2, mas por alguma razão eu acabei deixando a ideia em segundo plano.

# Agradecimentos especiais à Anamateia (que me permitiu o uso dos Ocs), Xia M, Natacha S., W-chan e J.S. (quem me deram a maior força) e também à minha querida insônia.

# Bakuten Shoot Beyblade não me pertence; a fanfic não possui nenhum fim lucrativo.

# Ana Haika e Carter pertencem única e exclusivamente à Anamateia.

# Ana x Kai.

# Hurt/Confort.

# Fluffy.

# Menções das cenas do capítulo 95 de Beyblade – O Retorno.

# Kai centred.

Boa leitura.

VII

Ele viu a multidão passar, como se ainda estivesse no distrito, ele via as pessoas passarem, tocando suas vestes, esbarrando e roçando e ele não conseguia sair do lugar. Olhou para baixo e não viu seus pés e não viu o chão. Olhou para cima e não viu o céu, que dirá a cor que teria àquela altura.

E tudo parecia tão certo.

Tão certo que quando tudo desapareceu, ele apenas respirou.

Ele a viu ali, sabia que ela estava lá, sempre esteve. Não recordava corretamente de seu rosto, a única lembrança viva em sua memória eram os cabelos platinados. Sua imagem tremulava como se uma brisa passasse por um pedaço de papel, se contorcia e desaparecia. E uma parte dele ia junto. Assim como a peça de acortinado ao seu lado, os olhos verdes e profundos, cheios de ressentimento e tristeza. Como o luto que havia experimentado um milhão de anos atrás, com a chama da vida extinguida com seis balas.

Aquele homem também havia começado a surgir, como uma luz quentinha e gentil. Mas ele permanecia. Como se o concreto o colasse em sua frente. O rosto afável e sorridente. Era um sentimento quente que apertava seu coração aos poucos, prendia sua respiração e ele não podia afastar seus olhos dele, temendo desaparecer. Não podia desaparecer. Ele não podia. Pelo menos não ele.

VIII

Quando ele a apertou, encrustando as unhas em sua pele, Ana se sentiu um pouco incomodada, principalmente por ser cinco e meia da madrugada. Quando a respiração se tornou forçosa, ela se alarmou, mas quando as lágrimas começaram a correr e o rosto se contorceu, desesperado, Ana estava beirando o pânico.

- Mas que porra...?

De alguma maneira ela conseguiu se desprender de seu agarre, mas sentir a ponta dos dedos gelados a preocupou em certo grau.

- Kai. – ela afastou os fios da testa quente e suada. Droga, ele tá com febre. – Hey.

Ela se ergueu sobre ele, tocando-lhe a face trêmula e pálida do jovem e juntou os lábios no que apenas poderia ser chamado beijo, cortando um pouco a fonte de oxigênio do rapaz. O corpo convulsionou antes de o bicolor abrir os olhos lentamente. Ana se separou e esperou ele se acalmar.

- Ana... O que...?

- Você 'tava tendo um pesadelo. – enxugou as lágrimas gentilmente.

Kai demorou um pouco para entender que aquelas lágrimas eram suas, apesar de aquilo não ser particularmente anormal. Fala sério.

A ruiva não se surpreendeu, durante o tempo que passaram juntos ela havia percebido que o bicolor era tão frágil como qualquer um e com motivos. Às vezes ela se surpreendia em como ele conseguia camuflar todos aqueles demônios em sua fortaleza, diferente dele ela não era tão indestrutível, mas ela se sentia feliz por ser a única quem conhecia essa faceta dele, por ele deixar-se saber apenas por ser ela.

- Vou pegar algo pra 'tu tomar.

Ela se afastou um pouco, mas Kai a trouxe de volta com certa exasperação.

- Não precisa.

Ele deslizou os dedos pelo antebraço da garota, roçando as marcas que havia deixado.

- Te machuquei. – roçou os lábios na região afetada.

- 'Tá tudo bem. – beijou-lhe a bochecha na linha de uma lágrima invisível. – 'Tá tudo bem. – repetiu.

Ele apenas acenou, comprimindo o corpo da garota um pouco mais, apenas um pouco mais.

IX

Kai planejava apenas caminhar pela cidade enquanto Ana passava o dia na tenda de peças do velho Yeung, a quem deixara a parte "didática" do beyblade por conta de seu neto e velho amigo, mas qual havia sido a surpresa do jovem ao perceber onde seus passos o haviam guiado.

Ele adentrou ao cemitério com certa lentidão, os passos afundavam vagarosos na neve e o ar pareceu por eternos instantes ficar mais denso à medida que ele contava os passos restantes até chegar àquela sepultura.

Ele se agachou afastando o acúmulo de neve que o impedia de ver o nome de sua progenitora.

Lilian Hiwatari.

Ele encarou o túmulo por alguns segundos até se voltar ao sepulcro ao lado. Baixou a cabeça tentando não pensar muito sobre a última perda.

- É raro te ver por aqui.

A voz grave e estoica se fez notar sem que o bicolor percebesse sequer a sua aproximação. Para Kai não fez falta se virar para saber que era Carter. O homem se abaixou retirando o montinho de neve deixando à vista o nome do pai, depositando os crisântemos brancos em seguida.

O bicolor não pronunciou nenhuma palavra, havia algum tempo que ele reconhecia o homem como seu pai, mas custava agir como seu filho, ele simplesmente não sabia como deveria se comportar, não depois de tantos anos sem aquele tipo de contato.

- Sente a falta deles?

Kai abriu a boca, pronto para soltar a resposta fabricada de sempre, mas ponderou.

"- Você tem a péssima mania de se fechar ainda mais, quando algo ruim acontece."

- Um pouco. É meio estranho.

- O que quer dizer? – Carter estava mais curioso com o fato de Kai não tê-lo cortado com alguma resposta seca ou o seu abençoado "Hn".

- Falo do Sr. Dickinson. Ele sempre agiu como um avô. Acho que mesmo se não soubesse eu o teria considerado como tal. – se encolheu ligeiramente, escondendo o rosto entre os braços aparentemente cansado.

O homem se abaixou e lhe afagou os cabelos como consolo, ao que Kai não pareceu incomodado.

- Também sinto a falta deles. Mas eu quero que você saiba que também estou aqui.

Kai pareceu respirar fundo e apenas fez um leve sinal com a cabeça. Aquilo bastou para Carter que já estava feliz por ter compartilhado aquele breve momento com o filho.

Omake

Kai chegou ao apartamento quase se arrastando, como se acabasse voltado de uma maratona. Ele se apoiou na porta deslizando sobre ela até alcançar o chão. Ouviu os passos se aproximando, estranhando a ruiva ter chegado antes, quando normalmente voltava depois do meio dia.

As mãos quentes da ruiva tocaram sutis suas bochechas quentes, levemente avermelhadas.

- Eu disse pra tu não sair, ainda está nevando. – Haika separou a franja farta da testa suada se deparando com a expressão abatida do bicolor.

Ana não precisava perguntar, ela sabia onde Kai havia ido, mas ela sinceramente gostaria que ele evitasse ir lá.

- Já volto.

Ela caminhou com pressa até a cozinha onde o bicolor distinguiu o barulho de cartelas de remédio e o cheiro de café expresso. Ana se situou à frente levando o comprimido diretamente à boca e lhe passando o copo de plástico.

- Tu não comeu nada. – se preocupou ao ver Kai apenas bebericar o café.

- Eu estou bem. Eu só... – respirou profundamente, o exalar saiu lento fazendo tremer os ombros. – Só quero que você fique aqui, comigo.

Ana não pôde deixar de sorrir um pouquinho, não raro ela se deparava com aquela faceta que beirava o infantil, e se o que lhe impetrava era dar uma de mãe, que mais poderia fazer?

Ela se posicionou em suas pernas, onde um pouco incômoda pela posição conseguiu o abraçar de um modo meio torto, sentindo o calor febril do outro. Kai retribuiu o abraço com mais necessidade do que gostaria de demonstrar, mas sabia que estava tudo bem desde que fosse a ruiva, Ana era tudo o que ele precisava.

- Bebezão. – brincou.

- Cale-se.

...

...

Remate.

...

Notas finais: a ideia se desviou um pouco, eu não havia planejado o fluffy, mas ele simplesmente se intrometeu. Vou logo me desculpando com a Ana por ter dito que terminaria rápido, mas coisas aconteceram e agora que terminei tudo que eu quero é dormir, ou entrar em coma, dá no mesmo.

Não pretendo alargar essa fanfic, eu originalmente planejava uma one-shot, no máximo two-shot, mas algumas pessoas pareceram querer uma continuação e eu ainda tinha ideias, que agora estão meio escassas.

Aos que acompanharam, meus eternos agradecimentos.

Bey-jos e até.