Capítulo III

Julia Hunter

Hipotermia congela até a alma

Alguém poderia me dizer de onde foi que eu tirei a ideia lesada de fugir de casa sem nenhum plano formado e sair mundo afora, saltitante, como se fosse a Branca de Neve? Eu sou uma idiota, eu sei.

Ok, a chuva tinha parecido legal no momento em que eu deixei a Mansão Hunter, e molhar os pés num lago qualquer também tinha parecido divertido. Até mesmo mergulhar da cintura para baixo tinha parecido racional! Mas agora, enquanto eu me contorcia de frio e tentava não morrer de hipotermia, não era nada legal. Eu realmente devia parar de fazer coisas por impulso.

Logo no momento em que eu percebi que aquela chuva iria me atrapalhar mais do que lavar a minha alma – o que eu havia pensado que faria, quando ainda estava me sentindo feliz e filosófica: emoções pós-fuga –, corri para uma gruta próxima e tentei me aquecer, utilizando as roupas secas de dentro da mala. Após uns dez minutos, uma coruja negra especialmente séria entrou na gruta e ficou me observando.

- Oi – consegui murmurar, apesar de ter soado como um gemido de dor.

- Piu – ela fez.

- Você quer ser a minha coruja? Eu nunca tive uma coruja.

Ela apenas piou de volta.

- Tomo isso como um sim. Vou te chamar de Pixie. Sempre quis ter um animal de estimação chamado Pixie.

E ela piou novamente.

- Você é demais, Pixie.

Resolvi que ela seria minha melhor amiga temporária. Talvez o frio estivesse me levando a fazer essas coisas.

Agora já estava escurecendo, era provavelmente por volta de umas seis ou sete horas. A temperatura havia caído consideravelmente e eu estava enfurnada na maldita gruta. Vários pensamentos cortavam a minha cabeça semi-congelada. Eu tinha de fazer alguma coisa a respeito da minha vida, encontrar um lugar para ficar e, apesar de ter uma grande reserva de galeões, alguma hora eles teriam de acabar, então além de tudo eu ainda tinha de arranjar uma maneira de ganhar dinheiro. Mas a primeira coisa que eu tinha de fazer era falar com alguém.

E a única pessoa que eu tinha era Lily.

Abri o malão com pressa e, após procurar muito e fazer uma bagunça colossal com as roupas – o que deixou Pixie nervosa –, encontrei uma folha de papel parcialmente amassada e rasgada no fundo de um compartimento. Bem, teria de servir. Comecei a escrever. Minhas mãos tremiam de frio. Não consegui escrever muito mais que uma linha. Teria de servir também. Com cuidado, amarrei o envelope com a carta numa das pernas de Pixie com o auxílio de um barbante.

- Por favor, leve esta carta à Lily Evans e depois volte, ok? – Acariciei sua cabeça e acho que ela entendeu. Ou isso ou eu estava mesmo endoidando. De qualquer modo; como uma boa coruja, ela levantou vôo e eu me deixei relaxar, encostando a cabeça na pedra da parede da gruta.


Uma, uma hora e meia havia se passado? Algo assim. Pixie estava demorando demais para trazer a resposta de Lily. Pelo o que eu me lembrava, aquele dia era primeiro de setembro. Lily deveria estar indo para Hogwarts, e os trilhos do trem não passavam muito longe da minha casa. Comecei a cantarolar músicas natalinas para tentar descontrair. Não funcionou muito. Peguei um saco de salgadinhos de dentro da mala. Comer me relaxava. Quando eu estava começando a achar que iria entrar em colapso pelo frio e pelo nervosismo, Pixie surgiu na entrada da gruta e eu pude soltar um suspiro de alívio.

- Até que enfim – resmunguei, puxando-a pela perna e pegando o envelope. No mesmo instante, a coruja me lançou um olhar de censura e bicou meu dedo. – Ai! Qual o seu problema? Coruja má.

Pois é. Eu estava falando com uma coruja. Acho que era o frio e o sono misturados. Encarei Pixie. O que corujas querem? Ah, sim, comida. Como os bebês. Acho que esqueci de que ela também era um ser vivo. Peguei um punhado de salgadinhos e dei-os para ela. Pixie pareceu momentaneamente feliz e engoliu-os com gosto. Voltei minha atenção à carta. A letra caprichada – que refletia a personalidade de Lily –, me dizia:

Você está me deixando preocupada. Onde está? Espero que esteja bem. Eu não tenho ideia do que te dizer. Tem algum lugar para ir? Algum apartamento, casa de amigos, parentes? Sei que não vai querer voltar para Beauxbatons. Contate Dumbledore e peça-o ajuda, ele sempre o faz. Se alimente direito e cuide-se direito.

Beijos, Lily.

Lembrei-me de como Lily sempre sabia o que fazer, e sempre era o certo. Arranjei outro pedaço de papel e escrevi uma carta para Dumbledore. Em seguida, segui o mesmo procedimento que havia feito antes com a carta de Lily e, minutos depois, Pixie já voava, levando a carta à Dumbledore – após me lançar um olhar feio, provavelmente por estar cansada e eu estar forçando-a a cumprir outro serviço – e sumindo entre a escuridão da floresta.

Encostei a cabeça na pedra. Tinha voltado a tremer. Me contorci, tentando fazer o tecido das roupas cobrir cada pedaço de pele exposta. O vento soprava, diminuindo ainda mais a sensação térmica. Senti que morreria em pouco tempo. Senti que até a minha alma estava congelada, que nunca mais sorriria, nunca mais sentiria calor ou sequer amor. A sensação era de morte. Com raiva, pensei que tudo aquilo era culpa dos meus pais, culpa das regras da nobreza e do fardo que o sangue azul trazia consigo. Ali, naquele instante, decidi que nunca mais seria induzida a pensar como meus designados superiores queriam que eu fizesse, que nunca mais abriria espaço para pessoas.

Decidi que, a partir daquele momento, seria fria como nunca havia sido. Lily seria a única pessoa a ter acesso a qualquer sentimento meu. Paixão soava agora como algo estúpido e infantil. Amor, mais tolo ainda. Seria fria e nada mais.

Fechei os olhos, me concedendo últimos momentos de sensibilidade. Pensei na reação de Dumbledore ao ler a carta; pensei em toda a minha história com Regulus e sobre nossos sentimentos; pensei na vida de Lily em todo aquele meio tempo em que não a vi, e que mantivemos contato apenas por cartas, e se eu não estaria atrapalhando-a. E, por fim, pensei em Sirius Black. Me veio à mente a imagem da criança sorridente e feliz de apenas nove anos, e tive de me perguntar se ele continuaria a ser assim ou teria se tornado uma pessoa amarga e retraída, como eu. Apesar de não ter contato com ele, torci com todas as minhas emoções para que ele continuasse como a lembrança que tinha dele.

Esvanecida em pensamentos e sonhos obscuros, adormeci.


"Ai!" foi o primeiro pensamento do dia. Algo machucava minha orelha esquerda, e esta pulsava. Abri os olhos grudados de remela e encontrei uma coruja negra a um palmo do meu rosto, me olhando nos olhos e mordendo minha orelha enquanto esgoelava sua garganta, piando.

- Sai, Pixie - grunhi, a voz rouca, afastando a coruja com as mãos. Contudo, ela continuou piando e bicando toda a pele a seu alcance. - Coruja doida. O que foi?

Pixie deu alguns pulinhos e alcançou um envelope amarelado lançado num canto. Ao reconhecer o selo com o brasão de Hogwarts, despertei imediatamente.

- Droga, é a carta de Dumbledore - levantei num pulo e corri para pegar a carta. Abri o envelope com violência e o li com uma rapidez extraordinária.

Cara Julia,

Devo dizer que fiquei intrigado com sua carta. Primeiramente, não questionarei suas razões para sair de casa, acredito que isso é de sua total escolha; segundo, fique sabendo que desde que nasceu tem uma vaga nesta escola à sua espera, e que Hogwarts sempre a acolherá de braços abertos. Sua amiga e nossa aluna, Lily Evans, esteve aqui para me deixar a par de alguns detalhes a mais sobre a senhorita, portanto não se preocupe, pois tudo está preparado para sua chegada um pouco atrasada por aqui. Por fim, fiquei encarregado de informar-lhe sobre a ida de um Auror designado a trabalhar com acontecimentos envolvendo menores de idade até o local onde você encontra-se, para levá-la às compras de seu material escolar e depois trazê-la à salvo até Hogwarts. Segue por aqui, também, a lista do material.

Todos esperamos que esteja bem.

Albus Dumbledore.

Procurei pelo envelope novamente e encontrei outro maço de papeis, contendo uma caligrafia diferente, que dizia:

ESCOLA DE MAGIA E BRUXARIA DE HOGWARTS

2 de Setembro de 1976

Encaminhado à Julia Hunter, 6ª série

Livros:
- Livro padrão de feitiços (6ª série) de Miranda Goshwk
- Feitiços para todos; Azarações e Contra-feitiços (2);de Charlotte Walker
- Estudos avançados de Poções,de Jess Shiklowask
- Transfiguração de pessoas;de Maia Hastings
- Aplicando Runas Antigas; de Halley Wenks
- Raças Mágicas;Lendas & Histórias; de Klaus Lion
- Aparatação; Pequeno guia para os jovens de 17;

Roupas:
- 3 Chapéu pontudo simples
- 3 Suéter (simples ou colorida)
- 2 Camisas
- 1 Sapato
- 2 Gravatas
- 5 Vestes Simples

Materiais:
- 1 Varinha
- 200 Pergaminhos
- 9 Penas
- 1 Telescópio
- 1 Balança de Latão
- 1 Kit de Frascos
- 1 Caldeirão Estanho, tamanho padrão 2
- 1 Bola de Cristal tam. pequeno

Reli as cartas uma, duas, três vezes, até decorar. Não contive o sorriso enorme que se abriu, e deixei meu corpo relaxar e sentir a calmante paz que aquelas palavras traziam.

- Finalmente as coisas estão dando certo - murmurei para mim mesma, feliz.

Fechei os olhos e fiquei acariciando a cabeça de Pixie e cantarolando melodias aleatórias. Já dormia novamente, quando uma voz me chamou das profundezas da paz, de volta ao mundo real.

- Olá? Tem alguém por aqui? - falava uma voz aguda, porém masculina. - Maldição, devem ter me dado a localização errada... Ah! Você está aqui! Srta. Hunter? Você está viva?

De repente a voz se tornou algo material, pois dedos começaram a me cutucar bem na região das costelas. Sentindo cócegas, me contorci, rindo e grunhindo.

- Me... solta... cócegas! - exclamei, subitamente despertada. - Ah... Olá. Você me acordou.

- Oh. Sinto muito, Srta. Hunter, não quis surpreendê-la.

- Ahn... Sem problemas. O senhor deve ser o auror, certo? Dumbledore falou que viria.

- Sim, sou eu. Austin Crawford, a seu dispor, Srta. Hunter - ele apresentou-se, oferecendo a mão que eu prontamente apertei.

- Muito prazer, senhor. Sou Julia Hunter, mas é claro que pode me chamar apenas por Julia – eu disse logo em seguida, repetindo o que havia aprendido com minha mãe e professoras designadas a ensinar-me boas maneiras, soando estranhamente formal.

- O prazer é todo meu, senhorita. Bem, diga-me onde estão suas coisas para que possamos arrumá-las, partindo o mais rápido possível.

- Não trouxe muito, mas está tudo ali – informei-o, apontando para o amontoado de roupas e livros, num canto da gruta.

No mesmo instante, Crawford começou a ordenar minha bagagem, enquanto eu tentava dar um jeito no meu cabelo, que provavelmente estava num estado lastimável, após passar por chuva, frio e umidade, sem ser escovado uma vez sequer. Para falar a verdade, eu devia estar toda com uma aparência deplorável.

Ao que me levantava e espreguiçava, notei melhor o auror. Era um homem corpulento e, apesar de possuir uma estatura alta, andava curvado; tinha cabelos castanhos e, escondidos atrás de grossas lentes de óculos de armação preta, havia olhos da mesma cor, que não exalavam nenhum sinal de diversão. Percebi naquele mesmo momento que as próximas horas com Austin Crawford seriam um puro tédio.

Suspirei e andei na direção do auror, que agora acabava de trancar a mala.

- Tudo pronto, senhorita? – ele perguntou; ao que assenti, irritada com a formalidade. – Então, dê-me seu braço – arquei as sobrancelhas, confusa. – Iremos aparatar no Caldeirão Furado.

Peguei a gaiola de Pixie com a mão direita e envolvi o outro braço com o do auror, e senti que algo me fisgava na região do ventre. De um instante para o outro tudo girava, e ao nosso redor só havia escuridão. Respirar era uma tarefa impossível, como se estivesse debaixo d'água, e um algo zumbia insistentemente em meus ouvidos. Então, tão repentino quanto começara, tudo parou. Meus pés bateram em algo sólido e tive de fazer força para meus joelhos não cederem de encontro ao chão – acabávamos de aparatar.

Quando a tontura começou a anuviar-se e Pixie parou de piar, encarei o espaço em que nos encontrávamos. Era um pub de cheiro fétido e aparência imunda e sórdida, onde bruxos de figura sinistra ocupavam cadeiras de madeira, bebendo e conversando.

- Podemos prosseguir? – Crawford disse, encaminhando-se para um muro localizado nos fundos do estabelecimento.

O homem posicionou a varinha sobre uma lata de lixo, moveu-a três tijolos para cima e em seguida dois para o lado, batendo no tijolo final. Instantaneamente, um buraco começou a se abrir no meio do muro e, em instantes, se havia aberto um caminho para uma rua repleta de lojas e butiques de todos os gêneros, oferecendo em suas vitrines desde livros e ingredientes para poções até equipamentos de Quadribol e relíquias mágicas.

- Seja bem-vinda ao Beco Diagonal, Srta. Hunter – disse Crawford, apesar de apresentações não serem necessárias.

Óbvio que eu conhecia o Beco Diagonal. Como qualquer outro bruxo europeu que se preze, eu já havia ido até lá, por mais que tivesse sido uma vez apenas, quando fora fazer minhas compras escolares para meu primeiro ano em Beauxbatons, aos onze anos. Nos anos seguintes, fui dispensada de fazê-lo, e elfos domésticos foram enviados em meu lugar. A lembrança disso fez meu sangue ferver, e a feliz sensação de liberdade me encheu novamente, fazendo-me sentir ainda mais determinada a seguir com tudo aquilo.

- Por onde começamos? – perguntei, tão ansiosa para fazer compras quanto estava aos onze anos.

- Pretendo começar pelos livros.

Puxei a bolsa pesada de galeões do bolso, e Crawford ergueu levemente as sobrancelhas.

- Não precisa utilizar suas reservas. O Ministério tem fundos guardados para menores de idade na mesma situação que você.

Suspirei e sorri, aliviada. Tinha medo de gastar tudo o que tinha comprando livros, e não ter como me sustentar mais tarde.

- Vamos logo, temos que nos apressar - ele disse, com o mesmo tom tedioso que usava em todas as suas falas.

E assim seguimos para a livraria.

Após um pouco mais de meia hora, todos os livros listados haviam sido comprados, e jaziam guardados dentro da mala cada vez mais estufada. Eu já bocejava: a companhia de Crawford não era das mais divertidas, por assim dizer, e a tarefa de fazer compras – coisa que eu já não apreciava fazer – tornara-se algo especialmente maçante. Até mesmo Pixie parecia aborrecida.

De qualquer modo, nos dirigíamos agora à loja Madame Malkin – Roupas para Todas as Ocasiões, visto que eu já possuía os outros materiais de anos anteriores, como a varinha e o caldeirão, por exemplo. A loja de Madame Malkin, uma senhora simpática e gorducha, tinha quase todo o seu interior ocupado por cabides e mais cabides de robes e vestes bruxas.

- Acho que não terei muita utilidade por aqui – meu auror observou. – Enquanto você escolhe o que levará, esperarei lá fora, certo?

- Sem problemas – eu disse, aérea, já tocando e estudando alguns tecidos com as mãos.

Mal Crawford bateu a porta do estabelecimento, levando minha mala e a gaiola de Pixie, Madame Malkin apareceu ao meu lado, medindo-me e se prontificando a trazer algumas peças de roupa. Ela subiu por uma escadinha localizada nos fundos e aguardei em silêncio.

Passados um ou dois minutos, a porta da loja abriu novamente, fazendo um sininho tocar. Curiosa, estranhando o auror ter voltado em tão pouco tempo, virei-me para a porta. Então, todos os meus músculos enrijeceram e eu fiquei paralisada, incapaz de me mover, ao constatar que não era Crawford quem entrara na loja, mas sim, Walburga Black.

- Walburga...? – exclamei, desconcertada. Então pigarreei, na tentativa de me recompor. – Sra. Black, o que faz aqui?

- Ah, Julia Hunter – ela disse, os olhos e a voz frios como gelo. – Vim fazer compras, não é óbvio?

- Eu... Ah... Certo – embolei-me, constrangida.

- Onde está Madame Malkin? – ela perguntou, em um tom de voz assustador.

- Subiu para buscar algumas roupas.

Walburga assentiu e caminhou elegantemente até o balcão, apoiando-se nele. Afofou o cabelo grisalho enquanto me encarava dos pés à cabeça, observando minhas roupas trouxas com atenção. Engoli à seco. Pelas barbas de Merlin, pensei, por que Madame Malkin estava demorando tanto?

- Percebo que sua decisão de fugir é definitiva – ela constatou.

- Sim, senhora - minha voz quase não saiu. Sentia-me minimizada, despreparada para ter aquela conversa tão cedo, principalmente com aquela mulher.

- Creio que tenha consciência do quão perturbado meu filho ficou após sua partida – ela prosseguiu, a voz cada vez mais cortante. Senti que meu coração congelou a tal ponto que se partiu em vários pedaços. – Nós todos tínhamos esperanças de que você era uma garota certa e respeitável. Sua família também ficou arrasada, todo o mundo mágico está falando de você e do desastre do casamento. Espero que pelo menos tenha a decência de sentir-se constrangida pelo o que causou.

- Não sinto-me constrangida e não vejo por que fazê-lo. Fiz o que era o certo.

- Menina insolente. Não fique achando que é uma benfeitora, quando tudo o que fez não passou de pura irresponsabilidade. Sabe muito bem que o certo seria casar-se com Regulus e dar continuação à pureza de nossas famílias. Eu achava que era uma garota com os ideais corretos, mas agora vejo que é igual ao meu outro filho.

- Tomo isso como um elogio – rebati orgulhosamente. Tremia, tomada por uma fúria terrível.

- Não vejo por quê. Sirius é um tolo. Mas, sim, noto que vocês dois são iguais. Provavelmente se unirão em Hogwarts e formarão um time de traidores de sangue.

- Cale a boca! – Vermelha de cólera, finalmente me descontrolei. – A senhora ouve o que fala? Sirius é seu filho! Você, Walburga, não sabe de nada! É uma aristocrata ignorante e repulsiva e vai morrer assim! Eu tenho nojo de todos vocês!

Meu peito subia e descia, em decorrência da respiração dificultada. Walburga Black me olhava com uma expressão cômica, os olhos esbugalhados, a boca entreaberta e a face corada. Sem cortar o contato visual, continuamos a nos encarar, numa briga silenciosa.

- Julia, querida, eu encontrei algumas peças que acho que vai gostar e... – Madame Malkin vinha descendo a escada, carregando uma pilha imensa de roupas que mal a permitia enxergar. – Oh! Sra. Black, não ouvi o sino tocar, a senhora... – a dona da loja enfim pareceu perceber a tensão no ambiente e fitou as duas, intrigada. – Está tudo certo por aqui?

- Claro que sim – Black recompôs-se primeiro, colocando o cabelo em ordem e alisando as vestes. – Vejo que está com uma cliente, Malkin. Voltarei mais tarde.

E tratou de sair rapidamente, batendo a porta atrás de si. Madame Malkin, um pouco hesitante e com um olhar aquisitivo, entregou-me a pilha de roupas, e segui direto para o trocador.

Após experimentar robes de aula, pijamas e roupas de gala, selecionei os que serviram melhor e paguei com um punhado de galeões. Depois, deixei a loja em passos longos e a cabeça abaixada.

- Pronta? – perguntou Crawford, do lado de fora, ao me ver saindo.

- Sim – disse simplesmente, com medo de não conseguir conter mais as lágrimas de rancor que haviam se formado no canto dos olhos.

- Então vamos para Hogwarts – ele disse, sem entusiasmo algum.

Me concedi sorrir. Em poucas horas, sentia, estaria em meu verdadeiro lugar.


A jornada até Hogwarts foi longa.

O grande expresso vermelho - sinistramente vazio - soltava fumaça e apitava. A locomotiva havia deixado a estação de King's Cross quando o sol brilhava forte; agora, após tantas horas de viagem, o sol já se punha, o céu começava a escurecer e a luminosidade era de um curioso tom avermelhado. Tudo o que se via pela janela de minha cabine era pasto, com algumas montanhas esverdeadas ocupando o horizonte.

Imaginando que chegaríamos em questão de poucos minutos, procurei um uniforme dentro da mala e - constatando que a cortina cobria a janela da porta - troquei as vestes trouxas por robes escolares. Como eu ainda não havia sido selecionada para nenhuma casa, a gravata permanecia solidamente preta, e o distintivo bordado sobre o peito ilustrava o brasão de Hogwarts, no lugar do brasão de minha respectiva casa.

Depois que fechei a mala e me sentei para calçar os sapatos negros do uniforme, constatei que minhas pernas estavam dormentes, minhas costas doloridas e minha cabeça latejava. Além disso, minha barriga roncava. Os bancos eram envolvidos em couro e bem-cuidados, mas ainda assim, duros. Comida havia sido servida, é claro, durante o período em que eu passei ali, mas alguns bolinhos e chocolates não foram suficientes para encher minha barriga - principalmente porque eu não comera praticamente nada o dia inteiro.

A jornada até Hogwarts foi, além de longa, desagradável.

Especialmente quando seu companheiro de viagem é um velho apático e monótono que passa cada minuto do trajeto dormindo profundamente na cabine ao lado.

Especialmente quando se está acostumado com as carruagens voadoras que levavam os alunos à Beauxbatons, com seus confortáveis bancos forrados com espuma e detalhes em ouro.

De qualquer modo, eu ainda achava o expresso mais agradável do que toda aquela frescura promovida por Beauxbatons.

Continuei observando a paisagem homogênea por alguns minutos, até que ouvi alguém bater na porta da cabine.

- Está aberta - eu disse.

A porta foi aberta e Austin Crawford, meu querido companheiro auror, apareceu sob o batente.

- Vamos chegar em questão de minutos, senhorita. É bom ir se preparando.

Assenti e ele deixou a cabine novamente. Voltei a olhar para a janela e levei um susto.

De repente, a imagem de Hogwarts surgiu em meio à todo aquele matagal e estrada de ferro. O castelo, em toda a sua exuberância, era sensacional. Eu havia imaginado que seria algo no estilo de Beauxbatons, mas Hogwarts era vezes melhor que minha antiga escola.

Não, pois aquilo não era um palácio digno de filmes fúteis de princesa, aquilo era um castelo de verdade. A arquitetura, como pude observar, era obviamente gótica. Praticamente uma fortaleza, Hogwarts possuía diversas torres, janelas enormes, detalhes magníficos e exalava imperiosidade. Observando-o, meu queixo caiu. E a partir daquele momento eu tive certeza absoluta que gostaria dali.

Depois que a visão de Hogwarts foi concebida, o trem foi reduzindo mais e mais sua velocidade, até parar, por fim, com um tranco, fazendo fumaça subir pelos seus lados. Saí do trem junto de Crawford, e desembarcamos na plataforma de Hogsmeade, uma vilarejo bruxo localizado próximo da escola, onde uma carruagem já nos esperava.

- A partir daqui você vai sozinha - Crawford disse. Já não era sem tempo. - A carruagem vai te levar até Hogwarts. Lá, alguém estará lhe esperando.

- Certo. Então tchau.

Sem nem esperar ele retribuir o adeus, pulei para dentro da carruagem com a mala em uma mão e a gaiola de Pixie na outra, e o veículo começou a se mover no mesmo instante. Nem pensei em olhar para trás.

A carruagem, que aparentemente não precisava ser puxada por nenhum cavalo, deslocou-se por uma estradinha de terra; chacoalhou-se por alguns minutos até parar, de súbito, em frente a um portão de ferro, ladeado por estátuas de javalis alados. Em frente ao portão, uma mulher de meia idade aguardava.

Saltei do carro, trazendo a bagagem junto, e dei os poucos passos necessários para chegar até a mulher.

- Olá, sou Julia Hunter - falei.

- Prazer, srta. Hunter - a mulher disse, num tom de voz grave. Algo nela me fazia querer respeitá-la. - Sou Minerva McGonagoll, vice-diretora e professora de Hogwarts.

- É um prazer.

- Espero que tenha feito boa viagem. Agora entre logo, para que possamos selecioná-la para sua casa à tempo de não perder o jantar.

Ela fez um floreio com a varinha e os altos portões de ferro se abriram para fora. Hogwarts se posicionava bem à frente, num caminho reto que cortava o jardim. O castelo pareceu maior a cada passo que eu dava; a enorme mala fez um estrondo à medida que era arrastada e Pixie permaneceu calada, como se admirasse a construção, por todo o percurso que caminhei atrás de McGonagoll.

Meu coração palpitava e eu respirava rápido, em ansiedade. Lily, Regulus... Todos estariam lá dentro e eu os encontraria cedo ou tarde. Imaginei, nervosa, como a escola me receberia - bem, mal, com desconfiança? Estremeci, assustada com a proporção da situação. Nunca fui confiante em relação à pessoas.

Seja fria, repeti mentalmente, faça com que ninguém queira te prejudicar e não se abra para ninguém. Seja fria.

Fria... A lembrança do frio que senti na caverna, uma noite antes, quase me fez parar de andar. Não queria nunca mais sentir tanto frio, me sentir tão sozinha... Mas também não queria ser magoada e tratada mal como acontecera quando abrira espaço para isso, com minha família. E, portanto, teria de ser fria. Tão fria quanto Walburga Black, se possível, mas não má ou cruel.

Continuei repetindo isso para mim mesma, até que McGonagoll finalmente parou e abriu os portões majestosos do castelo, permitindo que eu entrasse em Hogwarts pela primeira vez.

Hesitei antes de dar o primeiro passo para a mais nova etapa da minha vida.

Seja fria.