Punishment

Sinopse: Uma punição sempre soa como algo ruim e doloroso. Mas no caso deles ela veio para mudar tudo, para trazer a tão esperada felicidade e para acabar com todo o fingimento e a mentira.

Ela era uma mulher que desejava morrer. E ele era um vampiro que precisava matar. Ele tinha uma punição para cumprir. E ela tinha o que ele mais desejava: A vida.

Essa é a história de quando unimos o útil ao agradável. E quando finalmente uma punição serviu mais como uma salvação.

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- Narração: Isabella Swan. ( Primeira pessoa do singular )

- Punishment: Punição.

- Vampiros, sangue e tudo que se pode extrair do mundo sobrenatural.

- Essa fic foi inspirada em vários seriados vampiricos, portanto não estranhe se fugir um pouco das habilidades e características dos vampiros de Stephenie Meyer. Aqui você irá encontrar um pouquinho de tudo: Twilight, True Blood e até mesmo The Vampire Diaries.


A consciência foi voltando lentamente. E junto com ela vieram dores, muitas dores. Abri os olhos, mesmo sabendo que quase não era capaz de fazer. Meu corpo estava pesado e mole.

Eu me sentia incapaz de me mexer.

Percebi que estava deitada em algo confortável e macio. Onde eu estava? O que havia acontecido?

Meus olhos finalmente conseguiram focar alguma coisa. O teto do meu quarto. Ele parecia tão diferente agora. Eu conseguia enxergar seus míseros detalhes, a poeira que ali se concentrava. Tudo.

Era como se tivessem colocado uns óculos em mim. Ou então tivessem acendido as luzes.

- Como está se sentindo? - A voz penetrou nos meus ouvidos fazendo com que eu tivesse um sobressalto.

Virei a minha cabeça em uma velocidade incrível, encontrando aquele homem perfeito sentado na poltrona confortável do meu quarto. Meus olhos percorreram todo o seu corpo e finalmente pararam nos olhos vermelhos que me encaravam brilhando.

Havia uma certa melancolia ali.

E então tudo foi voltando lentamente. Um filme passou em minha cabeça desde o instante que eu pisei para fora de casa. Revivi tudo. Choquei-me mais uma vez. E quando voltei ao presente eu estava arfante.

- Você está morto. - Falei em uma afirmação.

Ele abriu um sorrisinho triste.

- Sim. - Concordou. - E você também.

Nós nunca estamos preparados para essa frase. Ela havia causado um desespero em meu interior e pela primeira vez eu me vi reagindo sem pensar e sem fingir. Era simplesmente automático, como se eu fizesse isso todos os dias.

De repente uma dor aguda invadiu o meu pescoço, fazendo com que eu levasse a mão ao local. Senti uma cicatriz sob meus dedos, enquanto a dor e o prazer eram relembrados pelo meu corpo.

- O que você fez comigo? - Sussurrei assustada.

Ele abaixou a cabeça e levou a mão aos cabelos cor de cobre. Parecia nervoso e infeliz. A culpa era palpável em cada um de seus atos.

- Eu fiz o que era necessário. - Sua voz estava baixa e distante. - Eu fiz o que você me implorava todas as noites: Eu matei você.

Uma sensação estranha de liberdade percorreu o meu corpo. Não me senti triste e nem mesmo com raiva por escutá-lo pronunciar aquelas palavras. Não tinha nenhum rancor ou ressentimento. Na realidade, eu estava aliviada e agradecida.

- Obrigada. - Sussurrei sem que pudesse evitar.

Ele levantou a cabeça instantaneamente e me encarou com o cenho franzido. Conseguia ver a confusão brilhando em seus olhos vermelhos. Levantou-se e juntou-se ao meu lado rapidamente.

- O quê? - Ele perguntou aproximando seu rosto do meu. - Você escutou bem o que eu disse? Eu matei você! Você deve me odiar!

Um sorriso brotou em meus lábios.

- Eu não o odeio. - A verdade saiu de meus lábios tão facilmente quanto as mentiras saíam, porém essa não vinha carregada de culpa e frustração. Era tão bom pronuncia-la em voz alta.

- Você não entende, não é? Não consegue ver o que esta na frente de seus olhos! - Ele estava com os olhos brilhando de raiva. - Eu sou um monstro! E acabei de te transformar em um também!

Revirei os olhos.

- Você é mais dramático do que eu esperava. - Bocejei e esfreguei os olhos com as mãos.

- Um monstro assassino. É isso que você é agora, Isabella. - Ele sussurrou bem próximo ao meu ouvido. - Um monstro sem controle. Sem limites. Insaciável.

Então eu o vi levar mais uma vez o próprio pulso aos lábios e o rasgar com graciosidade. Quando o líquido vermelho escorreu por sua pele pálida senti como se fosse morrer. Minha garganta começou a arder em uma intensidade incrível e eu abri a boca, sentindo uma leve pressão em meus dentes.

Tentei me aproximar e puxar o pulso dele para mais perto de mim, porém não fui bem sucedida.

- Encare a si mesma e diga que não é um monstro. - Então ele estava colocando um espelho bem em frente a minha face.

Eu não era mais a mulher que havia visto refletida há algumas horas atrás. Os meus caninos estavam afiados, meus olhos vermelhos escurecidos e dilatados, o desejo era visível.

E eu também estava mais pálida e bonita. Como se tivesse saído de algum filme de terror.

Observei meus olhos no reflexo se arregalando em choque.

- Um monstro. - Edward sussurrou novamente, enquanto lambia o pulso e fechava o corte que me proporcionava tanta fome. - Uma sanguessuga.

Aos poucos a minha carranca foi se desfazendo na frente do espelho. Depois de alguns segundos de pura concentração os meus dentes retraíram e voltaram ao tamanho normal, assim como meus olhos clarearam um pouco.

Dei um tapa na mão dele tirando o espelho de seus dedos.

- É isso o que eu sou agora? Uma vampira? - Senti que o meu cenho se franzia.

- Sim.

O cansaço começou a falar mais alto do que a curiosidade. Fechei os olhos por um instante e soltei um longo suspiro.

- Pensei que vampiros fossem fortes e invencíveis. Foi isso que li sobre eles. Mas eu estou tão cansada e frágil.

Ele soltou um risinho e passou a mão em minha bochecha. Sua pele não era mais fria sob a minha.

- Você é muito jovem ainda. Tem apenas algumas horas de vida. É normal. - Começou a acariciar os meus cabelos. - Seu corpo ainda não se acostumou com a transformação.

Soltei um longo suspiro e fechei os olhos.

- Temos que inventar um acidente. - Ele falou com a voz alta e clara.

- Acidente?

- Eles precisam descobrir que você morreu. Precisa ter algum motivo para isso, certo?

- Ah, sim. - A imagem deles voltou a minha mente e me fez estremecer. Eu não queria vê-los. Eu não queria nem ao menos lembrar-me deles. - Talvez o meu fogão pudesse ter explodido enquanto eu fazia um jantar pro meu noivo querido.

Um sorriso maligno surgiu em meus lábios. Escutei o risinho de Edward.

- Depois eu sou o dramático.

- Não deixa de ser uma boa idéia. - Falei com a voz rouca e arrastada.

Ele riu mais uma vez.

- Não mesmo.

O cansaço agora era insuportável. Sentia que estava cada vez mais distante da realidade. Tentava não apagar. Tinha tantas perguntas para fazer. Tantas dúvidas a esclarecer.

- Isso não vai dar certo. Eu sabia que ele não viria. - Sussurrei de repente. - Não tem motivo para eu estar fazendo um jantar.

- Não se preocupe, Bella. Eu cuido desses detalhes. - Ele sussurrou em meu ouvido. Senti meu corpo mais mole. - Descanse.

Ele não precisou falar novamente. Por mais que fosse o meu assassino, eu confiava nele. Por que não confiaria na pessoa - ou melhor, no ser - que havia me tirado do pesadelo que era a minha vida?

Eu lhe devia muito. E descobriria uma forma de pagar.

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Ouvi o vento chiando de longe. Meu corpo foi começando a reagir aos poucos. Minha mente foi ligando os setores um de cada vez. Quando já estava praticamente consciente percebi que não respirava.

Puxei o ar com força como se eu precisasse dele. Cheiros estranhos invadiram o meu interior e me deixaram em um estado de alerta. Os meus olhos abriram instantaneamente. Mais nenhum membro de meu corpo se mexia.

Eu estava em um local diferente de todos que eu já havia estado. Passei a analisá-lo ainda parada, só os meus olhos se mexiam na escuridão, conhecendo, explorando. Parecia ser uma construção bem antiga, utilizando a decoração de séculos passados.

Tudo era uma antiguidade e parecia que quebraria ao simples toque.

Senti a presença dele muito antes de vê-lo. Algo em meu organismo o reconhecia, fazia com que eu o sentisse. A minha cicatriz no meu pescoço começou a formigar e eu levei a mão ao local.

Senti novamente a sua textura e a lembrança do prazer e da dor logo voltaram ao meu corpo, causando leves espasmos.

- Isso nunca vai sumir? - Perguntei com a voz mais forte e melodiosa do que antes.

- Não. - Sempre quando eu ouvia a voz dele era uma surpresa agradável. Acho que nunca conseguiria me acostumar com a sua perfeição. - Todos nós levamos conosco a marca de nossa transformação para que nunca a esqueçamos.

Virei o meu rosto e encontrei os seus olhos com os meus. Ele parecia mais triste e cabisbaixo do que nunca, como se temesse se aproximar.

- Eu não mordo. - Comentei com o tom divertido, enquanto deixava os meus dentes - agora fiados - expostos.

Uma risada escapou de meus lábios.

- Você devia levar mais a sério a sua transformação. - Ele foi se aproximando. Vestia uma capa preta que lhe cobria desde o pé até a cabeça. Só conseguia enxergar os seus olhos vermelhos brilhando.

Senti de repente algo queimando em minha garganta. Toquei-a com os meus dedos como se isso fosse amenizar a dor. A sede absurda me abateu e agora que eu me focara nela ficara insuportável.

O choque arregalou os meus olhos e me deixou sem fala. Encarei Edward com desespero, esperando que ele me explicasse o que fazer ou então que fizesse com que a dor parasse.

- A sede machuca, não? - Ele tinha um tom zombeteiro que fez o meu corpo tremer em raiva.

Como ele ousava zombar da minha dor? Como ele conseguia ser tão insensível?

Um rosnado escapou de meus lábios e provocou um risinho nele.

- É bom se comportar, Isabella.. - Ele levou o pulso aos lábios e os cortou. O cheiro de sangue fez as minhas narinas inflarem e a dor piorar. Era como se o meu corpo inteiro estivesse queimando.

Abri a boca e passei a língua nos meus lábios. O encarava com tanto desejo, com tanta necessidade. Estiquei a mão em direção a ele.

- Por favor, Edward. - Falei com a voz baixinha.

Ele sentou-se ao meu lado na cama e entregou o seu pulso. O agarrei com força e o levei aos meus lábios com desespero e pressa. Passei a sugar avidamente, sem me importar com ele me observando com o sorriso torto e malicioso nos lábios.

O seu gosto era tão bom e doce. Ele curava a minha dor. Saciava a minha sede. Deixava-me lotada de satisfação e prazer. Foquei toda a minha atenção naqueles dois furinhos que pulsavam, lambendo-os, chupando-os.

Eu tinha um sorriso nos lábios quando comecei a me lambuzar de sangue. Eu afastava o pulso dele dos meus lábios para observar o sangue espirrar, algo que me fazia salivar. Eu lambia toda a extensão suja, divertindo-me, esquecendo de tudo ao meu redor.

A risadinha de Edward me trouxe de volta a realidade. Levantei os olhos e encontrei o seu rosto me fitando com interesse. Eu estava deitada, lambuzada de sangue, o agarrando e gemendo como uma cadela.

- Desculpe. - Sussurrei envergonhada. - Acho que me distraí.

Ele afastou o seu pulso de mim e o lambeu, fechando a ferida que havia me proporcionado momentos de pura satisfação.

- A distração é algo comum e habitual.. com o tempo você vai aprendendo a se controlar e a não perder a cabeça. - Ele tinha um sorriso bondoso. - Agora se apresse. Temos um compromisso.

- Compromisso? - Eu me sentei lentamente, passando a mão pelos meus cabelos. Eles estavam mais sedosos e bonitos do que nunca.

Edward aproximou a sua cabeça da minha. Eu fiquei estática. Parei de respirar e não me mexi nem um milímetro. Ele passou a língua no canto da minha boca, algo que me fez estremecer.

- Estava sujo. - Murmurou com a cabeça ainda bem perto.

Assenti. Estava tonta e louca para puxar o ar com força, porém tinha que me controlar. Não queria deixar as minhas reações tão evidentes.

- Temos o seu enterro, Isabella. - Ele deu um sorriso triste e se levantou, caminhando para longe. - Esse é o compromisso.

Por um momento havia me esquecido de que tinha feito uma pergunta. Mas ao ouvir as suas palavras toda a distração causada pela sua língua em minha pele fora esquecida.

Tentei parecer indiferente, mas não consegui. Não conseguia mais fingir. Eu já estava cansada de todas as mentiras, sabia que elas haviam ficado para trás junto com a minha vida.

- Como eu morri?

- Explosão. Precisava fazer uma forma com que não reconhecessem o seu corpo. Assim poderia pegar qualquer cadáver e colocar ali sem que eles soubessem que não era você. - Ele estava inexpressivo. Os seus olhos vermelhos não transmitiam emoção nenhuma.

- Ah, certo. - Mordi o lábio inferior. - E os detalhes?

- Você estava com insônia. Foi até a vizinha e pediu a receita da melhor comida que ela sabia fazer. Ela lhe deu a receita e você foi até a sua casa. Começou a preparar o almoço para o seu noivo. Já era da madrugada. Você estava sonolenta e fez algo de errado. Algo que fez o fogão explodir.

- Bom.. a questão é que eu não fiz nada disso. Eu não fui falar com a minha vizinha e nem lhe pedi a receita. Ela vai estragar toda a sua historinha.

- Eu fiz com que ela acreditasse que tudo isso tinha acontecido. Usei o meu Poder nela. - Ele deu um sorriso misterioso.

Eu abri e fechei a boca várias vezes. Não sabia ao certo o que falar ou o que comentar. Tantas perguntas rodavam a minha mente. Tantas dúvidas.

- Eu tenho esse Poder também? - Estava meio gaga e confusa.

- Sim, mas ainda não é capaz de controlá-lo. Ele vai aparecendo aos poucos e no começo você vai até mesmo usá-lo espontaneamente. Com o tempo você vai aprender a lidar com ele.

- O que eu poderei fazer exatamente?

- Ler mentes humanas, seduzi-las. Instiga-las. Basicamente você poderá forçá-los a fazer o que quiser. Fazê-los acreditar em alguma coisa. Fazê-los esquecer. - Ele deu os ombros.

- Uau. - Passei a mão no cabelo. - Mike está ferrado em minhas mãos. Eu poderia fazê-lo meu escravo. Obrigá-lo a se arrastar. Vê-lo se cortar. Beber o seu sangue. Matá-lo.

Meus olhos brilharam, enquanto essas idéias ganhavam vida na minha mente. Eu conseguia quase apalpar o medo que vazaria pelos poros dele. Eu já conseguia enxergar o desespero nos olhos azuis.

- Você não fará isso, Isabella.

- E por que não? - Lancei-lhe um olhar desafio. Ergui uma das minhas sobrancelhas e cruzei os braços no peito.

- Porque você não pode simplesmente sair matando todo mundo. - Ele bufou e revirou os olhos.

- E por que não? Sou uma vampira. Isso faz parte dos meus instintos básicos de sobrevivência. - Joguei o meu cabelo para trás e levantei-me com movimentos leves e perfeitos.

- Você não vai matar ninguém sem que eu lhe de permissão para isso. - A voz dele era autoritária. Naquele momento eu soube que não podia desobedecer-lho. Era como se surgissem cordas prendendo os meus membros, forçando-me a cumprir cada ordem dita por ele. - Você não tem o direito de matar ninguém.

- Era só o que me faltava. - Apontei o dedo em direção ao rosto dele. - Você me matou! Você também não tinha o direito de fazer isso, mas o fez! Não é como se eu estivesse reclamando, porque não estou, mas acho que é muita hipocrisia cobrar a ética quando você nem ao menos a segue!

Percebi o vulto da culpa lotar os olhos dele. Ele desviou o olhar e virou de costas para mim. Seu corpo tremia e as mãos estavam fechadas em punhos.

- Eu nunca a transformaria por vontade própria. Nunca escolheria criar laços fortes com uma pessoa como você. E nem com ninguém. - Sua voz era fria como ártico. Ela chegou como um tapa na minha cara e deixou-me sem reação. - Vista essa capa e me encontre lá fora.

Ele jogou algo para mim e se afastou. Eu ainda estava parada no mesmo local, sem nem ao menos respirar. Tentei esquecer aquelas palavras, porque só de relembrá-las a dor em meu peito crescia.

Levei a mão ao coração e puxei o ar com força.

- Respire, Bella. - Sussurrei.

Com a cabeça perdida e ainda entorpecida por aquelas palavras eu me troquei. Vesti aquela capa exatamente igual a de Edward, cobrindo o meu rosto com o seu capuz comprido.

Fui caminhando para fora da casa em direção ao cheiro de Edward. Não queria vê-lo, não queria conversar com ele. Por que ele não merecia isso de mim. Ele não desejava a minha companhia como eu pensava.

Tentei esquecer todos aqueles pensamentos enquanto caminhava em direção ao meu funeral. Tentei calar todas as perguntas que gritavam em minha cabeça.

Estávamos em uma casa que ficava um pouco afastada da cidade. Fomos caminhando em passos rápidos em direção ao cemitério. Os meus músculos pediam para eu lhes esticar ao máximo e tirar todo o proveito, porém eu não o fazia.

Comecei a sentir um cheiro delicioso ficando cada vez mais próximo. Parecia uma mistura de cheiros diferentes, criando assim uma combinação exótica e irresistível. A minha garganta começou a arder e eu senti os meus dentes afiarem.

- Como está? - Edward me perguntou com a voz indiferente.

- Estou bem. - Respondi seca.

- Vamos ficar em cima de uma árvore. - Eu não parei para escutá-lo, continuei o meu caminho. Senti suas mãos fechando-se nos meus braços e me puxando para trás. - Se você for perder o controle me avise. Entendeu?

- Sim, senhor. - Revirei os olhos e escalei a árvore mais alta. Pude finalmente fazer o primeiro teste nos meus músculos aperfeiçoados e me agradei com o resultado.

Eu estava rápida e forte como nunca fora. Não sentia o cansaço em meu corpo e nem a necessidade de ofegar. Havia me tornado a atleta que sempre sonhara ser.

Sentei em um troco que ficava bem escondido e ao longe consegui enxergar a multidão que caminhava com um caixão na frente. Uma sensação estranha percorreu o meu corpo, fazendo com que eu levasse a mão até a minha cicatriz no pescoço.

Observei a minha mãe chorar convulsivamente ao lado de seu novo marido. Notei os olhos inchados e pequenos de Mike. Não consegui deixar de reparar no escândalo que a minha ex-sogra fazia.

Tentei encontrar um pingo de comoção no que via, porém não consegui. Eu não sentia nada quando olhava para aqueles humanos, porém só de pensar no vampiro que estava sentado há alguns metros de distancia a minha respiração já vacilava e eu sentia que podia ter um ataque.

Algumas palavras começaram a ser sussurradas em minha cabeça, deixando-me tonta e confusa. Elas pertenciam às pessoas que estavam há uns cem metros de distância. Com um pouco de concentração consegui distinguir as suas vozes e dizer os donos destas.

Uma pena.. Alguns murmuravam. Outros comentavam o quanto eu era boa e alegre. Eu simplesmente discordava de tudo que ouvia e levava com indiferença e apatia.

Quando a voz da minha mãe invadiu a minha cabeça eu senti um leve tremor. O meu coração se apertou ao escutar as lamúrias e os arrependimentos. Ao fundo de tudo isso eu conseguia sentir o seu ódio por mim.

Por mais que ela tentasse me amar era impossível. E só agora eu entendia o porquê disso.

Ela mereceu a morte. Fez com que Charlie me abandonasse. Acabou com o meu amor. Acabou com a minha vida. Fez-me uma escrava. A voz era tão ácida que me fez ficar nauseada.

Uma parte da cabeça dela gritava isso, enquanto a outra se arrependia e se culpava por pensar tais coisas. Seu corpo agia como uma mãe em luto, arrasada. Portanto a sua mente demonstrava o asco pela sua filha. Por mim .

Arfei e apertei a minha cicatriz com força.

De repente uma outra voz entrou em minha mente, fazendo com que eu me desligasse de minha mãe. Fazendo com que eu vagasse por outros pensamentos.

A culpa é minha. A culpa é só minha. Se eu não tivesse fingindo ter ficado em Seattle e tivesse sido um bom noivo e voltado para casa em vez de ir transar com Jéssica.. A voz de Mike demonstrava todo o seu sofrimento e arrependimento.

Não consegui sentir pena dele e sim raiva. Todos que estavam ao redor de meu falso-corpo pensavam em coisas que divergiam da atitude de seus corpos. Eles não estavam tristes com a minha morte.

Cada um sentia um sentimento diferente: Pena, Arrependimento, Culpa e até mesmo Felicidade.

Nem um conseguia ficar simplesmente de luto. Penalizado com a minha perda. Com medo da saudade e da falta que eu faria.

Pelo visto eu não era a única que fingia e mentia naquele lugar. Eu não era a única que interpretava ao abraçar as pessoas. Todos ali pareciam odiar-me ou então repudiar-me na mesma intensidade que eu fazia.

Senti algo viscoso e molhado escorrer pelo meu rosto. As lágrimas escapavam de mim por pura raiva. Eu sentia meu corpo tremer, enquanto absorvia os pensamentos.A atitude das pessoas ali em frente ao meu corpo eram apenas a conseqüência de minhas próprias atitudes.

Eu estava colhendo as mentiras que plantara.

Só agora podia enxergar o quanto eu era desprezível e nojenta. Como as minhas atitudes eram egoístas e vis.

Uma lágrima entrou em minha boca, fazendo com que eu sentisse um gosto já conhecido.

Levei a mão ao meu rosto e depois o coloquei em frente aos meus olhos. A pele pálida da minha mão ficara vermelha. Eu estava chorando sangue.

O soluço dolorido escapou de meus lábios. Abracei o meu próprio corpo com força, sem desgrudar os olhos do meu funeral. Observei atentamente o meu falso-corpo descer com as cordas.

Escutei com nojo e repulsa as palavras falsas e mentirosas que cada um pronunciava em minha homenagem.

Essa vai ser a minha última mentira Prometi a mim mesma. Fingir que estou morta e enterrada será a minha última mentira.

Fiquei ali sentada até que a última pessoa fosse embora. As lágrimas agora já haviam secado, porém a raiva e a indignação ainda apertavam o meu peito e me deixavam tonta.

Algumas das palavras da mente das pessoas ainda rodavam em minha cabeça.

- Eu sei que é triste abandonar a tudo e a todos. - A voz de Edward me fez dar um sobressalto. Eu havia esquecido de sua presença.

- Você não sabe de nada. - Murmurei com raiva. Pulei do tronco da árvore onde estava sentada diretamente ao chão.

Minhas pernas mal sentiram o impacto com o solo.

- Eu também passei por essa situação. Há séculos atrás, mas passei. - Ele já estava bem ao meu lado. Conseguia se mexer com mais rapidez e objetividade que eu.

- Não consigo imaginá-lo sentindo alguma coisa como saudade. Não consigo vê-lo triste ou ficando ruim por ver a tristeza de alguém. - Comentei com aspereza. Eu queria machucá-lo da mesma forma que ele me machucara.

Ele ficou em silêncio. Algo que eu já esperava. As lágrimas voltaram aos meus olhos e começaram a escorrer sem que eu pudesse me controlar.

- Por que você se deu o trabalho de me transformar se me odeia tanto quanto eles? Por que você simplesmente não me matou e deixou-me lá naquele banco sem vida? Por quê? - Agora eu estava virada de frente para ele. Encarando-o com dor e raiva.

- Eu fui obrigado a fazê-lo. - Ele abaixou a cabeça.

- Por quem? - Minha voz estava autoritária. Eu estava brava e queria respostas.

- É uma história cumprida e trágica. Você não vai querer ouvi-la. - Ele virou e continuou a caminhar, deixando-me parada lá atrás sozinha.

O segui com passos rápidos.

- Eu quero saber. - Minha voz agora era suplicante. - Por favor.

- Essa história começa há muito tempo atrás. Quatro séculos e meio para ser mais exato. Eu vivia aqui em Forks e tinha a vida perfeita. - Ele olhava para frente e pelo seu perfil pude ver o sorriso triste vindo junto com a lembrança. - Eu tinha a esposa perfeita, o emprego perfeito, o filho perfeito.

Aquele começo me lembrara vagamente de Mike, porém eu sabia que na vida dele tudo era uma realidade, enquanto na de Mike não. As perfeições dele não passavam de mentiras e encenações.

- Cheguei em casa depois de mais um dia exaustivo de trabalho. Minha mulher e meu filho me esperavam na porta com sorrisos gigantes. Sem delongas ela me contou que estava grávida. - Os olhos dele brilharam. - Grávida! Era a melhor noticia que poderia me dar! Beijei-a e a rodei em meus braços, enquanto meu filho pequeno ria no chão com a cena. Informei a ela que iria até a cidade comprar uma bebida para comemorarmos, porém eu nunca voltei para casa.

Conseguia visualizar cada palavra e ação que ele me falava. Conseguia até mesmo vê-lo nos trajes antigos, pulando com a mulher em seus braços, esbanjando de felicidade. E então depois consegui sentir a sua tristeza.

E ela me perfurou. Doeu em mim como se pertencesse ao meu passado e não ao dele.

- Morávamos afastados da cidade e então eu tinha que pegar uma pequena estrada de terra até ela. Fui a cavalo, em uma velocidade alta, porque estava ansioso para voltar para casa, até que uma mulher jogada no chão me surpreendeu. Ela chorava convulsivamente e implorava por ajuda. Parei no mesmo instante. - Ele engoliu um seco e calou-se por poucos segundos.

- Eu costumava ser um idiota metido a herói. Adorava proteger os fracos e oprimidos e principalmente salvar as donzelas indefesas. Lembro de me abaixar sobre ela e perguntar se estava tudo bem. Depois tudo que eu vi foram dois olhos vermelhos seguidos com uma dor insuportável. Ser sugado a força é algo muito doloroso.. diferentemente de quando você libera de bom grado como você fez, Isabella. Eu sentia como se ela estivesse me rasgando sem dó nem piedade. Aos poucos fui percebendo a minha vida esvaindo-se pela boca dela. Agarrei-me na esperança o máximo que pude e pensei em todas as minhas lembranças felizes. De repente a mulher estava lhe entregando o braço para mim, me mandando tomar o seu sangue, algo que eu fiz sem mesmo hesitar. Quando acordei ainda estava deitado na grama da estrada de terra e uma mulher incrivelmente linda e pálida me encarava com um sorriso malicioso.

Senti pena dele. Eu conseguia colocar-me em seu lugar e sentir a sua dor. Conseguia misturar a minha confusão com a tristeza dele. Com a vontade de viver dele.

Instintivamente peguei a sua mão e entrelacei a minha, como se isso fosse dá-lo forças a continuar.

- Ela me explicou o que eu era e algumas regras que tinha que seguir. Perguntei a ela a mesma coisa que você me perguntou: "Por que me transformou?". E ela respondeu simplesmente: "Porque você era diferente e especial. Porque eu o queria para mim". Aquilo me agradou e inflou meu ego. Eu lembro de ter gostado ainda mais quando ela me ofereceu o seu sangue novamente. Disse que mataríamos juntos e que passaríamos a eternidade juntos. Só foi naquele momento que me lembrei da minha esposa esperando a mim com meu filho crescendo em seu ventre. Falei a ela que precisava ir, que por mais que eu gostasse dela eu tinha várias obrigações a cumprir como marido e como pai. Ela riu de mim.

Apertei a minha mão sob a dele. Já conseguia enxergar a casa que havíamos saído mais cedo. Ela estava apenas há duzentos metros de distância.

- Tentei ir. Virei as costas a ela e fui caminhando para longe. Lembro da voz dela dizer claramente: "Você não vai a lugar nenhum". Nesse instante eu paralisara, como se algo tivesse me prendido ao chão. Algo dizia que eu nunca conseguiria vencer aquela força, portanto eu nem tentei. Ela me explicou que tínhamos um segredo a guardar e que eu nunca mais poderia ver a minha família. Naquele momento aquilo não pareceu grande coisa para mim, pois eu estava dominado pelo desejo de sangue, pela confusão e rebeldia inicial. Eu e ela fugimos de Forks. Os anos foram se passando e nós cometíamos atrocidade juntos. Tinha momentos que eu realmente a adorava, era quando eu ficava cego por conta do desejo e da sede insaciável. Eu sinceramente tentei amá-la, fiz de tudo para esquecer a minha vida humana. Fiz de tudo que pude para ser um monstro sem me preocupar. Sem a culpa me assombrar.

Ele soltou um longo suspiro e bagunçou os cabelos cor de cobre com a mão livre. Lançou-me um olhar rápido. Não sei lhe dizer se ele parecia envergonhado, orgulhoso ou triste. Era uma mistura dessas emoções.

Eu havia entendido perfeitamente quando ele falara do poder de comando que ela exercera nele, pois eu sentira a mesma força mais cedo quando ele me proibira de matar.

Era algo do qual não se dá pra lutar contra. É inevitável e imutável.

- Porém um dia a consciência voltou, não foi? - Disse com a voz um pouco fraca. As lágrimas agora já haviam secado em meu rosto há muito tempo.

- Sim. Um dia olhei para uma família e lembrei da minha própria. Lembrei da minha ex-mulher e do meu filhinho. A raiva cresceu incontrolável dentro de mim. Eu borbulhava. Tentei dizer a ela que estava cansado, que não queria mais aquela vida. - Ele fechou os olhos por um instante. Estávamos parados em frente a casa.

- Acho que não lhe expliquei, mas os Criadores são os donos e os responsáveis pelos vampiros que transformam. Eles têm a obrigação de lhes ensinar tudo e de garantir que eles não colocarão a espécie em risco. Com isso vêem alguns poderes e controles sob esses vampiros. Nós - os criadores - temos uma grande ligação com os que transformamos, porém isso pode mudar. A liberdade pode ser concedida, e naquele ponto da história eu estava lutando por ela. Queria me desvincular da mulher que havia arruinado a minha vida.

- Como a liberdade é cedida?

- Basta só o Criador dizer isso com sinceridade e então o seu vampiro está livre para seguir a vida sob seu próprio comando. Sem nenhuma influencia.

- Mas ela não queria abandoná-lo, não é?

- Não. Ela era apegada demais a mim. Dizia que me amava. Quando lhe pedi a liberdade ela enlouqueceu e disse que nunca a daria. Disse que eu teria que passar o resto dos meus dias ao lado dela. Até o momento que eu lhe disse que não a amava e que não importava quantos anos ou séculos passasse ao lado dela, isso nunca mudaria. Só conseguia sentir raiva e nojo dela e ela sentiu isso através da nossa ligação. Em um gesto orgulhoso e tentando permanecer com um pouco da dignidade que restara ela me libertou.

- Você seguiu sozinho? Ou achou alguma outra companheira?

- Sozinho. Eu odiava ser um vampiro e então odiava ficar na presença de um. Eles só se importavam com sangue e mortes e os repudiava por conta disso. Passei quase um século vagando sozinho. A vida não era tão ruim como parece. Era bom observar as mudanças através do tempo. Porém muito tempo depois ela me reencontrou. Tentou reassumir o poder sob mim e me puxar ao seu lado novamente. Óbvio que não cedi. Com o passar dos anos o meu ódio só aumentara. Em um ato desesperado para me converter ao seu lado nem que fosse por desejo, ela matou uma família bem em minha frente, esperando que aquilo fosse despertar a minha sede.

Ele parou e puxou o ar lentamente pela boca. Parecia ser uma lembrança dolorosa que provavelmente ele gostaria de esquecer.

- Isso só despertou mais a raiva e o nojo. Não lembro ao certo como fiz, porém eu a matei. - Sua voz era rouca e baixa. Não consegui encontrar o orgulho por seus atos, mas também não achei o arrependimento.

- Você a matou? - Não consegui conter a minha surpresa.

- Sim. E não me arrependo. - Ele fechou os olhos e puxou o ar com força. - Você deve saber que nunca podemos matar um ser de nossa própria espécie a não ser que tenha grandes motivos, pois se não isso trará conseqüências. Principalmente se esse vampiro é o seu Criador. Nós também temos leis e obviamente aqueles que a cobram e a executam. Os Volturi são a nossa realeza e quando cometemos algum crime somos mandados diretamente a eles. Felizmente - ou infelizmente - eles já me conheciam. Em alguns dos meus anos de solidão eu passara ao lado deles, portanto conheciam a minha história e o meu ódio por aquela mulher. Quando fui encaminhado a eles, não pareceram tão surpresos com a minha atitude. Não foram tão rigorosos comigo, porém eu não tinha como fugir da punição.

- Qual foi a sua punição?

- Eu precisava virar o que eu mais odiava em todo mundo. Precisava fazer o ato mais repugnante e indigno. - Ele abriu os olhos e me fitou intensamente. - A minha punição foi tornar-me um Criador.

O ar faltou em meus pulmões e eu levei a minha mão instantaneamente a minha cicatriz do pescoço. A surpresa estava evidente em cada um dos meus atos e eu não quis escondê-la.

- Eu sou a sua punição? - Tudo isso saiu em um fio de voz. O sofrimento e a dor eram evidentes em minhas palavras.

Eu era um fardo para ele. Algo ruim e não prazeroso.

- Sim. - A mesma dor estava nas palavras dele. Soltei as nossas mãos e andei um pouco mais para longe. Sentei na escada de madeira antiga que ficava em frente a casa.

- Você podia ter transformado qualquer pessoa, certo? - Perguntei o encarando. Ele assentiu lentamente. - Então, por que eu?

- Foi algo que aconteceu espontaneamente. - Sentia que as palavras dele eram sinceras. Só agora podia sentir o fio que nos ligava e a intensidade dele. Era como se as nossas mentes fossem conectadas. - Quando a punição foi me dada sabia que tinha ainda alguns anos para cumpri-la até que eles viessem averiguá-la, e uma vontade estranha e repentina de voltar para cá me abateu. Seria bom vir onde tudo havia começado. Seria uma boa forma de colocar a cabeça no lugar. Cheguei aqui um pouco hesitante, sabia que seria doloroso e estranho. Quando pisei nessa casa todas as lembranças voltaram e acabaram comigo. Com uma curiosidade mórbida decidi pesquisar mais sobre a minha família e no fim que ela tivera. Acabei descobrindo coisas interessantes. Minha mulher vivera até os seus sessenta anos e estava enterrada no cemitério local. Em uma noite de tédio caminhei por entre os túmulos procurando pelo de Helena. Fiquei chocado ao acabar encontrando ao meu próprio.

Ele se aproximou lentamente e sentou ao meu lado.

- Por que ficou tão chocado? Era óbvio que ela lhe daria um túmulo. Até eu ganhei um. - Tentei reconfortá-lo um pouco e até mesmo entendê-lo. Não sabia por que, mas odiava vê-lo sofrer.

- Achei que ela tivesse pensado as piores coisas de mim. Achei que podia ter pensado que eu havia a abandonado. Nunca teve um corpo. Nunca teve uma prova da minha morte.

- Ela sabia que você não a abandonaria por escolha, Edward. Ela sabia que você era uma boa pessoa. - As verdades simplesmente escapavam de minha boca. Não era necessário pensá-las ou planejá-las.

Ele abriu um sorriso tímido e me encarou profundamente.

- Algo me prendia naquele tumulo. Não sei se ele representava um sentimento real que alguém sentira por mim ou então me lembrava da minha vida e da minha família. Só sei que todas as noites eu estava ali, contemplando-o como se fosse sagrado.

- Em uma dessas noites você apareceu, Isabella. Saiu de sua casa e sentou nas escadas. Chorava descontroladamente e pensava coisas vulgares e indecentes para uma menina. Sua personalidade me atraiu assim como as verdades que passavam por sua cabeça. Você lembra que dia foi esse?

Era estranho estar de repente dentro da história dele. Era estranho como ele me notara muito antes que eu havia o notado.

- Sim. - Sussurrei. - Foi o dia que Mike me pediu em casamento. Foi horrível para mim. Mas eu não me lembro de ter te visto nesse dia.

- Você não me viu. - Ele sorria. - Ficou apenas chorando e minutos depois voltou para dento da sua casa. Concentrei-me na sua mente. Observei-a aproximar-se da cama em que seu noivo estava deitado e pelos seus pensamentos eu pensei que você fosse matá-lo. Porém para o meu tremendo espanto você simplesmente deitou-se e o abraçou, murmurando o quanto o amava. Aquilo foi o suficiente para despertar a minha curiosidade. Como alguém podia mentir tão descaradamente? Como você podia enganá-lo conscientemente?

Senti a vergonha invadir o meu corpo e então desviei o olhar. Era horrível ter alguém vigiando a sua mente e passos. Ela podia julgar todas as suas ações e os seus motivos para elas.

- Passei a observá-la de perto todos os dias. Escutava cada uma das suas mentiras em silêncio e a cada momento me surpreendia mais com a sua frieza e indiferença. Por dentro eu sabia o quanto você sofria e era infeliz. E isso me magoava. - O sorriso agora havia desaparecido. Seu rosto estava sério e inexpressivo. - Até que um dia você me notou. Sua mente brilhou ao me ver e eu senti uma esperança grande crescer dentro de você. Eu a atraia propositalmente sem nem mesmo perceber. Estava utilizando o Poder para que você me visse e para que você se aproximasse. O meu inconsciente já sabia que você seria a vitima.

- Você não estava forçando a atração, Edward. Ela simplesmente existia. Eu enxergava em você o mistério e a imprevisibilidade que desejava em minha vida. Não sei o que me atraia tanto, porém não era algo que eu estava sendo forçada. Eu escolhia ser atraída. Consigo ver a diferença disso agora.

- Eu nunca cheguei a decidir ou pensar em matar você. Acho que eu sempre soube, mas nunca consegui realmente expor isso nem para mim mesmo. Eu tinha vergonha dessa decisão. - Ele puxou o ar com força e o soltou lentamente. - Você não merecia viver, Bella. Estava a todo momento mentindo, fingindo e atuando. Era uma pessoa que desprezava a vida que eu tanto almejara viver. Eu tinha raiva de ver a forma como você lidava com as coisas. Você queria tanto a morte e eu queria tanto a vida.

Abracei o meu próprio corpo e fechei os olhos. Sempre é ruim ouvir verdades, porque eles soam horríveis e não há nada que se pode fazer para mudá-las. Elas são aquilo que você construiu.

- O que mais me irritava em você era quando em todas as manhãs você implorava para o teste de gravidez dar negativo. Enquanto você considerava uma criança indesejada, eu simplesmente me lamentava por não ter podido ficar com o meu filho. Por não tê-lo dado ao menos um abraço de despedida. - Sua voz era fria e demonstrava a sua revolta comigo, mas ali eu também conseguia encontrar a preocupação e a dor. Ele sentia dor por mim. - Você nunca havia pensado ou falado no seu desejo de morte, mas ele sempre esteve implícito em suas ações. Eu nunca mataria você. Eu nunca planejara isso. Porém na noite em que você deitou a cabeça no travesseiro e falou as palavras mágicas - eu quero morrer - tudo mudou. Eu não estava mais sendo o assassino frio e maldoso que estava tirando a sua vida por puro desejo e prazer egoísta. Eu estava somente cedendo a um desejo sincero seu. Estava apenas juntando a sua vontade de morrer com a minha necessidade de matar.

- Isso pode soar como uma desculpa para livrar a minha culpa e a minha tristeza, mas realmente não foi bem assim. Eu pensei muito antes de tomar qualquer atitude. E sabia que não conseguiria dar o primeiro passo.

Ele levantou a minha cabeça com o seu dedo e me fez fitá-lo longamente. Por alguns minutos ninguém falou nada. Nossos olhos vermelhos apenas se encaravam sem desviar, vendo ali todas as verdades que não tinham como ser ditas.

- Eu precisava inventar uma desculpa para atraí-la. Para fazê-la se aproximar. Quando começou a chover um dia depois do seu pedido eu finalmente achei a minha deixa. Corri pela floresta que ligava Seatlle com Forks e arranquei ali algumas arvores, bloqueando assim a passagem.

- Você arrancou as árvores? Que? - Senti minha cabeça tontear, enquanto eu imaginava a cena.

Ele deu uma risadinha e revirou os olhos.

- Nós somos fortes, Bella. Muito fortes. - Ele abriu um sorriso torto e malicioso que me fez engolir um seco e lembrar de como era ter o seu corpo prensando o meu. Só aquela mera lembrança me fez estremecer e ter espasmos.

- Mas Mike não estava em Seattle. - Eu nem ao menos havia percebido que estava falando. Pelo visto eu conseguia pensar mais de uma coisa ao mesmo tempo. Minha mente era rápida. - E você devia saber disso. Você meio que sabe tudo.

- Sim, eu sabia. - O sorriso alargou-se. - Mas eu também conhecia a mente dele suficientemente bem para afirmar que aquilo seria apenas uma boa desculpa para mais uma noite de transas com Jéssica.

Fechei os olhos e tentei controlar a raiva que subiu no meu peito. O rosnado escapou sem que eu pudesse conter.

- Então o caminho estava livre para você. Por que simplesmente não entrou na minha casa e me matou? - Respondi um pouco depois quando já me sentia mais calma.

As minhas emoções vacilavam facilmente. Eu me sentia como uma bipolar forte e descontrolada.

- Não posso entrar na casa de ninguém sem antes ser convidado. - Ele estava com a sua voz indicando experiência. Senti-me uma criança frágil encarando um adulto forte e hábil.

- Outra regra. - Revirei os olhos e soltei um suspiro.

Ele deu uma risadinha e assentiu.

- Eu não podia entrar, mas saberia que você sairia. Eu sabia que se eu permanecesse no meu local como todos os dias você não viria. Tentei pensar em alguma forma de atraí-la, mas todas me soavam ruins demais. Não fingiria estar passando mal como a minha Criadora havia feito comigo. Eu queria que você tivesse realmente vontade de me encontrar. - Observei mais uma vez uma carranca se formando em seu rosto. - Senti toda a sua sensação de perda quando não me viu ali no banco e com um misto de espanto e prazer vi você caminhando até ele, tentando me achar de todas as formas. Você gritava por mim e não tinha como não atendê-la.

A voz dele sumiu. Ele abaixou a cabeça e pareceu ficar envergonhado. Agora havia sido a minha vez de lhe subir o rosto com o meu dedo.

- Não se sinta culpado ou envergonhado. Foi o que você disse: Eu pedi por isso. - Sorri para ele. - Estou bem agora.

Senti sua tensão toda se relaxando através de nossa ligação. Ele foi se aproximando lentamente com seus olhos cravados em meu rosto, só agora percebera que estava com a unha cravada na palma de minha mão.

Um pouco constrangida eu desfiz o punho e fiz uma caretinha.

- Por que você fazia aquilo? Eu sempre vasculhava a sua mente em busca de respostas, mas nunca as encontrava. - Ele estava a um passo de distância. Sua respiração batia em meu rosto deixando-me atordoada.

- Não sei exatamente quando começou. Provavelmente nasci com essa deficiência. - Eu mordi o lábio inferior e tentei ignorar a proximidade. Tentei me concentrar nas palavras que sairiam de minha boca. - No começo até era algo generoso. Não era um defeito e sim uma das minhas grandes qualidades. Comecei a mentir para minha mãe, pois odiava vê-la triste. As mentiras escapavam de meus lábios como uma forma de deixá-la feliz, de apaziguá-la e de fazê-la gostar de mim. Não era algo mesquinho e nem tão falso como se tornou. Eram apenas uma forma de vê-la sorrir para mim.

Desviei o olhar e engoli um seco. Eu sempre soubera que minha mãe me odiava, mas ouvi-la hoje havia sido horrível. Toda a minha infância mal aproveitada, as mentiras contadas por pura pena, as horas gastas ao seu lado limpando as suas lágrimas haviam sido em vão.

Eu havia estragado a minha vida em vão.

- Foi tornando-se um hábito. Eu não conseguia controlar as minhas palavras. Odiava ver o desapontamento na face das pessoas. A tristeza acabava comigo e me estimulava a mentir cada vez mais. - Perdi-me em memórias por um instante. Ainda evitava encarar as íris vermelhas dele. - Mas no fim acabei me afogando em minhas próprias mentiras e arcando com as conseqüências. Quem diria que elas poderiam acabar ajudando alguém, huh?

- Ajudando alguém? - A voz dele estava rouca e confusa. Não consegui resistir e o olhei rapidamente.

- Você. Eu o ajudei a cumprir a sua punição de uma forma mais fácil e com menos culpa. - Parecia meio hesitante falando. Eu me sentia novamente uma adolescente com hormônios a flor da pele, desesperada por aceitação e por um parceiro. - Prometo ajudá-lo. Vou tentar fazer com que tudo se simplifique. Vou tentar aprender as coisas o mais rápido possível para logo sair da sua vida. Não precisa nem se acostumar ou se incomodar com a minha presença. A minha passagem por sua existência vai ser tão rápida que você vai ter me esquecido daqui um século.

Olhei para frente e me concentrei na paisagem que rodeava a casa. Eu não queria ver a reação na expressão dele. Tinha medo de enxergar o alívio por saber que eu iria embora logo.

Eu estava prendendo o ar sem perceber.

- Eu não disse que me incomodava com a sua presença, Bella. - A voz dele era suave e doce. Fechei os olhos e tentei não derreter.

Por que ele tinha que ter aquela voz perfeita?

- Nunca escolheria criar laços fortes com uma pessoa como você. - Imitei a forma que ele falou comigo mais cedo, colocando todas as minhas emoções a respeito evidentes.

- Oh. - Escutei ele murmurar. De repente senti braços me apertando contra um corpo másculo e sarado, fazendo com que eu parasse totalmente de respirar e pensar. - Me perdoe. Não queria feri-la e nem ofende-la. Faz tempo que não vivo com companhia.. acabei ficando intragável com o tempo.

As palavras fugiram da minha boca e eu arfei. Comecei a puxar o ar com força, enquanto o choque pelas palavras dele me abatia e me deixava confusa. Ele parecia ser mais bipolar do que eu.

Meu corpo foi virado e deixado de frente para o dele. Agora o seu rosto estava há menos de um palmo do meu.

- Posso limpá-la? - Ele perguntou educadamente, me encarando com os olhos brilhando. Parecia estar esperando isso por um bom tempo.

- Sim. - Sussurrei confusa.

Ele aproximou a sua boca da minha e desviou de última hora, deixando apenas o desejo percorrendo o meu corpo. Deu um beijo em minha bochecha e depois passou a língua vagarosamente por toda a extensão até os meus olhos.

Sua textura me deu arrepios e me fez soltar um grunhido baixo de aprovação.

- O sangue de suas lágrimas havia secado. - Comentou bem baixinho, voltando a me lamber menos de um segundo depois, como se temesse o distanciamento de nossos corpos.

Soltei um longo suspiro, enquanto ele terminava o seu trabalho em meu rosto. Acho que seria incapaz de me mexer ou ao menos falar. Estava entorpecida com o seu cheiro, com a sua língua e com o seu carinho.

- Pronto. - Abri os olhos e o fitei. Ele estava com um sorriso torto e parecia satisfeito.

- Obrigada. - Respondi em um fio de voz. Eu estava trêmula e arfante.

Ele se afastou e foi como se toda a minha sanidade voltasse. Foi como se uma lufada de realidade batesse em meu rosto e me despertasse de meu transe. Senti-me envergonhada pelas minhas reações tão vulneráveis.

Se fosse humana provavelmente estaria verdadeiramente corada.

Meu olhar prendeu-se em Edward. Ele fitava aquela casa com os olhos brilhando e eu conseguia sentir a sua tristeza e dor. Suas mãos tocavam a escada onde estávamos sentados, a acariciando como se fossem a pluma mais macia do mundo.

Tratando-a com carinho e respeito.

- Essa era a sua casa, não é? - Eu já sabia a resposta, mas gostaria de vê-lo desabafar. Era uma tentativa para retirar a repercussão das lembranças de dentro dele.

- Sim. - Ele nem ao menos tentou disfarçar o seu desconforto. - Mas ela não me traz muitas memórias boas.

- Pelo visto nós dois passamos por coisas difíceis nessa cidade. - Soltei um longo suspiro e desviei o meu olhar, encarando a mata e a garoa que caia.

Uma euforia cresceu dentro dele e o fez pegar a minha mão entre as dele e a apertar com força. Aquilo foi o suficiente para fazer-me fitá-lo novamente. Em suas íris vermelhas que provavelmente deveriam estar mergulhadas em maldade eu via a esperança.

- Nós podemos ir embora. Fugir! Esquecer esse lugar! Deixar os humanos que nós fomos para trás! - O sorriso em seus lábios era indescritível. Mágico.

Uma risadinha escapou dos meus lábios. Todo o peso da conversa de minutos atrás havia sumido. Era como se eu sentisse as emoções dele dentro de mim. Como se elas fizessem parte de mim.

- Quando partimos? - Sentia a mesma intensidade em minhas palavras. A mesma emoção ao ver que poderia finalmente ter o meu recomeço.

- Preciso apenas ensiná-la algumas coisas sobre como se comportar. Depois nós iremos para bem longe desse lugar! - Ele se levantou e me puxou para cima. Desceu as escadas em uma velocidade incrível, levando-me junto a ele.

Senti a água fina da chuva batendo em minha pele. Foi estranho não ter frio e desconforto com aquele contato. Ele era quase prazeroso.

Edward me puxava e me rodava na chuva. Nós dois gritávamos e pulávamos. Era como se tivéssemos acabado de receber a melhor noticia do mundo todo.

Pela primeira vez eu me viva. Viva, feliz e esperançosa.


N/A: Olá, marujos! Quanto tempo, huh? As coisas ficaram corridas aqui e eu acabei me atrapalhando. Comecei a trabalhar e não tive mais tempo para nada. Só agora consegui finalmente descansar e parar em casa.

A fic ainda não acabou. Terá mais uns 4 capítulos ainda. Espero que estejam gostando.

Esse capitulo foi bem esclarecedor. Pudemos entender o nome da fic e até mesmo as ações de Edward. As histórias deles são bem diferentes e opostas. É legal ver isso.

O próximo capitulo vem muito em breve. Eu juro! Vou entrar de férias férias agora. Aí vou ter tempo para me dedicar só pra vocês. Até fevereiro eu pretendo ter finalizado todas as minhas fics.

Bom.. fiz um milagre e respondi a review de vocês. Peço a todos os BBB's para se apresentarem e deixarem um pequeno comentário da história. É bom saber a opinião de vocês.

Enfim.. adoro vocês e obrigada por desistirem da fic.

Resposta das reviews:

Meel Evans Potter-Malfoy: Edward definitivamente entrou em ação. Espero que tenha gostado desse capítulo. Ele não é tão mal como aparenta, não é? Beijinhos.

Cullen: Ah, obrigada pelo elogio. Fico muito feliz que esteja gostando! Sim, essa Bella é bem diferente de todas. Eu gosto dela porque ela é comum. Várias pessoas vivem na mentira e é isso que chama a atenção. Sempre estamos acostumados com personagens principais perfeitos e nessa fic eu quis meio que acabar com isso. Morre não se não eu perco uma leitora,hein. ahhahahahahahaa Obrigada pela review. Beijinhos!

marinapz4: Acho que você pode perceber que a família do Mike não era tão boazinha assim como Bella falava. hihi Beijinhos!

vanessamatos: Oh, você lembrou do Bill e da Sookie! É parecido, mas não tinha tanto romance como em True Blood. Essa fic é baseada em todas as histórias de vampiros. Que bom que gostoou! Fico muito muito feliz! Brigada pela review! Beijinhos

Raquel Cullen: Matei a curiosidade? Espero que sim! hahaha. Bella completamente melodramática e Edward nem tanto malvado. Não posso fazê-lo tão maléfico.. simplesmente não consigo. hahahaha. Espero que tenha gostado, gata! Você ta em todas as minhas fics! Sempre adoro as suas reviews! Obrigada pelo apoio! Beijinhos!

Lali Motoko: Minha fiél seguidora! Eu simplesmente adoro entrar aqui e ver uma review sua! De verdade! Fico feliz que tenha gostado desse novo projeto.. ele foi um momento de criatividade que eu não pude esnobar. hahaha Espero que tenha gostado desse capitulo, gatona! Beijinhos! Obrigada pelo apoio!

mirian masen: Own que fofa! Obrigada pelo elogio! De verdade! É muito importante para mim! Que bom que gostou do enredo, gata! Pedido atendido! Postei e raápido! Beijinhos.

Nah Beward: OMG! Que review gigantesca! Ri muito com ela, juro! Adorei todos os elogios e agradeço por toda a atenção, de verdade! É importante ver que tem pessoas que realmente apreciam as minhas loucuras! Eu concordo com você quando diz que para mandar uma review tem que ser bem feita.. eu realmente acho isso. Para você estimular um autor é preciso escolher bem as palavras, porém as vezes um simples: Amei.. se for sincero é muito bom! Eu realmente amei a review! Espero ter matado um pouquinho da sua curiosidade, gatona! Beijiiiinhos!

Vanessaqueen: Eu também achei o passado bem melhor que o primeiro. Aquele primeiro é só a introdução da história. A apresentação dos personagens e etc. Que bom que gostou! Fico bem feliz! O que achou desse? Beijinhos.

ReneesmePaladonaiBlackLautner: Até que eu fui rápida, hein? Espero que tenha gostado desse também, gatona! Adorei a review! Beijinhos.

niih valim: Eu também AMO as três séries! Eu sou viciadona! Principalmente em The Vampire Diaries. Eu já li os livros e me apaixonei.. sem contar no Damon da série que me mata. hahahaahahaha Acho que já respondi no capitulo o que ia acontecer com a Bella, hoho*. Que bom que gostou, gatona! Fico bem bem bem feliz! Espero que tenha gostado desse capítulo. Beijinhos

C-Bellinha: Ah, gata! Espero que tenha gostado da Bella vamp! Eu adorei, pelo menos. Bem mais do que quando ela era humana. Obrigada pela review. Beijinhos

Nayfa: Demorei um pouquinho, mas o capitulo compensou, não foi? Espero que sim. Beijinhos.

IsabellaPC: Postado, gatona! Brigada pelo elogios!

Tii Masen: Ah, brigada! De verdade! Adoro ouvir elogios. Espero que tenha gostado. Beijinhos.

luxuria black cullen: Sério que ta demais? Own, obrigada! Pela review e pelo elogio, óbvio! *-* Não entre em colapso, ok? Já postei! AHUAHUAH. Beijinhos

Até em breve, amores.

Beijos,

Ari.