A semente estava plantada e Bella não podia afastar seu pensamento do assunto. Sua
mãe tinha caçoado a respeito da possibilidade de embarcar sorrateiramente, mas no que havia dito
tinha um pequeno grão para germinar, e era impossível ignorá-lo. Rénne tinha audácia suficiente
para essa aventura, pois antes tinha protagonizado episódios mais temerários. Por acaso não tinha
percorrido o fiorde no mais cruel do inverno para regressar a Charlie depois que a roubaram,
antes de casar-se? Bella podia ser igualmente temerária. Podia conservar sua liberdade e evitar
Mike ao mesmo tempo, e isso seria uma aventura. O que excitava era precisamente o pensamento
da aventura.
A idéia tinha um só problema. Tinham lhe proibido de ir, e quando regressasse enfrentaria
uma situação infernal. Mas em seu entusiasmo, Bella recusou pensar nisso, e também não
permitiu que Jéssica se detivesse no tema quando soube o que ela propunha fazer. Jéssica se
surpreendeu, mas em todo caso, tinha perdido seu gosto pela aventura quando mal saiu da
meninice. Mas esse não era o caso de Bella.
As jovens estavam no andar de cima, na casa de Bella; era o único lugar que permitia
separar-se da festa de despedida que se celebrava lá embaixo. Essa noite a tripulação dormiria na
sala. Jéssica tinha ido com seu pai para despedir-se de seu irmão Jacob, pois ele tinha estado ali
nos últimos dias para ajudar nos preparativos. Bella se alegrava de que ele fosse membro da
tripulação, pois eram amigos íntimos. Inclusive tinha tentado ensinar a Jacob algumas das
línguas que ela tinha aprendido quando ambos eram mais jovens, ainda que tivesse tropeçado
com o inconveniente de que o jovem não era um aluno muito disposto. Jacob provavelmente era
o único que defenderia Bella quando Jasper e seus três primos, que também eram membros da
tripulação, começassem a reaprendê-la por sua temeridade.
Certamente, Jasper se irritaria, e o mesmo poderia dizer-se dos primos Jared, Paul, e
Sam, o mais velho dos três. Mas se estivessem bem longe de terra quando ela fosse descoberta,
e não houvesse possibilidades de devolvê-la, todos se acalmariam depois de descarregar sua
cólera sobre ela. No máximo a xingariam, pois ninguém se atreveria a pôr-lhe a mão em cima;
sabiam que não era uma moça disposta a suportar os golpes sem fazer o possível para devolvê-los.
— Por que, Bella? – perguntou Jéssica quando soube dos seus planos — Sua mãe sofrerá.
Seu pai sem dúvida se encarregará de.... – fez uma pausa e se estremeceu. – Temo pensar no que
fará.
Bella sorriu à jovem de corpo mais miúdo.
— Não fará nada até que eu regresse. E minha mãe nunca chora. Não se preocupará por
mim se você explicar onde estou. Suspeitará do que fiz quando não puder me achar, mas se
inquietará enquanto não souber onde estou. Por isso confiei em você.
— Oxalá tivesse confiado em outra pessoa! Seu pai se enfurecerá.
— Mas não contigo, Jéssica. E deve prometer-me que dirá amanhã que parti com Jasper, antes
que comecem a inquietar-se.
— O farei, Bella, mas ainda não entendo por que deseja desafiá-los. Antes nunca quis
navegar com seu irmão.
— Ora, quis fazê-lo, mas nunca contemplei a possibilidade de pedi-lo. E com respeito à
razão, advirto-a que esta é minha última possibilidade de navegar com Jasper. No próximo ano
meu pai me levará ao sul para encontrar um marido... Se não encontrar um eu mesma em Hedeby
– agregou com um sorriso.
— Falava sério quando disse que procuraria marido longe daqui? – perguntou assombrada
Jéssica.
— Acreditou que eu caçoava?
— Claro que sim. Significaria viver longe daqui, longe de seus pais.
— Não importa com quem me case, sempre terei que sair deste lugar.
— Mas se casasse com Eric, viveria perto de seu lar.
— Mas Jássica, não estaria profundamente apaixonada. Preferiria estar muito apaixonada
ainda que vivesse no longínquo leste. Mas esquece que meu pai é dono de dois grandes barcos e
de outro menor. Acredita que não me visitarão, não importa quão longe esteja?
— Sim, é lógico, irão vê-la. Tinha esquecido isso.
— Bem. De maneira que não tente me fazer mudar de idéia, pois não conseguirá. Desejo
passar maravilhosamente bem, e não me preocuparei com as conseqüências até que regresse. Não
sabe que lugares tão interessantes são as cidades comerciais, pois nunca foi visitá-las. Eu era
pequena quando estive nelas, e me interessavam unicamente as mercadorias que se ofereciam, não
os homens. Mas a esses lugares vão homens de todos os lugares do mundo. Encontrarei o homem
a quem amar, e o trarei para casa comigo, e isso acalmará a cólera de meu pai.
— Se você diz – observou Jéssica com ceticismo.
— Efetivamente. Agora, vamos com eles, pois caso contrário comerão os melhores pedaços
de carne.
Regressaram à sala ruidosa, e ofereceram uma grata visão aos homens turbulentos. Jéssica,
pequena e delicada, mal chegava à altura do ombro de Bella; e Bella era uma moça
excepcionalmente formosa, com sua túnica de seda azul que dissimulava mal o corpo grande, de
curvas generosas, com os pesados braceletes de ouro enfeitando os braços nus.
Eric palmeou o traseiro de Bella quando ela passou perto e a jovem se voltou para
mostrar a língua. O homem a seguiu para castigar seu atrevimento, mas ela o evitou. Bella
desejava que Eric também partisse no barco, mas ele e seus irmãos estavam ajudando seu pai,
Perrín, a agregar algumas habitações à casa que habitavam, e ademais cuidavam das colheitas.
Seu primo Sam a reteve e a agarrou pela cintura para levantá-la no ar e depois a baixou
para dar-lhe um beijo úmido.
— Menina, isso foi para atrair a sorte – disse com voz alcoolizada.
Bella riu. Ele fazia questão de chamá-la de menina ainda que já não o fosse, só porque
tinha dez anos a mais. Seu pai era um dos tios avôs de Kristen. Ele e seus irmãos viviam com
Billy, tios de Kristen. Seu primo irmão Embry não partiria na expedição, pois era o único filho de
Billy, e o tio fazia questão de mantê-lo em sua casa.
— Precisa de sorte para comerciar no leste? – perguntou ela a Sam.
— Um viking sempre precisa de sorte quando navega, não importa aonde vá.
Piscou-lhe um olho depois de comunicar essa informação. Bella mexeu a cabeça. Já tinha
bebido bastante, e a noite era jovem. Teria os olhos avermelhados quando empunhasse os remos,
pela manhã. E ela o compadeceria enquanto esperava em seu refúgio, entre a carga do barco.
— Deixa-a, Sam, antes que morra de fome – gritou alguém.
Sam obedeceu à indicação, mas antes também ele descarregou uma palmada sobre o
traseiro da jovem. Bella lhe dirigiu uma careta, e depois seguiu caminhando ao longo da mesa,
ao redor da qual estava sentada sua família. Nunca tinha entendido por que seu traseiro
provocava tantas palmadas, mas depois de cada banquete terminava com hematomas que durava
a semana inteira. De todos os modos, não lhe importava, porque o faziam com bom humor.
Rodeou a mesa, mas não passou do lugar que ocupava seu pai porque ele estendeu os
braços e a sentou sobre seus joelhos.
— Bells, estás brava comigo?
A olhava com o cenho franzido, mas em realidade era um gesto de inquietude. A mãe já
tinha falado com ele, e novamente tinha recebido uma rejeição; não desejava que a jovem fosse no
barco. Os olhos claros se fixaram nos olhos da mesma cor e ela sorriu, e rodeou com os braços o
pescoço do pai.
— Fiquei alguma vez brava contigo?
— Muitas vezes, segundo posso recordar, e sempre foi quando não te saías com a tua.
Bella se largou a rir.
— Essas vezes não contam.
— Compreendes por que não podes ir com Jasper? – perguntou amavelmente o pai.
— Sim, sei por que não queres que eu vá. – suspirou. – às vezes desejaria ser teu filho varão.
– ao ouvir isto, o homem jogou atrás a cabeça e riu de boa vontade. Ela o olhou com irritação. –
não vejo o que tem isso de divertido.
— Bells, pareces-te tua mãe mais do que crês – disse ele — a metade de sua vida ela fez todo
o possível para ser varão. E me sinto muito agradecido porque tenho uma filha, e tão formosa
como tu.
— Então, me perdoarias se eu... Se fizesse algo que tu não aprovasses?
Ele a olhou sorridente.
— Que classe de pergunta é essa? Fizeste algo?
— Não. – pelo momento, essa era a verdade.
— Então te limitas a supor ? Então supõe que te perdôo praticamente tudo... O que seja
razoável – agregou com uma olhada meio severa e meio divertida.
Ela se inclinou para diante e o beijou.
— Te amo muito – disse baixinho, e como resposta recebeu uma forte beliscão que lhe
cortou o ar e a induziu a gritar:
— Pai! — ele a retirou de seus joelhos com uma palmada e a ordem:
— Consegue um pouco de comer antes que não sobre nada.
A voz era áspera, mas a expressão demonstrava amor. Bella ocupou seu lugar à mesa,
entre a mãe e Jasper, que imediatamente apresentou um jarro de licor fumegante.
— Bells, não estas irritaras, verdade? – perguntou ele — Não preciso recordar tua cara
zangada toda à viagem.
Bella sorriu ao ver que ele se dispunha a encher um prato, pois era raro que ele
procedesse assim à mesa.
— Jasper, me compreendes, verdade?
Jasper emitiu um muxoxo.
— Como se tu permitisses que alguém te compreendesse...
— Não, não o permitiria, de maneira que não o faças. E no máximo, lamentarei ter que me
despedir de ti esta noite porque, a dizer verdade, não desejo ver-te partir sem mim pela manhã.
— Envergonha-te, Bella – brigou Rénne — se desejava que ele se sentisse culpado
porque te deixa aqui, conseguiste-o.
— Tolices – Bella sorriu implacável a Jasper, mas disse a sua mãe — nem sequer sentirei
falta.
Jasper a olhou, pasmo, quando ouviu a expressão desse sentimento tão pouco fraterno, e se
voltou para dizer algo a Embry, sentado em frente. Bella suspirou, pois Jasper ainda não sabia
quão verdadeiras seriam suas palavras, ainda que talvez as recordasse quando visse que tinha
embarcado com o resto da tripulação. Rénne equivocou o sentido do suspiro de Bella.
— Realmente lamentas tanto a decisão de teu pai?
— Mãe, teria sido uma aventura interessante antes de meu casamento – replicou
sinceramente Bella — Tiveste aventuras antes de casar-te, verdade?
— Sim, e também aventuras perigosas.
— Mas uma viagem comercial não é perigosa. E meu pai disse que sou muito parecida com
ti.
— Sim, já o ouvi – sorriu Rénne — e olhe, não se equivocou. Fiz tudo o possível para ser o
filho que meu pai nunca teve. Mas teu pai tem três varões formosos e lhe agrada sua filha única.
Não trates de ser o que és.
— Só desejava a aventura – reconheceu Bella.
— Então, continues desejando-a, porque ela chegará a ti quando menos o esperes.
— Como sucedeu a ti?
— Não lamento a aventura que me trouxe aqui, mas o lamentei então. E com o tempo farás
tua viagem, ainda que teu pai ainda não o saiba – disse Rénne num murmúrio — quando a casa
se tranqüilize, direi que não queres Eric, e isso o decepcionará. Ele e Perrín desejavam muito
essa união.
— Sento isso, mãe.
— Não o sentas, querida. Todos desejam que sejas feliz, e se não podes sê-lo com Eric,
assim são as coisas. Encontrar-te-emos um homem a quem possa amar.
Se eu não o encontrar primeiro, pensou Bella enquanto se inclinava para frente para
despedir-se com um beijo de sua mãe e depois do pai, com a esperança de que ambos
entendessem e perdoassem o que se propunha fazer.
— Quero-te muito, mãe.
